Etape 7 : Relation entre contraintes et déplacements :
2.6. Modèles d’éléments finis : [FRE 01]
2.6.6. Modèle déformation :
A Primavera Árabe começou em Dezembro de 2010 mas somente a partir de 15 de Janeiro de 2011 é que aparecem as primeiras notícias no Jornal de Angola relativamente aos protestos no norte do continente. A notícia fazia referência ao anúncio de Ben Ali de que não iria mais se candidatar e abandonaria o poder em 2014172. A informação não aparecia em destaque na página inicial e seria dedicada apenas pouco mais do que 6 parágrafos. A morte do jovem Mohamed Bouazizi foi referida pela primeira vez apenas a 19 de Janeiro de 2011. Mesmo após a fuga de Ben Ali para a Arábia Saudita, o jornal não fez qualquer referência à sua renúncia. A TPA passava apenas por momentos breves esta informação não procurando entrar em pormenor.
Em Fevereiro houve maior cobertura noticiosa sobretudo no Jornal de Angola, dedicando por vezes páginas inteiras sobre as manifestações no Egipto. Contudo, em nenhuma matéria Mubarak era tratado como “ditador”. Quanto a Líbia, a TPA e sobretudo o JA, informavam que o líder líbio estava a ser vítima da sua própria vaidade e arrogância, não conseguindo fazer uma leitura dos novos tempos, que ao invés do diálogo preferiu fazer o uso da sua força militar para esmagar os protestos. Mas, a partir de Março, e com o anúncio da primeira manifestação em Angola e o começo da invasão da NATO na Líbia, a midia estatal angolana mudou completamente a sua abordagem. Kadhafi passou a ser retratado como vítima de uma conspiração internacional, a NATO
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e os países ocidentais eram retratados como invasores, os manifestantes de oportunistas e, após a morte do líder líbio, o JA anunciava que “a NATO matou Kadhafi”.
Quanto a manifestação convocada para 7 de Março, a TPA, a RNA e o JA começaram uma verdadeira campanha de desinformação e descredibilização. Em 4 de Março de 2011, o JA trazia o título “Luanda convoca grande marcha para repudiar acções contra
a paz”173. No dia seguinte isto é, a 5 de Março, o JA voltava a colocar esta matéria em destaque fazendo novamente um apelo para que as pessoas saíssem às ruas para defender a paz e a estabilidade.174
Havia muito nervosismo no seio do partido no poder e da comunicação social pública que mostrou-se igualmente bastante agitada. As notícias sobre os acontecimentos no norte de África deixou-lhes em estado de alerta máximo pois acreditava-se – apesar do partido no poder tentar demonstrar o contrário – que Angola poderia ter igualmente a sua primavera. O editorial de 8 de Março pode demonstrar claramente como o regime sentiu os efeitos da Primavera Árabe:
O que está a acontecer em África é demasiado grave para encararmos a anunciada manifestação de ontem [7 de Março] como algo desprezível. Há uma campanha internacional que visa lançar o continente em guerras civis e alimentar convulsões sociais de consequências imprevisíveis. Houve tentativas claras em Moçambique, ainda existem na África do Sul, estão em marcha uma forma dramática na Costa do Marfim, no Egipto, na Tunísia e
na Líbia.175
Um outro editorial, isto é, o do dia 10 de Março colocava igualmente esta questão no centro de sua análise, procurando denunciar uma suposta conspiração internacional. De acordo com o editorial,
O exemplo do Egipto é paradigmático. Nas redes sociais circulava muita informação. Mas a comunicação social dos países ocidentais manipulou vergonhosamente o que se passava. Promoveu manifestações que fizeram vítimas mortais. Foi o verdadeiro centro da contestação… Hoje temos naquele país africano uma situação económica calamitosa, as liberdades e garantias dos cidadãos pouco ou nada mudaram e os jovens continuam sem
173 LUANDA convoca grande marcha para repudiar acções contra a paz. «Jornal de Angola» 2011, p. 40. 174
87 perspetivas… a “revolução” manipulada pelos Média ocidentais está levar à miséria absoluta.
A mesma manipulação aconteceu no que diz respeito em Angola176.
Em Angola, para não variar, os órgãos estatais não concederam uma única entrevista aos jovens que manifestavam contra o governo, não procuraram informar com isenção, nem mesmo a ação da polícia contra os manifestantes havia sido reportado. Somente depois de algumas semanas a TPA anunciava a sentença do Tribunal Provincial de Luanda absolvendo os jovens das acusações que pesavam sobre eles.
Todas as notícias relacionadas com a Primavera Árabe, desde o seu início foram cuidadosamente filtradas e divulgadas em doze conta-gotas para que as pessoas não estivessem suficientemente informadas. Houve dias em que, na mais dramática fase da repressão dos revoltados na Líbia, a TPA, a RNA, o JA e a ANGOP não consagrassem um único minuto a esses importantíssimos acontecimentos pelo medo de que estas poderiam contagiar a propagação desse “vírus” que já havia deixado cair dois poderosos regimes da região e um terceiro na eminência da queda. Por se saber que o regime angolano é semelhante aos do norte de África que durante anos humilharam e discriminaram as suas próprias populações em detrimento de um grupinho de familiares e amigos, toda informação que levasse as pessoas a fazerem qualquer tipo de analogia com a situação do país, não foi passada pelos órgãos públicos.
As marchas pela paz e pela estabilidade – é preciso lembrar que a paz nunca esteve em causa – anunciadas e realizadas antes do 7 de Março tinham como propósito criar o pânico no seio das populações, desinformando as pessoas sobre o que se passava realmente no mundo árabe para que se evitasse o contágio daqueles movimentos em Angola.