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Chapitre 1 : Etude Bibliographique

4. Usure des outils en usinage

4.2. Modes d’usure

Uma roda a rir/ roda sem meditar/ recebe a sentinela/ das fontes incendiárias RAYMOND TCHANG

Parece que devo ir à China em 1931 e cor- rer aí grandes perigos durante vinte anos – es- crevia André Breton em 1925 na Carta às videntes. Na verdade, foi em 1932 que Bre- ton fez esta viagem, que não demorou se- não alguns meses. Esse ano começou mal para ele. Em Março a ruptura com Aragon, embora previsível, afectou-o duramente. As relações com o Partido Comunista complicaram-se ainda mais. No plano

amoroso, a relação com Valentina Hugo não o satisfazia visivelmente. A actividade do grupo era muitas vezes uma decepção – os amigos ausentes e o jogo dos papelinhos, o cadáver esquisito, já não entusi- asmava ninguém. Assim, deixar tudo e meter-se à estrada. Em Agosto, numa estadia em Cadaquès, em casa de Dalí, Breton estava exausto. O relojoeiro dos relógios moles estava ainda num estado pior: a sua pintura não se vendia e Gala, farta da miséria em que tinha de viver, acabava de o deixar, tro- cando-o ao que parece por Paul Léautaud.

Foi então que Breton se lembrou da insistente proposta duma viagem à China que um jovem chinês recentemente chegado ao grupo, Raymond Tchang, lhe fizera. Por que não?! Iria então ao encontro desse Oriente que continuava a fascinar os surrealistas. E no seu íntimo alegrou-se ao pensar que nesse Verão não seria obrigado a ir a Lorient, esse sinistro porto do Atlântico para onde se haviam retirado os seus pais! Não acabava ele de descobrir, e era um sinal, que Hervey de Saint-Denys de que ele admirava o livro Os sonhos e os meios de os dirigir era também o tradutor de poesias chinesas da época Tang? Breton teve alguma dificuldade em encontrar esta antologia mas foi uma verdadeira re- velação descobrir Li Po, Wang Wei e outros longínquos poetas, nos quais pressentia estranhas cor- respondências com o surrealismo e que lhe pareciam ainda mais enigmáticos que o olhar das conchas das suas queridas máscaras papuas.

Um telegrama foi então enviado a Raymond Tchang que poucos dias depois em Marselha reencon- trou Breton, que estava acompanhado, ó surpresa, por Salvador Dalí. Embarcaram os três a bordo dum paquete dos Transportes Marítimos, A Aurélia, e após três semanas de mar desembarcaram em Xangai.

Podemos percorrer os melhores livros dedicados à aventura surrealista que não encontraremos uma linha sobre Raymond Tchang, a não ser que ele publicou dois poemas em 1934 no número espe- cial consagrado ao surrealismo da revista belga Documents. O seu verdadeiro nome era Tchang Jin- Fu; escolheu como nome próprio Raymond pela admiração que votava a Raymond Roussell, do qual planeava fazer representar no seu país a peça Poeiras de Sol. É aceitável pensar que foi ele que em 1931 incitou os surrealistas e alguns outros intelectuais a assinarem uma carta aberta ao embaixador da China denunciando a repressão anti-comunista do Kuomitang. A lembrança desse texto publicado pelo jornal L’Humanité não deixava de inquietar Breton no momento em que estendia o seu passaporte à polícia chinesa na fronteira. Vã preocupação! Já nesse momento alguns amigos de Tchang iam ao

André Breton na fronteira Sino-Tibetana, fotografia de Raymond Tchang

seu encontro. Apresentações feitas, Breton tinha diante de si Lu Xun, Ba Jin e Lao She. Estavam acompanhados por uma rapariga, que fazia de intérprete. Chamava-se Li Xiao-Tu e não tardaria a ser a nova amante de Dalí.

