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3. CONSTATS ET ANALYSES : REGARD A 20 ANS EN ARRIERE

3.6 Quelle influence sur les politiques (nationales et régionales) ?

Se em O ser e o nada (2005 [1943]) Sartre descreve o outro como um Para-si revelado, nos Cahiers pour une moral (1983, p. 514) sua descrição parte do existente como já revelado. Além disso, apresenta os limites de sua proposta: não demonstrar como se organiza a criação do mundo pela generosidade e nem o modo como esta se dá aos outros. A ênfase de suas descrições se debruçará principalmente sobre aquilo que lhe faltava na obra de 1943, ou seja, a revelação da liberdade do outro e a possibilidade de uma relação autêntica para com este. Por outro lado, falta a Sartre uma descrição mais apurada da possibilidade de uma superação do conflito intersubjetivo e das relações autênticas com o outro. Pois, do ponto de vista da moralidade, o que interessa são as relações concretas que o homem estabelece com os demais, de modo que se possa compreender a realização autêntica da liberdade alheia sem que seja necessário o abandono dos próprios fins.

No inferno das paixões (descrito em S.N.) esta revelação do outro é concebida como puro ultrapassamento. E o outro é, com efeito, apreendido como transcendência transcendida, como corpo frágil no universo é de imediato desarmado: eu ultrapasso seus fins pelos meus, então eles não são mais do que dados, eu transformo sua liberdade em qualidade dada, eu posso lhe fazer violência. Nós veremos adiante como tudo isso pode se transformar pela conversão. (CPM, p. 514, tradução nossa)78

Mesmo no inferno das paixões descrito em O Ser e o Nada (2005 [1943]), Sartre afirma que há também generosidade e criação, as quais poderiam ser reveladas pela conversão. Isso seria possível pois, ao surgir no mundo, o Para-si dá aos outros a compreensão que o ser existe em meio ao mundo ultrapassado e na condição de sua contingência. Por conseguinte, revela que o próprio ser do existente é também ultrapassado, e, dessa forma, o outro revela a existência do Para-si no ser enquanto objeto. Pelo outro é revelado que a existência do Para-si se dá na dimensão do ser tanto como liberdade como ser- objeto, ao tematizar a contingência sempre ultrapassada que caracteriza a sua existência. Assim, há um enriquecimento tanto do mundo quanto do sujeito, uma vez que é o outro que lhe confere o sentido de sua subjetividade para além daquele que o sujeito confere a si mesmo. Segundo Sartre:

[...] ele evidencia o patético da condição humana, o patético que eu mesmo não posso apreender, pois eu sou perpetuamente a negação pela ação deste patético. Dito de outra forma, o outro faz com que haja um em-meio-ao-mundo do ser-no-mundo. (CPM, p. 515, tradução nossa)79

Isso significa que, o outro, ao conferir esse sentido que a subjetividade não é capaz de dar a si mesma, demonstra que o próprio sujeito não se constitui isoladamente em seu mundo “particular”, mas que o sentido de sua subjetividade se constitui em meio a um mundo compartilhado intersubjetivamente. Além disso, é a presença da alteridade que revela, além da liberdade do Para-si, a sua condição de fragilidade em meio aos objetos. Aqui, podemos afirmar que Sartre estabelece uma ponte entre as descrições de uma liberdade demasiadamente autônoma e solitária, descrita em O ser e o nada (2005 [1943]), e a possibilidade da generosidade apresentada nos Cahiers por une morale (1983). Desse modo,

78 “Dans l'Enfer des passions (décrit in E.N.) cette révélation de l'autre est conçue comme pur dépassement. Et

l'autre en effet saisi comme transcendance transcendée, comme corps fragile dans l'univers est aussitôt désarmé: je dépasse ses fins par les miennes, donc elles ne sont plus que des données, je transforme sa liberté en qualité donnée, je peux lui faire violence. Nous verrons plus loin comment tout ceci peut se transformer par la conver- sion.” (CPM, p. 514)

79 “[...] il met au jour le pathétique de la condition humaine, pathétique que je ne puis saisir moi-même, puisque

je suis perpétuellement la négation par l'action de ce pathétique. Autrement dit l'autre fait qu'il y a' un au-milieu- du-monde de l'être-dans-le-monde.” (CPM, p. 515)

Sartre não necessitaria abandonar totalmente as descrições da obra de 1943 e pode utilizá-las como fundamento para apresentar o modo de ser da autenticidade nas relações intersubjetivas.

[...] na autenticidade eu escolho desvelar o Outro. Eu também irei criar os homens no mundo. Tentaremos compreender melhor o que isso significa. Notemos inicialmente que isso não pode ser (embora falaremos disso adiante) senão a base do reconhecimento do Outro como liberdade absoluta. Mas como podemos desvelar o Outro como liberdade? (CPM, p. 515, tradução nossa)80

O questionamento de Sartre nos mostra o reconhecimento de que em sua ontologia fenomenológica não havia espaço para um reconhecimento do outro como liberdade absoluta. Aqui, a elaboração de um novo tipo de reconhecimento do outro demonstra a possibilidade de não apenas desvelá-lo em sua condição de existente livre, mas pela via da conversão, também querer a sua liberdade. Sobre isso, podemos afirmar que, em Sartre, a preocupação ética na relação com o outro, apresenta-se como uma novidade em relação a sua teoria anterior, demonstrando o caráter de uma continuidade e um avanço sobre as descrições anteriores. Além disso, podemos afirmar que esse novo modo de desvelar o outro não nos parece incoerente com a teoria de O ser e o nada (2005 [1943]), pois, como vimos, é a partir do reconhecimento das liberdades em conflito que se pode, por meio de uma conversão, alcançar a revelação dessa mesma liberdade e contingência absolutas, como condições compartilhadas entre sujeitos em meio a um mesmo mundo.

