5.4 Déformation de la microstructure
5.4.4 Microflambage
Em 25 de julho de 1959 aconteceu a Festa do Poste em Juazeiro do Norte, momento em que se festejaram a inauguração do primeiro poste instalado para a transmissão da energia elétrica fornecida pela Chesf. O destaque da participação de importantes políticos locais e nacionais, dos romeiros que visitavam a cidade do Padre Cícero à época, era uma forma de dar sentido e importância para esse acontecimento fora das fronteiras do Cariri, ou seja, fazia-se necessário promover o saber e o conhecer de sua existência aos territórios vizinhos. Nesse intuito, o Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri (Cpeica) aproveitou o momento para realizar um ritual de sacralização dos políticos que teriam defendido a vinda dessa força para sua região.
Esse evento se tornou um elemento simbólico (BOURDIEU, 2009) e marco da experiência social (GOFFMAN, 2012) repleto de redes de sentido para os seus participantes286. Assim, cada espectador olhava-o como um recomeço, por exemplo, para os comerciantes e proprietários das indústrias artesanais locais, a sua instalação proporcionaria um impulso e modernização de seu maquinário, uma maior rentabilidade, qualidade e quantidade de seus produtos no mercado local e interestadual.
286 Para Goffman (2012), a experiência social é formada por uma pluralidade de quadros/marcos que possibilitam
pensar uma coletividade a partir de acontecimentos que marcaram a existência de um grupo, a forma que cada um olhará para ele poderá ser diferente, mas terá um fio de uma experiência social que a ligará a um campo de sentido extra individual.
Esse momento simbólico se constituiu como uma tentativa dos grupos políticos e entidades culturais caririenses corroborarem sua suposta unidade para esse fito. As várias posições ocupadas pelos personagens elencados com o signo de ilustre por consegui-lo representava o status e a intensidade de seu apoio ao movimento, isto é, quanto mais visível para a plateia que assistia essa encenação simbolizaria certo grau de dedicação individual a esse projeto. O que se desejava, também, era impactar e mostrar a força do Cariri para os que tinham pleiteado em desfavor de sua eletrificação. Para Wilson Roriz, essa festividade em Juazeiro do Norte devia “obter grande repercussão, marcando, de maneira condigna, esse acontecimento de extraordinária significação para o desenvolvimento econômico do Ceará”287, como também “um marco de uma nova era para o desenvolvimento do Cariri”288. Verificamos, assim, que nos discursos desse parlamentar a palavra desenvolvimento estava carregada pelo sentido econômico e se vinculava ao desejo de que esse crescimento possibilitasse a potencialização de suas dimensões sociais e culturais.
Os políticos locais e os que se engajaram nessa empreitada a contemplava como uma oportunidade singular para deixar registrado o seu bem querer pelo Cariri e pela terra do Padre Cícero; a fim de cativar e fabricar uma fachada ideal naquela interação com seus futuros eleitores. Isso se possibilitava pela concentração de representantes das diversas cidades da região e do sertão nordestino em Juazeiro do Norte no dia da festa do poste. Esse acontecimento simbólico, repleto de atos políticos e rituais, buscou levar aos seus observadores a comoção e maquinação de cenas que representavam o compartilhamento com o sentimento do povo ali presente. Para Silva Filho (2008), essa conjuntura socio-econômica e o impeto de eletrificar o Estado proporcinou a vinda ao seu território, para participar dessa festividade, do Ministro da Guerra ligado ao PSD em 1959, marechal Teixeira Lott.
Nesse dia o Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri lançou suas expectativas e assumiu a posição de expor para a plateia concentrada em volta do poste os responsáveis por aquela façanha. Juazeiro do Norte, à época, estava repleta do clima religioso das romarias, ou seja, dos sertanejos nordestinos que vieram comemorar o aniversário de morte do Padre Cícero Romão Batista celebrado no dia 20 de julho e do entusiasmo cívico provenientes do aniversário de emancipação política da cidade que, naquele momento, completava seus 48 anos de independência política do Crato289. Destacar esse momento foi
287 UNITÁRIO, ano LIV, n.31160, Fortaleza, terça-feira, 23 de julho de 1959, p.08. 288 UNITÁRIO, ano LIV, n.31162, Fortaleza, quinta-feira, 23 de julho de 1959, p.01.
