4.4 L’automate canonique
4.4.3 Minimisation
Na plastronotomia eletiva e em fraturas alinhadas, utiliza-se a combinação de resina epóxi com a fibra de vidro para o encerramento da linha de fratura (Fleming, 2014).
A fibra de vidro ou a malha de alumínio usados na reparação de carros depois de autoclavados, podem ser utilizados em fraturas para cobrir grandes defeitos. Pode ser colocado antibiótico estéril no interior de pequenas fendas
(desde que não contacte com o celoma), evitando assim a entrada do material para dentro do casco. Por outro lado, pode ser usada a fita adesiva para proteger as áreas adjacentes. (Hernandez-Divers, 2004).
A resina epóxi e o acrílico (Imagem 15) podem ser aplicados em fraturas simples alinhadas, sem a necessidade de conjugar com implantes metálicos (Hernandez-Divers, 2004).
Deve evitar-se o contacto dos materiais de reparação com os tecidos moles ou o osso vivo pois, apesar de se desconhecer o efeito sistémico da resina epóxi e da fibra de vidro, suspeita-se que possam prejudicar o processo de cicatrização (Fleming, 2014).
Estes materiais promovem a imobilização e a impermeabilidade da fratura à água mas também comprometem o crescimento normal do casco em juvenis, já que funcionam como talas. Como tal, devem ser removidos logo que possível (Hernandez-Divers, 2004).
A resina epóxi e a fibra de vidro foram muito utilizados para a reparação de fraturas do casco em quelónios (Barten, 2006; Wellehan, 2005). Não obstante, a utilização destes materiais podem conduzir à infeção com consequente septicemia, se a ferida selada estiver
Imagem 15 - Reconstrução da
fratura com acrílico num quelónio (Fonte: Hernandez-Divers, 2004).
Capítulo 3 - Casos clínicos
contaminada (Wellehan, 2005; Fleming 2014). Os animais também podem desenvolver osteomielite ou celulite devido à falta de drenagem dos exsudados e dos tecidos necróticos (Barten, 2006). A remoção da resina também pode ser problemática ao exigir a utilização de solventes possivelmente tóxicos, ou o recorte manual do material aderido intimamente ao casco (Kishimori et al, 2001).
Como a sua utilização impede o correto maneio da lesão, têm sido selecionados outros métodos de reconstrução cirúrgica como parafusos e arames cirúrgicos (Wellehan, 2005; Fleming 2014).
Por outro lado, a massa epóxi, a cola de cianocrilato e a resina epóxi de dois componentes têm sido utilizadas com sucesso em combinação com placas ósseas, pedaços de metal planos, e abraçadeiras de Nylon para estabilizar fraturas do plastrão (Fleming, 2014).
3.1.2.2.4.2. Fixação ortopédica externa
A reconstrução cirúrgica recorrendo a material ortopédico como os parafusos, as placas de ortopedia e os arames cirúrgicos podem ser utilizados em fraturas que necessitem de estabilização, desde que a contaminação seja mínima e os defeitos não sejam significativos (Barten, 2006; McArthur e Hernandez-Divers, 2004). Estes materiais permitem a fixação rígida dos fragmentos e a drenagem adequada do local da fratura (Barten, 2006).
As fraturas do plastrão são melhores estabilizadas com placas ortopédicas (Imagem 16A), dado que em muitos casos o plastrão é liso (Fleming, 2008).
Os parafusos de aço são preferidos aos galvanizados já que estes últimos libertam zinco a nível sistémico (Fleming, 2014).
A perfuração do casco deve ser realizada de modo a evitar o traumatismo dos órgãos (McArthur e Hernandez-Divers, 2004). Demasiada pressão com o berbequim pode conduzir à perfuração do celoma com consequente dano das estruturas internas. A colocação de fita-cola na broca permite controlar a profundidade da mesma durante o procedimento. Para evitar a necrose do tecido causada pelo aquecimento, pode ser utilizada uma solução salina estéril para arrefecimento da broca (Fleming, 2014).
Capítulo 3 - Casos clínicos
O arame cirúrgico é enrolado à volta de cada par de parafusos numa figura em oito e o nó é feito entre os dois. As extremidades livres são dobradas de encontro ao casco (Imagem 16B). Se tal não for possível, pode ser colocada massa epóxi nestas para proteção. Se os arames forem apertados em excesso, poderão causar necrose por pressão (Fleming, 2014).
As cavilhas ortopédicas podem ser conformadas em agrafos para o alinhamento de fraturas (Imagem 16C). Após a redução da fratura, é perfurado um orifício em cada lado da linha de fratura para inserir o agrafo. Quando todos os agrafos estiverem posicionados, é colocada uma fita para proteção durante 24 a 48 horas. Posteriormente são recobertos por resina. Os resíduos da resina são removidos juntamente com os agrafos no final da recuperação do animal (Valiente, 2007).
Uma técnica barata e de fácil execução consiste na combinação de um fio metálico (16 a 30 gauge de alumínio, latão ou aço) com cola epóxi para construir pontes de metal que atravessem a linha de fratura. Estes fios de metal são cortados em tiras de 0,5 a 3 cm e coladas ao casco. As tiras são moldadas à carapaça em forma de um arco para facilitar o tratamento da ferida por baixo do fixador externo. Já no plastrão, as pontes devem ser construídas de forma a não interferir com a locomoção normal do animal (Barten, 2006).
Apesar das articulações não poderem ser imobilizadas na sua totalidade, estas devem ser suficientemente estabilizadas, de modo a que a musculatura potente não provoque o deslocamento dos fragmentos (McArthur e Hernandez-Divers, 2004).
