2.2 The tropical Pacific Ocean and ENSO
2.2.3 ENSO variability
Na seção anterior, apresentamos o modo como as condições de produção ligadas às estruturas da globalização são importantes e interferem na relação dos sujeitos-gays com o mundo e com as tecnologias desenvolvidas para eles. Nesta parte do nosso trabalho, focamos no impacto das tecnologias para os sujeitos, especificamente o ciberespaço, estrutura tecnológica existente pelas condições materiais possibilitadas pelo desenvolvimento da internet, essencial para a estruturação e funcionamento dos aplicativos de relacionamento tão em uso hoje.
O desenvolvimento da informática113 foi impulsionado pela entrada dos norte- americanos na Segunda Guerra Mundial114. Nesse período, ocorre a compreensão por parte dos governantes e pesquisadores sobre a importância dos investimentos nas áreas relacionadas à comunicação e aos processos de trabalho com a informação. Essa consciência foi intensificada após o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, período de intensas disputas entre os norte-americanos e os soviéticos. É nessa época que a primeira rede de informática, a Advanced Research Projects Agency Network (Arpanet), é desenvolvida. A Arpanet é considerada a ancestral da internet, fundamental para a estruturação do ciberespaço como identificado na atualidade115 (Castells, 2003, 2005).
A Arpanet foi um projeto de uma rede de computadores estruturada em 1969 pelo
Information Processing Techniques Office (IPTO), um departamento dentro da Advanced Research Projects Agency (ARPA), instituição criada em 1958, atrelada ao Departamento de
Defesa dos Estados Unidos (EUA), interessada em promover o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas visando a alcançar a superioridade tecnológica em relação à União das Repúblicas
113 A palavra informática foi cunhada em 1962 por Philippe Dreyfus e é a junção de duas palavras: automático e informação (Breton, 1991).
114 Conflito iniciado em 1938 e finalizado em 1945.
115 Compreendemos, e realizamos essa diferenciação ao longo da nossa pesquisa, em que a internet é a
estrutura técnica que possibilita o acesso e o processo de navegação, enquanto o ciberespaço corresponde a estrutura na qual os sujeitos navegam.
Soviéticas (URSS), preocupados com os rápidos avanços alcançados pelos soviéticos nessa área116 (Castells, 2003, 2005).
A Arpanet permitia a conexão e o compartilhamento de pesquisas entre institutos de pesquisa e bancos de dados estratégicos para os norte-americanos, em um sistema de comunicação que assegurava o envio de mensagens de modo fragmentado, impedindo que informações fundamentais fossem perdidas, mesmo em caso de ataques inimigos (Cébrian, 1999). A internet teve seu desenvolvimento graças à realização de pesquisas em áreas científicas e militares, apenas anos depois é que houve a popularização dos equipamentos de conexão e navegação no ciberespaço.
Foi uma proposta externa à montagem de uma rede descentralizada, partindo da Rand
Corporation, centro de pesquisas com ligações e serviços prestados ao governo norte-
americano na área de defesa, que desenvolveu a comutação por pacotes, algo revolucionário. A proposta foi aceita pelo governo norte-americano, considerando o argumento de que estabelecer a construção de um sistema de comunicações capaz de sobreviver a um ataque hostil era necessário. A Arpanet fez uso dessa tecnologia de comutação por pacotes, para atuar com o armazenamento, organização e produção de informações. As primeiras estruturas da rede foram estabelecidas em 1969 e em 1971 já existiam quinze pontos de comunicação localizados em centros de pesquisa das universidades dos EUA. No ano seguinte, ocorreu a primeira demonstração do funcionamento da Arpanet em Washington, EUA, durante a realização de um evento (Castells, 2003).
O trabalho desenvolvido na ARPA, e Arpanet, possuía autonomia e recursos para a realização das pesquisas e tornar a superioridade norte-americana no campo científico, militar e tecnológico uma realidade. A importância da ARPA não foi a de possibilitar a formação de uma rede de computadores integrados, mas demonstrar como as pesquisas ali desenvolvidas permitiram transformações tecnológicas que construíam estruturas consideradas importantes para todas as áreas do país e, consequentemente, produzissem efeitos positivos na vida de todos (Castells, 2003).
