Como já referimos anteriormente, a literatura moçambicana não era muito rica em obras em prosa, mas a partir do início da década de 90, este género começou a ser desenvolvido por autores que começaram a escrever ficção, nomeadamente, novelas, pequenas estórias, contos e até romances. Contudo, o conto foi desde sempre o género privilegiado na sociedade africana, devido à sua intrínseca relação com a tradição oral, fomentada, essencialmente, pelos mais velhos.
Segundo Maria Fernanda Afonso, o conto oral era muito importante na sociedade africana, pois tinha como função transmitir os valores e a tradição cultural da sociedade:
Em conclusão, podemos dizer que o conto oral se enraíza nas origens mais profundas das culturas africanas de que representa verdadeiramente a permanência e o movimento. (…) O conto tem uma função didáctica explícita porque o seu objectivo é educar o indivíduo e preservar a ordem, o bem-estar da comunidade. Absorve os
temas e a moralidade da tradição, criando um universo ambíguo onde ombreiam, sem contradição, o real e o irreal, o mundo dos homens e o mundo dos animais, sendo-lhe permitido integrar toda a espécie de elementos, segundo a fantasia e o talento do contador.123
Os autores moçambicanos ao procurarem novas formas de escrever prosa, aliaram o aspecto oral da cultura moçambicana à sua literatura, preservando a sua essência: a arte de contar estórias. Segundo Patrick Chabal, a preferência pelo género conto, deve-se, sobretudo, a dois factores: o primeiro, devido à maioria dos escritores já ter experiência em textos em prosa, dado que mantinham actividades ligadas ao jornalismo e, o segundo, por se julgar que o conto seja a forma mais apropriada de escrever prosa:
Os jornalistas por vezes acham as estórias ou contos mais adequados á sua maneira de escrever – como se demonstra pela colecção de estórias de Mia Couto em Cronicando (1991). (…) Finalmente, há o facto indubitável de que, no contexto histórico e cultural de um país como Moçambique, o conto ou a estória é provavelmente a mais apropriada e mais popular formar de escrever prosa.124
Também Maria Fernanda Afonso, acerca da preferência dos autores pelo conto, refere que:
O conto aparece como um texto de predilecção para exprimir o olhar do escritor africano face a um mundo em transformação em que se debatem quase às cegas homens anónimos. Permitindo fazer experiências de estilo ou de forma, assume-se como enunciado eminentemente moderno, livre dos constrangimentos que pesavam sobre o contador tradicional, solicitados pela tradição ou pela reacção de um público que podia interromper a narração ou manifestar, quer o seu entusiasmo quer o seu desacordo.125
E acrescenta:
Lewisburg, Bucknell University Press, 2004, pp. 56-57.
123 Maria Fernanda Afonso, O conto Moçambicano: escritas pós-coloniais, Lisboa, Editorial Caminho, 2004, pp. 67,68.
124 Patrick Chabal, Vozes Moçambicanas: Literatura e Nacionalidade, Lisboa, Vega, 1994, p. 68.
125 Maria Fernanda Afonso, O Conto Moçambicano: escritas Pós-Coloniais, Lisboa, Editorial Caminho, 2004, p. 68-69.
O conto representa a escolha de uma escrita que traduz a ruptura e o regresso ao passado, a herança oral da África arcaica e os conhecimentos resultantes da evolução técnica de uma sociedade que ganhou novas exigências. (…) A memória é, portanto, o verdadeiro motor da identificação de cada referência intertextual que permite ao conto africano ler o invisível no visível, esbatendo fronteiras rígidas entre o oral e o escrito, a tradição e a modernidade, os interesses da colectividade e a liberdade criativa individual, a África milenária e o mundo Ocidental. 126
Mia Couto é um dos autores que privilegia este género, tendo começado desde cedo a escrever este tipo de textos, e publicado vários livros de estórias ao longo da sua carreira de escritor. Nos seus contos, Couto narra estórias vulgares e populares, que decorrem no dia-a-dia, e que apesar da estranheza que nos possam suscitar, pretendem ser o reflexo da cultura moçambicana. Segundo António José Marques Martins, o conto tem um papel importante no panorama literário africano pois:
representa, ao mesmo tempo, uma ruptura e um regresso ao passado na medida em que o autor africano preserva essa herança oral mas transforma-a de modo a dar resposta a uma sociedade que apresenta novos contornos e novas exigências, uma sociedade em crescente complexidade e em rápida mutação.127
Estes contos ou estórias, como são designadas pelo autor, são fáceis de imaginar, sobretudo devido à forma como são escritos, facilitando, assim, a reconstrução dos cenários possíveis por parte do leitor.