O local da fratura deve ser inspecionado com frequência para evitar a acumulação de material estranho e detetar o aparecimento de infeções (McArthur e Hernandez-Divers, 2004). O material cirúrgico também necessita de manutenção: os arames podem precisar de ser apertados e os parafusos soltos devem ser substituídos (Fleming, 2014).
Após a remoção definitiva do material de fixação externo, os orifícios são lavados com solução salina. Posteriormente, estes orifícios são preenchidos com sulfadiazina de prata para
Imagem 16 - Reconstrução
cirúrgica com: A – placas ortopédicas a Terrapene carolina carolina; B - arames cirúrgicos a Pseudemys nelsoni; C – agrafos de cavilhas intramedulares a Testudo hermanni (Fonte: A - Kishimori et al, 2001; B - Fleming, 2008; C – Valiente, 2007).
Capítulo 3 - Casos clínicos
evitar a contaminação patogénica da cavidade celómica (Fleming, 2014), ou protegidos com uma fita protetora, como por exemplo o Durapore®, 3M (McArthur e Hernandez-Divers, 2004).
3.1.2.2.4.3. Abraçadeira de Nylon
Alguns tipos de fraturas podem ser reparadas recorrendo a uma nova técnica que não danifica o casco e, permite a monitorização e limpeza da lesão (Forrester e Satta, 2005).
O procedimento é rápido e pouco stressante para o animal. Outra vantagem da utilização deste método prende-se na facilidade de aquisição dos materiais necessários e no seu baixo preço (Forrester e Satta, 2005).
Após o alinhamento da fratura, as abraçadeiras de Nylon são usadas para estabilizar os fragmentos e prevenir o seu movimento (Barten, 2005).
As selas de montagem são coladas com supercola, epóxi ou ambas a cada lado da fratura (Imagem 17A) (Barten, 2006; Forrester e Satta, 2005). Ambas as selas são atravessadas por uma abraçadeira de Nylon (Barten, 2006). Uma segunda abraçadeira é inserida na extremidade da primeira (Forrester e Satta, 2005). De seguida, as abraçadeiras são apertadas manualmente ou recorrendo a um alicate para corte e fixação de abraçadeiras de Nylon, até obter uma boa compressão no local da fratura (Imagem 17B) (Barten, 2005). O excesso é cortado (Imagem 17 C).
Após cicatrização, as selas são removidas com uma ferramenta plana, como uma espátula ou uma faca (Forrester e Satta, 2005).
Esta técnica é menos invasiva para o animal mas, geralmente não promove tanta estabilização quando comparada com a utilização combinada de parafusos e arames (Fleming, 2014).
Imagem 17 - Reconstrução de uma fractura com as abraçadeiras de Nylon a Chelydra serpentina: A –
colagem das selas de montagem; B – Aperto das abraçadeiras de Nylon com um alicate; C – Resultado final (Fonte: Forrester e Satta, 2005).
Capítulo 3 - Casos clínicos
Na ausência das selas de montagem ou dum alicate para corte e fixação de abraçadeiras, podem ser combinados uns ganchos de alumínio com uma pistola de cola (Imagem 18) (Lloyd, 2007).
3.1.2.2.4.4. Prótese
Uma prótese pode ser construída para cobrir os defeitos de grandes dimensões em fraturas de casco. Para além de proteger os tecidos adjacentes, permite também o crescimento de osso novo.
Em primeiro lugar, é necessário escolher um molde que se adapte ao tamanho do animal. Estes moldes são previamente construídos com fibra de vidro poliéster a partir do casco de outros quelónios.
De seguida, uma nova camada é fabricada com o mesmo material através da impressão negativa do defeito (Imagem 19A e 19B). Este procedimento garante uma melhor adesão da prótese ao casco.
Finalmente, a prótese é desinfetada e colada ao casco (Imagem 19C).
Imagem 18 – Reconstrução cirúrgica de uma
fratura com ganchos e abraçadeiras de Nylon a Testudo graeca: duas abraçadeiras de Nylon comuns (pretas) foram utilizadas para reduzir a fratura dorsoventral, enquanto que
para conseguir a redução da fratura
craniocaudal foi necessário recorrer a uma abraçadeira de Nylon mais resistente (branca) (Fonte: Lloyd, 2007).
Imagem 19 – Reconstrução cirúrgica da fratura da carapaça a Testudo hermanni: A – Lesão; B – Molde do
Capítulo 3 - Casos clínicos
3.1.2.2.4.5. Outros materiais: Orthoplast®, Vet-lite® e VTP™
Foi descrita a utilização de um gesso concebido a partir de Orthoplast® para a reconstrução cirúrgica do casco de uma tartaruga de pequenas dimensões que apresentava lesões extensivas no mesmo (Imagem 20A).
Já num animal que apresentava fraturas múltiplas entre a carapaça e a ponte, optou-se pela combinação de um único arame cirúrgico entre os escudos marginais e a aplicação de um material termoplástico (Vet-lite®) (Imagem 20B). Este material foi aquecido previamente com um secador, para conseguir o efeito maleável e adesivo desejado.
Finalmente também está descrito a utilização de um “capacete” propositadamente desenhado para proteger um defeito de grandes dimensões na carapaça. Neste caso, o animal apresentava uma fratura cominutiva a nível da coluna vertebral. Em primeiro lugar, foram colados quatro parafusos de plástico no casco perfazendo um quadrado. De seguida, foi criada uma “tenda” com material termo-moldável (VTP™). Finalmente, a “tenda” foi perfurada para encaixar nos parafusos, e segura com as respetivas porcas (Imagem 20C).