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2.3 Deux modélisations des sources acoustiques

2.3.2 Modèle « Discrete-Vortex »

Compreendia-se por parentesco um sistema de relações sociais, meio pelo qual os sujeitos classificam e são classificados como parentes e produzem parentes por códigos da consanguinidade e ou da descendência, sendo ela real biogenética ou mítica, e pelos códigos da aliança e do matrimônio (AUGÉ, 1975). De acordo com Augé, no nascedouro dos estudos sobre parentesco em antropologia, a reprodução biológica e a genealogia eram tidas como chaves universais do parentesco, sendo a própria concepção ocidental de parentesco tomada e imposta como universal quando dos estudos em diversas sociedades fora do mundo euro americano.

Em American Kinship, David Schneider ao demonstrar o parentesco americano como um sistema simbólico de classificação operante pelos registros do sangue e da lei desfez não só a oposição antropológica natureza/cultura no tocante ao parentesco, mas também expôs os fatos biológicos das relações sexuais no parentesco americano como mais um sistema dentre as possíveis e diversas construções genealógicas (YANAGISAKO, 1985). Tal ruptura no pensamento antropológico foi possível, pois ao Schneider trazer à tona uma leitura cultural da biologia no sistema americano de parentesco, ele deslocou o plano estritamente biológico da leitura biogenética do sangue e da reprodução sexual para a leitura cultural da eleição do sangue e do ato sexual enquanto símbolos fundantes do parentesco norte americano. Anterior aos estudos do parentesco norte americano realizados por Schneider, o sistema de parentesco do pensamento euro americano, suas terminologias e esquemas de associações eram concebidos como universais pelo pensamento ocidental e incorriam a equívocos como a imposição dos

registros ocidentais quando dos estudos sobre sistemas de parentesco em diferentes sociedades (MACHADO, 2013).

Em A Critique of the Study of Kinship, Schneider aprofundou sua crítica à teoria do parentesco, uma vez que ele defendeu ser o parentesco um sistema analítico antropológico privilegiado que projetava e impunha as suas próprias categorias às outras sociedades criando assim um sistema de parentesco ao invés de buscar as chaves e esquemas explicativos nativos para descrevê-los e compreendê-los em seus próprios termos (MACHADO, 2013). Na contramão das expectativas de implosão dos estudos do parentesco após os estudos críticos de Schneider, viu-se que a revolução feita por ele, ao invés de enterrar os estudos do parentesco, criou novas condições e emergências para pensar diferentes concepções de parentesco nos estudos críticos feministas a despeito do que pode ser lido em pensadoras como Marilyn Strathern, Sylvia Junko Yanagisako, entre outras. Os estudos críticos feministas impulsionaram nova vida aos estudos do parentesco ao propor pensar diferentes sistemas ou formas de produzir parentes por meio das famílias gays e lésbicas, das sociabilidades, da adoção e criação de crianças ou pelas noções de corpo, pessoa e gênero, bem como por meio de símbolos como

substância, comensalidade e etc.. A despeito da produção de parentes por meio da criação de crianças, do compartilhamento de substâncias e o parentesco social, a antropóloga Janet Carsten é uma das notáveis referências quando se está a falar sobre parentesco para além da oposição biológico/social superada em Schneider. Carsten desfez o mal estar dessa oposição ao trazer para os estudos antropológicos as diversas formas de "conexões", relacionalidades (relatedness) ou a produção de parentes possibilitando assim uma abertura para as múltiplas conexões realizadas nos diversos idiomas indígenas (FONSECA, 2003; MACHADO, 2013).

Do legado de rupturas de Schneider, a antropóloga feminista Yanagisako ultrapassou as teorias uniformistas sobre o parentesco norte americano e trouxe em

Transforming the Past, o contexto específico do parentesco entre as famílias imigrantes japonesas do período anterior a Segunda Guerra, mais precisamente, o sistema simbólico do parentesco entre nipo americanos (não hifenizados) em Seattle. Acerca do parentesco entre esses nipo americanos, a autora afirma que a compreensão desse sistema se fez possível mediante análises que considerara a sincronia dos fatos, a saber, as condições históricas dessa corrente migratória e as variações históricas no sistema de parentesco.

