objetivo é conhecer de forma mais aprofundada o texto. O leitor quer um conhecimento que possa guardar para futuras utilizações. Pode recorrer, e muitas vezes o faz, a marcação de texto, ou a escriturações que podem ser feitas no mesmo suporte de leitura, ou fora dele, como anotações em cadernos ou computadores.
Aqui temos um nível mais profundo de leitura. Não basta a percepção, a compreensão dos sentidos, mas é fundamental que se guarde em nossa memória (aqui tomada em sentido comum), as partes mais importantes do que foi lido.
Nível 3 – Reflexão – A reflexão é o nível mais elevado. Ela depende do nível 1, que é a
leitura, e se une ao nível 2 que é o estudo. O somatório da leitura geral com o estudo dá ao ser humano aquilo que é denominado erudição, em linhas gerais, o conhecimento
obtido por meio de livros (e hoje, evidentemente outros suportes tecnológicos). Mas essas duas pré-condições não são bastantes em si para o que considero a amplitude máxima da prática da leitura. Ela irá se completar e revelar por completo a partir da reflexão, ou práticas de reflexão.
É o momento em que o textualizado, já compreendido e estudado, é alvo dos sentidos produzidos pelo leitor. Pois, ao refletir sobre suas leituras e estudos, aquele que lê vai imprimir ao texto seus próprios sentidos, existindo aí uma questão de autoria no efeito leitor que se produz, mas não existem “os próprios sentidos” puramente. Há inconsciente, há ideologia. Eliminará o que não considera necessário, ou aquilo com o qual não concorda (existe aí, necessariamente, um processo ideológico). Mais que isso, ele utilizará o que aprendeu (leitura geral), e o que apreendeu (estudo) para realizar novas construções. Ele interpreta e reinterpreta, dando aos textos lidos e estudados a possibilidade de uma realização no nível simbólico em que os aparatos anteriores são mobilizados para criar novos conhecimentos.
Os três níveis apresentados, que mais uma vez realçamos não são aparato próprio da
Análise de Discurso, mas estão inseridos em condições gerais de leitura, estudo e reflexão, possuem uma ordem que não pode ser fragmentada, desta forma, é possível
mobilizar apenas um deles, mas será necessariamente o primeiro, a leitura geral. O estudo não se faz de forma independente, dependendo do primeiro, e o terceiro, a reflexão necessitará do acoplamento do primeiro e segundo níveis (leitura geral e estudo). É por intermédio da reflexão que se opera o questionamento dos “três pês”; princípios; primados e preceitos, o que pode conduzir a quebra, eventual de um quarto “p”, o paradigma. E aqui me oponho à noção de “falseamento” de Karl Popper (1902- 1994), pois ao se realizar este trabalho não se quer objetivamente “comprovar falhas”, estas, se existirem, serão naturalmente verificadas, e no caso de humanidades não poderemos aferir sua validade universal e completamente, assim, a reflexão não é a busca por “falhas”, mas o instrumento de superação do texto dado. Aqui, no nível da Filosofia da Ciência tendemos a nos filiar ao físico Thomas Kuhn (1922-1996), que entende a quebra do paradigma como Revolução Científica, sem afetar a grandeza e validade, ao menos histórica, do paradigma anterior.
Para a Análise de Discurso são necessários, além é claro, como são comuns a qualquer campo de conhecimento, os três níveis de leitura, mas a eles acrescentamos um quarto,
que é independente, pois se faz no nível discursivo, que é a interpretação do discurso, ou mais precisamente: a interpretação do discurso com os aparatos teóricos da Análise de
Discurso, as ferramentas por ela disponibilizadas.
Para que fique clara essa posição, recorremos à Eni Orlandi, em sua obra
Interpretação – Autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico:
A interpretação se faz, assim, entre a memória institucional (arquivo) e os efeitos da memória (interdiscurso). Se no âmbito da primeira a repetição congela, no da segunda a repetição é a possibilidade mesma do sentido vir a ser outro, em que a presença e ausência se trabalham, paráfrase e polissemia se delimitam no movimento da contradição entre o mesmo e o diferente. O dizer só faz sentido se a formulação se inscrever na ordem do repetível, no domínio do interdiscurso. (ORLANDI, 2007 b, p. 68)
Passamos a realizar a análise de discurso dos onze recortes citados supra, para que o leitor não se perca, tendo que voltar ao ponto em que estão numerados, vamos antes de cada análise reproduzi-los, totalmente em negrito, para permitir uma melhor visualização e evitar que eles se confundam com o aparato analítico, os grifos já foram realizados na reprodução anterior.
