A madeira é afectada por vários microrganismos: bactérias xilófagas, algas e fungos xilófagos. Embora algumas ocorram em coexistência, podemos classificá-las individualmente, em particular no que concerne ao dano que causam, como é o caso das bactérias, as quais podem ser divididas em três categorias fundamentais, (dentro das ordens Pseudomonodales, Eubacteriales,
60 NUNES, Lina; NOBRE, Tânia – Térmitas subterrâneas em Portugal. [Consulta a 11.11.2011],
em http://naturlink.sapo.pt/article.aspx?menuid=2&cid=12122&bl=1&viewall=true.
61 Vd. LIOTTA, Giovanni – Gli insetti e i danni del legno. Problemi di restauro. Op. Cit., pp. 40 a
42.
Myxobacteriales e Actinomycetales63): bactérias produtoras de túneis, bactérias produtoras de erosões e bactérias produtoras de cavidades. No caso das primeiras as paredes primária e secundária são as mais afectadas, por causa da menor quantidade de celulose e lenhina, o que promove subtracção de resistência. Estas bactérias encontram-se principalmente na madeira húmida, adjacente a solo húmido ou água. As bactérias que produzem erosão procuram também madeira bastante húmidas, sendo que atacam particularmente as paredes secundária e exterior, ricas em celulose cristalina. Por último encontram-se as bactérias produtoras de cavidades, as quais são muito similares à podridão cúbica e afectam as paredes terciária e secundária, o que provoca a abertura de cavidades e fissuração nos sentidos paralelo e perpendicular às fibras. Todas estas bactérias se relacionam com elevado teor de humidade e alimentam-se de substâncias que se encontram na parede celular (celulose e hemicelulose), perto dos raios lenhosos. Frequentemente encontram-se em relação simbiótica com os fungos xilófagos, sendo que as bactérias promovem transporte e armazenamento de nutrientes que alimentam o fungo, uma vez que exercem acção enzimática sobre a madeira, reduzindo os seus componentes em soluções aquosas de açúcares. A colonização da madeira pelas bactérias protege ainda as hifas dos fungos, mediante a produção de uma película extracelular64. A colonização de bactérias na madeira é um processo lento e dependente da acção da temperatura e de oxigénio65.
Na madeira pode ocorrer ainda o crescimento de algas (azuis, verdes e douradas), que contribuem para a coloração, de acordo com a absorção de radiações solares e de água66.
No que concerne aos fungos xilófagos, podemos classificá-los em duas categorias fundamentais: fungos de podridão e fungos cromogéneos e bolores. Estes organismos são seres vivos eucarióticos, com um só núcleo, ou
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Vd. SANTACESARIA, Andrea – I fattori di degrado dei supporti lignei. In Dipinti su Tavola. La
técnica e la conservazione dei supporti. Florença: EDIFIR Edizioni Firenze, 2003, p. 118.
64 Vd. RODRIGUES, Romana – Construções antigas de madeira: experiência de obra e reforço
estrutural. Op. Cit., p. 49.
65
Vd. SANTACESARIA, Andrea – I fattori di degrado dei supporti lignei. In Dipinti su Tavola. La
técnica e la conservazione dei supporti. Op. Cit., p. 118.
66
Vd. RODRIGUES, Romana – Construções antigas de madeira: experiência de obra e reforço
multinucleados. Constituem-se por um corpo vegetativo, amorfo, que se propaga mediante esporos, os quais dão origem ao micélio (este pode ser vegetativo, quando se desenvolve dentro do substrato, servindo como sustentação e ponto de alimentação, ou aéreo, quando se projecta fora do substrato, permitindo a reprodução, quando contém corpos de frutificação ou propágulos). O micélio é formado por filamentos constituídos por hifas, esporângio e esporos67. Os fungos xilófagos cromogéneos e os bolores alimentam-se introduzindo as hifas nos vasos e traqueídos, dos quais extraem substâncias, ou a partir dos componentes das paredes celulares (celulose e lenhina), como no caso dos fungos de podridão. Os fungos cromogéneos são resistentes, na medida em que podem sobreviver a condições adversas em estado de latência, provocam coloração, contudo não altera as propriedades físicas e mecânicas da madeira, o que significa que não são particularmente perigosos. Os bolores, por sua vez, constituem um caso mais preocupante, na medida em que propiciam o aparecimento dos fungos de podridão. Reconhecem-se pelo seu aspecto semelhante ao algodão, podendo apresentar-se mediante coloração branca, acinzentada, com manchas escuras68.
Por último resta-nos analisar os fungos de podridão, os quais são os mais danosos para a madeira, uma vez que influenciam as suas propriedades físico-mecânicas, nomeadamente diminuem a densidade, resistência e aumentam o teor de humidade. São fáceis de identificar através do odor característico, a mofo, pela alteração da coloração da madeira, que pode tornar-se cinzenta ou branca, e através da fissuração do material lenhoso. Existem três tipos de podridão: branca, branda e cúbica, ou cinzenta. Os primeiros têm preferência pela lenhina, o que justifica ser mais comum nas madeiras resinosas, embora também possam assimilar celulose e hemicelulose, especialmente quando o pH serve de catalisador para a acção enzimática (pH 4,5 a 4,7), em ambientes ricos em oxigénio, nitrogénio e glicose69. Ainda assim, importa ressalvar que os fungos são, geralmente, muito resistentes a valores de pH inóspitos, entre 2 e 7-8. Esta resistência geral
67
Vd. Idem, p. 50 e Fungos (em linha). [Consulta a 25.11.2011], em
http://www.enq.ufsc.br/labs/probio/disc_eng_bioq/trabalhos_pos2003/const_microorg/fungos.ht m.
68 Vd. RODRIGUES, Romana – Construções antigas de madeira: experiência de obra e reforço
estrutural. Op. Cit., p. 51.
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prende-se com uma necessidade prática, uma vez que através da assimilação da madeira se produzem muitos ácidos, como o ácido oxálico e carbónico. Existem, contudo, excepções, como é o caso do Merulius lacrimans, particularmente sensível aos ácidos tânicos70. A podridão branca reconhece-se pelo aspecto esbranquiçado e fibroso que confere à madeira, reduzindo significativamente a resistência da mesma. No caso da podridão branda a substância assimilada é preferencialmente a celulose presente na parede secundária, e a madeira adquire um aspecto esponjoso. Por último encontram- se os fungos de podridão cúbica ou acinzentada, os mais nocivos, devido à degradação que propiciam na madeira. Preferem as madeiras folhosas, uma vez que estas possuem uma elevada quantidade de celulose e hemicelulose, deixando uma rede de fissuração reticulada muito característica. Existem três tipos de podridão cúbica: húmida (afectam madeiras com teor de humidade superiores a 20-35%), seca (as hifas detêm a capacidade de transportar humidade de madeiras húmidas para madeiras secas), e branca (forma uma película superficial esbranquiçada e fissurada)71.