Compreendemos que existe um efeito de sentido presente na produção da tecnologia, que a coloca como fomento essencial para toda a sociedade. Pensemos no caso da ARPA e da Arpanet, no qual, as pesquisas realizadas, por mais complexas que fossem, eram identificadas como produtoras de benefícios para todos, o que justificou políticas financeiras de incentivo,
116 Castells (2003) salienta que o lançamento do satélite Sputnik, em 1957, foi fundamental para o
interesse dos EUA em criar meios de competir e vencer à URSS na disputa pelo domínio da tecnologia no mundo.
serviu de base para que os norte-americanos identificassem essa área como essencial durante a Guerra Fria e apontassem a superioridade tecnológica, como um dos principais elementos para indicar os EUA na frente da URSS na disputa pela hegemonia global.
Não houve acaso na Arpanet. Ela foi projetada dentro da ARPA, por isso, Castells (2003) refuta a ideia de que a estrutura da própria internet seria fruto do acaso, considerando que desde o início dos anos 1970 já existia o intuito de criar uma rede interconectada de computadores e pesquisadores. Os cientistas que atuavam com a realização desse projeto tinham uma missão que não era diretamente relacionada à área militar, mas que, invariavelmente, iria beneficiá-la. Desenvolver o projeto dentro de um contexto militar foi importante para assegurar a prioridade e os recursos na execução do projeto da Arpanet e, consequentemente, da internet.
Ocorre a transferência da Arpanet para a Defense Communication Agency (DCA) e em 1984, a National Science Foundation (NSF) monta a National Science Foundation Network
(NSFNet), um pouco antes, a Arpanet torna-se ARPA/INTERNET. Em 1990, a ARPA/INTERNET é retirada de operação, essa é uma data importante, pois é aqui que o governo dos EUA passa a administração da Internet para a NSF, que o fez brevemente, já que logo ocorreu o processo de privatização da sua estrutura (Castells, 2003). Essas breves considerações, demonstram o longo percurso que a estruturação da internet atravessou para que pudesse ser vislumbrada em sua configuração atual e como os espaços científicos e militares tiveram função importante em seu desenvolvimento.
Em 1990 ocorre a transformação fundamental da internet. Tim Berners-Lee, pesquisador que atuava na L’Organisation Européenne pour la Recherche Nucléaire (CERN), na Suíça, definiu e implementou o software que permitia obter e acrescentar informação de qualquer computador conectado por meio da internet, estruturado em HTTP, MTML e URI (Castells, 2003). O lançamento do software da web (WWW) foi realizado pelo CERN em 1991 e resultou, posteriormente, no desenvolvimento de outros navegadores por instituições universitárias do mundo, como o Mosaic, elaborado por Eric Bina na Universidade de Illinois, EUA em 1993. Em 1995, a Microsoft lança o Windows 95 e o Internet Explorer, simbolizando a entrada dessa importante empresa no mercado da internet (Castells, 2003).
Graças à estrutura oferecida pelo CERN que Tim Berners-Lee conseguiu desenvolver e projetar esse espaço de entrada e uso da internet que é o domínio WWW (Castells, 2003). Consideramos que na atualidade é pela estrutura da web que o ciberespaço funciona, pois por ele que os sujeitos-navegadores conseguem atuar on-line.
Breton (1991) salienta que a linguagem da informática é o cálculo. O cruzamento das noções da área de cálculo e da automação é que dão base de sustentação para a criação da informática. A noção de informação no ambiente da informática possui caráter duplo: a informação é uma quantidade, passível de ser calculada com uma fórmula e também são os símbolos (0 ou 1) codificados de forma binária. Essa linguagem estruturada no cálculo é o que permite o funcionamento da estrutura discursiva e sua constituição no ciberespaço e na informática.
O desenvolvimento da internet ocorreu no meio científico e não empresarial. Foi o dinheiro estatal e os esforços empreendidos nas universidades que permitiram o desenvolvimento da estrutura técnica da internet. Por muitos anos, a internet foi compreendida como uma área com pouca visibilidade de retorno financeiro, mas isso mudou, principalmente com o desenvolvimento da web por Tim Berners-Lee, propiciando condições de leigos em programação de usarem a estrutura existente da internet (Castells, 2003). Os empresários fizeram da internet um nicho de mercado, reinventando as formas de comunicação e informação, o que produz efeitos no cotidiano da sociedade atual. Como apresentado no tópico anterior desse capítulo, observamos que o ciberespaço é interpretado como lugar privilegiado de promoção do consumo.
