Devido à existência de um quadro estratégico caracterizado pela incerteza e a imprevisibilidade política, económica e social, o conceito de resiliência foi integrado no setor da Defesa de alguns países europeus, enquanto elemento estratégico orientado para assegurar a sustentabilidade organizacional da Segurança e Defesa do Estado (Desnos, 2012).
Tendo em conta que estávamos perante um novo campo de investigação, a escassez da literatura nesta matéria levou-nos a considerar a possibilidade de identificarmos, de modo informal através das embaixadas dos respetivos Estados da UE em Lisboa, os governos que introduziram o conceito de resiliência na documentação oficial de Segurança e Defesa.
A tabela 2.1. indica os contatos telefónicos que foram realizados em 2013, de modo informal, com as referidas embaixadas. Sublinha-se que, apesar do uso do termo “informal”, foi possível percecionar que os assuntos em matéria de Segurança e Defesa são tratados pelas embaixadas de forma crítica. Algumas embaixadas remeteram para os setores da Defesa dos respetivos países. Para identificar as embaixadas que não responderam ao telefone foi colocado um asterisco (*).
Relativamente a Portugal, não foi efetuado nenhum contato direto. Foi apenas realizada uma pesquisa na internet à documentação do Ministério da Defesa.
Tabela 2.1 Embaixadas dos países da União Europeia (contactos telefónicos)
Países
Conceito de Resiliência introduzido na Defesa e
Segurança Países
Conceito de Resiliência introduzido na Defesa e Segurança
Alemanha Não Irlanda Não
Áustria * Itália Não
Bélgica Não Letónia *
Bulgária Não Lituânia *
Chipre Não Luxemburgo *
Croácia Não Malta *
Dinamarca Não Países Baixos Sim
Eslováquia * Polónia
Eslovénia Não Portugal Não
Espanha Não Reino Unido Sim
Estónia Sim República Checa Sim
Finlândia Sim Roménia Não
França Sim Suécia Não
Grécia Não
Hungria Não
Fonte: Contatos efetuados diretamente com as embaixadas entre maio e junho (2013)
No âmbito desta temática, o Reino Unido e a França apresentam alguns desenvolvimentos significativos. Em França, o conceito de resiliência foi referenciado pela primeira vez em 2008, no Livro Branco, enquanto vontade e capacidade de um Estado envolver a sociedade e os poderes públicos de modo a responder a uma ameaça, assim restabelecendo rapidamente a sua capacidade funcional (LBDSN – 2008). Neste documento, a resiliência é definida como “a vontade e a
capacidade de um país, da sociedade e dos poderes públicos suportarem as consequências de uma agressão ou de uma catástrofe e restabelecer rapidamente a sua capacidade de funcionar normalmente, ou pelo menos de uma forma socialmente aceitável”.
Em 2011, a publicação do documento de orientação estratégica, intitulado Concept Exploratoire InterArmées – 3.37 Résilience, pelo Centre InterArmées de Concepts, de Doctrines et d’Expérimentation (CICDE), teve por objetivo definir um enquadramento teórico para estabelecer os fundamentos e os princípios da resiliência aplicada ao setor da Defesa Francesa. Porém, uma vez que esse documento foi retirado da internet, esses princípios não são apresentados neste trabalho. Se, por um lado, em França (2011), o conceito de resiliência era objeto de reflexão e de estudo, por outro, no Reino Unido o conceito de resiliência foi integrado de uma forma efetiva na doutrina da armada britânica50, num documento intitulado The Defense Contribution to Resilience. Apesar deste
título sugestivo, encontramos no prefácio do documento51 apenas uma nota a referir que o termo
“resiliência” foi introduzido a pedido das Civil Authorities, com a autorização do Ministro da Defesa (p. V ponto 2). Nessa mesma página, encontramos em nota de rodapé a definição de resiliência adotada: “A capacidade da área de serviços comunitários ou infraestruturas suportar as consequências de um incidente. Deve notar-se que na terminologia militar, resiliência é definida como o grau até onde as pessoas e as capacidades serão capazes de aguentar ou de recuperar rapidamente de situações difíceis. Sempre que possível, devem ser adquiridas as capacidades, os sistemas e as munições que têm utilidade em toda uma gama de atividades e que são altamente confiáveis e robustos”.
