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incontestável

14 – Justificações aceitáveis para qualquer prática na luta contra o inimigo comum

15 – A inaceitabilidade do novo e o culto ao passado

16 – A necessidade de esquecimento dos crimes do passado

17 - A proposição segundo a qual: “A esquerda é revanchista e rancorosa”

Neste momento julgo necessário citar uma importante perspectiva elaborada por Orlandi sobre exterioridade e conjuntura política, que diz muito respeito àquilo que nos propusemos fazer na presente tese:

Pensando o próprio discurso da ciência, nos voltamos, finalmente, para uma questão que é básica para nossos objetivos, quando pensamos a ciência da linguagem e o político. Aí, trata-se de apreciar a constituição ideológica da produção de projetos, pesquisas e teorias face à conjuntura política (e teórica) de sua constituição.

Começamos por dizer que não tratamos da ação ou do uso, mas da práxis seja ela de que natureza for. E, na práxis, teoria e prática se distinguem e

se articulam sob a forma de um batimento, num fluxo de vai e vem. Nesse sentido, a teoria não reflete meramente a prática, - no caso da linguagem e, por isso, pode-se analisar a relação entre a linguagem (discurso da ciência) e

sua exterioridade, compreendendo assim os efeitos da filiação teórica e sua relação com a conjuntura sócio-histórica e política.

Nas diferentes teorias das ciências humanas e sociais, em geral, não há esta separação e, como diz M. Pêcheux (1975), há teorias – sobretudo nestas ciências – que estão na continuidade da ideologia, e dessa conjuntura política- ideológica da época. Aqui podemos inserir o que dizem Pêcheux e Gadet (1977) sobre o formalismo e o sociologismo, e diríamos que a posição que pratica o sociologismo está na continuidade com a ideologia que a domina naquela conjuntura política (teórica).

A noção de conjuntura implica assim, as condições sociopolíticas e históricas em que se produzem as teorias, em suas determinações ideológicas. Se, como dissemos, algumas teorias refletem mais diretamente esta conjuntura, outras podem mesmo levar à possibilidade de apontarem para alguma ruptura. De toda forma, a ciência é também discurso e, como diz Pêcheux, “só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio-históricas de identificação”. Identificação e deslocamento andam juntos. (ORLANDI, 2014. pp. 111-112) (Grifos nossos)

Ao analisar um discurso que se encontra, sem dúvida, no âmbito do político, e possui uma formação que também, como corolário nos conduz à Sociologia e a História, devo ter mais do que o cuidado, a precisão técnica de afastar desde já as eventuais “ideias” que estão no campo adjacente destas ciências. O risco, capital para a Análise de Discurso, é sempre escorregarmos para o “sociologismo”, ou para os aparatos teóricos da História, assim como também para a Ciência Política, o que conduziria a um mais que indesejável “conteudismo”.

No nível da Análise do Discurso não trabalhamos (ao menos diretamente)81 com as ideias e seus desdobramentos e elucubrações, mas sim com os efeitos de sentido; significações, e trabalhos simbólicos da língua. Há um rompimento com as escalas ditas tradicionais cristalizadas no pensamento ocidental, muito presentes nas humanidades, segundo o qual a produção intelectual só pode estar centrada em pilares básicos do pré- construído, e que, dentre outros aspectos, estão sustentados por paradigmas como a lógica; a ordem; os sistemas absolutizantes, e a verdade. Caso ingressemos por esse caminho não faríamos Análise de Discurso, nosso objetivo, e também objeto estariam perdidos.

A lógica é quebrada pela instabilidade das produções de discurso, e sistemas e ordem, também se perdem nas “desordens sistêmicas da língua”, são assujeitadas

pela ideologia e não se torna uma categoria filosófica, mas sim um “todo posicional” em face das produções discursivas que, constituídas pela ideologia, vão deslocar sentidos e produzis efeitos diversos. Se a ciência em geral é normatizada e estabilizada como a “busca da verdade”, aqui o que buscamos é o “todo posicional” da práxis em face do discurso. O sentido da “verdade”. Passa a ser relativizado em face das diversas produções discursivas, pois, se é claro que se as textualizações clamam por sentidos, o sujeito do discurso clama pela “sua verdade”, este é o que ele, ao menos pensa ser, a verdade, ou “a sua verdade”. Aceitá-la como absoluta no discurso é nos sujeitarmos a uma aceitação do dito como categoria absoluta, o que contrasta com as intenções e aparatos de nossa ciência.