O intuito inicial dos desenvolvedores da internet não era o público em geral ou a obtenção de lucro pelo seu uso, mas isso acabou ocorrendo ao identificarem o potencial que esse mercado oferecia e com a simplificação dos processos de navegação na década de 1990. Inaugurando um espaço econômico que não poderia ser ignorado. Mercado amplo e com suas variadas nuances, já que o acesso às tecnologias e ao próprio processo de condições técnicas de navegação não são os mesmos para todos. As diferenças às quais os sujeitos-navegadores estão atrelados interferem no modo como compreendem as tecnologias e o processo de relação com os outros sujeitos. Compreendemos que tais diferenças estão vinculadas às condições de produção e ressoam no modo como os sujeitos estão inseridos no ciberespaço.
Pensemos no modo de funcionamento dos aplicativos de relacionamento estudados em nosso trabalho: diferentes tipos de smartphone e contas que o sujeito pode utilizar em sua navegação, resultam em modos distintos de estar em contato com outros sujeitos. Em uma conta premium, o acesso a determinados filtros será uma possibilidade adicional para selecionar parceiros. Incrementos que o sujeito no uso de uma conta gratuita não possui. Outro ponto que pode ser considerado é a distribuição dos usuários desses aplicativos, já que as condições de acesso a um celular smartphone e ao ciberespaço, não são as mesmas para os sujeitos-gays em países desenvolvidos e em desenvolvimento, assim como, a concentração de
muitos usuários em determinadas regiões do mundo, quando comparada com outras áreas117. Essa diferença na geografia de acesso às redes interfere no modo como a navegação ocorre relacionada às condições de produção dos sujeitos.
A difusão da internet e o acesso ao ciberespaço são elementos importantes para o entendimento de que vivemos em um mundo com intensa circulação de informações (Augé, 2006). Observamos que as tecnologias produzem pontos positivos e negativos, sendo ingênuas as compreensões que inscrevem a ciência e a tecnologia como capazes de resolverem todos os dilemas da humanidade118, estando os seus principais articuladores,
capacitados a resolverem as demandas mais antigas do mundo, sem nem mesmo considerar as vontades dos outros sujeitos, afetados diretamente por tais decisões (Castells, 2006). Esse modo tecnocrata de compreender as questões, silencia que as suas resoluções são afetadas pelo ideológico e o político, que estão presentes nas mais variadas instâncias as quais o sujeito estabelece relações (Pêcheux, 2014), inclusive na filiação a esse discurso tecnocrata, tão em voga nas últimas décadas.
A existência do ciberespaço produz encanto, provoca entendimento de possibilidades de que o sujeito da contemporaneidade é agraciado com as condições de realizar tudo que desejar (Musso, 2006; Wertheim, 2001). O encantamento relatado por Musso (2006) não está distante dos relatos que identificam a tecnologia envolta em sentidos de completude, possibilidades e realização de desejos. O entendimento envolve a compreensão de que o ciberespaço propicia conexões entre os sujeitos, produzindo nós e marcado por trocas continuas.
O termo ciberespaço aparece pela primeira vez em 1984, no romance Neuromancer de William Gibson, compreendido como uma espécie de paraíso que permite que o sujeito se desprenda da carne para realizar suas façanhas. O ciberespaço, como capaz de oferecer aos sujeitos da contemporaneidade à saciedade de seus desejos mais secretos, como um tipo de paraíso passível de ser vivenciado em inúmeras posições, estruturado em bytes, construído na esteira da ciência e da tecnologia. O ciberespaço não cessa de expandir-se, como uma rede ou teia sem fim, cada vez com mais fios e que cresce fora do controle dos sujeitos que ali trafegam (Wertheim, 2001).
Um ponto que salientamos é a relação fértil entre o discurso de efusão da ciência e tecnologia e os processos de globalização. Compreendemos que a circulação dos saberes e
117 O número de pessoas sem acesso à internet é de, aproximadamente, 3,7 bilhões, a maioria em países
em desenvolvimento, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU) (Organização das Nações Unidas, 2016).
