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historique, concepts et techniques

2.3 Concepts de la programmation par composants

2.4.1 Modèles généraux

A beleza divina assusta mais que a feiura, e talvez por isso as belas dos contos aparecem assinaladas por marcas de imperfeição. O velho aforismo popular "Não há bela sem senão" alerta para a ilusão da beleza humana e para os perigos da formosura extrema. A importância social e cultural dos pressupostos ligados aos conceitos de beleza está, inclusivamente, atestada pela arte universal – mulheres formosas nos mitos de todas as culturas foram causa de grande turbulência no meio social e familiar, mas também inspiraram artistas plásticos ao longo das eras, e fizeram correr rios de tinta: Helena de Tróia, Isolda, a dos cabelos de oiro, Berthe au Grand Pied, Melusina, Dama Yang Guifei, que supostamente provocou a queda da dinastia Tang e, na História de Portugal, a linda Inês e Leonor Teles, por exemplo.

A lendária beleza humana exige, como talismã contra a inveja divina, uma marca de feiura, um defeito corpóreo visível; tão comummente essa marca é um atributo da fisiologia animal que quase podemos reconhecer por essas marcas a Fada, ou a Feiticeira: uma sublime, rara beleza na fronteira do divino, marcada com o signo forte da natureza animal. (Fig. 2.5)

Sobre a sensibilidade estética medieval, Umberto Eco diz-nos que, ao formular problemas estéticos, a antiguidade clássica tinha como modelo a natureza, enquanto os medievais, ao tratarem os mesmos temas, centraram as suas visões nos cânones da antiguidade clássica 65. Ao dizer que a "cultura medieval" é mais um comentário da tradição cultural do que uma reflexão sobre a realidade, Eco abre um precedente para ler nas entrelinhas dos contos que a tradição medieval disseminou a marca dos mitos clássicos.

Marcel Proust, atento observador da escultura e dos vitrais das igrejas românicas, incansável anotador de costumes e crenças, comentou essa realidade no extenso diário da época em que convivia de perto com os habitantes de Combray:

On sentait que les notions que l'artiste médiéval et la paysanne médiévale (survivant au XIXe siècle) avaient de l'histoire ancienne ou chrétienne, et qui se distinguaient par autant d'inexactitude que de bonhomie, ils les tenaient non des livres, mais d'une tradition à la fois antique et directe, ininterrompue, orale, déformée, méconnaissable et vivante. 66

65 Cf. Umberto ECO, Arte e Beleza na Estética Medieval, op. cit., p. 13.

Figura 2.5

"Tier Dame". Gravura de Mestre E. S, c 1460/1467.

Nesta gravura de Mestre E. S., a virgem que atrai o unicórnio para que possa ser caçado pelo cavaleiro é representada como uma mulher jovem e selvagem, cuja figura semi- -animal está mais próxima das lendas da rainha das florestas do que da dama medieval. O unicórnio, embora tenha as características físicas de um potro branco, além do longo corno, tem pés caprinos em vez de cascos de cavalo, o que confirma a sua origem mitológica.

Fonte:

Animal-Queen - The small pack of cards, etching.

(https://21stcenturyrenaissanceprintmaker.wordpress.com/2014/09/02/printing-an-intaglio-matrix- without-a-press) – Acesso: 6-2016

A proliferação dos contos de tipo melusiano, que se estende "até às margens do Vístula", meticulosamente analisada por Jacques Le Goff, poderia ser ilustrada nos mínimos detalhes pela arte medieval 67.

A ilustração que corresponde ao mês de março em Les Très Riches Heures du Duc de Berry (fig.2.6) mostra-nos uma representação de Mélusine, que documenta a ligação da fada aos mitos agrários da prosperidade rural 68. Esta Melusina, que arroteando florestas e construindo castelos e cidades "em três dias", deixou descendência vigorosa, filhos que sobreviveram à derrota da fada-mãe e à anulação do poderio do pai. Na lenda fundadora, a prosperidade cessa quando Geoffroy, um dos filhos de Melusina, queima a abadia de Maillezais, matando os monges, o que ilustra as relações tantas vezes conflituosas da nobreza medieval com o clero 69.

