A memória do/para dizer: o sujeito-gay e os aplicativos de relacionamento em discurso
Desenho do artista Jean Julien
Fonte: https://www.jeanjullien.com/work-168-secret-7.html
O solo da paixão não dura mais que um dia antes de afundar, não mais que esta noite ou esta noite e um dia e o clarão da noite antes de amargar. Um dia solar eu vou lhe entregar: Que ela seqüestre o mundo por um dia (um dia só será que já vicia?) Depois devolva tudo: terra céu e mar. (Cicero, 1997, p. 45).
Neste capítulo, apresentaremos considerações acerca da memória sobre a homossexualidade e os aplicativos de relacionamento voltados para os sujeitos-gays. Consideramos relevante abordar como os sentidos são constituídos sócio-historicamente, o que permite pensar nos processos de circulação dos discursos nos espaços jornalísticos on-line acerca dos sujeitos-gays e dos aplicativos de relacionamento utilizados por eles.
Dividimos este capítulo em duas partes: i) com o foco na abordagem acerca da homossexualidade e do modo como o sujeito-gay tem sido identificado ao longo do tempo, observando, na atualidade, mudanças que compreendemos como atreladas ao seu espaço na sociedade de consumo. Não nos ocupamos com a mera historiografia de dados históricos. Nosso interesse é pensar as relações entre os discursos na formação da memória; e ii) no trabalho com uma apresentação acerca do que são os aplicativos de relacionamento voltados para os sujeitos-gays, interessados em produzir uma revisão bibliográfica acerca desse assunto no campo científico nacional e internacional.
3.1 A memória sobre o sujeito-gay: inscrições sócio-históricas
Compreendemos que a sexualidade não é um assunto restrito ao plano das discussões biológicas ou das questões privadas, pois interfere nas transformações históricas e sociais, por isso, também é uma questão da ordem do discurso. A sexualidade é uma construção discursiva e sócio-histórica, algo muito além de uma observação de meros estímulos biológicos ou capaz de ser estudada, em sua complexidade apenas por áreas do campo biológico ou da saúde. O termo sexualidade começa a ser usado no século XIX, compreendida como uma questão de interesse coletivo, do político e das estruturas governamentais (Foucault, 1984; Giddens, 1993).
A sexualidade é uma questão discursiva, com processos que envolvem aquilo que é ou não possível de ser falado, as práticas aceitas e os processos de censura e silenciamento que envolvem as relações dos sujeitos com esse campo. Dizer e não dizer relacionado aos diferentes contextos sócio-históricos, as variadas FDs às quais os sujeitos estão filiados ao/para dizer e as condições de produção possíveis em cada período.
O discurso é lugar de poder, marcado por diferenças nos processos de produção e relação com os interlocutores, em que o sujeito é afetado pela ideologia e vinculado a constituição e produção dos sentidos. Pêcheux (2014) marca que o discurso e a língua não permanecem indiferentes às questões das classes sociais, da história e da relação com o
ideológico, já que o indivíduo sempre é interpelado pela ideologia, não existe condição possível de termos o sujeito desatrelado dela. É uma união sem fim.
Em uma relação contínua com os processos de interpretação e produção dos sentidos, o discursivo se impõe como parte do modo com que o sujeito se relaciona com o mundo e isso inclui a compreensão sobre a sexualidade, como ela é e foi interpretada ao longo da história, inclusive, considerando as relações entre pessoas do mesmo sexo. No processo de explicar e nomear as relações entre os homens, são mobilizados sentidos e significações variadas, entre eles, a compreensão de que trata(va)-se de crime, doença, pecado ou, mais recentemente, um direito legítimo. Interpretações distintas atreladas a variadas FDs e momentos históricos que passa(ra)m pela conjuntura do discursivo e nos permitem refletir sobre o modo como essas relações foram significadas ao longo do tempo, processo que une a linguagem, o sócio- histórico, a ideologia e o político (Orlandi, 2004b).
As interpretações produzidas sobre os gays são possíveis pela relação com o já-lá, com a inscrição em sentidos disponíveis na relação com a memória do dizer e compreendidos como adequados ou inadequados em determinada FD. Ao interpretar que ser gay é pecado, são produzidos sentidos que inscrevem a compreensão de que é algo inadequado e não natural, posto não como sentidos produzidos pelo sujeito, mas como fato inquestionável, cabendo entender essa relação como lógica e óbvia. Nega-se que esse processo seja uma interpretação, já que é naturalizada essa forma de produzir sentidos em determinada FD, tomando como fato evidente essa compreensão de que se realiza uma constatação lógica, não uma interpretação, o que compreende o jogo no qual “o dizer é o próprio fato” (Orlandi, 2007, p. 20).
Não temos o sentido pronto, dado a priori, fixo, nem tampouco é qualquer um (Orlandi, 2004b). Por meio dos rastros deixados, no trabalho com os discursos que nos propomos a pensar os sujeitos-gays e os aplicativos de relacionamento por eles utilizados. Pensemos um pouco mais sobre a sexualidade e o modo como alguns sentidos foram mobilizados na abordagem das relações entre homens para estabelecermos nossas reflexões acerca dos sujeitos-gays.
Segundo Foucault (1984), o termo sexualidade aparece relacionado ao desenvolvimento de distintos campos do conhecimento, desde os que dizem respeito aos saberes sobre reprodução até aqueles que tratam dos comportamentos sociais, bem como o surgimento de uma série de normas ancoradas em pressupostos variados, desde religiosos até os da área médica. A sexualidade é identificada como constitutiva dos sujeitos nas sociedades modernas do Ocidente.