A imigração japonesa do pré Guerra para os Estados Unidos continental foi marcada pela emigração de homens solteiros, assentados no meio urbano com o projeto de

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enriquecimento rápido e retorno para a terra natal. A mentalidade da Era Meiji aportada por eles orientava as suas vidas para o Japão. Mas vivendo nos Estados Unidos, esses jovens para se casarem não se relacionavam afetivamente com pessoas de outros grupos étnicos. Eles procuravam suas noivas no Japão por meio do casamento acertado entre os pais dos noivos ou por meio da troca de fotos e o casamento por procuração. Acertado o casamento, as noivas passavam a morar com a família do noivo no Japão e depois migrariam para os Estados Unidos da América. Se não percebido pela ótica cultural japonesa e pelas características dessa imigração, tal arranjo ecoava incompreensível aos olhos alheios. Entretanto, essa ordenação tinha como norte a continuidade da linhagem familiar no Japão, o país para qual eles projetavam retornar.

Diferente da forma como o parentesco era concebido no sistema norte americano, assentado na escolha individual e no símbolo 'amor' (SCHNEIDER, 2012), Yanagizako (1985) destacou que entre os imigrantes nipônicos, a escolha do cônjuge não era individual, mas feita com base no coletivo tendo em vista a continuidade do sistema de parentesco japonês. Isso significava que, diverso do ideal de amor romântico, a união matrimonial se assentava na continuidade de uma instituição fundada num sistema de hierarquia entre os membros do núcleo familiar, direitos e deveres e na perpetuação do núcleo por meio da transmissão patrilinear. É certo que o racismo contra os japoneses nos Estados Unidos os excluía do perfil parceiros potenciais: brancos, cristãos, classe média. Mas era mais com base na orientação para o Japão e a continuidade da linhagem familiar que se moldavam os arranjos de casamento entre os imigrantes com os membros do mesmo grupo étnico.

Em Yanagizako (1985), atentando-se para a história da imigração japonesa e do parentesco japonês compreende-se as tramas que teceram a vida daqueles jovens tendo o Japão como centro. Percorrendo as transformações nos arranjos matrimoniais entre a geração dos filhos dos imigrantes no pós-guerra, quando esses passaram a escolher individualmente os seus cônjuges, majoritariamente nipo americanos, a autora trouxa à tona que o encarceramento em massa dos japoneses durante a Segunda Guerra contribuiu para o esfacelamento da ordem familiar nipônica. A escolha individual do cônjuge conduziu ao rompimento do sistema de hierarquia na ordem familiar modulando daí uma reinterpretação nipo americana acerca do parentesco japonês. À noção de parentesco japonês (dever, trabalho, estudos) foram acrescidos os símbolos 'amor' e 'igualdade'. E tal noção foi sendo transformada num jogo de reflexão sobre um 'passado tradicional japonês' constantemente atualizando sob à luz de, e em oposição a um 'presente americano'.

O Japão como centro moldou a vida dos imigrantes japoneses nos Estados Unidos e foi se transformando em uma referência para reconstruir um passado ideal entre os nipo americanos. O olhar de Yanagizako (1985), atento as estruturas culturais aportadas pelos jovens solteiros japoneses, trouxe à tona as dinâmicas dessa imigração nos Estados Unidos por meio do entrelaçamento entre história, imigração e parentesco, ela fez compreensível o idioma social que orientou as construções das famílias imigrantes e as reinterpretações pelo olhar dos filhos dessas famílias.

Isto posto, para compreender as dinâmicas das famílias de imigrantes japoneses no Brasil, os papeis sociais de seus membros e as transformações e tensões entre as gerações, faz-se necessário olhar para o interior dessas famílias a fim de compreende-las sob a sua ótica. Tal posicionamento lançará luzes sobre os vários campos de tensões dessa pesquisa, a saber, o parentesco, a família 'mista' e o lugar do mestiço.