289 Juazeiro do Norte emancipou-se em 22 de julho de 1911. Essa data foi comemorada com um ritual cívico que
evoca as efemérides de glórias dos juazeirenses e de Juazeiro, as conquistas do presente e as expectativas do futuro, como também nela as memórias foram revisitadas, reinventadas e ressignificadas.
uma técnica social de fortalecer o campo de expectativas regionais que circulavam em torno dessa instalação. Para tal, esse comitê e o poder público de Juazeiro, Crato e Barbalha mobilizaram seus fundos municipais e motivaram os comerciantes locais a investir em anúncios para divulgá-lo. Essa preparação se delegou a comissão de propoganda do Cpeica composta por Wilson Machado290, João Lindembergde Aquino, da Rádio Araripe, Coelho Alves291 e Espedito Cornélio, da Rádio Iracema.
Convidaram para essa comemoração alguns políticos que se destacavam no governo brasileiro, detentores de redes, nessa arena, que podiam ser mobilizadas a seu favor. Dessa forma, os discursos dos jornais da Capital e do interior que anunciavam a presença do governador Parsifal Barroso, dos Generais Honorato Pradel e Francisco Portugal, ministro Falcão, deputados federais/estaduais e Henrique Lott enalteciam suas imagens de homens públicos, seu cabedal e respeito no panorama político nacional292.
A elite política e comercial da região realizou um ritual de apresentação e iniciação ao Cariri, principalmente para Lott. Tentavam, então, causar uma boa impressão, demonstrar as possibilidades de crescimento econômico e a necessidade de investimentos estaduais/nacionais para seu desenvolvimento. Para esse impacto positivo inicial se utilizaram dos seus equipamentos mentais na tentativa de construir uma idealização da representação de sua região. Entendemos, segundo Goffman, que essa representação-idealizada acontece na interação entre um individuo e outros, nela incorporam e exemplificam os valores oficiais, lembrados como uma característica de celebração, sagrada e imutável, “nos símbolos do status, mediante os quais se exprime a riqueza material” (2002, p.42). Para esse fim, mostraram o belo, o que deu certo economicamente, buscaram dar uma atenção especial e cuidaram minuciosamente dessas artimanhas para “dissimular ou desprezar as atividades, fatos e motivos incompativeis com a versão idealizada” (GOFFMAN, 2002, p.51). Esse jogo proporcionava a construção de uma veracidade da representação-idealizada mais do que a realidade, ou seja, os aspectos que a contrariavam eram maquiados nesse momento e usados para despertar admiração, encantamento e emoção.
290
Nascido em 24 de dezembro de 1927 na cidade de Caririaçú e estudou até a 6º série no Seminário Diocesano do Crato. Em 1946 começou sua atividade como radialista e jornalista profissional, filiado à associação cearense de Imprensa e do Sindicato dos Radialistas do Ceará. Vereador do Crato em 1950 pelo Partido Social Democrático (PSD), suplente de vereador em Fortaleza em 1962 pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e em 1966, eleito deputado estadual pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Foi um dos comandantes da Rádio Araripe, a primeira da região do Cariri, fundada em 10 de julho de 1946, tinha como organizador o empresário Ernane Silva e se transformou em sociedade anônima em 1950.
291 Foi um radialista juazeirense e permanente ao quadro da emissora Iracema de Juazeiro do Norte desde a sua
fundação em 1951.
Esse Cariri idealizado se implantou em uma exposição discursiva que procurou demarcar, primeiramente com a chegada desses políticos, ações de impacto e convencimento. Ou seja, os políticos caririenses pretenderam expor aos visitantes de uma forma sedutora as belezas da terra, demoliram a imagem pré-concebida desses homens públicos sobre esse território, respaldaram a sua importância econômica para os rumos econômicos do Ceará e Brasil. Principiaram, assim, a entoar o canto do Cariri que era permeado pelas imagens históricas que enalteciam seus aspectos econômicos e culturais.