Desde o século XVIII temos pesquisas tomando o sexo como assunto central, produzindo investigações científicas variadas. Os primeiros pesquisadores começam a discutir a homossexualidade no século XIX, mas era um assunto considerado problemático, tanto, que era comum que pedissem desculpas por abordá-lo. São criados dispositivos para apurar, interrogar e ouvir questões relacionadas ao campo sexual. É por meio dos discursos que ocorre a sua materialização, trabalhado em várias áreas (econômica, jurídica, médica, etc.), permitindo a produção de documentação sobre o tema. Mas é no século XX que o sexo é falado de modo abundante nas mais diferentes áreas, como na Biologia, Demografia, Psicologia, Religião, etc. (Foucault, 1988).
O surgimento da palavra sexualidade possui relação com normas estabelecidas por instituições variadas, como as educacionais, filosóficas, médicas e religiosas, nas quais, os sujeitos são levados a avaliar suas condutas, assim como é atribuído valor aos seus desejos, prazeres e sentimentos. O campo da sexualidade ocidental foi ancorado em sistemas de limites e regras estabelecidos por espaços institucionais, interessados na sua classificação e organização (Foucault, 1984).
Compreendemos que o ato de nomear, com o surgimento de uma palavra específica para o campo do sexual e ligadas a FDs distintas, marca um exemplo do discurso na relação com o sócio-histórico (Pêcheux, 2014). Durante os séculos XVIII e XIX é que o sexo ganha lugar de discussão e possibilidade de ser pensado, produzindo sentidos que resultam na elaboração de documentos em áreas específicas, gerando discursos sobre a sexualidade em campos institucionais diversos, sentidos e gestos de interpretação promulgados como verdadeiros, amparados nos espaços de poder, no que é possível dizer em determinada FD e na relação com a memória, produzindo deslocamentos, mas também repetições. Mudanças que também resultam em alterações nas discussões sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo.
A dominação da sexualidade nas diretrizes impostas pela burguesia é acompanhada de um interesse em falar sobre o sexo, o que produz a contradição entre o ato de falar e de reprimi-lo (Souza, 1997). A repressão afeta, em especial, as condutas sexuais identificadas como erradas e a possibilidade do controle do prazer. Falar de uma forma livre sobre o sexo é algo que produz estranhamentos, principalmente por existir, historicamente, uma compreensão da inadequação de tais processos na linguagem, por isso, a censura e a repressão são usualmente mobilizadas para tentar estabelecer o controle e manifestar o poder institucional (Foucault, 1988).
Na contemporaneidade ocorrem mudanças no modo como a sexualidade é compreendida, inclusive, com novos sentidos sobre a homossexualidade e outras
compreensões sobre os sujeitos-gays que inscrevem possibilidades de vivência e relação com a abordagem da sexualidade, novos capítulos na história e demarcações sobre o seu papel (Giddens, 1993). Limites que influenciaram no modo como é possível abordar o assunto sexualidade, como é esperado que seja o comportamento em determinados espaços e/ou situações, como na escola e no trabalho (Weeks, 2015). Pontos como a globalização e as transformações em campos variados, como o comportamento, o consumo e a urbanização, produziram modificações no modo como o sujeito-gay é identificado ao longo do tempo (Parker, 2002).
O imaginário sobre o sujeito-gay não é o mesmo de outras épocas174, já que as
condições de produção atuais são outras. Atualmente, compreendemos que sua posição privilegiada como consumidor permite outras inscrições de sentidos sobre o gay e sobre ser
gay. O sujeito-gay consome e isso é ponto chave na valorização por parte do sistema
econômico atual, o que corrobora na constituição e produção dos sentidos. Repetimos que nossa compreensão sobre o sujeito-gay está atrelada às classes média e média alta, inserido nas tramas de consumo e pertencente ao universo urbano. Isso faz diferença e permite que esses sujeitos inscrevam outros sentidos que, em diferentes (e outras) condições de produção, não pode(ria)m emergir, já que o modo de inscrever esse sujeito também tem relação com o que é possível no contexto da globalização. A homofobia e os sentidos negativos ainda possuem força e são dominantes em inúmeros espaços, mas mudanças já são passíveis de serem observadas, permitindo a produção e a recorrência de outros sentidos para os sujeitos-
gays e a homossexualidade.
São muitos os sentidos observados ao longo da nossa relação com o corpus analisado. Apresentaremos mais alguns recortes discursivos ao longo deste capítulo. O desejo e o sexo aparecem de inúmeras formas em nosso material. Ao pensarmos o material do corpus, observamos como a questão do fetiche, das “fantasias” e das práticas sexuais “ousadas”, discutidos nos recortes discursivos 60 e 61, são retomadas nas abordagens acerca dos
174 Compreendemos que essa questão também é discursiva, já que as nomeações e os sentidos sobre as
relações entre pessoas do mesmo sexo são deslocados ao falarmos sobre o sujeito-gay e o sodomita da Idade Média, falado no campo religioso cristão. São FDs distintas, com outras relações de significação e sentidos, mas que não deixam de estabelecer uma relação de memória que produz repetições e deslocamentos nos processos de significação em condições de produção distintas. O que não impede que haja uma impossibilidade de circulação de sentidos que atrelem o sujeito-gay ao campo religioso, marcado como pecador e necessitado de cura espiritual, não compreendendo a sexualidade como múltipla, mas sim, uma única possível (heterossexual) que seria a já-dada, natural, imposta pelo biológico e pelo elemento religioso (Deus). Não raro, enunciados alertando para o pecado da homossexualidade e da condição de erro que os gays vivem são apresentados em diferentes espaços e materialidades discursivas, por sujeitos em posições discursivas variadas.