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Os valores-notícia no cenário contemporâneo estabelecem os atributos de relevância de um fato que se torna notícia na imprensa internacional. No contexto do jornalismo internacional, as grandes agências de notícias são distribuidoras globais de notícias para grandes e pequenas empresas de comunicação (jornais, emissoras de rádio e TV, sites de notícias), mídias internacionais e nacionais. Sendo assim, os valores-notícia praticados por agências de notícias e jornais estrangeiros formam a pauta no jornalismo internacional, na perspectiva de como se fala do estrangeiro, do diferente. Assim, trata-se de abordar como a imprensa apresenta as diferenças culturais, em particular do Brasil.

O Brasil se insere na pauta da imprensa internacional pelo viés econômico à medida que o mercado internacional reconhece o dinamismo da economia brasileira; pelo viés político, no sentido de ciclos (crescimento e declínio) da influência do País no cenário global; pelo viés esportivo, particularmente pelo reconhecimento do País como sendo um “celeiro” de jogadores de futebol; pelo viés cultural, em especial, pelas manifestações populares, como o Carnaval, por exemplo. Nesse sentido, é necessário recorrer à DaMatta (2004, p. 7) para diferenciar uma visão preconceituosa que muitos brasileiros e estrangeiros demonstram ter sobre a cultura de um e de outro:

Para entender o Brasil é preciso estabelecer uma distinção radical entre um “brasil” escrito com letra minúscula, nome de um tipo de madeira de lei ou de uma feitoria, um conjunto doentio e condenado de raças que, misturando-se ao sabor de uma natureza exuberante e de um clima tropical, estariam fadadas à degeneração e à morte; e um Brasil com B maiúsculo – um país, cultura, local geográfico e um território reconhecidos internacionalmente – e também casa, pedaço de chão calçado com o calor de nossos corpos; Brasil que é também lar, memória e consciência de um lugar com o qual se tem uma ligação especial, única, muitas vezes, sagrada. (DAMATTA, 2004, p. 7)

Sendo assim, será que tal preconceito pode influir na cobertura estrangeira sobre o Brasil? DaMatta (2004, p. 7) esclarece que, em muitas outras partes do mundo, há também imagens fantasiosas sobre povos e países. Sob esse

ponto de vista, é possível deduzir que a abordagem negativa ou positiva sobre o Brasil pode depender de dois aspectos: por um lado, a forma como o Brasil se insere na cultura internacional, em particular, nas sociedades dos países mais ricos onde intensifica-se a atuação das agências de notícias; por outro lado, as circunstâncias associadas às práticas das rotinas produtivas no jornalismo, de aprofundar o conhecimento sobre a realidade e a cultura nacionais a partir do olhar de jornalistas e de públicos estrangeiros.

Com o fim da escravidão (PRADO JR., 2011, p. 365), grande parte da população se manteve à margem, como na era colonial, de uma estrutura social nacional. Ao longo do tempo (SADLIER, 2016, p. 278-279), o cinema nacional tem contribuído para criar no Exterior uma imagem de povo selvagem, dando como exemplo o filme “Os Cangaceiros” (LIMA BARRETO, 1953). Na década de 1960 (SADLIER, 2016, p. 281), vários filmes brasileiros (“Os Cafajestes”, “Vidas Secas”, “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, “O Pagador de Promessas”, entre outros) apresentam uma imagem nacional de “terra da pobreza, fome e violência”. Mais recentes, nessa mesma linha de raciocínio de filmes nacionais, sobre os temas de violência e de pobreza, com repercussão internacional, tivemos “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles (2002), “Tropa de Elite”, de José Saldanha (2007), “O Rio”, desenho animado de Carlos Saldanha (2011), entre outros.

Enfim, é possível considerar, com base nessas referências, que o Brasil enfrenta antigos problemas, constrói ao longo do tempo uma imagem contraditória, em alguns aspectos de modernidade e, ao mesmo tempo, de atraso. Segundo Santos e Silveira (2016, p. 296-297), nações e cidades estão em disputa internacional por investimento de empresas e pelo interesse de turistas em conhecer regiões. A disputa se dá não somente por argumentos objetivos como vantagens competitivas, mas também com a subjetividade da imagem que cada região conseguiu construir ao longo do tempo.

