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Troisième partie : Diagnostic

B. Mode doppler

Baudrillard (1996a) propõe, para o entendimento da sua teoria da simulação, a elaboração de uma genealogia do valor e do simulacro. Explica que existem três ordens do simulacro, cada uma delas vinculada a um período da história. A primeira ordem, a da contrafação, surge com o Renascimento e o advento da burguesia. Até então, os signos eram rígidos, tinham um significado fixo, uma vez que, no feudalismo, não havia mobilidade social. A realeza, por exemplo, possuía seus próprios códigos, que eram vedados a quem não pertencesse à Aristocracia. No capitalismo, os signos se flexibilizam e passam a distinguir as classes. No entanto, embora sejam instrumentos de diferenciação social – e tenham como valor real o

valor de troca –, os signos simulam ter o mesmo valor de uso dos objetos naturais

que representam.

Como se verá adiante, a liberação do signo é o primeiro passo rumo à eliminação do real. No entanto, nesta primeira ordem do simulacro, há ligação direta entre o objeto e o referente, há representação e há semiose, conforme detalha Baudrillard (1996, p. 66):

Na Renascença, o falso surgiu com o natural. Isso vai do falso colete ao garfo, prótese artificial, aos interiores de estuque e ao grande maquinário teatral barroco. É o caminho aberto a combinações inauditas, a todos os jogos, a todas as contrafações – o olhar prometeico da burguesia dedicou- se de início à imitação da natureza, antes de lançar-se à produção.

Nesta etapa histórica, separa-se ainda claramente a realidade da aparência. Há aquilo que é e aquilo que parece ser, há o real e a representação. É ainda o período em que o signo simula atender uma necessidade, uma obrigação, finge possuir alguma serventia e o mesmo tipo de função do objeto natural. O signo consegue, desta forma, simular a inserção no mesmo tipo de configuração da ordem natural, em que prepondera o valor de uso das coisas – o garfo finge servir para a

alimentação. Mas o fato é que, para Baudrillard (1996a), nesta primeira ordem, o verdadeiro valor do signo já não é o de uso, mas o de troca: é mecanismo de distinção de classe, de prestígio, de diferenciação.

A segunda ordem do simulacro é a da produção, inaugurada com a Revolução Industrial. Entra-se, aqui, no paradigma da produção em série, da reprodução, que abole a anterior lógica de representação do signo: algo que está em lugar de um objeto natural. Lá, havia menção direta do signo artificial ao referente natural. No paradigma serial do simulacro de segunda ordem, o objeto, passível de reprodução indefinida, já não remete a nenhum referencial anterior, relaciona-se com seu idêntico e com os demais objetos igualmente produzidos em série. São todos equivalentes. O garfo, agora feito em escala industrial, já não representa a mão humana. Relaciona-se apenas com os demais garfos e outros objetos multiplicados pela indústria.

Assim, o signo – agora independente do objeto – não tem valor de uso, nem

cumpre como principal função servir de parâmetro para a mobilidade burguesa. Sendo todos equivalentes, os objetos só podem ser trocados entre si. Na segunda ordem, portanto, o signo simula valor de troca – embora, nesta fase, o conceito de valor esteja praticamente exterminado. Nesta passagem, Baudrillard (1996a, p. 72) mostra a abrangência dos efeitos da segunda ordem do simulacro:

É Walter Benjamin que, em A Obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica, destaca pela primeira vez as implicações essenciais desse princípio de reprodução. Ele mostra que a reprodução absorve o processo de produção, muda-lhe as finalidades, altera o estatuto do produto e do produtor. Ele mostra esse princípio no terreno da arte, do cinema e da fotografia, por ser aí que se abrem, no século XX, novos territórios sem tradição de produtividade “clássica”, colocados desde o início sob o signo da reprodução – mas sabemos que hoje toda a produção material está nessa esfera. Benjamin (e mais tarde McLuhan) avalia a técnica não como “força produtiva” (aí onde se encerra a análise marxista), mas como meio, como forma e princípio de toda uma nova geração de sentido.