Por exemplo, esse ritual se iniciou com uma comitiva de recepção no Aeroporto do Cariri em Juazeiro do Norte, seguida de um cortejo em que as autoridades políticas saíram em um carro desse local até o lugar da festa. Ao chegar ao palco do ritual político o Comitê Pró-Eletrificação solicitou a intercessão do Ministro da Guerra a fim de apressurar os trabalhos de posteação caririense. A sua abertura inicial se fez pelo discurso do deputado Colombo de Sousa e depois do vice-governador do Ceará, Wilson Gonçalves.
Nas palavras proferidas por Sousa não se vincularam a imagem do governador Paulo Sarasate a eletrificação dessa região, mas ironizou a construção figurativa de sua administração como o seu principal defensor. Depois dele, Hildegardo Belém de Figueiredo falou aos presentes se lembrando do início das batalhas em prol da energização regional em 1949 e expôs os sentimentos de esperança em consegui-lo. Para ele, “e por isso, sem embargo das decepções e esperanças vãs de muitos anos, ainda continuamos a aguardar o cumprimento das promessas que nos dizem periodicamente. Pelo menos, desta vez, como para nos recompensar dos passados e contundentes desencantos, a ilusão está fortemente mesclada de realidade”293.
As expectativas de uma nova vida, para Figueiredo, nasceram nesse espaço quando se viu as possibilidades de sua eletrificação pela Chesf. Nesse sentido, enfatizou a unidade nacional feita por meio de suas redes e defendeu a sua importância como elemento fortalecedor dos “filhos da mesma mãe pátria”294. Para afirmar esse discurso usou as imagens nacionais construídas para criar sua identidade, permeada, por sua vez, por dados manejados na construção de dispositivos, isto é, essa rede discursiva e institucional se utilizou dos aspectos naturais, históricos, geográficos, étnicos e sociais para afirmar à ligação do Cariri com a Nação.
Portanto, essa energia era vista como uma ruptura das condições adversas que passavam essa região com a natureza-ambiente e sua condição socioeconômica. As suas
293
TRIBUNA DO CEARÁ, ano II, n.499, Fortaleza, quinta-feira, 13 de agosto de 1959, p.02.
expectativas se projetaram para além de sua utilização industrial, pensavam nas mudanças cotidianas e dos novos habitus que se produziriam em sua vida privada. Entendemos que o habitus, segundo Bourdieu (1987), promove a unificação e a geração de práticas sociais, para isso se pautam pela escolha e tomada de decisão, sendo esta balizada pela consciência e inconsciência. Ele, portanto, é resultado de uma interiorização das estruturas objetivas que o sujeito se afetou em suas interações sociais e coletivas. Esse determinismo objetivo, contudo, pode ser transformado a partir de novas formas subjetivas que impõem novas estruturas e práticas como possibilidade de sobrevivência em sociedade.
As interações sociais e coletivas estão imersas na sociedade e isso lhes dá o caráter de intercâmbio interpessoal, mas a primeira ficaria no campo do contato permeado pelo cotidiano e acaso, pelas relações triviais e não formais, cujo sentimento de afetividade/intimidade não está presente, mas é regido pela ética. O segundo vinculado mais a moral, a uma constituição grupal, que constroem para si regras e princípios unitários. Conforme Simmel, esses termos seriam chamados de interação e sociação. Entendemos que tanto um como o outro possuem interações, impulsos e propósitos (SIMMEL, 1983)295, mas consideramos que as suas sobrevivências se efetuam por meio da mudança de seus quadros de tonalizações (GOFFMAN, 2012), haja vista que a movimentação entre um caráter amplo das interações e os seus usos particulares promovem uma dialética na vida diária, cujas fronteiras se desfazem e se podem passar de uma para outra por meio de rituais grupais de iniciação.
Dessa forma, teceram uma imagem do Cariri em um novo cenário no campo da cultura, do lazer e de suas microrrelações cotidianas urbanas. Essas se mobilizavam pela experiência vivenciada por alguns caririenses ao visitarem algumas cidades brasileiras que passavam por essas modificações. Tal desejo se expressou em seu discurso de abertura feito por Hildegardo Belém de Figueiredo. Para ele,
Ela teria que penetrar também o nosso vale, a intimidade dos nossos lares, alimentar fábricas e oficinas, impulsionando a nossa indústria e dinamizando o nosso progresso. Teve início, então, a memorável campanha que assinala, nesta hora, mais uma vitoriosa etapa, quando vemos aprofundar-se no solo e apontar para o céu, um dos postes que conduzirão ao Cariri a vivificante energia que há de quebrar algemas e construir riquezas296.