Recorte 1 – O “principal” a que se refere D. Paulo, foram as acusações de tortura feitas perante os juízes, durante julgamentos, quando os criminosos usavam asse argumento para se inocentar dos crimes praticados ou para justificar as delações de companheiros. Ele somente se refere a isso no seu livro. (p. 27)
Em seu discurso (recorte 1) Ustra textualiza “acusações de tortura”, trata-se uma forma de negação das evidências de tortura por meio de um deslizamento de sentidos que é inserido pela palavra “acusações”, a partir daí é criada uma instabilidade que, ao menos, coloca em dúvida a real existência de tortura. Não são “afirmações”, mas “acusações”, existindo entre as duas uma distância de sentidos. Acusar é imputar a alguém alguma coisa, e esta coisa pode não apenas ser refutada como mentira, mas até como crime de calúnia (no caso se trata de crime).
Permeia o discurso-64 a formulação de efeitos de sentidos que negam as práticas de tortura, pois pela vileza que ela caracteriza afastaria muitos adeptos, causando repulsa e indignação, e frisamos que causaria “em muitos”, mas não em todos, pois há aqueles que dentro da discursividade extremista a aceitam e até incentivam. No entanto, do ponto de vista discursivo, Ustra e todos aqueles que como Bolsonaro são assim assujeitados por esta ideologia de extrema-direita, buscam o maior número de
simpatizantes possível, desta forma, o político atua sobre o discurso para abarcar não só os mais fanatizados, como outros, que veriam na prática algo muito desabonador.
A referência feita àqueles que não se sujeitaram à ditadura e a violência, e passaram a agir em legítima defesa da Constituição de 1946, é sempre depreciativa, como veremos em outros pontos, aqui aparece a palavra “criminosos”, criminoso é aquele que pratica atos definidos e tipificados como crime pela normatização jurídica, mas aqui, é instabilizado por um efeito polissêmico, na qual “criminoso” é a pessoa que luta contra a ditadura, gerando o efeito de deriva. Nesta formulação discursiva, também ocorre um rebaixamento moral dos insurgentes, pois eles seriam “delatores espontâneos”, e não forçados. Na textualização “justificar a delação de companheiros (implicitamente está feita espontaneamente)”, a leitura do arquivo pode ter outro sentido, como: “acusar a delação de companheiros obtida por tortura”. Analisemos:
Justificar a delação de companheiros feita espontaneamente (feita espontaneamente está implícito)
(1) Justificar é o termo (A) a delação de companheiros o (B) e, feita
espontaneamente o (C), então temos, a partir do discurso de Ustra outra leitura:
(2) Acusar (D) a delação de companheiros (B) obtida por tortura (E)
A formulação original segue a ordem (A) (B) (C), mas por meio de efeitos metafóricos, segundo Pêcheux “O fenômeno semântico produzido por uma substituição contextual”, e que leva a “Um deslizamento de sentido” (PÊCHEUX, 2010. p.95) torna- se (D) (B) (E). Com a formulação discursiva original, Ustra tenta em primeiro lugar apagar as práticas de tortura, e em segundo lugar comprometer a idoneidade dos opositores do regime. Nas duas formulações, temos (2), que conforme vimos fugiria ao escopo de Ustra em apagar os crimes de tortura praticados, mas transparece por deslizamentos e é atravessado pela produção de novos sentidos.
Mas, na textualização, temos em si o enunciado (1), que busca comprometer a idoneidade dos combatentes. Dentro dessa formulação já inferimos os sentidos de duas características do discurso-64, que são 1 - a negação das práticas de tortura, e 2 - a
desmoralização da esquerda engajada.74.
O aparato teórico aqui utilizado, e ao qual recorreremos em outras situações discursivas é o que Pêcheux chamou de efeito metafórico, em Por uma Análise
Automática do Discurso, livro organizado por Françoise Gadet e Tony Hak. Ocorre
escreve uma palavra que significa outra.