Em Terra Sonâmbula, apesar de estarmos perante um romance, o género conto aparece inúmeras vezes, sobretudo quando as personagens narram as suas estórias, que aparecem intercaladas umas com as outras. Estas pequenas estórias encontram-se quer na primeira quer na segunda narrativa e ambas se fundamentam, sobretudo, em crenças culturais. Ao analisarmos a obra, deparamo-nos com várias personagens que contam as suas histórias, e em todas elas há elementos maravilhosos que se misturam com a realidade, como, por exemplo, as histórias de Kindzu, de Surendra, de Assane, de Farida, de Siqueleto, de Nhamataca e do pai deste, de Carolinda, de Romão Pinto ou da velha
126 Ibid., pp. 69,70.
127 António José Marques Martins, O Universo do Fantástico na produção contista de Mia Couto:
potencialidade de leitura em alunos do Ensino Básico, dissertação para a obtenção de grau de mestre em Ensino da Língua e Literatura Portuguesas, Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Vila Real, 2006, p. 37.
Virgínia. Na segunda narrativa, assistimos à viagem de uma das nossas personagens principais, Kindzu, que tinha como intuito juntar-se aos guerreiros naparamas128. Ao longo da sua viagem, este vai deparar-se com elementos maravilhosos, fundamentados na crença dos Tsonga, do sul de Moçambique. O seu pai defunto, para evitar que este fizesse a viagem, anuncia o aparecimento do mampfana, uma ave mítica que mata as viagens. Esta ave, quando aparece no caminho do viajante de asas bem abertas, alerta-o para o perigo de morte e para a incerteza do caminho:
Eu e a terra sofríamos de igual castigo. Depois, avançou ameaças: já que eu tanto queria a viagem, num dado entardecer, me haveria de aparecer o mampfana, a ave que mata as viagens. Estará de asas abertas, pousado sobre uma grandíssima árvore, disse ele. (p. 149)
No final da obra, apercebemo-nos que este prenúncio do pai de Kindzu estava relacionado com a morte da personagem.
Uma outra história importante, que vai influenciar o percurso de Kindzu, é a de Farida. Esta história surge encaixada na segunda narrativa e também se baseia nas crenças dos Tsonga, no que concerne o céu. À volta desta personagem estão ligadas crenças bastante enraizadas acerca do nascimento de gémeos. Este tipo de nascimento, nesta cultura, era considerado uma calamidade, tendo, um dos gémeos, de ser sacrificado, enquanto o outro era marginalizado pela sociedade e a mãe submetida a diversos rituais para ser purificada.
No romance, o acto de contar histórias é muito importante, pois é através destas que as crianças conhecem a sua cultura. Após Kindzu nos ter contado a história de Virgínia, ficamos a saber que esta tinha por hábito contar estórias aos meninos da vila, que a rodeavam, pedindo sempre as mesmas:
O certo é sabido: na seguinte manhã os meninos regressam, subitamente calados, e se envoltam nela:
- Cuidado, crianças. Não me pisem os sapos.
Uns lhe penteiam as névoas, outros lhe cortam as unhas, outros ainda lhe corrigem os cuspos no queixo. Ela se deixa, dissolvida, sonambulada num fecha-te sésamo. Os
128 Os guerreiros naparamas eram camponeses persuadidos pelo seu líder, Manuel António, de que eram invencíveis, devido à protecção de magias tradicionais. Começaram a combater com uma grande força de vontade e alcançaram um alto estatuto em 1991, como movimento de apoio ao governo.
meninos lhe pedem: avó conta história. Virgínia sorri. Eles lhe chamam avó. Como ela se embeleza com aquela palavrinha: avó!
- Qual querem, meus filhos?
- Conta aquela do pai de seu pai. (p. 174)
Na busca de Gaspar, Kindzu descobre que Virgínia encontrou o jovem quase morto e, que a pedido das outras crianças, cuidou dele só para que pudessem ouvir a história que ele teria para contar:
- Ai de ti se não gostarmos da tua estória.
Gaspar começou a medo. Contou a sua estória, sem esconder detalhe. Desfiou prosa por tempo. Quando se calou a chuva tinha parado. Os miúdos se entreolharam. Não tinham gostado, era uma estória triste. Nos dias de hoje, quem quer fantasiar desgraças? Um coro de estridências se levantou clamando para que o contador fosse punido. (p. 178)
Na obra, o conto aparece-nos aliado a outro género oral, o provérbio, sendo o primeiro apresentado como uma macro-estrutura e o segundo como uma micro-estrutura.
No seguinte subponto, abordaremos a presença dos provérbios na obra e a importância da sua utilização.