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Chapitre 2 : Spectres Raman à température variable et calculs DFT de complexes plans-carrés

2.1. Mise en contexte

Pode-se confirmar o que foi dito pelos Resultados do Estudo Eleitoral Brasileiro - ESEB, esboço revelador de que os evangélicos têm como principal fator de referência para escolhas políticas a autoridade religiosa dos líderes; e, segundo o ESEB, os adeptos da Universal são os mais expostos a esse tipo de influência (cerca de 92 % dos fiéis sofrem alto de grau de controle de seus pastores e bispos), pois são os mais assíduos aos cultos, embora entre os pentecostais estejam aqueles com maior grau de escolaridade, fator que, em outras denominações, está diretamente relacionado com o baixo nível de comparecimento aos cultos (Bohn, p. 2004).

Da mesma forma, M. D Machado (op. cit., p. 148) afirma que o comportamento da liderança eclesiástica da IURD fortalece o grupo, ao posicionar seus representantes políticos em “pontos estratégicos para o projeto de expansão da igreja”. Nesse esforço, no discurso de seus representantes políticos existe uma confluência entre a legenda partidária e a entidade religiosa.

Segundo Baptista (op. cit.), não se pode esquecer, contudo, que ao lado da projeção e posterior “dissenso” político da IURD, a outra renomada instituição religiosa

com significativa influência e organização política nacional foi a Igreja Assembleia de

Deus – AD, que também se justifica como interessada na arena política sob o argumento de que políticos de Deus têm compromisso cristão, o que significaria compromisso com ética e moralidade.

Cabe ressaltar que o Conselho Político Nacional da Assembleia de Deus, uma das instituições pentecostais de maior relevo histórico quantitativo e qualitativo, na primeira metade desta década, resolveu empreender o Projeto Cidadania Assembleia de

Deus, utilizando-se de poderosa/vultosa infra-estrutura originária de entidades componentes da denominação para prestar assessoramento espiritual, técnico e político aos evangélicos, especialmente, aos pertencentes às Assembleias de Deus em exercício de funções públicas.

O Projeto seria financiado com recursos de suas várias “convenções” 91 em todo o território nacional e por contribuições voluntárias e pretendia atender a questões de cunho eleitoral, educação política dos adeptos da Igreja, montar as plataformas, escolher e indicar candidatos, assessorar o mandato dos representantes eleitos, manter os veículos de mídia política e de comunicação e relações públicas em política da Assembleia de Deus, escolher líderes de bancada e mediar os conflitos de interesses políticos das convenções, além de destituir representantes políticos, quando estes apresentassem conflitos de interesse com a instituição. As Convenções estaduais e municipais exerceriam as mesmas funções no âmbito de seus respectivos territórios, isto é, com respeito às políticas estadual ou distrital e municipal.

Ao Conselho Político da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB cabe, dentre outras coisas:

      

91 Tradicionalmente, a Igreja Assembleia de Deus possui 58 convenções distribuídas em todos os estados brasileiros que funcionam sob o comando da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil – CGADB.

1) orientar os membros da Convenção Geral a tomarem parte do processo político, através das respectivas Convenções Regionais;

2) atuar como foro de debates para apoio de candidato ao executivo federal; 3) atuar junto aos parlamentares federais da denominação, fornecendo subsídios

do interesse das Assembleias de Deus no Brasil;

4) elaborar o cadastro de parlamentares políticos, representantes das Assembleias de Deus no Brasil, com relatório de suas atuações;

5) manter arquivo atualizado da legislação eleitoral; 6) avaliar a atuação das representações parlamentares;

7) propor a destituição de uma representação política quando não corresponder com os interesses das Assembleias de Deus no Brasil - AD.92

Os candidatos, segundo o Projeto Político Cidadania AD Brasil, teriam de cumprir as seguintes exigências: estar na Igreja há mais de três anos; dar público e notório testemunho cristão; desfrutar de bom conceito na comunidade; exercer liderança comunitária; conhecer a base doutrinária da Igreja; serem submetidos aos pastores e líderes para indicação; serem credenciados pela convenção estadual; assinar termo de compromisso com a denominação no qual estariam explicitados seus deveres e direitos como representantes; ter comprometimento ético e moral cristãos.

