3.3 Construction du mod` ele du syst` eme boucl´ e
3.3.4 Mod´ elisation d’un contrˆ oleur avec recherche de stabilit´ e
Os padrões interacionais familiares tendem a se repetir ao longo das gerações e este fenômeno pode ser visto nas pesquisas e atendimentos de famílias. Cerveny (2000) faz uma síntese histórica e aponta que a preocupação com as repetições, no âmbito do intergeracional familiar, é antiga e de certa forma, as repetições já foram estudadas por vários teóricos em diversas linhas.
Laing (1969), citado por Cerveny (2000), afirma que o que se internaliza nos indivíduos não são os objetos como tais, mas sim, padrões de relação, por meio de operações internas. Segundo este autor, cada geração projeta na seguinte elementos derivados do produto de pelo menos três fatores: (1) o que foi projetado nela por gerações anteriores; (2) o que foi induzido nela por gerações anteriores e (3) o que foi sua resposta a essa projeção e a essa indução. Cerveny aponta que esta posição de Laing se mostra similar a do filósofo Sartre quando afirma que somos aquilo que fazemos com o que fizeram conosco.
Bowlby (1990), por sua vez, em sua teoria sobre o apego, também propôs que as pessoas internalizam as experiências com seus significantes na forma de modelos de relacionamento e ressalta que estes, uma vez formados, são resistentes a mudanças. Sobretudo pelo fato de que, nos seus relacionamentos ao longo da vida, as pessoas provavelmente escolhem parceiros que validam suas estratégias internas e, quando estas pessoas se tornam pais, geralmente estabelecem com seus filhos um padrão de relacionamento similar.
Destacam-se também, os teóricos sistêmicos que observaram e pontuaram a repetição de certos padrões de interação familiar. Cerveny (2000) ressalta que cada autor privilegiava a descrição da repetição no padrão mais envolvido com seus aportes teóricos específicos, sendo a repetição enfocada apenas sob esses aspectos. Por exemplo, para Haley (1976), as repetições foram anotadas na forma de padrões de hierarquia e poder dentro da família. Ferreira e Andolfi (1987) descreveram mitos que se perpetuam através das gerações. Watzlawick (1973) pressupõe a repetição a partir da comunicação, usando o conceito de feedback. Bowen (1998) refere-se à transmissão multigeracional de pautas familiares que têm uma força expressiva na vida emocional das famílias. Minuchin (1982), em sua Teoria Estrutural, fala da força da matriz familiar que está presente na repetição dos padrões interacionais. Boszormenyi-Nagy e Spark (1973) referindo-se às pautas do conflito de lealdades no casamento, dizem que quando um casal se une, um dos
componentes motivacionais para o novo compromisso é a fantasia de criar uma unidade familiar melhor do que a família de origem, e que pode haver críticas do casal quanto aos padrões que eram seguidos nas famílias de origem (ou mesmo pacto de mudá-los) contudo, continuam repetindo-os.
Como exposto, os teóricos sistêmicos estudaram e descreveram as repetições com foco específico de acordo com seus pressupostos teóricos. Diante disso, Cerveny (2000) e seu grupo de pesquisa se propuseram a estudar a repetição em quase todos os padrões de interação e ressaltam a necessidade de se desenvolver mais pesquisas desta amplitude. A autora afirma que:
Ampliar os modelos de repetição para o máximo de padrões de interação, ver as possibilidades de como se faz a transmissão dessa repetição, poder trabalhar preventivamente e não só curativamente, assumir que existem boas repetições e que elas devem ser conservadas na identidade de cada família também faz parte desse trabalho. (p. 41) Em uma pesquisa qualitativa, através de estudo de casos, Cerveny (2000) estudou e identificou a transmissão intergeracional pela análise de sete categorias de padrões de interação, fundamentadas em diversas teorias sistêmicas: a comunicação; as regras familiares; os mitos; as sequências da repetição de modelos; as triangulações; os padrões de afetividade na família; e hierarquias. Dentre os sujeitos pesquisados, percebeu-se que as famílias de origem são pouco conhecidas e que as histórias das famílias se perderam, propiciando o enfraquecimento da identidade das famílias, com rupturas e distanciamentos. A autora destaca a importância de se voltar às famílias de origem para mudar a natureza das transações do passado e no presente. E ainda, que a percepção e o descobrimento da repetição de padrões interacionais, intergeracionalmente, podem levar a mudanças significativas e também paralisações angustiantes, mas, sobretudo, tende a transformar a experiência em conhecimento.
A partir da reunião de autores de diversas universidades brasileiras e do exterior, Tomizaki (2010ab) apresenta uma discussão sobre os desafios teórico-metodológicos enfrentados pelos pesquisadores ao se debruçarem sobre a análise de variados processos de transmissão intergeracional. A autora destaca os aspectos fundamentais que devem compor um quadro de análise dos conjuntos
geracionais, que são: (1) idade; (2) situação de classe; (3) experiências comuns (concretas ou simbólicas); (4) relação com outras gerações (sucessoras ou antecessoras); (5) conjuntura histórica (social, econômica e política) na qual se inscrevem as gerações; e (6) família/relações de parentesco.
Segundo a autora, todo e qualquer estudo que se proponha a analisar as práticas, percepções e discursos de um dado grupo social em uma perspectiva geracional precisa, necessariamente, partir da composição das duas primeiras variáveis: idade e situação de classe, sendo que estas só farão sentido na compreensão de uma geração na medida em que puderem ser relacionadas a um conjunto significativo de experiências compartilhadas pelos membros do grupo estudado. De forma que, somente a conjugação desses três elementos (idade, situação de classe e experiências comuns) pode revelar, de modo preciso, os contornos de uma geração. Além disso, há que se considerar a dimensão familiar e a conjuntura histórica do período no qual se inscrevem as gerações assumidas como objeto de estudo, pois as gerações familiares nunca se encontram descoladas da realidade das gerações sociais ou históricas e são continuamente influenciados pela ordem social, política e econômica vigente. Neste contexto, vê-se que transformações sociais são capazes de apresentar desafios suficientemente significativos, a ponto de provocarem o surgimento de novos comportamentos e atitudes nos grupos familiares e sociais (Tomizaki, 2010b).
Os aspectos fundamentais apontados por Tomizaki (2010b), a serem considerados nos estudos dos processos intergeracionais, contém elementos de contextualização característicos de uma abordagem sistêmica dos fenômenos e podem ser relacionados, de certa forma, às dimensões de análise propostas pela Teoria Bioecológica do Desenvolvimento Humano. Por exemplo, o aspecto da “dimensão familiar/ relações de parentesco” e as “experiências comuns” podem ser relacionadas aos microssistemas e os processos proximais que neles ocorrem. E aspectos da “situação de classe” e “conjuntura histórica, social, econômica e política” aos elementos do macrossistema e cronossistema.
De acordo com Tomizaki (2010b), transmitir e herdar são duas facetas de um mesmo movimento que coloca as gerações diante do desafio de definir como devem se conduzir em relação à sua herança, que pode ir dos bens estritamente materiais aos totalmente simbólicos, bem como pode ser pensada tanto no plano das microrrelações sociais
(como as familiares), quanto em uma dimensão macrossocial (como os sistemas previdenciários, regulados pelo Estado).
No contexto da temática da criação dos filhos, estudos indicam a ocorrência da transmissão intergeracional de estilos parentais (Carmo & Harada, 2006; Oliveira et al., 2002; Weber, Selig, Bernardi & Salvador, 2006) e nesta tese buscar-se-á uma compreensão de como a coparentalidade é influenciada pela intergeracionalidade.