Sob o ponto de vista do interesse de nossa pesquisa, indaga-se: como a imagem do Brasil interfere nas práticas de cobertura diária no País? Idiossincrasias nacionais e reputação de atraso podem influir na eleição de valores-notícia, na seleção de fatos a serem pautados, nas prioridades de pautas das centrais internacionais das agências de uma região sobre outras nações. Considerando a notícia como produto, a valoração depende da expectativa do público, da utilidade da

informação para a vida individual ou profissional do consumidor da notícia. Desse modo, segundo Traquina (2013, p. 61), “o conceito de noticiabilidade” instrumentaliza jornalistas a decidirem que um ou outro fato seja notícia, para fins de publicação. A noticiabilidade se constitui em valores-notícia que orientam o grau de impacto e de importância de um fato para tornar-se notícia, bem como o tratamento na narrativa, na abordagem negativa ou positiva.

O jornalismo internacional abrange a cobertura e a publicação de fatos relevantes ocorridos em outros países, envolvendo uma editoria presente na maior parte dos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, constitui o conteúdo de produção essencial das agências de notícias internacionais, envolvendo equipes formadas por correspondentes fixos ou freelances (autônomos) para sua distribuição junto aos diversos meios. Trata-se de cobertura de fatos apurados em outros países em relação ao país-sede do meio de comunicação em questão, para publicação como matéria internacional. Assim, um fato local, considerando-se critérios de noticiabilidade específicos para fatos internacionais, poderá ser notícia internacional em outro país. Trata-se de um desafio para jornalistas que exercem a função de correspondente para agências de notícias ou para empresas jornalísticas estrangeiras. Por um lado, agências de notícias constituem um importante apoio operacional, ampliando a capacidade de produção de notícias e cobertura dos fatos internacionais; por outro, pelo aspecto econômico, de redução de custos, as empresas jornalísticas, que não possuem grandes equipes para estar presente em todos os lugares no mundo, conseguem posicionar correspondentes nas principais cidades, para aprofundar e/ou contextualizar um fato previamente apurado por agência de notícias, ou ainda, a partir de informação inédita, elaborar uma reportagem investigativa, cobrir um fato de exclusivo interesse nacional que ocorre em outro país.

Os correspondentes (NATALI, 2011, p. 08-09) enfrentam desafios diários no trabalho de cobertura internacional isolados em um canto do mundo, e os editores, distanciados dos fatos, têm de decidir, em minutos, como se darão esses enfrentamentos ao longo do dia. O editor avalia a disponibilidade de informações enviadas pelas agências, o custo-benefício de enviar (ou não enviar) um correspondente para cobrir um fato e, assim, deixar de cobrir outro assunto. O conteúdo das agências pode ser matéria-prima para servir de base para uma pauta que o correspondente irá cobrir e aprofundá-la; ou, de outra maneira, vir a ser matéria-

prima para uma edição do jornal, incluindo-se elementos informativos de interesse nacional ou local, portanto, material de produção mais rápida e de menor custo operacional e econômico.

O jornalismo internacional, como destaca Natali (2011, p. 08-09), enquanto especialidade jornalística, é constituído com o conhecimento específico, com o tratamento diferenciado que os fatos internacionais exigem. A especialização jornalística, no contexto do noticiário internacional, se propõe para uma editoria de jornal ou de outro meio de comunicação à medida que se concentram esforços produtivos para fatos internacionais relevantes ao público local. Se considerarmos especialização como a reunião de competências específicas em um trabalho ou em um grupo de trabalho, tal competência poderia ser observada na habilidade de avaliar as relevâncias de diferentes fatos internacionais para o público local e, ainda, apresentar os pontos de interesse de tais fatos para os cidadãos na sua rotina diária.

