A situação de vulnerabilidade social, realidade que muitos alunos provêm dentro do universo da presente pesquisa, mostra-se como agravante no processo de ensino-aprendizagem. Isso porque, muitos professores não receberam formação suficiente para lidar com esses alunos (BRANDÃO, 1982), e alguns nem imaginam as condições de vida de seus educandos. Em relação específica a essa investigação, quando se trata da questão de pobreza ou vulnerabilidade social no município de Ponta Grossa, Nascimento (2008) ressalta que o crescimento demográfico acontece a partir de 1970 e a expansão territorial urbana foi acentuada a partir de 1980. Essa expansão dá início às disparidades sociais com um crescente índice de favelização e ocupações irregulares dentro do município.
Na perspectiva de que um grande percentual de crianças, nessa situação, está matriculada nas escolas públicas do município, preocupamo-nos em tentar compreender as representações que os professores possuem sobre esses alunos no processo de aprendizagem escolar. Para acompanhar as crianças e tentar desvelar como acontece a construção de suas representações e de seus valores, o ambiente escolhido para as observações e entrevistas foram (no início) três instituições de contraturno social da cidade de Ponta Grossa. Sendo que nessas instituições não existe um "programa fechado” de atividades pedagógicas, mas sim um trabalho mais diversificado, o que possibilita ao pesquisador imergir no universo de estudo sem alterar significativamente as relações internas do grupo.
No desenvolvimento da pesquisa, a proximidade com os sujeitos, principalmente as crianças, adolescentes e a família, teve imensa colaboração na análise das informações. Passamos por situações que não prevíamos no início do trabalho. Nos relatos das famílias, no ambiente em que essas vivem, nas atitudes das crianças e adolescentes, encontramos pistas que nos ajudaram a concluir o processo de investigação.
A partir da análise de estudos desenvolvidos com professores para avaliar como esses percebem seus alunos (AQUINO, 1996; BARRETTO, 1981; PATTO, 2010) e como os concebem como indivíduos, tivemos, por princípio, que tratar dos elementos que potencializam ou que podem desencadear o fracasso escolar. Ressaltamos que nossa intenção não é desenvolver uma crítica aos professores, pois sabemos que as condições de trabalho e de infraestrutura no desenvolvimento de sua função são fatores que podem comprometer o êxito do trabalho pedagógico. No entanto, nosso propósito é de que a investigação sirva como instrumento de propagação da necessidade e urgência de direcionar a atenção aos sujeitos que mais necessitam da ação educativa. Assim, a investigação é dividida em quatro estudos que se integram e tem por eixo norteador a criança e o adolescente em situação de vulnerabilidade social.
Figura 2 - Grupos de sujeitos participantes da pesquisa
Fonte: A autora, 2015.
O primeiro procedimento adotado foi a escolha das instituições que participariam do processo de investigação. A princípio adotamos como critério duas instituições, uma laica e outra religiosa a fim de verificar se haveria alguma diferença
1 Crianças e Adolescentes 2 Pais e/ou Responsáveis Legais 3 Educadores Sociais 4 Professores e Pedagogos
no desenvolvimento do trabalho pedagógico. Como o município, na época, possuía somente uma instituição laica, essa automaticamente já foi escolhida. Para as demais instituições, a pesquisadora visitou e expôs o projeto de pesquisa em duas instituições religiosas (A e C), no entanto, a escolha se deu pela instituição A devido ao número de escolas, situação de pobreza e vulnerabilidade social presentes nas regiões de entorno.
O segundo procedimento foi a realização de uma sondagem, por pesquisa exploratória, com os pais e/ou responsáveis legais pelas crianças e adolescentes, efetuada entre os meses de maio e junho de 2011. Foi solicitado às duas instituições os dados dos pais (nome, telefone e endereço), principalmente aqueles que recebiam algum benefício social. Essa primeira inserção resultou em um trabalho apresentado como pôster em um evento nacional de educação (SERPE; ROSSO, 2011). Das oito famílias quatro participaram novamente do estudo, sendo que do total somente três ainda possuíam seus filhos matriculados na instituição. Os resultados contribuíram para orientar a elaboração dos instrumentos (questionários) para as crianças e adolescentes, professores, pedagogas e educadores sociais.
Na terceira fase, aplicamos o questionário nas três instituições (A, B e C), cabe ressaltar que apresentamos o instrumento para os coordenadores dessas instituições que autorizaram esse procedimento. Por meio das respostas dos sujeitos, fizemos um levantamento e mapeamento das escolas onde esses estavam matriculados. Munidos desses dados, agendamos uma reunião com a secretária municipal de educação com a finalidade de requerer autorização para aplicar o questionário para os professores e pedagogas das escolas municipais. Nessa ocasião, a secretária solicitou a relação das escolas e sugeriu a inserção da pesquisa em uma instituição religiosa de contraturno social, que funcionava de modo compartilhado com a Secretaria de Educação.
