A caracterização do processo colaborativo varia de acordo com os autores considerados. Segundo Kvan (2000), a colaboração ocorre quando se trabalha em conjunto a fim de resolver um problema de projeto, dividindo-se as metas a serem atingidas e satisfazendo-se todas as restrições, resultando numa criação coletiva e holística. Ele diferencia colaboração de cooperação. Na cooperação13 a relação é mais informal, não há
definição de uma missão, estrutura e esforços comuns, o comprometimento com o objetivo comum é menor, assim como o risco inerente ao desenvolvimento da atividade. A informação é compartilhada quando necessário e a autoridade14 pertence a um indivíduo, de
maneira que, praticamente, não há riscos para os participantes e os recursos investidos e recompensas pelo trabalho são separados por pessoa. Na colaboração, as relações são mais duráveis e se estabelece um compromisso completo com a missão comum. A autoridade é
13 O entendimento de cooperação de Engeström (1992) difere do apresentado por Kvan
(2000): para ele, na cooperação, “os atores, em vez de se concentrarem em desempenhar seus papéis designados ou se apresentarem, focam em um problema compartilhado, tentando encontrar maneiras mutuamente aceitáveis de conceitualizá-lo e resolvê-lo. Os participantes vão além dos limites dados pelo roteiro, mas o fazem sem questionar ou reconceituar explicitamente o roteiro” (ENGESTRÖM, 1992, p. 66-67)
14 Nesse contexto, autoridade se refere à hierarquia estabelecida entre os membros da
65 determinada pela estrutura coletiva e os riscos aumentam. O êxito da colaboração depende da definição da equipe e das interdependências entre os membros, identificação dos produtos esperados e clareza do objetivo de colaboração.
O autor ainda discute duas práticas de projeto para tentar aproximar o entendimento do processo colaborativo ao processo projetual: a prática projetual acoplada (Figura 6A) e com acoplamento fraco (Figura 6B). A acoplada se caracteriza pelo trabalho intenso dos participantes, durante o qual há observação e entendimento das ações e do que as motiva. A de acoplamento fraco é mais comum na prática projetual e nela cada participante contribui para a solução a partir da sua área de conhecimento, no momento em que sua especialidade é necessária; a ação de cada especialista fica restrita ao seu campo de conhecimento, ainda que o problema seja compartilhado.
Figura 6 - Diagramas simplificados de modelos observados na prática de projeto: acoplado (a) e acoplamento fraco (b)
(A)
(B) Fonte: Kvan (2000, p. 411)
Para Carrara (2012), a colaboração trata de um acordo entre especialistas que compartilham suas habilidades em um determinado processo, com o propósito de atingir objetivos mais amplos, conforme definido pelo cliente, pela comunidade ou pela sociedade de maneira geral. Aproximando esse conceito do projeto de edifícios, o processo colaborativo caracteriza-se pela presença de diversos especialistas com bases culturais e profissionais diferentes entre si, que tratarão o problema de projeto a partir dos seus pontos de vista (técnico e cultural), para apresentarem suas respostas de maneira que possam ser compreendidas pelos demais atores do processo. Esses, por sua vez, devem julgar o efeito da proposta nas suas áreas eliminando inconsistências e/ou fazendo sugestões, de modo que o sistema opere como um todo. Assim, a “colaboração em projetos arquitetônicos se baseia no seguinte ciclo: comunicação, interpretação, compreensão, elaboração,
66 sugestão/proposta, discussão e acordo” (CARRARA, 2012, p.124). O processo colaborativo também pode ser caracterizado por aspectos comuns (Quadro 5).
Quadro 5 - Síntese das características dos processos colaborativos
Características dos processos colaborativos Detalhamento Fonte Compartilhar ações
Identificação de restrições Hennessy e Murphy (1999); Lahti et al (2004); Construção da solução Kvan (2000); Carrara (2012); Engeström (1992);
Kleinsmann (2006); Sebastian (2007) Negociar uma solução Lindemann et al (2000); Hennessy e Murphy
(1999); Lahti et al (2004); Engeström (1992); Carrara (2012)
Avaliar a solução Hennessy e Murphy (1999); Lahti et al (2004); Carrara (2012)
Modificar a solução Compartilhar
informações
Metas Lindemann et al (2000); Hennessy e Murphy (1999); Lahti et al (2004); Gu, Kim e Maher (2010); Simoff e Maher (2000); Kvan (2000)
Tarefas Gu, Kim e Maher (2010); Simoff e Maher (2000) Documentos e representação Gu, Kim e Maher (2010); Simoff e Maher (2000) Intenções Simoff e Maher (2000)
Pesquisas e referenciais Hennessy e Murphy (1999); Lahti et al (2004) Planejamentos e rotinas Lindemann et al (2000); Engeström (1992) Comunicação15 Ativa Hennessy e Murphy (1999); Lahti et al (2004)
Baseada em regras Goldschimidt (1995) Sobre o conteúdo do projeto Todos
Sobre o processo de projeto Kleinsmann (2006); Engeström (1992); Sebastian (2007)
Integrantes Mais de uma pessoa Simoff e Maher(2000); Engeström (1992); Kvan (2000)
Mais de um especialista Carrara (2012); Veloso e Elali (2014); Kleinsmann (2006); Sebastian (2007)
Trabalham em diferentes intensidades
Cuff (1991 apud AL-SAADANI; BLEIL DE SOUZA, 2018); Goldschimidt (1995)
Desenvolver nos
participantes
Senso de integrar equipes e de comunidade
Simoff e Maher(2000); Carrara (2012); Gu, Kim e Maher (2010); Kvan (2000)
Comprometimento Kvan (2000)
Fonte: elaborado pela autora, a partir das fontes citadas.
