3. CONSTATS ET ANALYSES : REGARD A 20 ANS EN ARRIERE
3.1 Quelle durabilité pour les infrastructures pastorales ?
3.1.2 Modes de gestion et durée de vie des ouvrages
Para avançarmos em nossa discussão, devemos perguntar: em que consiste esta reflexão pura capaz de converter uma liberdade alienada em autêntica? Para Sartre (SN, p. 212), a reflexão, de forma geral, consiste em uma tentativa do Para-si para recuperar o seu ser, uma tentativa de dar a si mesmo o seu próprio fundamento. Pela reflexão, o Para-si, que é alienado de seu próprio fundamento, busca interiorizar o seu ser e objetificá-lo. Assim, para Sartre, o motivo da reflexão seria essa dupla tentativa de interiorização e objetificação do ser do Para-si: existir para si mesmo como unidade absoluta da interiorização de seu ser, eis o objetivo da reflexão. Convém ressaltar que a distinção entre a reflexão impura e pura se mantém em O ser e o nada (2005 [1943]), como também em A transcendência do Ego (2013 [1937]), no Esboço para uma teoria das emoções (2007 [1939]) e nos Cahiers pour une
morale (1983). Isso evidencia uma preocupação latente no pensamento de Sartre sobre a
possibilidade de uma conversão da liberdade inautêntica que não reconhece a si mesma e perde-se nas atitudes de má-fé, para uma liberdade autêntica. Por conseguinte, podemos afirmar que há em Sartre um interesse para com as implicações práticas advindas da distinção entre a reflexão pura e a impura, pois esta distinção, como afirma, alcança resultados que estão para além de suas pretensões ontológicas.
É preciso distinguir aqui a reflexão pura da reflexão impura ou constituinte: porque é a reflexão impura que constitui a sucessão dos fatos psíquicos, ou psiquê. E o que se dá primeiramente na vida cotidiana é a reflexão impura ou constituinte, embora inclua a reflexão pura como sua estrutura original. Mas esta só pode ser alcançada como resultado de uma modificação que opera sobre si em forma de catarse. Não cabe aqui descrever a motivação e a estrutura desta catarse. O que importa é a descrição da reflexão impura na medida que é constituição e revelação da temporalidade psíquica. (SN, p. 218-219)
Sartre compreende a reflexão impura como a captação da própria consciência motivada pelo objeto, ou seja, em seu modo fundamental de relacionar-se ao objeto intencionalmente: “[...] reflexão cúmplice que percebe, certamente, a consciência como consciência, mas enquanto motivada pelo objeto [...]” (ETE, p. 91). Nisso residiria a sua impureza, porém a espontaneidade pura da consciência não pode ser captada por si mesma. Como observa Gerd Bornheim (2000, p. 69-71), a espontaneidade indica a impossibilidade do Para-si de coincidir com seu próprio ser e a necessidade de dispersar-se nas três dimensões
temporais, e, portanto, uma impossibilidade de ser seu próprio fundamento. Assim, a espontaneidade é compreendida como uma perpétua recusa de si própria, uma evasão de si que caracteriza a razão de ser dessa espontaneidade. Portanto, a espontaneidade nos revela que o Para-si jamais adquire a estabilidade de seu ser, pois este jamais é estático: o seu ser na temporalidade é recusa de fixidez no tempo57. Nas palavras de Sartre:
[...] nos parece que uma espontaneidade que não se evadisse de si mesma nem se evadisse desta própria evasão, uma espontaneidade da qual se pudesse dizer "é isto" e se deixasse encerrar em uma denominação imutável, seria precisamente uma contradição e equivaleria finalmente a uma essência particular afirmativa, eterno sujeito que jamais é predicado. (SN, p. 206)
A temporalidade aparece de dois modos em O ser e o nada (2005, p. 208-ss): uma original que é a temporalização do Para-si e uma temporalidade psíquica que se estabelece como derivada da original e que se constitui a partir de uma variedade de vivências intersubjetivas. Contudo, essa temporalidade psíquica não é capaz de constituir a si mesma, pois se trata de uma sucessão de fatos psíquicos. Dessa forma, o único modo de constitui-la será por um ato da reflexão, que, no caso da sucessão dos fatos psíquicos, cabe à reflexão impura.
