Nesse trabalho optamos por desenvolver a investigação combinando duas dimensões metodológicas: a pesquisa etnográfica e o método clínico piagetiano. Essa opção veio fortalecer nossa experiência em campo de pesquisa, pois pretendíamos estabelecer a correlação entre as informações e os informantes, mas para isso precisávamos compreender como os grupos se integram e de que forma acontece essa integração. Além disso, desde o início da investigação, pontuamos que a junção de diferentes metodologias poderia proporcionar maior fidedignidade das informações desde a coleta até a análise.
4.3.1 Pesquisa Etnográfica
A abordagem de pesquisa etnográfica faz-se necessária no sentido de que a inserção da pesquisadora foi imprescindível na tentativa de compreensão da realidade dos sujeitos. Essa abordagem permite entender como os indivíduos desenvolvem suas próprias experiências. Também traz a visão de totalidade no processo interpretativo. Na etnografia fica realçado que o comprometimento da pesquisa está em expressar, por meio da explicação e compreensão, como foi possível entender o modo pelo qual o sujeito realiza sua própria experiência. A
abordagem etnográfica vai ao encontro de narrativas, numa intensa trajetória que compreende desde as relações mais particulares dos sujeitos, até à totalidade da cultura em que estão inseridos como protagonistas de seu modo de ser (GHEDIN; FRANCO, 2008).
O processo interpretativo é visualizado com totalidade na etnografia. Assim, o trabalho etnográfico caracteriza-se pela tentativa de compreender a maneira de viver, além de sua manifestação. A etnografia busca a compreensão integral de um sistema simbólico e analisa suas propriedades. Desse modo, o pesquisador assume o papel de observador, entrevistador e analista. Como observador adota o ponto de vista do grupo investigado, o que demonstra interação social explícita na abertura para o grupo e na sensibilidade para sua lógica e cultura (GHEDIN; FRANCO, 2008).
Na pesquisa em educação, o elemento mais importante é a compreensão que se destaca na singularidade do sujeito. Sujeito que é capaz de adotar significados e dar sentido a algo ou alguma coisa. É necessário compreender para entender e entender para dar significado. No contexto que a pesquisa etnográfica se constrói, é necessário que o investigador possua clareza quanto aos objetivos da pesquisa e um entendimento de totalidade do trabalho de campo (ALMEIGEIRAS, 2006).
Esse tipo de investigação exige do pesquisador a flexibilização e abertura aos sujeitos. Assim como também, a imersão na cultura dos informantes, o conhecimento dessa cultura e a boa relação com os sujeitos, a fim de captar as informações de maneira natural e sem comprometer as atividades normais dos sujeitos no campo de pesquisa. Nesse processo, a aceitação do pesquisador no grupo investigado é fundamental para o desenvolvimento de todo o processo investigativo, isso porque, a presença de alguém estranho ao grupo pode comprometer todo o trabalho de campo. Isso pode provocar nos indivíduos um comportamento diferenciado não somente com o pesquisador, mas entre os integrantes do próprio grupo (ALMEIGEIRAS, 2006).
Conforme Almeigeiras (2006), o investigador etnográfico precisa exercitar três aprendizagens: do olhar, do diálogo, e do registro. Essa última equivale à transformação do olhar em escrita, e a aprendizagem do diálogo corresponde à experiência que supõe a passagem de um monólogo em diálogo, no sentido de ter conquistado a confiança dos sujeitos. Essa conquista é fundamental para o
desenvolvimento dessa modalidade de pesquisa. O pesquisador precisa adentrar ao grupo, mas de maneira que lhe dê invisibilidade enquanto pesquisador e concretude como pertencente ao grupo. De acordo com Sarti (2011), é necessário entrar no universo do sujeito e tentar entender seu mundo de significação.
O trabalho etnográfico com crianças envolve uma característica central que está na proximidade com o sujeito, essa proximidade prevê (con)vivência e cumplicidade (CORSARO, 2005; GRAUE; WALSH, 2003). Elementos importantes para conseguir entender as atitudes de determinados grupos ou indivíduos. No entanto, essa característica exige do pesquisador a postura ética enquanto pessoa e profissional. Em todas as etapas do trabalho, há a necessidade de autoavaliação quanto a possibilidade de interferência maior que a realmente necessária no grupo. É comum que ao se tornar parte do grupo, as crianças passem a confidenciar ao pesquisador coisas que causem certo desconforto a esse, sendo que nem tudo faz parte do processo de pesquisa, mas é necessário ter a escuta atenta ao sujeito. (GRAUE; WALSH, 2003).