Ademais, se eleito, o candidato da AD deveria se comprometer contra: a prática de aborto; a legalização da união homoafetiva; a corrupção de qualquer natureza; e o impatriotismo. Também teria o pacto de defender a liberdade de culto; de entregar 5%

      

92 De acordo com o portal da CGADB. Disponível em http://cgadb.org.br/home/index.php. Acesso em 10.5.2009.

de seu subsídio ao CGADB; proteger os projetos de comunicação da AD; e ainda, relatar suas atividades ao Conselho Político.

Por fim, a CGADB propunha no Projeto criação de manuais de orientação política para candidatos, para ministros da denominação e para membros e congregados (adeptos).

Inexplicavelmente, a AD recuou em seu Projeto ou, pelo menos, da intenção de lhe dar publicidade e o retirou do site na internet. Contudo, é impossível desconsiderar a ousadia e a relevância da proposta, já que a AD, - uma igreja que adota posturas conservadoras em moral e ética, representa estratos pobres de populações urbanas-, hoje é a denominação evangélica que mais adeptos reúne no Brasil (cerca de 4 milhões de pessoas) e a mais tradicional entre as pentecostais, atuando no Brasil desde 1910, e com representação política no Congresso Nacional desde a primeira metade do século XX.

O conjunto dessas observações nos remete à interpretação de que o pentecostalismo desempenha função de adaptação dos estratos sociais desfavorecidos, desenraizados dos tradicionais modos de vida rural, às mudanças socioculturais associadas à industrialização, urbanização e migração, fornecendo-lhes novas comunidades, disciplina, valores adequados à vida nos centros urbanos, segurança psicológica e econômica (Willems, 1967), não para fortalecê-la, mas para contestá-la. Acredita-se, pois, que esse tipo de análise funcionalista esteja longe de explicar o jogo complexo de relações que representa o sucesso político que a IURD aos poucos consegue. Compreende-se que a estrutura empresarial com a qual os iurdianos tentam fidelizar seus clientes carece de uma ética menos ambígua, menos acanhada e menos mágica, para ensiná-los a contornar os revezes e insucessos da vida por meios mais verossímeis. Muitas vezes, entende-se apenas que se trate de um empreendimento religioso fundamentado em superficialidades da lógica de mercado contemporâneo.

O discurso antigo da moralidade e ética políticas já foi oportunizado historicamente por outros grupos. A oposição a Vargas encarnada na União Democrática Nacional - UDN representa um exemplo paradigmático nesta área.

Nas observações de Benevides (1981), aquele partido trazia como marca em sua cultura o elitismo, o golpismo, o antipopulismo, o autoritarismo e o moralismo. Este último aspecto baseava-se na noção de “o chão limpo da nação”, no qual as qualidades morais inspiradas numa ética da vergonha, decência e dignidade deveriam prosperar sob o argumento da superioridade moral dos representantes da UDN.

De acordo com Schwartzman, esse movimento udenista representou:

[...]em última instância, um movimento pelo qual a burguesia mercantil se utiliza, para seus próprios propósitos, do idealismo das classes médias, alienando-as numa falsa revolução, cujo êxito importaria em consolidar as condições que asseguram o predomínio da burguesia mercantil e a espoliação das classes média e proletária, com o inevitável agravamento da inautenticidade do Estado e do governo. (Schwartzman 1981, p. 1)

Para o mesmo autor, isso revelava uma perspectiva ingênua que igualava ética na política com a ética utilizada nas relações pessoais, deixando de considerar que na realidade política coexiste a tensão entre meios e fins inerentes à vida pública. Ao mesmo tempo em que denota que, apesar do discurso moralista, a UDN era uma agremiação que por trás dos bastidores frequentava os quartéis e conspirava contra a democracia e a liberdade de as maiorias escolherem seus líderes.