A apreensão do outro enquanto liberdade absoluta se dá pela captação dos fins de sua ação no mundo concreto, pois a liberdade não se revela a si mesma. A liberdade se realiza de maneira concreta e pelos fins projetados por ela, e sendo assim, a apreensão da liberdade do outro ocorrerá pela compreensão de seus fins. Para Sartre, não se trata de uma simples apreensão dos fins do outro por meio de uma liberdade que os transcende a partir de si mesma, pois nesse caso, os seus fins são captados como coisas. Trata-se de reconhecer os fins do outro como absolutos, como exigência e apelo que se apresentam diante de outra liberdade, e por isso mesmo, requerem sua aprovação ou reprovação, pois são dirigidos a uma outra liberdade. Em suma, há a captação do outro como liberdade em vias de realizar-se ao captarmos os fins de sua ação em meio ao mundo. Assim, a liberdade do outro, apreendida a partir dos fins projetados de maneira concreta em meio ao mundo, leva-nos à revelação e à

80 “[...] dans l'authenticité je choisis de dévoiler l'Autre. Je vais aussi créer les hommes dans le monde. Tentons

de bien saisir ce que cela signifie. Notons d'abord que ceci ne peut être (quoique nous parlions de celle-ci après) que sur le fonndement de la reconnaissance de l'Autre comme liberté absolue. Mais comment peut-on dévoiler l'Autre comme liberté?” (CPM, p. 515)

aceitação da sua fragilidade, contingência e finitude. "[...] eu descubro, de súbito, a total contingência, a absoluta fragilidade, a finitude e a mortalidade daquele que propõe esse fim. Eu revelo, de repente, o ser-no-meio do mundo de alguém que por sua liberdade excedeu o mundo e exigiu que eu o transcendesse" (CPM, 516, tradução nossa)81. O reconhecimento e aceitação desses aspectos da existência, segundo Sartre, levam-nos à compreensão do que significa amar no sentido da autenticidade:

[...] eu amo se criei a finitude contingente do Outro como ser-no-meio-do-mundo assumindo minha própria finitude subjetiva e desejando essa finitude subjetiva, e se pelo mesmo movimento que me faz assumir minha finitude-sujeito, eu assumo a finitude-objeto como condição necessária do livre fim que ela projeta e que se apresenta a mim como fim incondicional. (CPM, p. 516-517, tradução nossa)82

Esta vulnerabilidade e finitude pela qual identificamos o outro é o corpo revelado em meio ao mundo. Isso se dá, pois, ao viver a liberdade em seu aspecto inautêntico, o homem ignora a própria destrutibilidade de seu corpo. O outro assim revela a condição esquecida da destrutibilidade de nosso corpo em meio ao mundo, uma revelação complementar que exige reconhecimento mútuo de nossa liberdade e fragilidade em meio ao mundo: “Sou eu, então, que desvelo-crio a fragilidade do outro” (CPM, p. 519, tradução nossa)83. Desse reconhecimento mútuo, poderíamos inferir a possibilidade de modificação da relação ao corpo do outro, descrito em O ser e o Nada (2005 [1943]), como objeto disponível em meio ao mundo, para uma relação de generosidade em que se revela a fragilidade desse corpo:

Mas o corpo do Outro é amável enquanto ele é a liberdade na dimensão do Ser. E amar significa aqui algo totalmente diverso do desejo de se apropriar. É primeiramente desvelamento criador: aqui também, na pura generosidade, me assumo como perdendo-me para que a fragilidade e a finitude do Outro existam absolutamente como reveladas no mundo. (CPM, p. 523, tradução nossa)84

81“[...] je découvre tout à coup la totale contingence, l'absolue fragilité, la finitude et la mortalité de celui qui se

propose ce but. Je dévoile tout à coup l'être-au-milieu-du-monde de celui qui par sa liberte dépassait le monde et exigeait que je le dépasse.” (CPM, p. 516)

82 “[...] j'aime si je crée la finitude contingente de l'Autre comme être-au-milieu-du-monde en assumant ma pro-

pre finitude subjective et en voulant cette finitude subjective, et si par le même mouvement qui me fait assumer ma finitude-sujet, j'assume as finitude-objet comme étant condition nécessaire du libre but qu'elle projette et qui se présente à moi comme fin inconditionnelle.” (CPM, p. 516-517)

83“C'est donc moi qui dévoile-crée la fragilité de l'autre.” (CPM, p. 519)

84 “Mais le corps de l'Autre est aimable en tant qu'il est la liberté dans la dimension de l'Etre. Et aimer signifie ici

tout autre chose que désir d'approprier. C'est d'abord dévoilement créateur: ici aussi, dans la pure générosité, je m'assume comme me perdant pour que la fragilité et la finitude de l'Autre existent absolument comme révéléès dans le monde.” (CPM, p. 523)

Desse modo, as descrições contidas nos Cahiers pour une morale (1983) nos conduzem a uma reavaliação das relações intersubjetivas, descritas em O ser e o nada (2005 [1943]) como essencialmente conflituosas. O principal resultado disso, pode ser evidenciado pelo modo como Sartre trata a relação com o outro a partir do reconhecimento mútuo de duas liberdades em meio a um mundo compartilhado em que os homens se reconhecem na mais absoluta contingência, fragilidade e finitude. Trata-se de uma relação fundada no apelo e na generosidade entre os homens que torna possível uma ética da autenticidade, pois se trata de revelar o mundo e a si mesmo ao outro na mais absoluta gratuidade.