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Vimos que o estranhamento em relação ao mundo e a consequente incapacidade de assumir o papel de seu representante diante dos alunos não são apenas caprichos de alguns professores irresponsáveis, de modo que outros poderiam optar por uma atitude mais ajuizada. Não se trata de comportamentos individuais ou de uma categoria profissional; a crise na educação se insere num mal-estar mais abrangente e, por isso, dificilmente haverá soluções imediatas ou apenas pragmáticas.

Num mundo extremamente instável – em que não há garantias de que todos possam ter um lugar nele, onde cada um está preocupado antes de mais nada com sua sobrevivência, porque nada lhe garante que ele não possa ser substituído por outro a qualquer momento, onde o status das pessoas e suas relações sociais dependem em grande parte de seu salário –, qualquer responsabilidade que não esteja diretamente ligada ao próprio bem-estar parece ser uma exigência inaceitável. Soma-se a isso que são poucas as reais possibilidades de participação política e raras as oportunidades de atuação em espaços comuns onde de fato a ação do cidadão faça diferença.

Assim, alunos e professores experimentam aquilo que, segundo Arendt, caracteriza a sociedade de massas – sociedade composta por indivíduos isolados que não tomam decisões sobre o mundo nem assumem responsabilidade por ele, mas apenas funcionam no grande processo de produção e consumo. “Partículas” que estão expostas aos movimentos arbitrários do mercado e que, a qualquer momento, podem ser substituídas por outras “partículas” ou por novas tecnologias. Nessa ótica, o professor preenche apenas uma função e, assim, se vê, por exemplo, numa situação em que compete com os meios de comunicação. De modo crescente, as pessoas vivem sob a ameaça de exclusão, o que exige o permanente esforço de comprovar que possuem algum valor ou alguma utilidade e que não são descartáveis.

Como falar do mundo comum numa sociedade atomizada? Como acender nas crianças o interesse pelo legado histórico, se o seu futuro provavelmente será a luta pela própria sobrevivência? Como dizer aos novos que este mundo será deles, se eles não têm um lugar garantido nele, se o mundo sequer precisa deles porque já há desempregados demais, as periferias estão inchadas e cada pobre a mais é uma ameaça adicional à segurança da sociedade? Como o professor pode se sentir parte de um mundo no qual não recebe reconhecimento?

Arendt, que já nos anos 50 aponta para o impasse na educação, constata que, antes de mais nada, estamos diante de uma opção fundamental: ou desistimos do mundo e das crianças ou resolvemos que, apesar de tudo, apostaremos no mundo e cuidaremos dos novos. Ao dilema da educação sobre como introduzir as crianças num mundo fragmentado, Arendt parece responder: “Não sei, mas sei que não podemos abrir mão nem do mundo nem das crianças”.

A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos as nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum (ARENDT, 1990a, p. 247).

A educação é o ponto decisivo e a decisão a ser tomada envolve dois amores: o amor ao mundo e o amor às crianças. É um duplo amor que é preliminar à dupla responsabilidade do educador. Vimos antes que, para Arendt, aquele que educa é duas vezes responsável frente ao fato da natalidade – precisa proteger o mundo contra as crianças e as crianças contra o mundo. Mas a capacidade de assumir esses compromissos depende de uma escolha anterior: apostar32 ou não no mundo humano e em seus habitantes mais novos.

Afirmar que essa aposta resulta de uma decisão é ressaltar que o amor mundi não é algo natural, dado ou óbvio. Ele também não é uma solução, mas muito mais um problema. No entanto, afirma Arendt, sem essa opção primeira não é possível educar as crianças – não no sentido que ela atribui à educação.

Encontramos nos reveses da educação, portanto, os efeitos de uma crise de um alcance muito maior. “A crise na educação americana” – explica Arendt, referindo-se ao ponto de

32 O termo “apostar” aqui não se refere evidentemente à participação num jogo, mas sim a uma confiança (e não ciência) antecipada e ao empenho numa causa da qual ainda se desconhece o final (DICIONÁRIO ELETRÔNICO HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA, 2002).

partida de sua reflexão – “apresenta um problema imensamente difícil por ter surgido sob as condições de uma sociedade de massas e em resposta às suas exigências” (ARENDT, 1990a, p. 228).

Na visão de Arendt, a sociedade de massa é a extinção do mundo comum. Esse não- mundo e seus habitantes é objeto de sua análise e reflexão ao longo de toda sua obra. Em

Origens do totalitarismo ela mostra como os movimentos totalitários encontram na sociedade de massa condições perfeitas para o seu crescimento. Em A condição humana, especialmente no último capítulo, ela procura compreender quais os eventos que, na Era Moderna, se revelaram desencadeadores (não causais) de processos nos quais não há mais objetivos nem atores humanos, mas apenas forças e necessidades, às quais aparentemente precisamos nos submeter. O nazista Eichmann (Eichmann em Jerusalém) é finalmente o ser paradigmático daqueles que se isentam de qualquer responsabilidade pessoal e, já que não pensam mais por si próprios, estão dispostos a fazer qualquer coisa.

A crise na educação descreve como o não-mundo invade o espaço da educação, o que é sobremodo preocupante, já que aqui lidamos com crianças, aqueles que ainda não são responsáveis nem conhecem o mundo. Nesse âmbito, a crise se mostra especialmente ameaçadora e exige respostas resolutas. Arendt reage à crise nessa esfera de modo enfático, evocando o amor mundi.

Chama à atenção que Arendt dê nesse ensaio um lugar de destaque ao termo amor. Não obstante os estudiosos da obra arendtiana terem familiaridade com o amor mundi, por muitos destacado como traço fundamental do pensamento de Arendt, a própria autora usa o termo em pouquíssimos momentos. Encontramos, sim, diversas reflexões críticas sobre o amor enquanto sentimento não político, ou até anti-político (leia-se anti-mundo)33. Nesse sentido, a ênfase dada ao amor ao mundo e às crianças em sua abordagem sobre educação é significativa. Que amor é esse e por que ele é especialmente relevante na educação?

Pensamos que a reflexão de Arendt em A crise na educação caracteriza-se por dois movimentos fundamentais: por um lado, os efeitos do não-mundo na educação e, por outro, a primazia do amor mundi. Ambos são traços marcantes no pensamento da autora. Nesse sentido, pretendemos, no que segue, visualizar em sua obra, particularmente em A condição

humana, de que forma ocorre o desmoronamento do mundo humano na modernidade. Essa leitura elucidará a profundidade da crise na educação. Em seguida, perguntaremos o que significa responder à crise com o amor mundi.

33 Para um exame mais detalhado do termo amor em Arendt, ver item Amor mundi no próximo