O construtivismo social é um movimento relativamente recente na história da Psicologia e o seu conceito contemporâneo tem influências múltiplas, pelo que, na sua origem, existem diferentes tipos de construtivismo, como por exemplo o kantiano, o piagetiano, o radical, o lógico, o construcionismo social e o socioconstrutivismo (e. g., Gergen, 1996, Kant, 2001; Tavares, A. S. Pereira, Gomes, Monteiro & Gomes, 2007; Watzlawick, 1984).
Trata-se de um movimento que critica as posições mais tradicionais sobre o modo de fazer ciência e elabora novas propostas que salientam “a especificidade cultural e histórica das formas de conhecermos o mundo, a primazia dos relacionamentos humanos na produção e sustentação do conhecimento, a interligação entre conhecimento e ação e a valorização de uma postura crítica e reflexiva” (Rasera & Japur, 2005, p. 21).
Estes últimos autores, citando Burr (1995), Nightingale & Cromby (1999) e Gergen (1999), enumeram descritores que aglomeram os autores que têm vindo a ser designados como construtivistas: (1) a especificidade cultural e histórica das formas de se conhecer o mundo; (2) a primazia dos relacionamentos humanos na produção e sustentação do conhecimento; (3) e a interligação entre conhecimento e ação. Assim, a partir dos valores e das convenções já legitimados socialmente, surge a teorização da ação humana. Esta compreensão teórica possibilita a coordenação da atividade e comportamento das pessoas em sociedade (Rasera & Japur, 2005).
Podemos, então, concluir que existe o reconhecimento da inserção cultural dos conhecimentos em ciência, assim como nas práticas decorrentes desses mesmos conhecimentos (Marujo, L. Neto, Caetano, & Rivero, 2007). É também reconhecido que a construção social do conhecimento sucede da interação entre as pessoas, inseridas nas suas comunidades, o que não será exceção para a IPI.
91 O modelo de gestão coordenada de significados (CMM) de Pearce (1989) salienta a importância da comunicação para determinação do modo como os indivíduos de uma determinada sociedade representam a realidade em que se inserem. A construção social da realidade constrói-se pelos atos de fala (Marujo et al., 2007; Nunes, 2010; Pearce, 1994).
Analisando precisamente esta temática, comportamento humano e a construção social do conhecimento, Guerin (2009) recorda os trabalhos de Moscovici (1980), Moscovici, Mugny, e Van Avermaet (1985) e Mugny (1982) para clarificar a maneira como “subgrupos de minorias podem influenciar as representações sociais de uma maioria” (132). Esta influência ocorre quando o discurso ou comportamento dos membros da minoria é consistente e persuasivo. Segundo Mugny (1982, cit. Guerin, 2009) existem evidências que apontam no sentido de que “duas pessoas que são consistentes, em seus reforçamentos generalizados, podem controlar o comportamento verbal de muitas outras” (p. 132).
Estes dados constituem um sustentáculo importante para a análise e compreensão do processo de construção social da IPI e das representações sociais dos profissionais, sobre a mesma temática.
Consideremos também o contributo das teorias cognitivas para a psicologia social, cuja ideia principal consiste no entendimento de “que o comportamento de uma pessoa depende do modo como percepciona a situação social” (F. Neto, 1998, p. 96).
Esta ideia releva-se importante para a análise do comportamento social dos profissionais e decisores, quando queremos compreender uma determinada realidade. Ou seja, importa compreender a maneira como membros da sociedade percecionam a situação social em que participam, para entender também a sua ação, o que, de certo modo, parece ter sido preocupação da comunidade científica portuguesa, ao concretizar vários estudos sobre ideias e perceções dos profissionais.
Porém, sendo importante compreender as representações sociais dos profissionais e decisores, é recomendável intensificar estes estudos do âmbito das representações sociais dos profissionais, nomeadamente no âmbito da IPI.
Ao falarmos de representações sociais, entendemo-las conforme Jodelet (1989) as define, isto é como uma forma de conhecimento “socialmente elaborado e partilhado, com uma orientação prática e concorrendo para a construção de uma realidade comum a um conjunto social (p.36).