Assim, a Análise de Discurso não é uma ciência “desconstrutiva” ou “destrutiva”, mas ao contrário, é uma ciência aberta a uma construção não tradicional, no sentido clássico, e que “constrói” a partir dos efeitos e produções de sentido que são analisadas.

Ao ingressarmos nesta fase, nos furtaremos a realizar uma biografia de Bolsonaro, ou mesmo àquilo que passou a ser denominada “biografia genética”, tudo o que entendi como necessário ser dito, escrito, já o foi em fases anteriores. O risco, sob o viés científico do estatuto e estado de arte da Análise de Discurso é cairmos no “histórico de

per si”, ou mesmo nos matizes “sociologistas”, utilíssimos para as Humanidades já

citadas, mas perigosas e que podem constituir um descaminho para a Análise de Discurso.

Como escreveu Orlandi “pensamos o próprio discurso da ciência” (Ob.Cit. Supra. p. 111), e creio que o fazemos, claramente, por meios analíticos. O excerto que acima transcrevemos de Orlandi aponta para isso, e serve de advertência necessária para quem pretende analisar formações discursivas e suas filiações.

No surgimento do bolsonarismo como terceira via para o espectro político-discursivo brasileiro ocorreu uma ruptura que se deu no nível ideológico. O confronto de décadas82 entre a esquerda e a direita tradicional vai sendo desgastado por fatores que são externos à linguagem, mas são constituídos e perfurados por ela. A crise econômica; a corrupção; a má administração pública, o descontentamento da população, dentre outros fatores, quer pelo apelo (e aí se dá por práticas linguísticas) da mídia ou das redes sociais, ou

pelo próprio sofrimento que tem sua origem na erosão sócio-político-econômica de nosso país acabaram por criar uma espécie de “caminho aberto ao novo”, é criado então o “discurso do novo”, e nesse discurso “novo” é tudo o que se contrapõe ao estado de coisas vigentes. Não por acaso um dos partidos que surgem neste período e obteria bons resultados nas eleições de 2018, aproveitou-se dessa formação discursiva para adotar a sigla NOVO.

O “velho” é simbolizado pela corrupção generalizada; política oligárquica; interesses plenipotenciários que vão desde a plutocracia fundiária até os comandantes da grande indústria; os votos de conchavo no Congresso; Justiça ineficiente; estado de permanente violência e banditismo, enfim, o “velho” nada mais é sob o prisma discursivo do que as bases sócio históricas em que foi construído o Brasil. E essas foram atravessadas pela língua para a construção e mobilização de sentidos que em tese permitiriam uma mudança, ou mais precisamente, levariam a uma necessidade de mudança.

Em meio à bipolarização discursiva e o discurso do ódio que passa a preponderar a partir de meados de 201583, com ampla mobilização midiática, como já vimos em capítulo anterior, a cognominada política tradicional é rejeitada. E é nesse cenário que ocorre a busca salvacionista. Por mais vazias, ou nulas que sejam as propostas, elas operam no âmbito simbólico de sua formação ideológica o rechaço ao “velho”, e em meio a grande insatisfação, tudo passa a ser aceito como o “novo”, que passa a ter o condão de realizar seu trabalho no imaginário das produções discursivas ao assumir a sinonímia de redenção; transformação, mudança.

Em meio a diversas formações discursivas, que são aparentemente distintas, mas surgem de um mesmo lugar (o lugar da insatisfação, racionalizada ou não), e vão a um mesmo lugar (a necessidade de mudança, seja-da-maneira-que-for), são formadas as condições de produção discursivas de extrema direita, note-se que não aludimos às condições políticas, pois essas são outras, aqui tratamos da língua, e é nela, mais que no próprio “político” que são criadas as condições de emergência de uma vertente diferente (aqui afastamos a palavra “nova”) ao poder. As cancelas e interditos históricos são abertas pela língua, pela produção de sentidos na língua inseridos e esses sentidos passam a apontar para mudanças.

83 A sua implantação e “oportunização” se dá, como descrito desde as manifestações de 2013, mas eram então, tão somente um arcabouço.

