• Aucun résultat trouvé

A mobilidade de lazer não tem os mesmos constrangimentos e necessidades relacionadas com aspetos utilitários que caracterizam a mobilidade económica. Como

23

resultado as necessidades e a racionalidade económica deixam de ser os fatores dominantes, dando lugar às vontades e a expressão do estilo de vida dos utilizadores. A mobilidade de lazer realiza-se em três dimensões principais (Schubert, S., 2004):

 Movimento de indivíduos e objetos dentro de um espaço físico geográfico.

 A existência de oportunidades dentro de um espaço social para preencher necessidades: espaços para comer, dormir, trabalhar, etc.

 Mas a mobilidade é também é relacionada com o posicionamento no espaço simbólico: onde e como um se move é também um sinal de posicionamento social.

Em termos de geometria urbana, os principais indicadores que permitem prever a escolha modal predominante são a densidade e a forma como o espaço é utilizado, variando a disposição das zonas comerciais, residenciais, industriais e de lazer. Estes indicadores são válidos não apenas na mobilidade de lazer, mas também na mobilidade em termos gerais.

Em vários estudos em geografias urbanas, suburbanas e rurais sintetizados por Curtis, C. e Perkins, T., 2006, Travel Behaviour: A review of recente literature é referido que “A forma urbana pode ter um papel significante nos padrões de deslocação e comportamentos. A pesquisa mostra que as zonas de uso singular, de baixa densidade, produzem as viagens mais longas e produzem a maior dependência do automóvel como meio principal de transporte. Utilização de terreno em maior densidade com zonas mistas e um maior acesso a modos de transporte sustentáveis são mais passíveis de promover comportamentos de viagem sustentáveis” (Curtis, C. e Perkins, T., 2006)

A mobilidade no espaço social está dependente do nível de desenvolvimento de infraestruturas onde os utilizadores possam preencher os seus tempos livres com atividades sociais e recreativas, e o tipo de meios de transporte existentes no espaço geográfico para satisfazer as vontades dos utilizadores.

No estudo Leisure-related mobility of elderly people: ways to sustainability, é referido que “em todos os espaços geográficos, pode ser observada uma tendência para o aumento do número de viagens a curtas distancias com o aumento da qualidade do lazer (disponibilidade de infraestruturas de lazer) ” (Föbker, S. e Grotz, R., 2003).

24

É ainda notado que “a influência de oferta local (nas distâncias de viagem) é particularmente notada nos subúrbios” (Föbker, S. e Grotz, R., 2003). Isto deve-se a dois fatores dos espaços sociais urbano e rural:

 No espaço social rural, as motivações principais de viagem estão ligadas á vida em comunidade destas zonas, o que leva á maioria das viagens serem internas as mesmas.

 No espaço urbano existe uma grande oferta de infraestruturas de lazer, facilmente acessíveis a pé ou por transporte público, não exercendo assim uma particular importância nas distâncias de viagem.

Para além das componentes sociogeográficas, existe também a mobilidade no espaço simbólico, como forma de explicar a variação de preferências dentro de níveis económicos definidos, i.e., a capacidade financeira e posição social dos utilizadores não é suficiente para explicar as preferências de viagem observadas durante os períodos de lazer.

Segundo Schubert, S., 2004, Mobility-Styles in Leisure-Time – a lifestyle-approach for a better understanding and shaping of leisure-mobility, existem 5 grupos de Estilos de Mobilidade, cuja posição socioeconómica aliada a diferentes vontades e expressões de estilo de vida determinam as preferências de mobilidade (Schubert, S., 2004):

Orientados á diversão: Os representantes deste grupo gostam de divertimento individualista, aventura, atividades arriscadas e mostram uma grande afinidade para com a tecnologia moderna. Eles são caracterizados por uma ‘egocentricidade’ e uma elevada afinidade a grupos de pares e distanciam-se de relações íntimas e vizinhos.

Exclusivos modernos: Os membros deste grupo são caracterizados por fortes orientações profissionais. Eles têm afinidade a modas e apreciam um certo nível de exclusividade, e são fortemente orientados á família. Mostram um nível de empenho na justiça social e ecologia; isto sem os fazer hostis á tecnologia. Longe disso, este grupo diverte-se a trabalhar com computadores e a navegar na internet.