92 Esta definição admite a possibilidade de diferentes grupos sociais terem diferentes construções sociais sobre uma mesma situação social. Neste sentido, Flick (2005a) recorreu às ideias de outros colegas para afirmar que
as percepções e o conhecimento comuns são a base de elaboração de uma ‘versão da realidade’ mais formalizada e geral, pelos cientistas sociais (Goodman 1978). Paralelamente, Schütz (1962, p. 208 e ss.) assume a existência de ‘múltiplas
realidades’ sendo a da ciência apenas uma delas, organizada em parte com base nos mesmos princípios que organizam a realidade do quotidiano, e obediente, em parte, a outros princípios (p. 32).
O autor entende, ainda, que as ideias estabelecidas pelos vários sujeitos não são estáticas, entram em conflito, acabando por se impor umas às outras. Por outro lado, quando partilhadas pela sociedade são tidas como realidade.
Deste modo, quando os diferentes grupos sociais têm oportunidades diferentes de veicular as suas ideias, normalmente em situações de conflito, uma das partes tenta convencer a outra. É disto exemplo a propaganda que tem uma função reguladora e organizadora, constituindo “uma representação em conformidade com os princípios inspiradores” (p. 446) do grupo social com mais poder (F. Neto, 1998). A realidade construída socialmente passa a incorporar maior influência da perceção de uma parte dos atores sociais.
Por outro lado, podemos considerar que, quando existe limitação de participação de um grupo social na divulgação das suas ideias, as crenças e as representações sociais construídas serão diferentes, uma vez que contribuem menos, não lhes incutindo aspetos culturais do seu grupo, que conteriam se tivessem tido uma participação mais ativa.
Poder-se-á pensar que facilmente poderemos atenuar este impacto. Contudo, esta suposição parece infirmada, na medida em que (1) “cada representação social está organizada em torno de um elemento resistente à mudança” (F. Neto, 1998, p. 473); (2) num ponto de vista antropológico, as características culturais descritíveis que definem a identidade de um grupo só se tornam conscientes quando comparadas com outras culturas (A. Santos, 2013); e (3) só posteriormente aquelas caraterísticas são reinterpretadas pelos agentes sociais, traduzindo-se em possíveis discrepâncias entre a representação da realidade cultural que se pode narrar e a realidade factual (A. Santos, 2013). Daqui decorre que o processo de consciencialização destas discrepâncias não é imediato.
Com especial interesse para o nosso estudo, o último autor citado revela que a construção identitária não é independente da aculturação e da anomia social. Assim, os
93 indivíduos podem identificar-se com algo que não lhes corresponde culturalmente, que deriva de um processo de contato de duas culturas diferentes, traduzindo-se em mudanças importantes, numa ou nas duas, nomeadamente traduzindo-se na norma identitária, tendo esta, como principal reflexo, a construção de uma imagem derivada das práticas culturais e das suas incertezas. Conclui-se, assim, que é possível existir uma divergência entre
identidade formal e sentimento de pertença, o que é muito vulgar nas sociedades atuais (A.
Santos, 2013).
Como nos recorda Flick (2005a), o estudo da realidade social, não ignorando as atribuições de significado, deve considerar as ideias que os indivíduos têm relativamente aos factos e acontecimentos que se encontram no campo social estudado, assim como na forma como essas ideias comunicam entre si.
Entendemos, então, que o grupo de profissionais que constituem um grupo social que se reproduz sob a forma de Estado, identificado no subcapítulo anterior, tem contribuído mais ativamente para a construção social da IPI em Portugal, na medida em que o construtivismo social parte da ideia de que a realidade social é uma produção ativa dos indivíduos que nela se integram, através da atribuição de significados aos acontecimentos e objetos (Flick, 2005a; Marujo et al., 2007).
Face ao exposto, emerge a necessidade de reorientar procedimentos e estratégias de intervenção, de gestão de definição de políticas de IPI, assim como desenvolver novas linhas de investigação em Portugal. Se tivermos em conta que a construção social da realidade ocorre através de diversas formas de conhecimento, juntando o conhecimento científico ao conhecimento de senso comum, por exemplo, então a construção de uma realidade social será muito mais genuína, se envolver todos os profissionais de IPI e outros, mas sobretudo se envolver as próprias famílias. Como nos disse Goodman (1978, cit. Flick, 2005a), o conhecimento de senso comum também é pressuposto na realidade construída socialmente.