A colaboração efetiva pode ser desenvolvida em processos que utilizam modelos, formatos e técnicas diferentes entre si. Destacam-se os modelos do Processo de Projeto Integrado (PPI, em inglês, Integrated Design Process – IDP) e do Projeto Integrado (Integrated Project Delivery – IPD), por serem comumente utilizados em processos colaborativos que visam atendimento de metas de EE. Esses processos podem assumir formatos diversos, como as charretes, e utilizar técnicas distintas, que envolvem o desenvolvimento de visões do projeto, do processo e profissional compartilhada, que explicaremos a seguir.
O PPI é um processo de projeto focado nas etapas de planejamento e projeto, envolvendo uma equipe multidisciplinar desde suas primeiras fases e que reconhece que cada processo é único e não deve seguir uma estrutura rígida. Ele é caracterizado pelo compartilhamento da visão de projeto por todos os parceiros envolvidos, que proporcionam informações e retornos aos demais integrantes da equipe (O'BRIEN et al., 2015). A cooperação entre os atores permeia as diversas disciplinas envolvidas e a decisão ocorre em conjunto desde o início do processo (LÖHNERT; DALKOWSKI; SUTTER, 2003). Nessa equipe estão incluídos proprietários, usuários, arquitetos, construtores e especialistas que, frequentemente, são solicitados a realizar tarefas que não realizariam nos processos convencionais e são encorajados a compartilhar e aprender a partir da experiência, desenvolvendo a visão do processo como um todo (O'BRIEN et al., 2015). O IPD possibilita controlar os diversos parâmetros que precisam ser considerados e integrados no processo de projeto (HANSEN; KNUDSTRUP, 2005). Contribuem para o sucesso desse tipo de processo metas bem definidas, o desenvolvimento de habilidades transdisciplinares e a figura do
70 facilitador, que auxilia no estabelecimento da colaboração e da comunicação efetiva entre os participantes (LÖHNERT; DALKOWSKI; SUTTER, 2003; HANSEN; KNUDSTRUP, 2005; O'BRIEN et al., 2015).
Ao PPI podem-se agregar diversos métodos de entrega do projeto, dentre os quais o IPD. Por se tratar de um método de entrega, o IPD envolve as etapas de construção e manutenção do edifício, mas por entender que essas etapas devem ser consideradas desde o início do projeto, também permeia as etapas de planejamento e projeto (O'BRIEN et al., 2015). Assim, o IPD é um método de projeto e construção caracterizado pelo envolvimento dos diversos atores do projeto e da construção desde o início do processo. Outra característica do IPD é que os projetistas compreendem as consequências das suas decisões no momento que são tomadas, compartilhando os riscos e as recompensas (AIA, 2007; O'BRIEN et al., 2015). A tomada de decisão é baseada em princípios e as metas devem ser definidas coletivamente, bem como as métricas de avaliação do desempenho. A comunicação deve ser clara, concisa, aberta, transparente, confiável e deve ocorrer de acordo com protocolos. O IPD envolve um processo projetual extenso e completo e demanda antecipação de potenciais conflitos. Também se requer dos projetistas que o desempenho seja avaliado nas fases iniciais do projeto, o que, normalmente, aumenta o volume de trabalho na fase de projeto. Assim, são necessários maiores esforços nessa etapa do que na de construção (AIA, 2007).
O IPD é visto por equipes que trabalham com Zero Energy Building (ZEB) como um elemento-chave na produção de edifícios de alto desempenho (GARDE et al., 2014). No entanto, a prática do IPD ainda é difícil na construção civil. Mesmo a fase de projeto é pouco articulada e falta integração com os projetos complementares. Normalmente a integração do projeto ocorre após a concepção arquitetônica, quando diversas decisões projetuais já foram tomadas e as sugestões de melhoria no desempenho ficam limitadas às restrições possíveis, atingindo-se apenas um "aumento marginal de desempenho da solução" (TRELDAL, 2008 apud ANDRADE; RUSCHEL, 2011, p. 435).