Agendamos um horário com a direção e coordenação da instituição D, sugerida pela secretária de educação, e apresentamos o projeto e seus procedimentos. A princípio houve concordância e iniciamos o trabalho de campo. Então, adotamos alguns princípios para a realização das observações junto às crianças e adolescentes. No primeiro semestre de 2012, separamos três dias da semana para a permanência nas instituições. As observações obedeciam a três critérios: a relação entre crianças e adolescentes com seus pares, a relação entre as
crianças/adolescentes com os educadores, e, o desenvolvimento e direcionamento das atividades.
Ressaltamos que a pesquisa daria-se em duas instituições religiosas e em uma laica. No entanto, na instituição religiosa, indicada pela secretária de educação, mesmo depois de quatro meses de inserção da pesquisadora para a observação junto às crianças, a direção não se mostrava contente com essa presença na instituição. Além da postura rígida da dirigente que insistia em manter a ordem com as crianças a todo o momento, os educadores também não se sentiam muito à vontade. Diante do exposto, tomamos por base essas questões e optamos por desistir desse campo de pesquisa, tendo em vista o comprometimento ético da investigação (ANGROSINO, 2009), e também a exposição dos sujeitos mais vulneráveis – as crianças.
Ademais, os educadores, a pedagoga e a própria diretora referiam-se à instituição como "creche" e mantinham uma dinâmica de trabalho voltada prioritariamente ao apoio escolar, o que está em desacordo com o que prevê as orientações técnicas sobre o serviço de convivência e fortalecimento de vínculos (BRASIL, 2010). Essa prática, de acordo com as observações, mostrava-se muito exaustiva para as crianças (nessa instituição a faixa etária era de 6 a 12 anos); pois, entre a saída da escola e o contraturno, tinham somente um intervalo: a hora do almoço. Além disso, a pesquisadora também não conseguia sentir-se à vontade, visto que a diretora apresentava atitude muito intimidadora.
Na quarta etapa, sucedeu a aplicação dos questionários nas escolas e nas instituições de contraturno social. Nas escolas municipais esse procedimento foi realizado em 22 escolas, de outubro a dezembro de 2012. Porém, em nenhuma dessas instituições a pesquisadora acompanhou o preenchimento do questionário, isso porque as pedagogas e diretoras alegavam que existiam muitas atividades e o tempo seria muito escasso. Esse pode ser um dos motivos para a pouca adesão na devolução dos questionários, sendo que foram entregues nessas escolas 318 questionários para professores, dos quais foram devolvidos 130 e considerados para análise 115. Já para as pedagogas foram entregues 29, dos quais retornaram 22 e foram considerados para a análise 18. O critério para descarte de um questionário estava relacionado à ausência de consentimento e à assinatura do sujeito envolvido.
Nas 13 escolas estaduais, houve contato ainda em dezembro de 2012 e agendamento de horário para aplicação do instrumento durante a semana
pedagógica no mês de fevereiro de 2013. Com isso, pudemos apresentar a proposta e acompanhar o preenchimento do questionário pelos professores e pedagogas. Essa abordagem diminuiu consideravelmente a desistência e resistência dos professores. Todos os questionários distribuídos foram entregues, totalizando 137 para os professores, dos quais nove não foram autorizados, restando para a análise 128. As pedagogas entregaram 23 questionários, dos quais foram analisados 22.
Para a aplicação dos questionários aos educadores sociais, visitamos as oito instituições de contraturno social, em que três funcionavam também como abrigo, e pudemos acompanhar o preenchimento junto aos educadores somente em quatro delas. A taxa de adesão foi considerada boa porque dos 42 questionários aplicados, analisamos 35, não houve entrega de cinco e adesão de dois.
A quinta fase da pesquisa refere-se às entrevistas com as crianças e adolescentes. Selecionamos os sujeitos de acordo com a visita que realizamos às famílias e entrevistas aos pais e/ou responsáveis, nessa ocasião solicitávamos o consentimento para que o/a filha/a participasse da etapa de entrevista. Considerando que cada família tem mais de um filho matriculado nas instituições, salvo algumas exceções, optamos por entrevistar 30 sujeitos de cada instituição (A e B). As entrevistas foram realizadas na instituição A entre os meses de maio e julho, e na instituição B entre os meses de outubro e novembro de 2013.
A sexta fase consistiu nas entrevistas com os professores, pedagogas e educadores sociais. Realizamos a entrevista a partir da disponibilidade dos professores na hora atividade, em 2013 entrevistamos as professoras das escolas municipais e entre os meses de setembro e outubro de 2014 os professores das escolas estaduais, também na hora atividade de acordo com a disponibilidade desses sujeitos. As entrevistas com os educadores sociais aconteceram nos espaços das instituições de contraturno em outubro de 2014.
Para a devolutiva às famílias que participaram da pesquisa, aproveitamos o espaço das reuniões com os pais nas três instituições A, B e C, respectivamente entre os anos de 2012, 2013 e 2015. Nessa oportunidade foram expostas aos pais nossas primeiras análises dos resultados. Nessa ocasião, houve participação intensa por meio de questionamentos e troca de experiências entre os pais e responsáveis.
A seguir apresentamos os procedimentos que adotamos para o desenvolvimento da pesquisa.