Nessa prática, a observação do grupo antecede a aproximação efetiva e consequentemente a inserção do pesquisador na vida dos sujeitos. A familiarização com os aspectos pertinentes às crianças que participam do grupo é que darão subsídios para o investigador se aproximar e adentrar ao grupo. As crianças são muito curiosas, observadoras e questionadoras quanto à presença de um estranho, ainda mais de um estranho adulto. O processo de aceitação pelos sujeitos é lento e gradual, exige paciência e persistência do pesquisador. (CORSARO, 2005). Nessa perspectiva, o trabalho de pesquisa leva mais tempo para se tornar efetivo, se comparado a outras modalidades. No entanto, a experiência é rica em detalhes e informações.
4.3.2 Método Clínico Piagetiano
O trabalho com o método clínico piagetiano, conforme Carraher (1991), refere-se à arte de perguntar que não se limita a observação superficial, ao contrário, pretende capturar o que está oculto por trás das aparências. Nesse método, a observação do pesquisador é fundamental no sentido de avaliar até a menor observação feita pelo indivíduo. O pesquisador não se contenta com respostas incompreensíveis e busca o pensamento mais escondido até desvelá-lo.
Para evitar a incompreensão, as perguntas precisam ser marcadas pela permanente intervenção do interrogador, que visa, com isso, provocar a busca de diferentes hipóteses de respostas. Portanto, o entrevistador deve fugir de qualquer tipo de questionamento fixo e direto.
A postura do interrogador demonstra sua intenção de estimular o pensamento. É assim que, sem sentir-se pressionado, o indivíduo responde de modo espontâneo, e exterioriza por completo seus pensamentos. Isso permite ao investigador conhecer e analisar a organização mental do sujeito (PIAGET, 2005; CARRAHER, 1991). Nessa abordagem é imprescindível que o entrevistador confronte o entrevistado com problemas reais, concretos. Existem duas características centrais para que o método clínico se desenvolva: o saber observar, em que o entrevistador precisa estar atento a todas as ações e reações do entrevistado; e saber buscar algo de preciso, ou seja, possuir hipóteses que possam auxiliar no controle da entrevista (CARRAHER, 1983).
Talvez uma das maiores dificuldades na efetivação do método clínico esteja na postura do entrevistador, uma vez que em nenhum momento esse deve interferir, quer expressando corporalmente sua reação, quer no sentido de completar ou concluir as frases do entrevistado (CARRAHER, 1983; PIAGET, 2005). A interferência do entrevistador, no momento da fala do sujeito, pode comprometer o esquema que o entrevistado poderia ter construído em relação ao problema lhe apresentado. Além disso, a intenção de Piaget, ao propor esse método, está na busca pela compreensão de como o sujeito realiza a análise de determinada situação ao responder a um questionamento, e se existem contradições e coerência em seu pensamento (QUEIROZ; LIMA, 2010).
A virtude mais significativa desse método está na capacidade de avaliar de forma dinâmica as situações, por se mostrar revelador e reflexivo não somente para o entrevistador, como também, e mais importante, para o entrevistado (QUEIROZ; LIMA, 2010). A partir da interferência e insistência do entrevistador em desvelar uma situação, o entrevistado tem a oportunidade de refletir sobre essa situação, deparando-se com problematizações não realizadas anteriormente.
O método clínico enfatiza muito mais o processo pelo qual o sujeito chega a uma conclusão, do que propriamente esse conteúdo. Diante disso, três fatores são fundamentais para a concretização do método, são eles:
1) encontrar a explicação, a coerência interna que englobe todas as respostas dadas e a reação do sujeito diante das contradições que lhe foram apontadas; 2) esclarecer a relação entre os elementos cruciais na resolução do problema e o raciocínio do sujeito; 3) compreender o significado da ação mental realizada pelo próprio sujeito ante o significado da ação dado pelo examinador, ultrapassando, desse modo, a aparência imediata da resposta (ROSSO, 1998, p. 126).
Nessa pesquisa optamos por trabalhar com o método clínico não clássico, definido por Rosso (1998) como uma associação com outras técnicas como a observação e a análise de conteúdo. Da mesma forma que o autor, nós escolhemos trabalhar com diferentes abordagens para dar sustentação à pesquisa. Essa escolha está relacionada ao volume de dados obtidos.