Aos olhos dos clérigos medievais, diz-nos o historiador, os elementos cristãos que desmascaram o súcubo – sinal da cruz, água benta, missa, hóstia consagrada – ao exorcizar a natureza diabólica do ser híbrido, explicam o mistério e revelam a moral do conto 70. Mas não é tudo: o paralelo estrutural com numerosos contos de culturas não cristãs prova cabalmente origens mais antigas. Estão em causa rituais de fertilidade (a serpente, sem pés nem braços, desloca-se coleante, com todo o corpo em união com a terra; símbolo das medicinas, muda de pele, simbolizando a regeneração orgânica). A origem "aquática" da sereia, mulher-serpente emergindo de fonte (fig. 2.8) rio ou lago, e a identificação imagética da mulher bela com pés de cabra sentada no rochedo, com as celebrações dionisíacas, remetem para os mitos arcaicos das deusas da fertilidade, dos espíritos fecundadores da natureza, do avatar multiforme da deusa-mãe.

Nas recolhas da literatura popular encontramos fragmentos e adaptações tão enleados como fio do novelo que caiu nas patas de gato novo. Os contos registados que podemos alinhar no ciclo Melusiano são tantos, anteriores e posteriores ao texto de Jean d'Arras e estendem-se por uma cartografia dos mitos tão vasta, que não nos é permitido

67 A ideia, embora espontânea, não é inédita: a editora Giulio Einaudi publicou, em 1951, a primeira

edição Fiabe del focolare de Grimm, com ilustrações de Pieter Bruegel, o Velho. Edição citada por Italo CALVINO, Sobre o Conto de Fadas, op. cit., pp. 81-82.

68 "Le mois de Mars", extrait des Très Riches Heures du Duc de Berry - Frères de Limbourg, XVe siècle,

Musée Condé de Chantilly. Na imagem vemos os campos delimitados conforme os trabalhos do povo, simbolicamente representando três grupos: as pacíficas ovelhas que dão a lã para cobrir os outros – os que rezam; cães ferozes que defendem os rebanhos – os que combatem; e os bois atrelados ao arado – os que cultivam a terra. Ilustra a "fábula simbólica" de Eadmer de Canterbury, segundo os ensinamentos de Santo Anselmo. In Jacques LE GOFF, A Civilização do Ocidente Medieval, Volume II, Capítulo VIII – "A sociedade Cristã (Séculos X - Xlll)", "Nova História", Editorial Estampa, Lisboa, 1994, pp. 10-11.

69 Cf. Jacques LE GOFF, O imaginário medieval, op. cit., p. 307.

70 “Melusina maternal e arroteadora”, in: Jacques LE GOFF, Para um novo conceito de Idade Média.

decidir com segurança se essas damas-serpentes são descendentes da serpente bíblica que, de conluio com Eva, levou Adão a provar o fruto da árvore do conhecimento, ou daquela outra serpente menos famosa que, com seu corpo afuselado tapou o buraco da barca de Noé, sacrificando-se pelos sobreviventes do dilúvio. Noutro conto tão ou mais antigo, ficamos a saber porque é que as serpentes se livram da pele velha e surgem vívidas e cintilantes como na primeira juventude: uma serpente ancestral roubou a Flor da Juventude Eterna na fonte onde se banhava Gilgamesh, rei de Uruk 71.

71In Gilgamesh, versão de Pedro TAMEN do texto inglês de N. K. SANDARS, Vega, Lisboa, 1989,

Figura 2.6

As Mui Ricas Horas do Duque de Berry: Mês de março. Irmãos de Limbourg, século XV, (Museu Condé, Chantilly)

Melusina provedora voa sobre o castelo em forma de serpente alada. Na figura vemos os campos delimitados conforme os trabalhos, representando simbolicamente três grupos:

• As pacíficas ovelhas que dão a lã para cobrir os outros: os que rezam. • Cães ferozes que defendem os rebanhos: os que combatem.

• Os bois atrelados ao arado: os que cultivam a terra.

Fontes:

Info-histoire. Les très riches heures du Duc de Berry.

http://www.info-histoire.com/144/le-calendrier-des-tres-riches-heures-du-duc-de-berry/ Acesso: 5-2016

Figura 2.7

"Raimondin découvrante le secret de Mélusine". Graveur Nicolas Guérard.

Fontes:

François Nodot - Histoire de Mélusine tirée des chroniques de Poitou, et qui sert d’origine à l’ancienne Maison de Lusignan. Barbin & Moette 1698, pp. 271. Front allégorique dessiné et gravé par Guérard. Gravure en bandeau.

Jean d'Arras, Mélusine, (Paris, 1859) British Library 12430.m.2. [vol. 7]

http://britishlibrary.typepad.co.uk/european/france/page/2/#sthash.r14IBM9R.dpuf Acesso: 5-2016