O inconsciente coletivo atua sobre a produção de efeito de sentidos desse “desejo”, que aqui é colocado entre aspas por não ser o desejo da população, mas um desejo discursivamente imposto para que determinada ideologia chegue ao poder. Não são, assim, pessoas que chegam ao poder, pessoas apenas preenchem cargos, o poder é ocupado pela ideologia.

Surge no seio da população a necessidade “por uma nova ideologia” 84, que seria

melhor explicitada por “novos primados políticos”, ao já referido efeito de sentidos produzida a partir da textualização de “mudança”. O discurso vigente (entendamos como ideologia) já não mais satisfaz, está aberto o jogo polissêmico, os múltiplos efeitos produzidos clamam por sentidos e irrompe uma desestabilização da língua e da linguagem, que será operada por formações discursivas e que vão buscar seus adeptos.

O discurso do ódio é prolífero para novas instalações de feitos discursivos, pois o ódio a tudo abarca e cega. Na luta polissêmica que é instaurada para definir a ideologia que chegará ao poder, aquilo que se reveste de tradicional é alvo de perfurações múltiplas de sentidos, e essa pluralidade de sentidos carreia ao nada, ou sendo mais concessivos, é conducente ao processo linguístico de desconstrução. “Destruir para reconstruir” é a formulação, onde “destruir” é colocar abaixo o velho, e reconstruir é instaurar o novo que produz efeitos de melhor.

Para a Ciência Política, ou mesmo para a História e a Sociologia o que se estuda é o “vazio de poder”, mas na linguagem não há o vazio85, pois o próprio silêncio é

significação de linguagem, ou mais que isso permite que a língua funde seus efeitos. Em passagem magistral, uma das mais profundas ouvertures já inseridas nas Ciências da Linguagem Orlandi informa:

Quando o homem, em sua história, percebeu o silêncio como significação, criou a linguagem para retê-lo.

O ato de falar é o de separar, distinguir e, paradoxalmente, vislumbrar o silêncio e evita-lo. Esse gesto disciplina o significar, pois já é um processo de sedentarização do destino. A linguagem estabiliza o movimento dos sentidos. No silêncio, ao contrário, sentido e sujeito se movem largamente.

84 Ideologia, no sentido Althusseriano e recepcionado pela Análise de Discurso não é nova nem velha, e simplesmente ideologia, reconhecida como ente que impregna o sujeito. Daí a célebre assertiva segundo a qual não há sujeito sem ideologia, e que se aplica à Análise de Discurso a partir do silogismo de Pêcheux, pois se não há “sujeito sem ideologia”, e não há “discurso sem sujeito”, também não existirá um “discurso sem ideologia”.

Em suma: quando o homem individualizou (instituiu) o silêncio como algo significantemente discernível, ele estabeleceu o espaço da linguagem. (ORLANDI, 2010. p. 27)

A discursividade, portanto, desconhece aquele “vazio” estudado pelas Humanidades citadas. Nunca houve o vazio da língua, pois ela opera nesses silenciamentos. No “vazio político” estudado com eficiência pelos melhores doutores, havia o rumor de sentidos que era instaurado por esse “vazio” a que chamamos “silêncio”, e nele a ocupação, por não ser fática, mas de sentidos, já estava, mais que urdida, completa e aperfeiçoada em si. Bastava a estabilização vir por meio de um discurso que a despertasse.

E esse discurso foi apropriado pelo grupo de apoiadores do bolsonarismo. O descontentamento; sofrimento e opressão dos pobres; o ódio da classe média, que para intertextualizarmos Jessé Souza não se via no espelho86, e a vontade de poder insaciável da pequena e poderosa elite clamavam por um discurso que, ao romper os efeitos múltiplos do silêncio, estabilizasse um sentido.

Com o intuito de localizar o leitor na ambiência histórica em que se dá o discurso post

silentium, transcrevemos um texto do já citado Souza:

O ambiente mundial neoliberal dá força ao liberalismo vira-lata cuja gênese já examinamos em sua relação multiforme com os diversos estratos da classe média. O contexto internacional ajuda decisivamente a transformá-lo, a partir da década de 1990, num discurso preponderante a ponto de não existir um contradiscurso efetivamente articulado e desenvolvido.

