O mundo do trabalho passa por transformações gerais e radicais. O ritmo acelerado do reordenamento econômico em escala mundial e a modernização tecnológica e gerencial alteram completamente o perfil da oferta de empregos. O desemprego aparece como uma realidade estrutural, em vez de uma suposta disfunção do sistema econômico. Simultaneamente, novas exigências se impõem à qualificação profissional: o que se exige agora do trabalhador é que apresente e desenvolva certas qualidades que vão muito além daquelas habilidades gerais ou técnicas que os processos educativos convencionais podem oferecer (CASALI, 1997, p. 15).
A vida cotidiana é marcada pela racionalidade substantiva1, mas, sobretudo, pela racionalidade instrumental, a qual se faz presente nas instituições da sociedade contemporânea. As instituições, por seu caráter público e/ou privado, têm maneiras próprias na consecução de seus objetivos. Na atualidade, permeada de ideologia, o fenômeno da globalização, assenta-se no paradigma da economia mundial, e ao exaurir o seu alcance, delineiam-se alguns beneficiários, potências políticas e megacorporações com caráter hegemônico de novas exigências. Também por um discurso hegemônico é a globalização caracterizada como irreversível e inevitável do ponto de vista dos avanços tecnológicos. No entanto, não imobilizado por diferentes procedimentos de análise, o que significa não emudecer à razão de céticos valores e dogmas que intrinsecamente avançam aumentando as desigualdades sociais, busca-se uma compreensão diversa de organizar a vida social e produtiva.
Os fenômenos econômicos e sociais que determinam a reestruturação dos ambientes de produção de bens e serviços por meio dos avanços tecnológicos que ampliam as formas de comunicação exigem competência profissional nas mais diferentes áreas do trabalho.
No atual contexto de competitividade, em que oportunidades de negócios e a urgência nas decisões são determinantes para a inserção e continuidade das diversas organizações, são requeridas do contador, também, atribuições nos atos de gerir o patrimônio alheio. Para essa atividade, são necessários atributos de competência profissional decorrentes
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Diz-se que é substancialmente racional todo ato intrinsecamente inteligente, que se baseia num conhecimento lúcido e autônomo de relação entre fatos. É um ato que atesta a transcendência do ser humano, sua qualidade de criatura dotada de razão. Aqui, a razão, que preside ao ato, não é a sua integração positiva numa série sistemática de outros atos, mas o seu teor mesmo de acurácia intelectual (RAMOS, 1983, p.39).
de sua formação específica e geral, bem como das diferentes experiências fundamentadas teórica e empiricamente. Desta forma, a exigüidade dos recursos à disposição das entidades requer habilidades e fluência no discurso e nas diferentes formas de comunicação que objetivam procedimentos para realizar negócios com empresas comerciais, industriais e de serviços, assim como para implementar o uso da tecnologia, que vai desde os conceitos básicos aos mais elaborados e pertinentes à ciência contábil e suas relações com diferentes áreas.
A contabilidade, como ciência social, ao ampliar seus objetivos sobre seu objeto, o patrimônio das organizações, insere-se nesse movimento para contribuir com esse processo. Em tal movimento imbricam-se diversas formas, filosofias e mentalidades empresariais, cujas ações repercutem em intrincados e singulares modos de ser e de agir.
O contador, como gestor do patrimônio das entidades, tem funções mais abrangentes do que apenas o registro dos eventos contábeis; precisa decidir e agir em condições de continuidade e competitividade do empreendimento. Assim, as novas formas de organizar o trabalho contábil, com a gestão organizacional, exigem competência profissional que envolve um complexo processo de formação inicial e continuada do contador, processo esse que confrontará diferentes maneiras de aprender com as organizações e sujeitos multiculturais. O perfil desse novo contexto faz exigências ao profissional da contabilidade para que tenha condições de delinear projetos de trabalho por meio de visões prospectivas e sistêmicas, nas diferentes filosofias organizacionais.