Esse intelectual era o presidente do Comitê Pró-Eletrificação e Industrialização do Cariri. Delimitando, assim, o seu lugar social possibilita-nos verificar que os traços de sua
295 Consideramos importante para este trabalho o pensamento de Simmel, pois nos possibilita verificar as
diferenciações entre o ato do encontro e o de sociabilidade, os traços dessas interações no cotidiano do Cariri e da Celca, possibilitando vê-las em suas singularidades por meio da descrição enquanto ato de compreender as relações associativas.
296
escrita sobre o passado se usaram a fim de enaltecer esse comitê naquele dia. Portanto, pautava-se em uma relação de causa e efeito, destacava que os esforços produzidos pelo órgão que presidia se movia pelos anseios de resolver os problemas do Cariri e seus principais inimigos, a saber, “a fome, o sofrimento e o desemprego dos nossos irmãos pobres, bons e humildes do Cariri. Lutávamos, sim, contra a miséria, guardando na rotina o quadro desolador das secas flagelantes”297. Nessa construção imagética acentuou os que, para ele, seriam os cavaleiros dessa causa e figuraram-se como seus líderes. O dito, o fazer ouvir e falar se utilizaram como persuasão e invenção dos nomes que se destacavam nessa lista. Entretanto, tal dizer se permeou pela sua posição de presidente e o seu comitê concernente aos parlamentares dos vários partidos que se engajaram nesse projeto, pois desde 1956 não se tratava somente da eletrificação do Cariri, mas da Eletrificação Total do Ceará. O não dito e o fazer esquecer os nomes de alguns parlamentares foi proposital para a edificação da legitimidade da Cpeica.
Em fins dos anos 1950 na presidência de Juscelino Kubitschek se criou a Operação Nordeste298. Esse projeto disponibilizava, nos orçamentos e verbas federais, uma quantia de recursos para investir na ampliação das redes da Chesf, tendo em vista que assumia como prioridade equipar estruturalmente a nação. Tal plano se legitimara por alguns economistas da época que a defendiam como a maneira mais viável de industrializar as regiões pertencentes ao Polígono das Secas. Para isso, teve como seu elaborador a Chesf e o Conselho de Desenvolvimento do Nordeste (Codene)299. Essa nova conjuntura para Hildegardo proporcionava novas possibilidades econômicas para a expansão do mercado, a urbanização e industrialização de territórios até então não atingidos pelas políticas governamentais de desenvolvimento, mas detentores de uma importância na economia nacional. Em tal quadro, enfatizou também a inauguração de um poste no Cariri cearense como um marco simbólico de sua posição de beneficiado dessa política federal, ou seja, “sob o influxo desta nova política e desta nova aliança, engrinalde-se o Vale do Cariri para receber no tapete esmeraldino do seu solo Ferraz, o abraço fecundo da energia de Paulo Afonso”300.
297 TRIBUNA DO CEARÁ, ano II, n.499, Fortaleza, quinta-feira, 13 de agosto de 1959, p.02.
298 Conforme Sousa (1981, p.120), JK criou a Operação Nordeste como uma estratégia de captação de recursos
financeiros do Sul do País, em prol de investi-los no Nordeste assolado a época com a seca do final da década de 1950. Para isso seu plano visava retirar essa região do status da área mais pobre do Brasil por meio da industrialização e agricultura irrigada.
299 Para Sousa (1981, p.119), em 20 de fevereiro de 1959 se criou o Conselho de Desenvolvimento do Nordeste
(Codene), tinha como sede a cidade de Recife (Pe). Esse órgão também estaria vinculado ao Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (G.T.D.N).
300
Nesse ritual profano de interação, em prol do soerguimento do poste, procurou-se movimentar os símbolos ao longo dessa disputa política pela eletrificação e cimentar um sentimento de orgulho e pertencimento ao Cariri. Colocou-o como um espaço que tinha importância nacional traçando também suas expectativas de crescimento econômico e cultural quando se iniciasse efetivamente seu processo de eletrificação, industrialização e modernização. Um exemplo disso fora às transformações e erupções de uma nova paisagem, a mistura de temporalidades em sua arquitetura em que o novo e o velho conviveriam, pois aquele representaria o moderno e este se evocaria como elemento da identidade regional.