As agências de notícias multinacionais administram a disponibilidade de recursos para a cobertura dos fatos no mundo, tanto considerando a lógica de produção industrial, quanto abordando a competitivamente no mercado, os desafios da nova realidade no âmbito da produção pós-industrial11. “As Agências ao definirem o que seja notícia no mundo perpetuam antigos critérios geopolíticos de poder” (ESPERIDIÃO, 2011, p. 15).

Essa definição de notícia das agências, de acordo com Esperidião (2011, p.15), se configura na oferta diária de conteúdo para garantir a produtividade, hegemonia e liderança na distribuição de narrativas. Seja por volume, com mais notícias sobre fatos dos países mais ricos, menos dos mais pobres, ou por conteúdo, a abordagem de forma positiva ou negativa. Nesse sentido, podemos observar a atuação regional das agências e os critérios de noticiabilidade na cobertura da América Latina. McBride et al. (1983, p. 136) nos mostra como as coisas pouco mudaram ao longo do tempo, desde a Primeira Revolução Industrial, no que se refere à rede de atuação das agências.

      

11 Sobre o conceito de produção pós-industrial, Anderson, Shirky, Bell (2013) defendem o fim da

indústria jornalística, não no futuro, mas, atualmente, diante do impacto das novas tecnologias no mercado, nas formas de produzir, distribuir e consumir notícias. As novas possibilidades para o jornalismo no mercado induzem as empresas a mudanças em relação ao sistema tradicional de linha de produção industrial, tornando incompatíveis os “antigos padrões” com a era atual.

As grandes agências de notícias criaram uma ampla rede de comunicação que, graças a uma longa experiência em matéria de coleta, tratamento e difusão, faz com que a distribuição e a recepção dos seus serviços seja uma operação cotidiana e quase automática. A transmissão de notícias entre as agências nacionais, principalmente nos países em desenvolvimento, e entre elas e as grandes agências é o que continua provocando dificuldades (MCBRIDE et al., 1983, p. 136).

No mercado da notícia, há uma dinâmica competitiva de caráter oligopólico, de transição da gestão de interesses hegemônicos para uma gestão parcialmente mais aberta a demandas externas, no modelo pós-industrial, tendo em vista uma relativa e questionável “pluralidade”, no centro das “dificuldades” acima citadas (RELATÓRIO MCBRIDE, 1983, p. 136). Ao estudar como as agências de notícias e os jornais estrangeiros fazem a cobertura que destaca o Brasil, procura-se entender as dinâmicas das rotinas produtivas, relacionando o olhar estrangeiro das empresas jornalísticas (agências e jornais sobre o Brasil), tendo em mente os valores- notícia e os enquadramentos noticiosos.

O enquadramento constitui elemento essencial na narrativa noticiosa pelo qual se dirige a atenção do público para determinado foco. Podemos observar o enquadramento como um processo de condução da atenção do público por meio de conteúdo em que se evidenciam alguns fatos em detrimento de muitos outros, considerando-se a diversidade de pautas no mundo. A relação coletiva e individual das pessoas no mundo se dá por enunciados (GOFFMAN, 2012, p. 605-609), presentes nas culturas, orientam as narrativas e as referências que fundamentam o convencimento de cada um.

O enquadramento permite ao público um transporte para o momento da informação (GOFFMAN, 2012, p. 615), considerando-se as perspectivas dos atores da ação e, daí em diante, viabiliza a criação de condições para cada indivíduo constituir opinião, tomar uma posição. Assim, é possível constatar que o conhecimento prévio sobre diferentes fatos agrega poder ao consumidor da notícia, tornando-o menos dependente do contexto construído na matéria publicada, agregando-se autonomia por consciência da realidade em que os fatos do dia a dia se inserem. Mas não é assim, o imaginário social ocidental (STEINBERGER, 2005, p. 164) é marcado pela carência da informação, consequentemente, pela crescente

dependência do noticiário diário para a manutenção da opinião pública pela informação.

Nesse contexto de complexa dinâmica do jornalismo internacional, nossa pergunta de pesquisa é: que valores-notícia e enquadramentos são considerados pelas agências internacionais para a geração de conteúdo para grandes jornais estrangeiros, quando se trata do Brasil? Há adaptação desses conteúdos pelos jornais estrangeiros?

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