Recorte 2 – Finalmente, chegou a hora de “abrir os arquivos”. Esta ameaça é feita por eles há muito tempo. A estratégia é abrir apenas a parte que interessa a eles. O momento é este – uma ex-guerrilheira na presidência, o Estado aparelhado e eles com voz e recursos para levarem ao público apenas o que interessa. Trocaram o poder das armas pela força do poder e do dinheiro. (p. 29)
No recorte 2, é apresentado um discurso que pode ser analisado como um discurso do medo, “a ameaça feita por eles, há muito tempo, de abrir os arquivos”, mesmo utilizando um efeito antecipatório, o medo está presente na palavra ameaça. Uma ameaça só pode produzir sentido tal caso o “ameaçado” assim se sinta. Aqui percebemos a produção de um equívoco discursivo, pois o autor quer se mostrar corajoso, destemido, mas se sente ameaçado. E o equívoco está em que o “eles” que ameaçam, são justamente os que foram torturados.
O pronome demonstrativo “eles” é uma referência às vítimas, seus parentes e amigos, que buscavam justiça pelos atos criminosos praticados pela ditadura, e dá a marca discursiva do “nós contra eles”. E em seu discurso tenta ocultar o temor por meio das expressões “há muito tempo” e “o momento é este” que dão um sentido de distância e insistência, e que o fato só aconteceria em um dado momento propício (para seu discurso “casuístico”, por deslizamento de sentido), no caso, uma política de esquerda na presidência75.
A textualização “uma ex-guerrilheira na presidência” é relevante para a análise, pois a figura de Dilma não é nomeada, mas substituída, (funcionando como sinônimo, no
74 A partir de agora realizaremos as numerações das características do discurso-64, para posterior utilização.
75 A lei que estabeleceu a Comissão Nacional da Verdade foi sancionada em 18/11/2011, pela Presidente Dilma Roussef.
processo discursivo) por “ex-guerrilheira”, que no discurso-64 está inserido no âmbito do criminoso, assim como já vimos literalmente no recorte 1. Assim busca operar uma depreciação discursiva da Presidente da República.
Nesta análise podemos coletar mais alguns pontos que permeiam seu discurso, e seguiremos a numeração. 3 – O discurso do medo, consubstanciado nos danos jurídicos e morais que seriam acarretados pela descoberta do que era até então ocultado. 4 – O discurso da polarização (o “nós” contra “eles”). 5 – O discurso da
depreciação, ao chamar Dilma de ex-guerrilheira, que em sua discursividade está
inserido no campo das interdições criminais.
Recorte 3 – Os ex-membros de organizações subversivo-terroristas e alguns de seus familiares estão sendo ouvidos como testemunhas de acusação contra os agentes do Estado. (p.30)
No recorte 3, temos a repetição da formação discursiva com suas matrizes do discurso-64, presentes em “organizações subversivo-terroristas” que produzem o sentido de “bandidos”, em oposição a “agentes de Estado”, sendo estes os operadores da máquina repressiva e cuja expressão produz o sentido de “agentes da lei”. Mais uma oposição discursiva no âmbito do “nós” contra “eles”, aqui realçada pela substancialização do “bem” em “agentes de Estado” contra o “mal” em “organizações subversivo-comunistas”. Além do que já vimos, podemos anotar um outro ponto. 6 – O
discurso do “bem contra o mal”, que opera a purificação dos repressores, como
agentes da lei, da ordem e da proteção, em face da criminalização dos grupos contrários à ditadura. Importante salientar que no discurso do “nós contra eles”, encontramos o discurso polarizador, que se dá por uma simbolização linguística que cria duas posições morais absolutizantes, na qual “nós” somos o “bem”; “eles”, simbolizam o “mal”. E que pode ser também (re)significada como a luta dos “bons contra os maus” se aqui operamos com a deriva.
Recorte 4 – Com precisão cirúrgica e, por isso sem derramamento de sangue, o Exército Brasileiro, com o apoio das Forças Armadas co-irmãs, partiu ao encontro dos verdadeiros anseios do povo, livrando a Nação das garras dos comunistas e impondo-lhes nova e acachapante derrota. (p.70)
No recorte 4 da obra, os sentidos são atravessados por três jogos discursivos que permeiam, não só o seu discurso, mas estão presentes no discurso bolsonarista. Com a sua base, como sempre em campo discursivo, estabelecida pela ideologia. Neste sentido assevera Orlandi:
Redefinindo, assim, a ideologia discursivamente, podemos dizer que não há discurso sem sujeito nem sujeito sem ideologia. A ideologia por sua vez, é interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários. (ORLANDI, 2007b. p 31)
O primeiro está na formação “Com precisão cirúrgica, e por isso sem derramamento de sangue”. Nela é construída, imaginariamente, sentidos que atravessam o discurso para fixar a elevada competência do Exército Brasileiro ao realizar a “revolução” de 64. A produção parte da posição “sujeito-militar-engajado”, e é determinada por sua ideologia militarista radical que conduz a uma “infalibilidade” da Força Armada a qual pertence. O sentido de pertencimento também o assujeita, sempre por meio ideológico. Não são consideradas as situações do real enquanto histórico, como, por exemplo, a ausência ou quase impossibilidade de reação a um movimento executado em plena madrugada do dia 1° de abril, nem qualquer outra condicionante que é apagada. O que fica é a “excelência do Exército Brasileiro.”.