Esse sentimento impulsionador acelerou a vida privada dos caririenses e mudou sua rotina, por exemplo, suas tradições vinculadas ao uso de uma iluminação fraca, que não possibilitara a movimentação noturna em suas cidades, nem permitia o uso de eletrodomésticos em seus espaços privados, começaram a ser questionadas. Isso, por sua vez, alterou o ritmo de sentir o tempo das experiências e proporcionou ao mesmo instante um anseio de conforto no convívio privado. Como também um medo da desintegração do status simbólico de grupos em suas cidades, como os artesãos que vivenciavam uma mudança lenta em seus regimes de trabalho e se transformavam em operários dos proprietários dos meios de produção, ou seja, os costumes locais abalavam-se nessa conjuntura, principalmente em Juazeiro do Norte.
As resistências a isso se fizeram nas microrrelações cotidianas e no manejo da técnica do trabalho artesanal efetuado exclusivamente para o mercado de artigos religiosos e dos artefatos domésticos. Consideramos que esse processo aconteceu paulatinamente entre 1960 e 1980, constituindo-se, assim, uma fase de mudança, conflito e fissura que se movimentara pelo desejo da Celca e por sua efetivação. Isso permitira a partir dos anos de 1990 que a indústria caririense se consolidasse, impulsionando a região por meio do aumento considerável das vagas de trabalho em relação ao período anterior, o aumento de seu capital e o fortalecimento de seu parque industrial. A partir desse momento, as projeções futuras se regularam por outros impulsos políticos e econômicos. Hildegardo, então, na Festa do Poste terminou o seu discurso desta forma:
Meus Senhores: Encimado da verde flâmula que simboliza uma luta, uma causa, um ideal, aqui ficará, marginando a estrada, este primeiro poste - sentinela da esperança. No alto, verão quantos por aqui passarem, o verde retângulo desfraldado ao beijo suave de todas as brisas do Nordeste, simbolizando a fé cívica de um povo em eterna vigília, marchando das trevas para a luz. Símbolo de uma parcela do Brasil nordeste que deseja conduzir o seu próprio destino e construir também o progresso da pátria. Um dia este frio corpo de cimento perderá a verde bandeira que engalana. Nesse dia, meus senhores, a paisagem sertaneja que nos cerca terá rutilantes cintilações de uma esplendida alvorada. Nesse dia o Cariri estará recebendo através das artérias
metálicas dos fios condutores a vibrante energia que ora tumultua, em cada sístole, no dadivoso e turbulento coração de Paulo Afonso301.
Tal esperança dada pela inauguração desse poste, para ele, reforçou as expectativas de mudanças para os caririenses a partir da energia de Paulo Afonso, acoplou o Cariri a certo projeto regional e nacional, assentou-o como partícipe desse projeto de modernização e industrialização brasileira. Sendo essa espacialidade fincada no centro do sertão nordestino, as redes da Chesf possibilitaria a industrialização regional, como também proporcionaria benefícios aos estados fronteiriços. Esta expressão “luta”, enfatizada por Hildegardo, fundamentava-se pelas suas memórias dos embates travados pelo Comitê Pró- Eletrificação e Industrialização do Cariri desde 1949, atribuindo significado e valor aos que estavam à margem das dificuldades enfrentadas para consegui-la. Essa conquista, destarte, não era um presente do governo estadual, mas vinha do esforço caririense que tratara diretamente com os representantes federais, lutara na arena política estadual e no foro público em prol de sua chegada ao Sul cearense.
Os políticos presentes procuraram, com discursos e gestos, demonstrar o seu apoio ao movimento e mostrar aos eleitores presentes a sua participação ativa em consegui-la. A presença de Lott se utilizou para dar ao evento um caráter oficial e de abrangência nacional. Mas, ironicamente o deputado Guilherme Teles Gouveia (PSD) na plenária da Assembleia em 1960, chamou-a de um “ruído de grossa demagogia”, cunhou-a como o “show do Cariri” e detentora de metas definidas e intencionalmente arquitetadas, que seria, por exemplo, “derivar