Na época em que este trabalho foi realizado, num dos raros artigos publicados sobre a resiliência da Marinha britânica, e intitulado Royal Navy: Résilience passée, renoncement futur? Desnos (2013) analisa o papel da resiliência da Marinha britânica. O autor refere que, em 2010, uma política de austeridade sem precedentes levou o Ministério da Defesa britânico a empreender uma revisão estratégica com o objetivo de ajustar a Defesa aos novos constrangimentos orçamentais. Neste sentido, a Royal Navy redimensionou a sua estrutura operacional através de uma revisão estratégica que incidiu na redução de pessoal, na revisão da redução de programas de equipamento e no decréscimo antecipado de navios, nomeadamente dos porta-aviões HMS Ark Royal. A análise proposta fez emergir dois aspetos relevantes quanto ao redimensionamento da marinha britânica, que de alguma forma pode representar uma situação paradigmática, com mais ou menos implicações para
outras marinhas. Por um lado, constata-se que, apesar da redução das forças, não se verificou uma redução das ambições do Estado Britânico. Em 11 de Março de 2011, o Ministério da Defesa tinha prescindido da componente aeronaval e, em 19 de Março, ou seja, uma semana depois, a marinha britânica participava na operação internacional Unified Protector, da NATO, não só deixando este ramo das forças armadas fragilizado devido às consequências impostas pelo redimensionamento da marinha britânica, mas também acarretando implicações geoestratégicas, nomeadamente no que respeita à posição do governo britânico sobre as Malvinas, que entretanto não se confirmaram.
2.12 A resiliência potencial: a emergência de um conceito
A literatura refere alguns trabalhos de investigação orientados para o desenvolvimento do conceito de resiliência potencial, oferecendo perspetivas teóricas e empíricas relacionadas com aspetos sociais e técnicos das organizações.
Baseado nos trabalhos desenvolvidos por Mallak (1998), Somers (2007) refere que a resiliência potencial pode ser construída nas estruturas e nos processos organizacionais através de escalas. Diferente desta posição, encontramos os trabalhos desenvolvidos pelo CRP, nomeadamente os trabalhos de Hémond (2013) no âmbito da resiliência potencial ou, mais precisamente, do “potencial de resiliência”, um conceito pouco claro, mas que tem o mérito de traduzir uma evolução da avaliação da resiliência organizacional desenvolvida pelo CRP. De acordo com esta abordagem, o potencial da resiliência tem por objetivo compreender a influência sobre a capacidade de uma organização manter ou restabelecer níveis aceitáveis de funcionamento, apesar das perturbações. Na continuidade dos trabalhos desenvolvidos por Hémond, Marty (2014) realizou análises diagnósticas do potencial de resiliência de uma organização, no sentido de identificar as forças e as fraquezas dessa organização com o objetivo de melhorar os seus procedimentos. Todavia, nenhum desses autores aborda uma possível origem teórica do conceito.
Baseados na teoria da resiliência sócio-ecológica, consideramos que o conceito de resiliência potencial dos sistemas organizacionais encontra a sua justificação no ciclo de adaptação de um sistema sócio-ecológico proposto por Holling (2001). Com efeito, o autor refere que, quando um sistema sofre um choque, liberta recursos que vão mobilizar o potencial da organização para reorganizar o sistema num novo ciclo (Fig.2.1.).
Embora o nosso trabalho de investigação se inscreva numa continuidade dos trabalhos realizados pelo CRP, ele vem introduzir, simultaneamente, um elemento inovador que se traduz na possibilidade de mapear, com coordenadas específicas, o território conceptual de uma organização, de modo a realizar uma avaliação diagnóstica de resiliência potencial. Esta avaliação permite identificar
simultaneamente os processos e as propriedades que estão codificadas, de forma latente, na estrutura da organização, através de mecanismos de adaptação anteriores.
À semelhança das teorias de resiliência que evoluíram através de testes e de avaliações, também no âmbito das organizações alguns autores desenvolveram modelos mais ou menos complexos que permitem avaliar a resiliência organizacional.