Também, assujeitado pela mesma ideologia que perfura essa formação discursiva, Ustra releva para plano secundário as outras duas Forças Armadas: “Com o apoio das Forças-Armadas co-irmãs”.
O protagonismo atravessado, sempre, pelas injunções ideológicas concede primazia ao Exército sobre a Marinha e a Aeronáutica, que não se tornam atores principais, mas coadjuvantes, algo que escorrega pela textualização “com o apoio”. Assim, o Exército é a Força “revolucionária”, as outras duas são “apoiadoras”, ou seja, “prestam serviços secundários”76.
76 De certa forma há um fundo de veracidade neste posicionamento. A Marinha do Brasil sempre foi a mais profissionalizada e elitizada das Forças Armadas, em grande parte negando-se a participar de atos criminosos, por outro lado, a Aeronáutica se consubstancia como a força mais popular e democrática a nível, inclusive, de ingresso, tendo ambas por razões, que apesar de bem distintas, as afastam historicamente da política. Ao contrário do Exército que até os dias atuais clama por um papel político. Asseveramos ainda que se trata de uma característica brasileira, e não universal, na ditadura argentina, por exemplo, foi justamente a Marinha (La Armada) a responsável pelos atos mais cruéis perpetrados contra o povo do país vizinho.
A ideologia totalitária também fica marcada em níveis discursivos pelos sentidos de que podem “interpretar a vontade de um povo”. Aí encontramos: “Partiu ao encontro dos verdadeiros anseios do povo”, a leitura-interpretação ideológica de “povo” é de pertencimento absoluto de quem irá “conduzir sua vontade”, “realizá-la”, a ideologia totalitária é messiânica, não só salva como possui de forma quase religiosa a onisciência sobre a vontade popular, e a partir daí a conduz. Há um funcionamento discursivo específico que irá englobar o “povo”; “sua condução”; “a interpretação de sua vontade”, e por consequência o ápice da ditadura: a tomada de decisões em nome do povo, que substitui a vontade popular em si, exercida na democracia.
Por fim, neste trecho temos, mais uma vez, a formulação discursiva textualizada que cria o sentido do “nós-contra-eles”, que aqui hifenizamos por se tratar de uma construção discursiva padronizada no discurso estudado. Em garras dos comunistas. O assujeitamento ideológico transborda em dois aspectos da ferramenta imperfeita que é a língua, para utilizarmos as noções de Henry (HENRY, 2013). Não só volta a citar, como é comum em todo o livro o “inimigo comunista”, como o reveste de carga ideológica ainda mais intensa, que remete ao animalesco com a palavra “garras”. Essa formação, que animaliza o esquerdista faz parte da formação segundo a qual “comunistas devoram criancinhas”, aqui devoram e massacram o próprio povo em sua totalidade, que deve ser salvo, mesmo sem pedir, deste mal.
Neste excerto coletamos a textualização de mais alguns pontos que aparecem no discurso de direita de 1964, e são retomados no final da segunda década do século XXI.
7 – A infalibilidade do Exército, que surgirá como ente de salvação. 8 – A supremacia do Exército sobre as outras duas Forças Armadas. E, ponto 9 – A capacidade do militarismo em ser o intérprete da vontade do povo.