A ascensão do PT ao poder de Estado mostra esse fato sobejamente. Ainda que tenha desenvolvido políticas sociais fundamentais em um país de desigualdade tão perversa, o PT o fez sem qualquer discurso articulado acerca do que estava fazendo. O discurso era construído pelo marketing eleitoral em cada eleição, mas não havia a narrativa deliberada de um projeto nacional alternativo ao projeto antipopular.

A dificuldade de lidar com o discurso moralista de fachada, desde o chamado “mensalão”, mostra o PT prisioneiro da mesma visão de mundo de sua contraparte, o PSDB. Nada se construiu em substituição ao projeto da mestiçagem, como signo da inclusão das massas populares, como se deu na década de 1930. O PT é, afinal, filho do mesmo ambiente pseudocrítico construído em São Paulo para tornar invisível o lastro liberal-conservador e que depois, em decorrência da força econômica e ideológica da cidade e do estado, tornou-se hegemônico em âmbito nacional.[...]

[...] Apesar das conquistas históricas na luta contra a desigualdade abissal, a falta de um projeto alternativo deliberado explica boa parte da colonização do partido popular pelo discurso elitista do moralismo de fachada. Explica também boa parte de seu comportamento errático e hesitante em questões fundamentais, como, por exemplo, em relação ao aparato jurídico-policial do Estado.

Muitos, até pessoas inteligentes e argutas politicamente, não entendem claramente este ponto. A maioria acha que basta ter um projeto econômico alternativo e mais inclusivo que, espontânea ou magicamente, as pessoas vão compreender seu significado e seu benefício. Não se percebe a importância crucial de elaborar uma narrativa, ou seja, um projeto articulado alternativo ao elitista. Sem tal projeto convincente de longo prazo, não se sabe em que sentido, por exemplo, reformar o Estado, o Judiciário ou a política. (SOUZA, 2018. P. 155, e pp. 157-158)

Por evidente, a citação a Souza se deu em âmbito de estudo sociológico-histórico, por ele elaborado, mas que serve como massa crítica para nos situarmos no Brasil pós-PT e Temer, no qual se instaura o silêncio (para o sociologismo e a História o “vazio político”), que vai requerer um discurso estabilizador.

As condições estão totalmente propícias ao discurso de direita. Não o discurso da direita tradicional, mas o discurso extremista. O sentido de reconstrução a partir do caos cria um efeito discursivo muito adequado às aventuras e ao alpinismo político. A superfície discursiva, entendida, conforme Pêcheux como “etapa preparatória indispensável à análise de discurso.” (GADET-HAK, 2010, p. 108) está pronta para a análise.

Em seu lema de campanha Bolsonaro empunha o lema “Brasil Acima de Tudo – Deus Acima de Todos”. O lema que em sua primeira parte textualiza o dístico nazista Deutschland über alles87. Esta textualização que nasce em 1841 e é francamente adotada pelo hitlerismo chega ao Brasil como “grito de guerra” de militares da Brigada Paraquedista, após o AI-5, no final da década de 1960. Os capitães paraquedistas, de vertente ultranacionalista e pertencentes ao Movimento Centelha Nativa, Francimá de Luna Máximo; José Aurélio Valporto de Sá, e Kurt Pessek, se inspiraram no nacionalismo alemão do III Reich para difundir o lema em que “Brasil” substituía “Alemanha”.

87 Introduzido pelo hino alemão de 1841, cuja letra é de autoria de August Heinrich Hoffmann Von Fallersleben, sobre a melodia de Joseph Haydn (coincidentemente um compatriota austríaco de Hitler) de 1797 e que tem como primeira estrofe em oito versos:

Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt,

Wenn es stets zu Schutz und Trutze Brüderlich zusammenhält,

Von der Maas bis an die Memel, Von der Etsch bis an den Belt - Deutschland, Deutschland über alles, Über alles in der Welt.

A apropriação de terminologia e palavras do passado é uma característica do Ur- fascismo, como vimos no “culto ao passado” descrito por Eco, e atravessa o seu discurso. A formação original é embasada no hino alemão de 1841, apropriada, por seu forte apelo nacionalista pelo nazismo, é banida após a guerra e é retomada em 1969, com roupagem brasileira por extremistas de direita pertencentes ao Exército.