118 Giorgenon (2016) analisa o modo como a tecnologia é posta em posição de potência na
contemporaneidade, frente a compreensão do corpo sempre em deficiência, em falta. Desse modo, o advento tecnológico seria a solução para o homem obter a potência absoluta.
dos desenvolvimentos resultantes das pesquisas científicas e tecnológicas, não são os mesmos em todos os lugares. Vivenciamos, destaca Castells (2006), um momento histórico produtivo no que diz respeito a essas áreas, no entanto, a concentração das descobertas está centrada em determinadas regiões do planeta geridas por grandes corporações que afetam o modo como tais descobertas integram a realidade sócio-histórica dos sujeitos119. O lucro das empresas
regula as relações e o controle das inovações, desse modo, pontos como a propriedade intelectual e a gestão informacional ganham destaque no cenário atual da distribuição de riquezas no mundo (Castells, 2006).
As técnicas possuem papel importante nas relações empreendidas pela humanidade, permitindo o contato entre o homem e a natureza, conduzindo a compreensão das máquinas como objetos indispensáveis para sua sobrevivência e realização de inúmeras atividades. As máquinas são vistas cada dia com mais entusiasmo e necessidade pela humanidade, principalmente com o desenvolvimento do ciberespaço e das TIC, mas isso ocorre desde o século XIX, com artefatos que facilitaram a comunicação a distância, como o telefone e o telégrafo (Lemos, 2010). Os aplicativos de relacionamento ajudam a pensarmos como a popularização da conectividade entre os sujeitos, continua sendo vista como importante. Essas ferramentas afetam a sociabilidade entre os sujeitos-gays e inscrevem novos modos de realizar atividades, por exemplo, buscar parceiros sexuais de maneira cômoda, sem precisar sair de casa.
Dias, Barbai e Costa (2014) argumentam que a conectividade afeta a mobilidade dos sujeitos no espaço urbano e na forma como eles estabelecem relações sociais. Vivenciamos uma sociedade conectada, estabelecida no plano do on-line, com a organização atrelada ao compartilhamento de informações. A tecnologia permite a conexão entre uma quantidade significativa de pessoas, algo que é identificado como fator para a eficácia da relação de comunicação entre os sujeitos. Nos aplicativos estudados, podemos identificar o modo como a conexão é compreendida como essencial e fator usado para justificar a eficiência das TIC, sua superioridade na promoção dos contatos e das relações entre os sujeitos, o que já produz mudanças na sociedade:
119 Pensemos nas disputas e concessões realizadas para a aprovação da Lei nº 12.965, de 23 de Abril de
2014, popularmente conhecida como Marco Civil da Internet. Também, podemos considerar as discussões relacionadas ao que é considerado como uma nova forma de analfabeto que é o digital, aquele que não sabe usar o computador pessoal e acessar a internet.
[R27] Escritor exalta papel cívico da tecnologia
Martijn de Waal analisa relação de cidadãos com aplicativos e critica ‘modelo Uber’ (O
Estado de S. Paulo – 23/08/2015) 120.
[R28] Basta andar duas estações de metrô para comprovar a dominação da tecnologia
nos habitantes da cidade, quase todos a encarar o pequeno aparelho em suas mãos. Lemos, vemos, linkamos, postamos, curtimos e baixamos sem parar, e isso tem mudado nossa
relação com a cidade de maneiras profundas. (O Estado de S. Paulo – 23/08/2015) 121.
A reportagem publicada na versão on-line do jornal O Estado de São Paulo aborda o modo como as tecnologias produzem novas configurações em nossa sociedade, compreensões produzidas tomando como ponto de partida as reflexões do escritor e pesquisador Martijn de Waal. O discurso do especialista é o que configura a base das afirmações de que o mundo está em transformação por conta das novas tecnologias e isso inclui os aplicativos, inclusive, os de relacionamento. As mudanças em curso na configuração dos espaços da cidade são explicadas em decorrência das modificações tecnológicas e as novas relações estabelecidas pelos “cidadãos” em seus processos de conexão. Nesse contexto, os aplicativos de relacionamento estudados nesse trabalho, podem exemplificar essas transformações.
Na relação com a tecnologia, temos a apresentação de sua “dominação” do espaço da cidade e dos seus habitantes, para comprovar essa observação, o discurso jornalístico utiliza uma estratégia que visa a confirmar o que é relatado na reportagem: a observação do cenário urbano e o detalhamento de algo que estaria evidente a todos os sujeitos, no caso, os aparelhos celulares como recurso presente na vida de “quase todos” e como elemento que já compõe a paisagem urbana da atualidade. O aparelho celular é a extensão tecnológica que se faz presente e modifica o tecido e as relações na cidade, afeta o modo como “lemos” e “vemos”, mas também inaugura novas possibilidades de ação, realizadas em um processo que considera o coletivo, já que inscreve as ações no plural (“linkamos”, “postamos”, “curtimos” e “baixamos”), o que ressalta a compreensão de que as mudanças interferem na vida de todos.