A reflexão sobre as ações, assim como sobre os resultados das decisões, requer a intermediação de um processo de formação continuada para desenvolver novas estratégias e sistemas organizacionais, envolvendo não somente um estilo gerencial, mas também um rigor metodológico na tomada de decisões junto aos fenômenos contábeis em articulação com a diversidade cultural dos sujeitos e instituições.
Questões relacionadas à ética humana e profissional estarão sempre presentes nas decisões, no âmbito da gestão e do contexto no qual se situa a organização, indiciando uma atenção-preocupação com os usuários e/ou consumidores de bens e serviços, com atitudes de cooperação na resolução de problemas ou alternativas viáveis.
A comunicação das ações de uma organização com seus interagentes deverá ser expressa através dos diferentes demonstrativos contábeis, os quais, em seus limites e especificidades, buscam informar sobre as ações, as decisões e sobre os resultados. Assim, a contabilidade, como ciência sócio-econômica, por meio de um profissional com competência e habilidade, ao atuar no mundo dos negócios, muitas vezes perverso, busca alternativas na
amplitude de sua atuação na dimensão da ética, da preservação da natureza e dos interesses de um mercado consumidor cada vez mais exigente em termos de qualidade, baixo custo e responsabilidade social.
A construção de uma prática contábil que se configure pela preocupação com a inclusão social não é possível por meio da aridez mecanicista e desprovida da compreensão das relações mais abrangentes do ensinar-e-aprender. É nesta perspectiva que o tema deste estudo focaliza a formação do bacharel em Ciências Contábeis por meio da formação do professor de contabilidade.
A função dos professores define-se pelas necessidades sociais a que o sistema educacional deve dar resposta, as quais se encontram justificadas e mediatizadas pela linguagem técnica pedagógica. O conceito de educação e de qualidade na educação tem acepções diferentes segundo os vários grupos sociais e os valores dominantes nas distintas áreas do sistema educativo. A imagem da profissionalidade ideal é configurada por um conjunto de aspectos relacionados com os valores, os currículos, as práticas metodológicas ou a avaliação (NÓVOA, 1995, p. 67).
No sentido de instrumentalizar novas formas de agir do profissional da contabilidade, frente ao contexto de transitoriedade do mundo, é preciso discutir a formação do professor de contabilidade.
Ao propor o estudo sobre quais são os componentes epistemológicos do processo de ensino que organizam o trabalho pedagógico do professor de contabilidade no ensino superior para compreender os fundamentos epistemológicos da organização deste trabalho no ensino superior, entendo como necessário contribuir com esse profissional no que diz respeito à reflexão sobre sua prática e aos aspectos que influenciam o seu trabalho.
Em pesquisas realizadas2 foi possível constatar a recorrência das objeções por parte dos alunos em relação aos procedimentos dos professores quanto aos conteúdos, sua distribuição e formas de ensinar. As análises dessas pesquisas levadas a cabo enumeram a insatisfação quanto à consolidação de conhecimentos contábeis para inserir-se no trabalho. Pesquisa realizada no Rio de Janeiro também conclui que “A opinião da maioria é de que o estudante, ao concluir o curso de Ciências Contábeis, não está apto a exercer atividades profissionais3.”
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LAFFIN, Marcos. (1) O perfil sócio-econômico dos alunos de Ciências Contábeis 97/99 – (2) Avaliação: uma primeira abordagem no Departamento de Ciências Contábeis da UFSC –1999 - (3) Orientação de Monografias de Conclusão de Curso.
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COELHO, C.U.F. Uma análise do ensino superior de contabilidade e do mercado de trabalho no município do Rio de Janeiro. Revista CRC – SP, março 2001
Ajudar o aluno a aprender e a superar os procedimentos de aprendizagens é a contribuição que o professor de contabilidade deve propiciar por intermédio de um trabalho que se deseja profissional. A prática reflexiva toma sentido quando forem perceptíveis as dimensões sociais e políticas que esse ensino for capaz de incluir por meio de práticas que busquem a autonomia da produção do trabalho.
Na operacionalização do currículo prescrito, cabe ao professor de contabilidade, através do registro do que ocorreu em sua aula, refletir sobre o currículo, não como um projeto rígido, mas como uma construção capaz de comportar a sensibilidade e a reflexão sobre as ações dele decorrentes.