Ficaram alguns dias em Xangai, preferindo a velha cidade chinesa ao bastião europeu. Os viajantes puderam então explicar com demora o surrealismo aos seus anfitriões. Palestras e debates animados tiveram lugar e atraíram jovens intelectuais da cidade, que chegaram mesmo a encarar a criação dum grupo local consagrado ao surrealismo. Encontros muito mais discretos tiveram também lugar com militantes comunistas, então na clandestinidade. Mais tarde, no momento em que visitavam a cidade de Guang Zhou, falharam mesmo por pouco um encontro com Mao Tse Tung; o encontro, que devia ter lugar nas traseiras dum salão de fumadores de ópio, O Lótus Azul, foi à última hora anulado por razões de segurança. Mais ainda que em Paris, os surrealistas não deixavam porém de se inquietar ao constatar como as relações entre estes militantes comunistas, quanto à sua forma de pensar e de sentir, estava sujeita a um princípio de autoridade, que cada vez mais lhes parecia injustificável. Breton che- gou nesse momento a comprometer-se consigo mesmo a tirar todas as consequências teóricas e prá- ticas desta constatação. Por agora, no plano mais próximo da efusão poética, o que lhe importou foi descobrir na mesma cidade uma colecção de “pedras de sonho”. Julgou-se transportado para dentro duma pintura de Tanguy, enquanto Dalí se cria de regresso ao delírio geológico diante das rochas do Cabo Creus.

De seguida, tomaram a estrada de Sichuan, região natal de Tchang. Tinham diante de si todo o tempo do mundo para subirem a Pequim, já que Dalí queria em absoluto ver a Montanha de Carvão na Cidade Interdita. Todavia, este, ao chegar a Xeng Du, descobriu que na região vizinha de Yunan existia uma cidade com o mesmo nome que o seu. Não obstante o cansaço previsível duma nova via- gem, Dalí quis imperativamente ir conhecer esta cidade, na qual esperava ver rinocerontes em fogo, mulheres-girafas e muito mais – o bastante para alimentar a sua paranóia-crítica enquanto degustaria os melhores pimentos vermelhos do mundo. Como quer que seja, apenas Xiao-Tu o acompanhou; os outros dois não foram capazes de seguir este fervor nominalista. Breton chegou mesmo a assinalar ao pintor catalão que pelo seu lado nunca sentira o mínimo desejo de peregrinar ao Cabo Breton. Uma vez chegados à cidade de Dalí, o jovem casal não encontrou senão a felicidade de se encontrar a sós. Nada perturbou o seu idílio, a não ser o encontro diante dum armazém de máquinas de costura dum velho homem com bigodes monumentais, com as pontas curiosamente levantadas, e que se abrigava debaixo dum guarda-chuva de criança. O seu trabalho consistia em orientar dois outros homens a dispor da melhor maneira uma mesa de pingue-pongue numa rua por onde quase ninguém passava. Emocionado com tal cena de irracionalidade concreta, Dalí decidiu naquele momento deixar crescer os bigodes e tornar-se campeão de pingue-pongue. Entretanto, em Xeng Du o acaso fez com que Breton e Raymond Tchang encontrassem Alexandra David-Neel. Os surrealistas conheciam a sua in- trigante obra e uma franca simpatia se estabeleceu entre eles. Sem demora, ela começou a ensinar- lhes o que sabia do budismo e do taoísmo e debates apaixonados tiveram lugar logo entre eles sobre as afinidades entre estas filosofias orientais e o surrealismo. No centro de que vazio podia irromper o ponto sublime? Como o lótus, a flor azul do amor electivo não se alimentava da lama? Seguramente que sim – acrescentava maliciosamente Dalí por entre as risadas de Xiao-Tu – mas esta lama por sua vez não era já a anamorfose mole e deliciosamente comestível do nirvana? O casal regressara alguns dias mais cedo do que o previsto e Breton não podia deixar de se surpreender com a nova excentrici- dade do seu amigo, treinando todas as manhãs o ténis de mesa com os Zés Quitolas locais. Em con- junto foram aprofundar algumas destas questões nos ermitérios do Monte Emei. De repente, lá em cima, Alexandra David-Neel convidou-os a acompanhá-la na sua próxima expedição ao Tibete.

A caminho do País das Eternas Neves! Não obstante as dúvidas da intérprete, Dalí imaginava poder recolher preciosas instruções no lugar sobre certas práticas tântricas e assim remeteu para uma pró- xima viagem o seu desejo de conhecer os mistérios de Pequim. Depois de várias semanas dum rude itinerário feito em dorso de mula – era Inverno já – chegaram por fim a Lassa. Alexandra David-Neel conseguiu sem dificuldades que os seus novos amigos se avistassem com o Dalai-lama. Audiência a

bem dizer inenarrável: enquanto Dalí esboçava o retrato do Monge-Rei, este muito civicamente agra- decia a Breton a “Carta” que o grupo surrealista de Paris lhe enviara na Primavera de 1925 e descul- pava-se de ainda não ter respondido. Acrescentou que sabia muito bem que eles o iam visitar e que estava à espera que viesse a Potala em 1939 um certo Antonin Artaud…