Se o Para-si é um ser faltado, deve então ser o seu próprio ser e a reflexão, nesse sentido, “[...] é um tipo de ser no qual o Para-si é para ser a si mesmo o que é. A reflexão, portanto, não é um surgimento na pura indiferença do ser, mas produz-se na perspectiva de um para” (SN, p. 219). Este para é compreendido como o fundamento do ser do Para-si que busca recuperar a si mesmo por um ato de nadificação do refletido, e nisto reside a motivação da reflexão impura: a objetivação e interiorização da vida psíquica para “[...] captar o refletido como Em-si para fazer-se ser este Em-si captado” (SN, p. 219). Assim, como em A
transcendência do Ego (2013 [1937]), em que Sartre distingue dois modos de consciência: a
espontaneidade original e a intencionalidade em sua pureza de atos, a reflexão se apresenta também sob duas formas. A reflexão busca objetivar a consciência interiorizando os seus atos ao constituir a temporalidade psíquica, porém, em sua forma impura “[...] a reflexão faz aparecer um Em-si susceptível de ser determinado, qualificado, por detrás do refletido” (SN, p. 219). Assim, no momento em que há a objetivação do reflexionado, se desfaz o para do Para-si, e, por conseguinte, se desfaz a unidade do par reflexionante-reflexionado da qual depende o sentido e a especificidade da reflexão.
Desse modo, a reflexão impura, ao constituir a vida psíquica ao modo como o sujeito quer ver a si mesmo, se faz de má-fé, pois procura determinar o ser do Para-si ao modo de um Em-si para que possa evadir-se de sua liberdade, a qual é um nada diante da consistência plena do ser. “Em suma, a reflexão é de má-fé na medida que constitui-se como revelação do
objeto que sou para mim. [...] A reflexão impura é um esforço abortado do Para-si para ser outro permanecendo si mesmo” (SN, p. 220). Sartre se refere aqui, ao modo como, através da
reflexão impura, o Para-si tenta captar a si mesmo como um Em-si nas tentativas de atribuição de determinações ao seu próprio ser. Um esforço em vão que poderá ser desfeito pela reflexão purificante, a qual dissipa a falsa objetividade atribuída a si mesmo, quando reflete de maneira impura sobre o modo de ser da consciência no mundo. Portanto, a reflexão purificante restitui o modo de ser autêntico do Para-si enquanto pura espontaneidade de atos livres que constituem o sentido do mundo e de seus objetos:
Mas a reflexão que nos entrega o refletido, não como algo dado, mas como o ser que temos-de-ser [...] A reflexão é mais reconhecimento do que conhecimento. Pressupõe uma compreensão pré-reflexiva do que almeja recuperar, como motivação original da recuperação. [...] Ora, se examinamos acuradamente, a reflexão é o Para-si que tenta recuperar-se como totalidade, em perpétuo inacabamento. (SN, p. 214-215)
Podemos, então, afirmar que a reflexão impura cria um modo de ser inexistente ao conferir aos atos da vida psíquica uma realidade determinante dos atos de consciência. Trata- se de um mundo de objetos colocado como situação real do Para-si, porém a existência desse mundo é puramente virtual. Disso, resulta aquilo que Sartre já havia problematizado em A
transcendência do Ego (2013 [1937]): a subsistência de um Eu na corrente da vida psíquica
equivale a uma objetificação da temporalidade original na forma de um Em-si. Ao conferir ao Ego, caracterizado por Sartre como transcendente, a qualidade de um objeto que pertence à consciência, introduz-se, pela reflexão, um objeto que lhe confere a interioridade da vida psíquica. Ao mesmo tempo, o Ego aparece objetificado pela reflexão que lhe confere um poder de causação dos diferentes atos de consciência. E, nesse sentido, a reflexão impura equivale à uma reflexão de má-fé na qual o Para-si visa a dissimular a espontaneidade pura de seus atos e a negação de sua ausência de ser, negando, por conseguinte, a sua própria liberdade.
Apesar de, como vimos anteriormente em A transcendência do Ego (2013 [1937]), os problemas da reflexão impura e purificante pertencerem ao terreno da moral, não encontramos na ontologia fenomenológica de Sartre nenhum argumento explícito sobre o seu valor para a
conversão da liberdade em autêntica, e, muito menos, um juízo sobre qual modo de ser da liberdade seria o mais valioso, permanecendo a liberdade em suas diferentes formas de manifestação, eticamente neutra. Por outro lado, podemos afirmar que os resultados apresentados em A transcendência do Ego (2013 [1937]) e em O ser e o nada (2005 [1943]) servem de indicativos teóricos de que uma descrição da vida moral deverá partir desses aspectos mencionados. Não se trata de negar completamente o aspecto moral das afirmações de Sartre, mas somente tomá-las como um indicativo de sua pretensão de continuidade e aplicação dessas teorias na esfera ética. Se, nessas obras, carece o sentido moral da conversão reflexiva, podemos afirmar que o mesmo pode ser evidenciado nos Cahiers pour une morale (1983), a qual problematiza a espontaneidade da consciência e o autêntico modo de ser do Para-si, como possibilidade efetiva de superação da má-fé e de toda a variedade de alienações, além de uma relação autêntica com o outro em que o conflito das liberdades é suspenso para o estabelecimento de uma resposta generosa ao apelo do outros homens.