Com relação à concepção curricular, a instituição escolar seleciona, com base na cultura que defende, uma gama de conteúdos que serão passados aos alunos por meio do currículo, e, portanto, atenderá certos interesses. Nesse processo, é atribuída à escola uma diversidade de finalidades, seja “socialização, de formação, de segregação ou de integração social etc.” (SACRISTÁN, 2000, p. 17). Portanto, ao se pensar sobre objetivos, conteúdos, divisões curriculares, metodologias e nos problemas que são
gerados pelo currículo, faz com que se tenha consciência que é por meio do currículo que se tem estabelecidas as funções sociais que assumem a escola (SACRISTÁN, 2000).
Para Sacristán (2013), o currículo tem seu significado construído historicamente, sendo que, no passado, assumiu significados que ajudam a compreendê-lo na atualidade. Currículo, para esse autor:
[...] deriva da palavra latina curriculum (cuja raiz é a mesma de cursus e currere). Na Roma Antiga falava-se do cursus honorum, a soma das “honras” que o cidadão ia acumulando à medida que desempenhava sucessivos cargos eletivos e judiciais, desde o posto de vereador ao cargo de cônsul. O termo era utilizado para significar a carreira, e, por extensão, determinava a ordenação e a representação de seu percurso. Esse conceito, [...] bifurca-se e assume sentidos: por um lado, refere-se aos percursos ou decorrer da vida profissional e seus êxitos [...] Por outro lado, o currículo também tem o sentido de constituir a carreira do estudante e, de maneia mais concreta, os conteúdos deste percurso, sobretudo sua organização, aquilo que o aluno deverá aprender e superar e em que ordem deverá fazê-lo (SACRISTÁN, 2013, p. 16).
Em sua origem, o currículo esteve associado à carreira profissional na Antiguidade. Tal compreensão traz, para o presente, os vestígios e a origem desse termo, mas também ganha espaço na escola, como elementos necessários para conduzir a carreira dos estudantes, indicando o que deverá aprender no processo educacional, em que momento, assim como o que precisa ser superado.
A palavra “currículo” ganha significado de “território demarcado e regrado do conhecimento correspondente aos conteúdos” (SACRISTÁN, 2013, p. 17). Em vista disso, a perspectiva de currículo está centrada em imposição de planos de estudos, tanto para os professores, no âmbito de sua atuação docente, quanto para os alunos, na questão da aprendizagem. Assim, o “currículo a ensinar” representa conteúdos escolhidos para se ensinar, de modo que ele passa a ter um controle sobre ações didáticas desenvolvidas na escola (SACRISTÁN, 2013, p. 17).
No que se refere à função do currículo, são destacadas duas situações: “- organizadora e ao mesmo tempo unificadora – [...] cria um paradoxo, devido, que nele se reforçam as fronteiras (e muralhas) que delimitam seus componentes, a separação entre as matérias ou disciplinas que o compõem” (SACRISTÁN, 2013, p. 17).
Um ponto crítico do currículo diz respeito à seleção de conteúdos para integrá-lo, de modo que as escolhas que se tem de um currículo hoje não conformam a única forma possível. O currículo também é visto como uma seleção de conteúdos, o que o torna, muitas vezes, um campo de disputas: “não é algo neutro, universal, imóvel, mas um território em controverso e mesmo conflituoso a respeito do qual se somam decisões” [...] (SACRISTÁN, 2013, p. 23).
Nessa relação de conflito, de separação, é necessário que haja uma reflexão quanto à seleção dos conteúdos contemplados e os que são deixados de lado. De modo geral, a escola tende a adotar modelo seletivo de educação, privilegiando um tipo de cultura expresso pelo currículo e, portanto, ela acaba sendo instrumento de interesses que são concretizados e transmitidos pelo currículo estabelecido (SACRISTÁN, 2013, p. 23).