Assim, o discurso moralista era usado apenas como uma “arma política” como outra qualquer, mas que na prática não se diferenciava das outras legendas, pois o que realmente importava eram os resultados das ações dos governantes e não os detalhes de postura moral e ética, porquanto na vida pública e no regime democrático, como destacou Schwartzman (2008, p. 2), se exigem “alianças, acordos, trocas de favores e benefícios, e nem sempre podemos escolher nossos aliados”.

Portanto, o mesmo autor conclui que o erro da UDN não era sua preocupação exacerbada com a ética tal qual no discurso atual das Igrejas da vertente pentecostal, porém era a incapacidade de compreender e propor um projeto de organização social e do sistema político que incentivasse um comportamento ético da sociedade e não os comportamentos predatórios e oportunistas que sempre marcaram a ação na vida pública brasileira.

A esse respeito, é importante denotar que essas características encontradas na ética udenista bem como na ética da IURD e suas congêneres partem do princípio de que as relações na esfera pública das sociedades são organizadas para fins de curto prazo e satisfação de interesses privados, haja vista as ações organizadas por esses grupos demonstrarem um viés altamente competitivo. Ao contrário, as sociedades que optam pela preservação do bem comum e para a obtenção de resultados de longo prazo, necessitam de comportamentos éticos, de respeito moral, que decorram da cooperação dos indivíduos.

Seguindo o pensamento de Schwartzman (2008, p. 8) também se faz necessário salientar que o tipo de sociedade atual, na qual se digladiam as forças particularistas que aqui se identifica, aparece como consequência do enfraquecimento dos estados nacionais do mundo globalizado simultaneamente ao fortalecimento das renomadas corporações transnacionais. Tal processo estaria caminhando para a commodification de todos os aspectos da vida social e suas instituições, e para o avanço da influência das mídias sobre a sociedade. A atuação de todo esse conjunto de forças se direciona para os resultados imediatos, e seu efeito combinado acaba por debilitar as instituições tradicionais fundamentadas nos princípios do mérito e do desempenho e por fortificar o capital anônimo e especulativo em detrimento das organizações tradicionais de mercado.

Desse modo, as identidades comunitárias também sofrem reflexo do imediatismo contemporâneo na busca de soluções fáceis. O indivíduo se segura e se identifica com religiões, raças e tribos recrudescidas por líderes carismáticos que personificam esse tipo de identidade, - com fortes aspectos éticos e morais -, originado de uma imersão e desaparecimento da individualidade no todo coletivo, sem maiores preocupações com a construção de interesses convergentes de longo prazo.

Além disso, os acontecimentos a partir de meados de 2005 vêm mais uma vez desmentir a anunciada incorruptibilidade dos representantes da Universal e seu caráter de homens comuns, sujeitos a todas as mazelas humanas. O afastamento da liderança de Carlos Rodrigues tanto do comando político como midiático da Igreja em virtude de seu envolvimento com um dos tesoureiros do PT, flagrado em esquema de corrupção na Loterj ao lado do assessor da Presidência, Waldomiro Diniz, iniciou-se no princípio do ano de 2004. Em 2005, as acusações de que o parlamentar também havia aproveitado os dividendos do “Valerioduto” (compra de votos de Deputados pelo PT) levaram o Deputado às listas de prováveis cassações e, um pouco mais tarde, à sua renúncia de mandato. Ao lado do nome do Deputado Rodrigues na lista de beneficiários do “Mensalão” surgiu também o nome do ex-bispo Wanderval Santos, do PL paulista, que acabou absolvido pelo plenário da Câmara dos Deputados no princípio do ano de 2006. Do mesmo modo, as recentes notícias sobre a descoberta das peripécias comerciais do Senador da República, Marcelo Crivella, em paraísos fiscais e a apreensão de pastores da Universal com malas cheias de dinheiro em aeroportos suscitam novamente a dúvida acerca das verdadeiras intenções da denominação Universal ao atuar no cenário político brasileiro.

CAPÍTULO 4

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