O discurso desliza, desde o hino da Alemanha até Bolsonaro. Que juntamente com seu vice Hamilton Mourão integrou a Brigada Paraquedista88. A expressão era restrita aos

quartéis e foi paulatinamente atravessada por críticas que retiraram sua força e concentraram sua utilização aos exercícios de salto. O lema de campanha, “Brasil Acima de Tudo”, é um exemplo de efeitos de sentidos produzidos a partir de um enunciado ao qual se inserem novas significações ao serem simbolizados pela língua. Surge de um romantismo nacionalista tardio, passa a ser utilizado pelo nacionalismo xenófobo, agressivo e devastador do nazismo, vai ressurgir em terra distante com língua diversa sob os influxos ideológicos do AI-5 e tem seu sentido retomado a partir do atual líder da direita brasileira.

Como complemento ao lema, ampliando sua produção de sentidos aparece a textualização Deus Acima de Todos. Assim temos: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.” A concessão a Deus, não dada pelo nazismo é um imperativo da desestruturação simbólica pela língua do Estado laico, o qual é previsto na CF-88. O sentido de “Deus” está em sua designação a que chamamos para-religiosa, pois não se insere discursivamente no alcance do discurso religioso. É um sentido discursivo outro, que atende aos interesses de poder tanto da “bancada evangélica”, nomeação dada aos parlamentares cristãos de confissão evangélica, notadamente pentecostal e neopentecostal, quanto aos evangélicos em geral. E especificamente ao poder econômico e ideológico exercido por lideranças evangélicas. Portanto, não se trata de uma “afirmação-louvação”, mas sim em um primado que em níveis discursivos concede um lugar importante na campanha, e futuro governo aos evangélicos. A língua aqui busca o voto e o poder para a eleição e futuro mandato.

Os efeitos de sentido vão além, pois também compreendem a família; a dignidade; a

correção; a submissão; a moral, todos formados pela ideologia do discurso evangélico 88 O lema utilizado nos quartéis é “Brasil! Acima de tudo!” com ênfase nas palavras “Brasil” e “Acima de tudo!”, como se pode ver no canal do Youtube Hoje no Mundo Militar, que apresenta um vídeo de

pouco mais de nove minutos sobre a Brigada de infantaria Paraquedista.

e sua promanação de poder atravessada pela língua e que antecipa efeitos que podem advir da esquerda católica e do marxismo ateu. Também se encaixa na produção discursiva que atende ao interesse de supressão de direitos das minorias.

A designação “Deus” é importante para a análise. Ela produz efeitos de sentido restritos, e não amplos, como seria normalmente esperado. A textualização de Deus é universalizante em si, poderia produzir efeitos em qualquer crente, diria até das três “religiões monoteístas”, pois não se subsume a Cristo, que está no domínio discursivo cristão. Mas os sentidos são outros. Deus, aliado a Brasil, portanto pátria vai buscar referenciações de sentido no lugar que ocupou o golpe de 64, na “Marcha da família com Deus pela liberdade”. Nesta última formulação o aspecto era católico, mas sobretudo, de natureza “moralista”, este “moralismo” tão afeto às classes médias e encampado pela onda evangélica que foi se alastrando pelo país a partir de meados da década de oitenta, faz com que “Deus” ganhe sentidos moralizantes em sua categorização sociológica, mas aqui simbolizada pela língua.

Um governo que já em seu lema falava pela voz do conservadorismo contrário a grupos minoritários e alvos de opressão. Neste discurso a palavra Deus se opõe a: homossexualismo; religiões afro-brasileiras; liberdade de pensamento; esquerda; comunismo; Direitos Humanos, etc. Como já disse se trata de uma “apropriação linguística”, de grande força simbólica, aqui, Deus não é a paz ou a união, muito menos a tolerância ou o acolhimento. O vocábulo é ressignificado para fazer relações discursivas de oposição. Por exemplo: Deus – ente supremo contrário às práticas “pecaminosas” – Logo, Deus, contrário ao Homossexualismo. Onde contrário ao

homossexualismo é contrário ao ser homoafetivo em si. Jogando com a religião para

condenar uma prática sexual própria da natureza e que é erroneamente recriminada e considerada, contrariando todos os modernos estudos e as mais antigas culturas, como