O IPD foi utilizado em diversos processos de projeto para certificação LEED nos Estados Unidos e Canadá. Dentre as contribuições identificadas, está o uso do formato
71 charrete17 que, no contexto de projetos de alto desempenho, também é chamada de
ecocharrete (YUDELSON, 2013). Esse formato é adotado para desenvolver a colaboração entre a equipe e enfatizar o seu engajamento desde as primeiras etapas do processo de projeto (SMITH, 2012). Há um curto período de tempo disponível para o desenvolvimento das atividades antes da apresentação para todos os envolvidos no processo. Durante a concepção, intensificam a criatividade e desenvolvem um elevado grau de trabalho em equipe – isso facilita a imersão no universo do projeto (SMITH, 2012; INEICHEN, 2016). Assim, se desenvolve uma oficina de trabalho (workshop), enfatizando-se o desenho e a colaboração, durante alguns dias, com profissionais de diversas especialidades interagindo entre si (KIM; STUMPF; KIM, 2011; SMITH, 2012; YUDELSON, 2013; ATHIENITIS; O´BRIEN, 2015).
A charrete auxilia o time a solucionar o problema projetual rapidamente, enquanto se compreendem e se desenvolvem os interesses dos integrantes (KIM; STUMPF; KIM, 2011). É importante a criação de diversas formas de participação, onde todos possam expor seu ponto de vista, de maneira que seja possível ouvir, antes de participar. É preciso compreender que uma boa ideia pode vir de qualquer lugar e que se deve abrir mão do controle do processo, permitindo que ele siga seu curso (YUDELSON, 2013).
Outro aspecto considerado potencializador do processo de colaboração e do atendimento da meta foi o desenvolvimento da visão do projeto, ou seja, a compreensão compartilhada do propósito do projeto (SANDERS, 2009; CHARNLEY; LEMON; EVANS, 2011; YUDELSON, 2013). Essa visão é frequentemente desenvolvida nas primeiras fases de projeto, através de questionamentos que levam os integrantes a refletirem sobre como visualizam o projeto no futuro e o que desejam alcançar. Esses questionamentos levam ao estabelecimento de uma pauta comum (SANDERS; STAPPERS, 2008; SANDERS, 2009; YUDELSON, 2013; ATHIENITIS; O´BRIEN, 2015).
Também nas primeiras fases, deve-se atentar para o desenvolvimento da visão do processo, que consiste na difusão da compreensão entre os membros do time sobre as
17 O termo Charrette Design tem origem no século XIX, na École des Beaux Arts de Paris, e
era utilizado no final do prazo pré-determinado para realização de trabalhos, quando o professor os recolhia em um carrinho, a charrete, para serem criticados por um júri (OLIVEIRA, 2014). Esse formato originalmente costumava despertar a competitividade entre os times, mas o método vem sendo adaptado, utilizando os potenciais de criação, colaboração e integração entre os conhecimentos (SMITH, 2012; INEICHEN, 2016).
72 pretensões enquanto processo (CHARNLEY; LEMON; EVANS, 2011; LAWSON, 2011). É difícil que todos os integrantes da equipe tenham o mesmo entendimento sobre o desejável enquanto processo, já que essa leitura pode ser influenciada pela visão das intenções (o que a instituição defende que seja feito), pela visão das aspirações (o que os integrantes desejam) e pela visão da prática (o que realmente é realizado) (LAWSON, 2011). Assim, é importante considerar o ponto de vista dos diversos envolvidos na definição da visão do processo (CHARNLEY; LEMON; EVANS, 2011).
A partir do desenvolvimento do esboço, introduz-se o desenvolvimento da visão profissional compartilhada, que envolve a construção de meios de ver e articular o problema de projeto, considerando o conhecimento dos diversos profissionais envolvidos. Esse entendimento emerge a partir da interação entre eles, em um processo que envolve compartilhamento e negociação de seus conhecimentos, com vistas à solução do problema. Nesse aspecto, o uso de imagens e a gesticulação são importantes na comunicação entre os atores, sendo fundamental, portanto, a copresença (COMI; JARADAT; WHYTE, 2019).
O contexto do atendimento de metas pode ser favorecido por técnicas e procedimentos que auxiliem no desenvolvimento da colaboração entre os atores, incluindo os projetistas e consultores. A colaboração coparticipação nos processos pode, ainda, ser acompanhada de uma visão sistêmica.