Baudrillard (1996a) compara o autômato e o robô para diferenciar a primeira e segunda ordem do simulacro. O autômato, representação humana, substitui um referencial natural (o ser humano). Trata-se, portanto, de uma representação sígnica no sentido clássico – nas categorias da semiótica de Pierce (2000), o autômato,

neste sentido mencionado por Baudrillard (1996a), seria um índice. Já o robô, elemento típico da segunda ordem, quando se institui o império da técnica, não representa ou substitui o ser humano. Para o autor, no sistema de signos, o robô é um equivalente do homem e não uma representação ou um simulacro dele. Depreende-se desta análise que o homem pode ser trocado pelo robô – troca impossível no paradigma do autômato, que representa o referente natural homem.

Baudrillard (1996a) explica que a segunda ordem funciona como transição para a terceira, a da simulação. Nesta fase, a política original dos signos, de substituição de um objeto original, já está distante. O paradigma industrial apagou definitivamente o vínculo do signo com os referentes e a realidade objetiva. Fixo no feudalismo, o signo tornou-se liberto a partir do Renascimento e multiplicou-se nos processos de industrialização.

No paradigma da reprodução, o mecanismo não é mais o da representação – isto é, caracterizado por um distanciamento entre referente e signo, de maneira a produzir o significado. Na industrialização, o signo se torna um modelo a partir do qual o mesmo se reproduz indefinidamente, sem mais diferença, sem geração de

sentido – apenas repetição desenfreada de simulacros. Essa repetição interminável

afastou completamente o signo do referencial original e, a essas alturas, já não há qualquer vínculo.

O próprio termo signo perdeu relação com o seu sentido original – algo que está no lugar de outra coisa e funciona como representação para um observador. É por isso que, na era da simulação, passamos do signo para o código ou modelo. A analogia aqui é com o código genético das células, que se reproduzem ininterruptamente a partir de parâmetros pré-definidos pelos genes. Não se trata mais de uma representação, de um signo em substituição a um objeto. Passada a segunda etapa, do paradigma da fabricação em série, os modelos de produção estão todos prontos, já existe o modelo a partir do qual os simulacros podem ser gerados indefinidamente. Simulacros que não mais fingem ou falsificam o real – são simulacros puros. Esse processo vai dar origem a um real carregado de realidade, hiper-real, como explica Baudrillard (1991a, p.9):

Nessa passagem a um espaço cuja curvatura não é a do real, nem a da verdade, a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais – pior: com sua ressurreição artificial no sistema de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda a álgebra combinatória. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu duplo operatório.

A partir desta etapa, há uma inversão do mecanismo semiótico original. Em vez de o real preceder o signo, há a precessão do simulacro. Antes, a partir de um referente surgia uma representação, um signo. Depois que o signo se desprende do objeto e se multiplica, este desaparece e a situação se inverte. Agora é o signo que origina o hiper-real e não o contrário. Ou seja, o signo se torna um modelo que produz um real hiper-real, marcado pela simulação e pelo simulacro puro.

O simulacro puro é o da terceira ordem, que não mantém relação com o objeto original. O simulacro de Platão (1979) é o da primeira ordem, que ainda imita e falsifica o real – para o filósofo grego, o simulacro é uma cópia da cópia. A cópia segue o modelo das formas ideais do mundo inteligível. Já o simulacro, originado da cópia e não da ideia, desrespeita o modelo e, por isso, é menos real e menos verdadeiro – ocupa a menor posição da hierarquia platônica da realidade. Platão sonhava com um mundo livre dos simulacros e da representação, em que todas as coisas aparentes respeitassem os modelos ideais. Deleuze (2000), ao contrário, exalta o simulacro pelo que este contém de criatividade e de diferença.