Os dias seguintes foram férteis em descobertas mas também em algumas decepções. Breton insistiu em saber a localização da lendária Agartha mas não obteve qualquer resposta. Porém a aquisição de magníficos mandalas reconfortou-o. Dalí tentou iniciar-se no tantrismo mas parece que não avançou muito nesta via – embora isso pouco beliscasse Xiao-Tu, contente em brincar com o seu amante ao domínio dos sopros vitais. Entretanto Breton começou a sofrer com a altitude, Dalí com o frio, a sua amiga com a gastronomia local e Raymond Tchang tinha uma saudade louca de tomar um banho de mar. Deste modo, arrumaram a bagagem e nos primeiros dias da Primavera de 1933 já estavam de novo nos Cafés da Praça Blanche.

[17-12-2012]

Nota do tradutor: Este texto, impossível de classificar num género reconhecível, da autoria do poeta e pintor Guy Girard (nascido em 1959), jovem amigo de Mário Cesariny e um dos mais activos membros do actual grupo surrealista de Paris, responsável pela recolha das declarações, das tomadas de posição e dos panfletos do grupo entre 1970 e 2010, Insoumission poétique, este texto, dizíamos, foi publicado com “documentos fotográficos reunidos por Pierre-André Sauvageot” – retrato de Li Xiao-Tu por Dalí, fotografias de Breton e Dalí na China, desde Xangai até Lassa – em edição do autor numa plaquete artesanal (20 pp.), que teve apenas divulgação limitada. O autor fez preceder o relato da seguinte nota (“poderia ter havido outrora”): “Vivi, em Paris, durante muito tempo,

Dalí, Alexandra David-Neel e Breton no Tibete, fotografia de Raymond Tchang.

perto duma ponte debaixo da qual não corre o rio Sena mas a Rua dos Pirenéus. É a ponte Charles Renouvier, baptizada assim para homenagear a memória dum filósofo francês do século XIX que depois de ter sido um amigo de Jules Lequier, fundou o neo-criticismo, cujas teorias, com grande pena por certo das autoridades municipais, deixaram de ser objecto de debate entre as populações civis./ Pouco tempo depois da minha chegada à vizinhança desta edificação de arco único, foi-me dado ler uma obra deste autor para mim de todo desconhecido. Título enigmático: A Ucronia e conteúdo apaixonante. Trata-se, num dado momento histórico, de aceitar que os eventos que se sucederam foram apenas uma possibilidade entre muitas outras. Tudo poderia ter sido diferente, com relações de causa e efeito distintas, que, por várias razões, cuja soma não chega porém para afirmar uma Razão histórica, não se chegaram a realizar, a não ser para alguns sonhadores, antes de mais no domínio subjectivo das especulações e do imaginário. É preciso tentar compreender melhor a História separando no tecido da sua dura- ção a trama das virtualidades que procedem tanto das aventuras do desejo como da permanência deste ou daquele mito. O domínio da ucronia é propínquo do da utopia. Aí nos aventurarmos nada tem de inútil; é ao invés de grande utilidade para melhor compreendermos toda a inactualidade do presente e o que este contém dessa di- mensão que prepara o fluxo do devir e que Ernesto Bloch chamava o pré-acontecimento. Desse modo, no seu livro, Renouvier imaginava que um imperador romano tinha por hábeis decisões e criteriosas reformas bloqueado o cristianismo e o seu desenvolvimento, salvaguardando assim durante muitos séculos a civilização latina. Philip K. Dick, no seu livro O mestre do Castelo Alto, pinta os Estados Unidos ocupados pelos nazis e pelos japoneses, depois da segunda guerra mundial e a vitória nesta do nazi-fascismo. Diante dum quadro de tal modo sombrio, podemos preferir imaginar com Émile Pouget a vitória, na França dos anos de 1910, dos sindicalistas revolucio- nários estabelecendo o comunismo libertário… Atendendo não apenas às actividades de hoje em numerosos países de grupos organizados e de indivíduos reclamando-se do surrealismo, mas ainda ao poder mítico deste movimento emancipador, movimento inacabado e inacabável, imaginei começar eu outrossim a sobrepor ao que conhecemos da história deste movimento, bifurcações e errâncias possíveis em direcção a campos – também eles magnéticos – do irrealizado. Jogos com a memória, filha adoptiva da imaginação. Há datas de funcionamento simbólico. Alguém se recorda daquela em que André Breton regressou da China?” [A. Cândido Franco]

O pensamento poético de António Maria Lisboa

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