O uso do plural para falar sobre as realizações no cenário da cidade, em decorrência das transformações produzidas pelo uso dos aparelhos celulares, produz uma descrição que estabelece a relação dos sujeitos-leitores do texto jornalístico como parte desse processo. Uma estrutura que trabalha com a compreensão de que a cena relatada, com sujeitos produzindo curtidas, links e postagens é comum a todos no espaço urbano, aliás, repete-se a identificação da homogeneidade das estruturas das cidades nas mais variadas regiões do planeta, algo que
120 Rocha, C. (2015, 23 de agosto). Escritor exalta papel cívico da tecnologia. O Estado de São Paulo.
Recuperado de http://blogs.estadao.com.br/link/escritor-civico-tecnologia/
121 Rocha, C. (2015, 23 de agosto). Escritor exalta papel cívico da tecnologia. O Estado de São Paulo.
analisamos nos recortes discursivos 7 e 13. Esse é o cenário em que os aplicativos de relacionamento se multiplicam e passam a compor a vida dos que ali habitam, proporcionando novos gestos de leitura e sentidos na busca por relacionamentos.
No discurso do pesquisador Martijn de Waal marca-se a caracterização das ações contínuas da tecnologia no espaço urbano, modificando as relações humanas e o modo como o espaço é constituído e construído. O uso da locução adverbial “sem parar”, ressalta o efeito de que são atividades que não possuem fim, são contínuas e já parte do cotidiano, do próprio modo de funcionamento e relações das cidades.
Não existe uma interrupção de uma atividade outra para produzir o gesto de curtir, baixar algo ou postar algum conteúdo, pois são realizadas como práticas cotidianas, parte do que é identificado como atividades rotineiras. Essa mudança se dá em uma relação que já ocorre e é identificada como inquestionável, atestada por provas cabais, passíveis de serem observadas no cotidiano por todos ao “encarar o pequeno aparelho em suas mãos” ou nas mãos dos outros citadinos. Esse apontamento de uma imagem do cotidiano funciona ilustrando a “influência de novas mídias e tecnologias no espaço urbano”, ressaltando a relevância de pesquisas sobre o assunto produzidas nos espaços jornalísticos e universitários, já que essas alterações impactam a vida das pessoas, seus hábitos e merecem análises detalhadas.
Compreender que existem mudanças em nossas cidades impõe tentar entender de que ordem são essas transformações, elencar e observar quais são as consequências e, propor responder sobre o que acontece no agora e ocorrerá no futuro diante das modificações em curso. Podemos perceber que o discurso jornalístico é compreendido como relevante, não apenas para a descrição do que acontece no hoje, mas também, no estabelecimento de observações que propõe pensar o amanhã, com base nas transformações do agora, nas projeções realizadas com base nos dados disponíveis e na fala do especialista entrevistado. No processo de produção dos relatos sobre o agora, temos a produção de dizeres que, posteriormente, podem ser mobilizados como materiais de arquivo, identificados como provas materiais da história, ajudando a entender situações e alterações do nosso cotidiano no futuro. Desse modo, o discurso jornalístico é muitas vezes mobilizado como testemunho, embasando análises e considerações sobre determinada época ou assunto discutido.
Os processos de mudanças produzidas pelas tecnologias não são compreendidas como da ordem do local, mas sim, como alterações globais, gerais e que estão presentes em outras cidades do mundo. A inferência de que as mudanças são globais é atestada ao observarmos a produção do discurso sobre essas alterações abordado no espaço jornalístico brasileiro,
considerações que foram produzidas no trabalho do pesquisador entrevistado, em outro contexto, mas a compreensão é de uma validade total, inclusive para o Brasil, reforçando o imaginário de um mundo interligado e com poucas variações entre as regiões.
Posteriormente, o pesquisador ressalta que a forma como as tecnologias são mobilizadas são as mesmas no que diz respeito as formas de acesso e as estruturas das máquinas, no