Nos choix par rapport à l’état de l’art et conclusion
I. La mise en boitier de la puce à NeuroFETs
Tanto RPG quanto literatura fazem uso de outras artes. Este uso, no entanto, é diferenciado. Em literatura, por exemplo, pode-se dizer que um texto sugere “musicalidade”, ou que um texto é muito “visual”, e daí serem estabelecidas relações entre literatura e música, literatura e artes-plásticas.
Embora não seja objetivo deste trabalho destacar as várias formas possíveis de relação entre a literatura e outras artes, há, entre elas, uma relação direta, histórica e frutífera. Se a literatura fala de algo – de algo que existe no mundo real46 – este algo pode ser também uma obra de arte (ISER, 1996, p. 24-26). Se a obra de arte representa algo (mesmo que seja o nada, ou que sugira ao seu receptor uma gama de interpretações), este algo não é em si a realidade repetida, mas um análogo, que deve ser tomado como se fora; então, a literatura é “produzida” da mesma forma que as outras artes.
O diálogo entre as artes é uma forma abundante de construção de novas obras e de “exploração” das artes, exploração esta no sentido de busca de se criar algo novo.
Assim como a literatura se relaciona com outros campos artísticos, os RPG possuem, com estes, uma boa e frutífera relação. Esta relação, no entanto, apresenta diferenças. Em literatura, corre-se o risco de, quando um texto explora os limites do campo literário, ser considerado não-literatura, ou pertencente a outro campo. Contudo, este risco é apenas uma interpretação por parte de um receptor determinado, que busca definir limites e parâmetros para a literatura.
Tais interpretações são apenas modos de análise que, provavelmente, se não invalidam uns aos outros, são passíveis de mudança temporal. Assim, embora seja particularmente atraente a idéia de uma obra unir campos artísticos, a separação entre os campos costuma
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ocorrer. Dito de outra forma, o campo literário determina, através das convenções estabelecidas, o que é e o que não é literário; assim, o texto de teatro, o roteiro do cinema e os textos de RPG podem ser considerados literatura. Contudo, teatro, cinema e RPG não são literatura. A aproximação entre estes campos se dá pelos diferentes modos de narrar que, apesar de diferentes, são modos de narrar. Cada modo, seja cinema, teatro ou RPG, possui uma especificidade.
Se o diálogo da literatura com as outras artes vai desde a separação total entre o texto literário e as outras artes, até a “união”, podemos perceber claramente que o texto literário é sempre percebido como texto, mesmo que o autor tente obter o efeito de união entre as artes e, assim, produzir uma obra que não é, por exemplo, nem literatura nem música, mas antes uma fusão de ambos os campos artísticos.
No caso do RPG este diálogo vai além. Na construção do texto ficcional do RPG, a utilização de elementos de outras artes torna o produto final – o texto do RPG – um produto “único”. Único no sentido de que não há uma forma de se separar os elementos do produto final. A apropriação dos elementos de outras artes pelo RPG torna a obra final RPG. É possível dizer que ocorre a apropriação de elementos das artes-plásticas (miniaturas e pinturas), da música (som de fundo), cinema e literatura (inspiração em textos e filmes, pelos jogadores, para a construção de narrativas) e teatro (performance), e assim delimitar campos (isto pertence à música, por exemplo). Porém, enquanto elemento constitutivo na construção ficcional do RPG, os elementos das outras artes são como partes integrantes. No fim da produção ficcional do RPG, aqueles elementos, no momento em que foram usados pelos jogadores, foram “retirados” de seus respectivos campos, inseridos na narrativa dos RPG, e tomados como elementos constitutivos. Assim, para exemplificar melhor uma batalha, o mestre faz uso de miniaturas pintadas que representam os personagens da cena específica. No momento da batalha os personagens são as miniaturas e vice-versa. Um quadro, retratando
uma cena já ocorrida durante a narrativa do jogo (geralmente desenhos feitos por jogadores de RPG) é a própria cena47. Uma música de fundo pode ser a própria música que está “tocando” dentro de um bar, diria um mestre.
Apesar de haver esta apropriação, o RPG não necessita de outras artes para ser feito. Falamos das artes-plásticas e da música, pois acreditamos que a influência da literatura, do teatro, e principalmente do cinema são fundamentais na produção do texto do RPG. O RPG deve muito à literatura e aos mitos – uma grande influência para os jogadores de RPG é a obra de Tolkien. As técnicas narrativas, a divisão entre mestre (enquanto narrador por excelência), personagens, tempo e espaço remetem à literatura, pois cada um destes elementos, excetuando-se a figura do mestre, é descrito “minuciosamente”, assim como em textos convencionais – menos herméticos – personagens, tempo e espaço são bem detalhados. A
performance teatral é a própria dinâmica do jogo e as grandes produções cinematográficas são
tomadas como exemplos para a construção de mundos ficcionais: primeiro por apresentarem elementos presentes na literatura, e segundo por darem nova vida aos mitos e heróis e também por criarem novos mitos e heróis.
O fato de os RPG não necessitarem da pintura ou da música, por exemplo, não quer dizer que tais artes sejam menores ou que não sirvam para o modo de narrar dos RPG. Isto aponta antes para alguns fatores relevantes: primeiro – o RPG é um jogo que apresenta “fluidez”, que diz respeito ao fato de que o jogo não se quer como um campo já definido, ou de que RPG não é literatura, não é teatro e não é cinema; segundo – a fluidez do jogo o caracteriza como um modo específico de narrar; terceiro – a fluidez do jogo representa uma importante proximidade entre o RPG e os campos do cinema, teatro e literatura. Esta proximidade mostra como a narrativa, ou o ato de narrar, se deu em determinado momento histórico. O narrar do RPG é diferente do teatral, do literário, das artes plásticas, do cinema e
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Ou deve ser tomado como se fora. É comum, para se criar efeitos dentro da narrativa, produzir ficções dentro de ficções, por exemplo: o mestre cria uma lenda a respeito de seu próprio universo ficcional. A lenda, como ficção, não é a “verdade” ou a “realidade”.
da música. O narrar teatral, por exemplo, faz uso da performance (previamente planejada); diferentemente do cinema, um ato “complexo” de narrar, pois o produto final – imagens – conta com desde a performance à fotografia.
O ato de “devorar” outras artes, ou outros campos, do RPG é a sua forma principal de diálogo e talvez isto ocorra porque os RPG apresentam muitas características da cultura contemporânea. O RPG não vê limites. Ele atravessa os campos, faz uso de seus elementos e, por fim, o texto final é RPG. O jogo é como uma “mistura” fluida, indefinida, construída através de fragmentos. O RPG não se quer infinito, ou não busca perdurar. A obra do RPG é efêmera, ela serve ao momento, logo é substituída por outra aventura, um outro mundo, um outro modelo. O RPG não possui nomes. Antes de ser de alguém, ele é de ninguém. A voz é uma voz coletiva que, por não perdurar no tempo, reside na memória de seus participantes, para depois ser esquecida. A velocidade das mudanças de nosso tempo é a velocidade da narrativa dos RPG. A mudança constante de valores e idéias é a própria mudança de narrativas no jogo. Os inúmeros autores anônimos que jamais serão lembrados são como os jogadores de RPG.