A natureza da colaboração está relacionada ao compartilhamento de tarefas e pode ser classificada de acordo com a abstração e os diferentes níveis em que ocorre. Smoff e Maher (2000) identificaram dois extremos: a “colaboração em tarefa única” e a “colaboração em múltiplas tarefas”. A primeira se baseia na visão do participante sobre o problema de projeto como um todo, no qual o esforço da concepção colaborativa se dá pela
15 Pesquisas tratam da colaboração em ambientes virtuais (CRAIG; ZIMRING, 2000; SIMOFF;
MAHER, 2000; GU; KIM; MAHER, 2010), entretanto, esse tema não será aprofundado por não se tratar do enfoque da pesquisa ora apresentada.
67 superposição das ideias dos membros da equipe. Essa concepção se assemelha à prática de projeto acoplada, explicada por Kvan (2000). Na segunda, cada membro da equipe é responsável por uma parte do projeto e a comunicação se dá em torno do gerenciamento do projeto, descrição que se aproxima à “prática de projeto de acoplamento fraco”, pensada por Kvan (2000). Engeström (1992) classifica uma forma ainda mais avançada de colaboração, a reflective communication, na qual os atores além de compartilharem um objeto, organizam seus esforços colaborativos no desenvolvimento de um roteiro compartilhado de atividades conjuntas.Os membros do time aprendem durante o desenvolvimento de suas atividades, a partir do próprio envolvimento com o processo de projeto (KVAN, 2000; SANDERS, 2009; GOLDSCHIMIDT, 2014). Esse aprendizado também pode indicar níveis de colaboração. Sanders (2009) propõe três níveis: o mais básico seria a colaboração, o nível intermediário seria a colaboração com aprendizado compartilhado, ou seja, quando os participantes aprendem em conjunto sobre a colaboração, à medida que desenvolvem o projeto. E o nível mais alto seria a colaboração com ensino, quando o processo é desenvolvido por projetistas que já tem o conhecimento sobre como desenvolvê- lo. Esses níveis estão relacionados com a noção de “projetar com” o cliente e o usuário16,
que pode utilizar técnicas específicas para aumentar a participação ao longo do processo. O modelo ideal consiste em uma situação onde a visão do projeto seja desenvolvida de maneira participativa nas fases iniciais do processo; no decorrer dele, haja o desdobramento do projeto em conjunto, com predominância no estudo preliminar e anteprojeto; e nas fases de construção e entrega do edifício ocorra um planejamento conjunto da transição para a ocupação do uso e a ocupação da edificação (Figura 7).
16 Sanders (2009) desenvolve essa classificação baseada em projetos participativos, ou seja,
quando o cliente e o usuário final participam do processo. Entende-se que essa discussão contribui para a tese, tendo em vista que alguns projetos que visam atendimento de metas de eficiência energética inserem o cliente e o usuário em seus processos, a exemplo dos casos discutidos por Yudelson (2013) e por Athienitis e O’Brien(2015).
68
Figura 7 - Modelo ideal de colaboração ao longo do tempo
Fonte: Adaptado de Sanders (2008, p. 24)
Esse processo se diferencia do processo de projeto tradicional, pois este último consiste em “projetar para” um cliente, com muitas atividades na fase de estudo preliminar e no anteprojeto (SANDERS, 2009), embora não exista uma maneira universal de esses processos se desenvolverem. O cliente apenas valida as soluções desenvolvidas pelo escritório de arquitetura e os demais projetistas são contratados somente nas etapas finais do processo, quando muitas definições já ocorreram e as possibilidades de alterações são restritas (LÖHNERT; DALKOWSKI; SUTTER, 2003; FIGUEIREDO; SILVA, 2012). A simples divisão de tarefas não indica colaboração, assim como o uso de plataformas que auxiliam o compartilhamento das informações, a exemplo do Building Information Modeling (BIM), também não caracteriza per si o processo colaborativo. Em geral, facilitam a disseminação de um estereótipo de “terceirização”, onde se entende que a colaboração ocorre apenas com a divisão do processo em “partes”. Nesse caso, a responsabilidade por cada parte fica a cargo de diferentes profissionais. Esses profissionais desenvolvem suas atividades isoladamente, com possíveis reuniões periódicas para ajuste do projeto e, ao final do processo, para reunir as partes (AL-SAADANI; BLEIL DE SOUZA, 2018). Semelhantemente, trazer os profissionais envolvidos no desenvolvimento do projeto para o mesmo ambiente
69 de trabalho não significa que os integrantes estão compartilhando as tarefas, nem que estão trabalhando em conjunto (CUFF, 1991 apud AL-SAADANI; BLEIL DE SOUZA, 2018).
No panorama em que a colaboração se apresenta como alternativa, é necessário atentar para não incorrer em simplificações que reduzem o potencial do trabalho em equipe, a exemplo da terceirização e do processo dividido em partes. Assim, é imprescindível refletir sobre os formatos do projeto e as técnicas que podem auxiliar no desenvolvimento da colaboração.