Ao justificar a relevância da formação do professor de contabilidade busco contribuir para superar um ensino homogêneo e pasteurizado que se repete em todos os lugares. Tenciono contribuir para um ensino em que alunos e professores sejam sujeitos de identidades e subjetividades. Para essa perspectiva e para a perspectiva de um profissional da contabilidade que possa dimensionar suas atividades nas organizações, é de fundamental importância o estudo desse tema. Contudo, cabe ainda questionar, como justificativa, como se forma o professor de contabilidade?
Dentro do modelo que inspira a universidade brasileira, a formação de professores ocupa um lugar bastante secundário. Nele as prioridades são concentradas nas funções de pesquisa e elaboração do conhecimento científico, em geral consideradas como exclusividade dos programas de pós- graduação. Tudo o que não se enquadra dentro dessas atividades passa, em geral, para um quadro inferior, como são as atividades de ensino e formação de professores (LÜDKE, 1994, p. 6).
A contribuição do estudo de Lüdke pode ter duas dimensões na justificativa de meu estudo: a primeira, ao mesmo tempo que faz a crítica da pós-graduação como único espaço para pensar a pesquisa, indica esse espaço como uma dimensão possível para discutir a formação do professor de contabilidade; e a segunda, com um acento de gravidade ainda maior, aponta para a inconseqüente maneira como a formação dos professores das licenciaturas tem ocorrido no interior das universidades. Esse eximir-se de contribuir para a formação de uma nova escola por meio da formação de professores é uma disfunção da universidade. Ao transpor esse entendimento para a formação do professor de contabilidade penso ser possível ampliar a questão enunciada acima, no sentido de identificar os componentes que organizam o trabalho do professor de contabilidade no ensino superior.
a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re) construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência (NÓVOA, 1992, p. 25).
Nesse entendimento, uma educação que seja simultaneamente contábil e formadora de sujeitos autônomos e de sentido emancipatório humano precisa fomentar e ajudar a construir um caráter político da prática pedagógica do professor de contabilidade. Prática política comprometida com os conteúdos com os quais trabalha e com a articulação dos métodos com os quais socializa conhecimentos, ao mesmo tempo em que ele próprio se socializa. Entendo que essa dimensão da formação deve ser simultânea com o compromisso político e com a competência técnica indissociável da prática pedagógica.
Assim, uma formação que se faça fundamentada na reflexão sobre a vivência do trabalho a partir do âmbito da aula permite ampliar não somente as experiências pessoais e profissionais do professor de contabilidade como sujeito histórico, mas também contribui para o desenvolvimento de novas autonomias. Autonomias estas que servirão de mediação entre a identificação e o equacionamento dos diferentes problemas de seu aluno, construindo soluções para estes problemas, como também propiciando uma imersão em suas causas.
Essa reflexão, que se assume como crítica da própria ação, será capaz de conduzir à autonomia do trabalho do professor de contabilidade e lhe possibilitará distinguir entre o prescrito e o autônomo na condução do processo de ensino, expressando sua concepção na opção da ação transformadora. E como transformadora, também transitória e sempre preliminar.
O estudo desse tema justifica-se predominantemente pela ausência de um procedimento reflexivo de natureza social na formação dos profissionais da área da Ciência Contábil.
Visualizo este estudo como uma contribuição às ações de ruptura e de construção como processos que se fazem no cotidiano e dizem “respeito a múltiplas frentes” (CANEVACCI, 1984, p.38).
Justifico a busca por uma prática de reflexão que possibilite sempre a
curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta faz parte integrante do fenômeno vital (FREIRE, 1997, p. 35).
Explico essa curiosidade como uma pulsação entre o homem e suas relações sociais no mundo humano, como algo que contemple o homem e seu trabalho, que desvele o professor de contabilidade e a essência do seu ensinar. Explico essa curiosidade, tomando como participação a reflexão juntamente com o professor de contabilidade, como busca rigorosa de rever-se em processos de formação continuada. Uma curiosidade como utopia de princípios de sensibilidade para com o gênero humano.