Orientação familiar sobrecarregado: Este grupo estima valores familiares e tem uma orientação caseira e pro-vizinhança. A combinação de trabalho, casa e família põe-nos sob pressão e eles sentem-se sobre preocupados e esgotados.

25

Mas também mostram uma disponibilidade acima da normal em gastar dinheiro em produtos ecológicos.

Desfavorecidos: É outro grupo com uma atitude instrumental perante o trabalho; quaisquer outras orientações-estilo de vida estão neles escassamente desenvolvidas. O que forma este aspeto é a sua condição social desfavorecida.

Tradicionais-domésticos: neste grupo, a necessidade de segurança e a evasão ao risco demarcam-se. Em termos de consumo, há uma preferência pela durabilidade e pela proximidade à natureza. Eles enfatizam os valores tradicionais e têm sérias reservas face às tecnologias de comunicação e informação modernas.

Para Schubert, S., (2004), estes grupos podem ser enquadrados segundo o estado em que se encontram na vida e posicionamento social, como se pode ver na seguinte tabela. Tabela 2.4. Modelo de posicionamento social. Adaptado de Schubert, S., 2004.

Estilo de Mobilidade Estágio de vida/Circunstâncias pessoais

Posicionamento Social Orientado á diversão  Fase adolescente;

 Fase ativa

o Solteiro(a) ou casal sem filhos.

8% Na classe média alta e classe alta.

14% Na classe média.

Exclusivo moderno  Fim da fase adolescente;

 Fase ativa completa;  Início da terceira idade.

17% Na classe média, classe média alta e classe alta.

Orientação familiar sobrecarregado

 Fase ativa;

o Famílias e pais sozinhos, com filhos pequenos ou grandes em casa.

24% Na classe média e classe média alta.

Desfavorecido  Fase adolescente;

 Fase ativa

o Solteiro(a) ou casal sem filhos;

o Famílias e pais sozinhos, com filhos pequenos;

o Famílias e pais sozinhos, sem filhos em casa.

 Fase da terceira idade.

13% Na classe média e abaixo da classe média.

Tradicional doméstico  Fase ativa

o Famílias e pais sozinhos, sem filhos em casa;

 Fase de terceira idade.

25% Na classe média alta e classe média.

26

Figura 2.13.Variação modal de utilização de transportes consoante estilos de mobilidade distintos. Adaptado de Schubert, S., 2004.

Como pode ser observado, a variação modal está bastante relacionada com a necessidade de utilização do automóvel, seja pela sua praticabilidade, capacidade de cobertura de território e acessório de status, que as três classes orientação familiar sobrecarregado, exclusivo moderno e orientado á diversão apreciam, respetivamente. Nestas classes, a variação modal faz-se não á custa do automóvel, mas entre os outros meios restantes, sendo o grupo orientado á diversão o que menos aprecia andar a pé, e o que tem a maior utilização modal da bicicleta e transportes coletivos, meios que permitem um maior alcance de território no menor espaço de tempo, preocupação decrescente no grupo exclusivo moderno e no grupo de orientação familiar sobrecarregado.

O grupo desfavorecido não pode ser analisado em termos de preferências, uma vez que a sua condição económica dita um impedimento geral á plena satisfação das suas necessidades nos termos em que o mesmo as satisfaria caso não fosse economicamente desfavorecido.

O grupo tradicional doméstico tem a deslocação pedonal como modo preferencial, o que explica, em conjunto com as suas preferências de estilo de vida conservador, as baixas distâncias percorridas semanalmente.

46,6 46,7 46,5 33,3 25,8 7,6 5,4 5,1 1,2 3,6 16,3 11,2 6,9 9,8 12,2 29,5 36,7 41,5 55,7 58,4 0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 100% P er ce nta g em de utiliza çã o Estilos de mobilidade

Variação modal vs Estilos de mobilidade

A pé Bicicleta

Transporte público Automóvel

27

Todos os grupos, á exceção do desfavorecido por motivos económicos, mostram nas suas preferências espaço para o desenvolvimento de novos meios de transporte de lazer, ou que possam servir para lazer, desde que desenvolvidos para estes nichos específicos, pois existem claras incompatibilidades entre os desejos de inovação tecnológica versus conservadorismo funcional, desejos de praticabilidade versus imagem e até diferentes capacidades económicas, que fazem com que um produto desenvolvido para agradar a todos os grupos não agrade especialmente a nenhum.