Em referência à ideia de cultura, Eagleton (2005) entende que a palavra é complexa, abrangendo uma infinidade de significados:
[...] a raiz latina da palavra “cultura” é colere, o que pode significar qualquer coisa, desde cultivar e habitar e adorar e proteger [...] Se “Cultura” significa, um cuidar, que é ativo, daquilo que cresce naturalmente, o termo sugere uma dialética, entre o artificial e o natural, entre o que fazemos ao mundo, e que o mundo nos faz [...]. O cultural, é o que podemos mudar, mas o material a ser alterado tem a sua própria existência autônoma, a qual então lhes empresta algo da recalcitrância da natureza. Mas cultura também é uma questão de seguir regras, e isso também envolve uma interação, entre o regulado e o não regulado. [...] Na Idade Moderna, a cultura se tornará ou sabedoria olímpica ou arma ideológica (EAGLETON, 2005, p. 10- -9).
Uma cultura pode admitir diferentes significados. Inicialmente, há uma preocupação com a maneira de cultivar, de plantar e proteger, de modo que cultura assume a necessidade do cuidar, estabelecendo uma relação entre as pessoas e o mundo, e as transformações entre ambos. Cultura também pode significar seguir regras e, de certa forma, estabelecer um controle sobre as pessoas. Assim, mesmo na modernidade, o conceito de cultura representa, de um lado, a aquisição de conhecimentos, e de outro, seu uso ideológico.
A cultura tem sido uma preocupação da contemporaneidade, tendo em vista que ela almeja “entender os muitos caminhos que conduziram os grupos humanos às suas relações presentes e suas perspectivas de futuro” (SANTOS, 1994, p. 7). As transformações humanas estão permeadas por atritos, devido à
maneira diferente de viver em sociedade e de se apropriar de recursos ofertados pela realidade em que se vive. Desse modo, a História revela as modificações da cultura por forças interiores ou por relações de conflitos; assim, ao abordar a cultura é relevante discorrer sobre a humanidade e toda a diversidade de existência (SANTOS, 1994).
Com a relação à ideia de cultura, apresenta-se o conceito de Geertz (1989):
O conceito de cultura que eu defendo, é essencialmente semiótico. Acreditando como Marx Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo as suas teias e a sua análise; portanto, não como sendo uma ciência experimental em busca de leis, mas como uma ciência interpretativa à procura do significado (GEERTZ, 1989, p. 15).
O conceito de cultura defendida por Geertz se fundamenta em sinais deixados pela humanidade, de modo que a cultura é vista como uma forma de compreender e interpretar o mundo, a partir de diferentes significados construídos pelo homem.
Entretanto, cultura diz respeito à humanidade inteira e, também, aos diferentes grupos formados por povos e nações presentes na sociedade. Quando se busca discutir a existência de toda essa diversidade de cultura, isso representa um campo de conflito, uma vez que cada agrupamento da sociedade possui variações de cultura: apresenta diferenças de família, trabalho, habitações, entre outras; que fazem sentindo para a sociedade que vive em determinada realidade (SANTOS, 1994, p. 8-9).
Candau (2013) diz que não há uma educação que não esteja permeada por outras culturas, pode-se compreender que há uma relação muito próxima entre educação e diferentes culturas. No entanto, momentos conhecidos na sociedade revelam um profundo atrito entre diferentes culturas (CANDAU, 2013, p. 13).
Dessa forma, a relação entre educação e cultura instiga a se pensar em questões trazidas pelo “multiculturalismo”, em situações que abrangem dimensões em escala de mundo, nacional, local e, portanto, em cada lugar que estabelecemos convivência. Nesse sentido, trabalhar com questões multiculturais depende do contexto, sendo que há diferentes discussões a serem realizadas (CANDAU, 2013, p. 17).
Por fim, a escola contemporânea ainda aborda, em sua configuração curricular, uma cultura centrada em interesses do passado. Apesar de muitos anos terem se passado, a configuração da escola pensada por conquistadores ainda permanece e se reafirma por meio de uma cultura escolar instituída nos territórios construídos pelo currículo escolar. Sabendo disso, a diversidade na escola representa desafios que precisam ser considerados no processo de ensino e de aprendizagem, buscando caminhos e possibilidades, como aborda a seção a seguir.
3.3 Lidar com a Diversidade na Escola – Questões – Caminhos –