Recorte 5 – O Ato institucional outorgava poderes especiais ao governo, mas mantinha o Legislativo, o Judiciário e a Constituição de 1946. O presidente poderia introduzir emendas constitucionais e abreviar o processo de elaboração dos atos legislativos; suspendia por seis meses garantias de estabilidade, podendo o cidadão ser demitido, passar à disponibilidade ou ser aposentado se houvesse atentado contra a segurança do país, do regime democrático e da probidade administrativa; autorizava, também, nos seis meses seguintes, a suspensão dos direitos políticos pelo prazo de dez anos e a cassação de mandatos legislativos. O
Ato também institucionalizava a eleição indireta, através do Colégio Eleitoral, do presidente da República e seu vice, que deveriam governar até 31 de janeiro de 1966. (p. 127)
Chegamos ao recorte cinco, que se encontra na página 127 de A Verdade Sufocada. O discurso é de defesa de uma suposta manutenção da democracia, mas, por uma série de equívocos produz o sentido inverso, transparecendo todo o fim, a derrocada da democracia. A referência é ao Ato Institucional número 1, de 1964, o primeiro após o golpe.
O discurso assume a posição-governo-revolucionário-democrático ao textualizar que “outorgava poderes especiais ao governo”, por equívoco salienta a manutenção da democracia pela inserção da conjunção adversativa “mas”, ao enunciar: “mas mantinha a Constituição de 1964”. Existe um mecanismo de concessão discursiva, assim entendemos. Este mecanismo produz uma pretensa estabilização de sentidos, na defesa da “Revolução Democrática”, pois ao mesmo tempo em que outorgava ao governo poderes especiais não previstos na Carta Política de 1946, “a mantinha”. No entanto, após essa textualização que busca a estabilidade da ordem do discurso, ele é totalmente instabilizado, quando o coronel Ustra elenca a quantidade e a força das modificações, ao textualizar como repetimos abaixo:
O presidente poderia introduzir emendas constitucionais e abreviar o processo de elaboração dos atos legislativos; suspendia por seis meses garantias de estabilidade, podendo o cidadão ser demitido, passar à disponibilidade ou ser aposentado se houvesse atentado contra a segurança do país, do regime democrático e da probidade administrativa; autorizava, também, nos seis meses seguintes, a suspensão dos direitos
políticos pelo prazo de dez anos e a cassação de mandatos legislativos. O Ato também
institucionalizava a eleição indireta, através do Colégio Eleitoral, do presidente da República e seu vice, que deveriam governar até 31 de janeiro de 1966.
A instabilidade discursiva se apresenta em toda essa formulação, uma vez que, após estabilizar o sentido de democracia ao evocar a manutenção da Constituição de 1946. O discurso de Ustra vai elencando um número muito grande de alterações que desfiguravam por completo a índole democrática da Constituição de 1946.
Discursivamente, ao analisarmos a textualização das supressões elencadas por Ustra, o que vemos é um efeito de absoluta restrições das Liberdades Públicas. A seguir realizaremos uma pequena análise de algumas das alterações que o próprio coronel citou. Analisemos:
O presidente poderia “introduzir emendas constitucionais” – A possibilidade de
introduzir emendas à Constituição já é um afastamento total do Poder Legislativo, pois concedia ao presidente-general no poder a prerrogativa de alterar à sua vontade a Carta Política. Ustra utiliza um deslize de sentidos com “poderia introduzir”, no qual “poderia” produz efeitos de distanciamento, e “introduzir” confere efeitos muito brandos, concessivos. Do ponto de vista do constitucionalismo, a introdução, isto é, a criação de emendas que alterem o Texto, causam a desfiguração da Constituição. “O presidente detinha o poder de manipular segundo os interesses da ditadura a Constituição”, é este o sentido do AI-1, não outro. O coronel promove para seus leitores um efeito de abrandamento, no qual o simbólico da língua ao produzir efeitos passa a atenuar a gravidade ofensiva do Ato, para criar sentidos outros, que assim retiram, ao menos uma parte, da carga opressiva contida na textualização do Ato.
Qualquer cidadão “poderia ser demitido, passar à disponibilidade ou ser aposentado se houvesse atentado contra a segurança do país, do regime democrático e da probidade administrativa” – A empregabilidade se tornava
totalmente precária, perdia toda sua garantia constitucional e administrativa. A textualização “se houvesse”, mais uma vez produz o efeito de sentidos de abrandamento. Isto só aconteceria “se”, ele atentasse contra a segurança do país, do regime democrático e da probidade administrativa. Analiticamente nos deparamos com os chamados pontos de deriva, deslizamentos de sentidos, que são produzidos por efeitos metafóricos. “segurança do país” é a “segurança do regime”; “regime democrático”, que como textualizado não havia mais era “a estabilidade do regime ditatorial de direita”, e “probidade administrativa” sofre o deslizamento de sentido para “comportamento consoante os desejos da administração militar”.