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Empoleirado num ramo, o famoso Gato de Chester, com o seu eterno sorriso, parecia esperar.

- Por onde é que hei de ir?

- Depende do lugar aonde quiseres chegar!

À direita mora um chapeleiro maluco e à esquerda a Lebre de Março, que perde a cabeça quando as folhas novas arrebentam e também quando as folhas caem.

- Que importância têm? Todos nós somos malucos (CARROL, 1980, p.:13)

Se eu não soubesse para onde ir, qualquer caminho serviria. Mas eu sabia onde queria chegar: compreender como se configura o trabalho do professor de contabilidade; para tanto, foi preciso conhecer os caminhos e os diferentes recursos de coleta de dados para decidir por onde ir e, assim, saber como encaminhar e como caminhar com o outro.

Neste caminhar/conhecer foi preciso mudar o previamente planejado. Como ponto de partida para a coleta de dados havia feito a opção pela entrevista semi-estruturada, por considerar esse recurso um instrumento favorável na observação de detalhes, gestos, pausas, rearticulação da fala enfim, de um conjunto de dados que, quando recorrentes, articulam-se de forma mais expressiva e consistente. Porém, nas primeiras abordagens junto ao universo da pesquisa, a entrevista não foi aceita como instrumento de diálogo para a coleta de dados. Vários fatores e indícios redundando na questão tempo contribuíram para inibir a entrevista. Esse fato, em seu contexto, constituiu-se em dado a ser considerado na busca das demais informações para a pesquisa.

Pesquisar é embrenhar-se na realidade e a realidade não é estática e nem sempre se mostra tal como se movimenta. Nessa compreensão da realidade e, diante do fato de recusa para as entrevistas, o percurso da coleta de dados teve que ser refeito através do uso do questionário. O questionário havia sido pensado como instrumento para a coleta de dados sobre a caracterização do universo e dos sujeitos da pesquisa. No entanto, nesta pesquisa, em seu primeiro momento, assumiu-se o questionário como um instrumento constituído de

uma série ordenada de perguntas, que [foram] respondidas por escrito e sem a presença do entrevistador. Em geral, o pesquisador envia o questionário ao informante, pelo correio ou por um portador; depois de preenchido, o pesquisado devolve-o do mesmo modo (MARCONI & LAKATOS, 1985, p. 74).

Com o questionário como instrumento central para a coleta de dados, as questões que haviam sido pensadas para nortear as entrevistas semi-estruturadas tiveram de ser rediscutidas, analisadas, reformuladas com o subsídio de diferentes áreas.

Na educação busquei contribuições para focalizar as questões que envolvessem a formação e a prática pedagógica dos professores pesquisados. Com o olhar da Psicologia da Educação busquei contribuições para fundamentar, entre o pretendido e o possível, o alcance das questões propostas. Com a contribuição da área da lingüística busquei a coerência entre os objetivos da tese e as perguntas do questionário. Portanto, tanto na redifinição do instrumento

de coleta de dados quanto nas questões busquei garantir a mesma expressividade e consistência previstas previamente para as entrevistas semi-estrururadas.

Depois de refeito o instrumento de coleta de dados, voltei ao universo da pesquisa por diferentes meios, tais como e-mails, telefonemas, encontros presenciais para disponibilizar informações sobre o questionário e seu objetivo, assim como para garantir o maior número de participantes.

Dessa forma, o questionário foi utilizado para: (1) a caracterização do universo e dos sujeitos da pesquisa, (2) a coleta de dados sobre questões que permitissem identificar a trajetória de inserção e de formação do professor de contabilidade no ensino superior e, (3) o atendimento aos objetivos relacionados à prática pedagógica desses professores. Portanto, o questionário, nesse estudo, objetivou coletar dados para as questões que envolveram a natureza da problemática estudada.

No conjunto das circunstâncias que envolveram o estudo foi necessário construir e reconstruir as relações de diálogo com os professores, com suas maneiras de compreender a organização do trabalho docente, uma vez que, com a abordagem qualitativa, pretendi contemplar um mundo cultural como objeto a ser conhecido e que, ao mesmo tempo se supunha e desejava tornar-se conhecido.

Assim, no processo de aproximação com os professores, tendo em vista o objeto deste estudo, foi preciso construir um ambiente propício para vários encontros. Esse retorno à fonte dos dados serviu para aprofundar algumas questões que primeiramente, na coleta de dados via questionário, não apresentaram respostas possíveis de inferências, por serem questões com respostas insuficientes ou embrionárias de explicitação.

Através do processo de locução estabelecido com os professores, mais precisamente com aqueles que disponibilizaram o retorno ao questionário, aproveitei para incluir o rascunho da construção preliminar dos dados. Esse artifício objetivou compreender e aprofundar determinada resposta do questionário que fazia inferência, ao mesmo tempo em que se convertia o questionário em discussões mais explícitas. Esse recurso do diálogo, da leitura do rascunho da análise preliminar permitiu resgatar não somente mais informações sobre as questões elencadas no questionário, como também o de superar o imaginário dado explícito, o dado pronto que estaria contido nas entrevistas. Assim, de uma maneira muito peculiar, muitos dados foram obtidos e ampliados por meio de um tipo de entrevista-diálogo mediado pelo texto preliminar de análise de dados.

No conjunto, esses recursos constituíram um rico material de informações, o que possibilitou conhecer o cotidiano do ensino-aprendizagem e a organização do trabalho dos professores desta pesquisa.

Portanto, para alcançar os objetivos específicos de identificar a trajetória de inserção e de formação do professor de contabilidade, assim como de identificar as concepções epistemológicas e as categorias metodológicas do trabalho pedagógico do professor de contabilidade no ensino superior, fez-se necessário apresentar preliminarmente os princípios explicativos aqui caracterizados na concepção de Homem e de Trabalho, que intrínsecos à formulação da questão de pesquisa, objetivam a sua articulação. Envolvendo discussões sobre a concepção de Homem, foram discutidos alguns aspectos sobre a formação do professor. Na categoria Trabalho foram discutidos alguns aspectos relativos à prática pedagógica do professor de contabilidade.

Nesse contexto, as categorias foram entendidas como “formas de conscientização nos conceitos e modos universais da relação do homem com o mundo, que refletem as propriedades e leis mais gerais e essenciais da natureza, a sociedade e o pensamento”. (DICCIONÀRIO DE FILOSOFIA, 1984, p. 59). De acordo com Sampaio 1998, as categorias não surgem a priori para

organizar dados em compartimentos estanques, mas [para organizar] princípios articuladores que se relacionam mais fortemente a alguns indicadores, embora se apliquem a todos os indicadores apontados separadamente (SAMPAIO, 1998, p. 241).

Os princípios explicativos iniciais desse estudo eu discuto e apresento nos conceitos de Homem e de Trabalho, no segundo capítulo, assim como estes conceitos estão envolvidos na apresentação, discussão e justificativa do tema. Outros indicadores, tais como educação, ensino-aprendizagem, prática pedagógica, relação professor-aluno entre outros possíveis e decorrentes da questão de pesquisa foram incorporados ao estudo.

As discussões sobre a inserção do conhecimento contábil no ensino e a caracterização do atual ensino superior de Ciências Contábeis eu discuto no terceiro capítulo.

No capítulo quarto e quinto arrolo os dados empíricos que atendem os objetivos desta tese e, posteriormente, apresento a sua conclusão.

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