I.4 Métriques sur la performance humaine
I.4.3 Mesures de performance
Os momentos dedicados às refeições e a prática de esportes em grupo são dois momentos centrais para compreender como se inicia o processo de interação dentro do Club Med. Na maioria das vezes, o GO é o intermediador, embora se observe que muitos hóspedes, em especial aqueles que costumam freqüentar o hotel, estejam “predispostos” a interagir.
Por saber da orientação da rede de que os GOs devem se misturar aos GMs na hora das refeições, a primeira vez em que fui jantar, optei pela mesa de oito lugares. A minha expectativa era de que algum GO se oferecesse para me fazer companhia e, assim, eu pudesse iniciar contatos. Para minha decepção, jantei sozinha. Isso aconteceu algumas vezes no fim de semana por dois motivos: o village estava muito cheio e os próprios GOs elegem seus GMs “preferidos” em virtude das afinidades. Até aquele momento, eu não tinha sido “eleita”. No dia seguinte, na hora do almoço, encontrei Beto331, o GO que me recepcionou e já sabia da minha pesquisa. Ele me convidou para me sentar junto com outras pessoas, GOs também.
Um dos GOs era Zé que, segundo Beto, poderia me contar histórias memoráveis do Club Med “de antigamente”, “dos áureos tempos”, onde se vivia “de verdade o espírito e a filosofia da vida village com muitas festas e curtição” e havia “mais liberdade”. Segundo o jovem GO, hoje em dia, existem muitas “chatices, mas dá para curtir também”. Beto se refere às regras de conduta dos Recursos Humanos orientadas
para a profissionalização das atitudes dos GOs. Beto, de 18 anos, é filho de ex-GOs que lhe contavam muitas histórias e o incentivaram a trabalhar temporariamente no Club Med. Quando o perguntei sobre essas histórias, Beto me dava respostas evasivas: “Ah, muitas coisas”, “muitas loucuras”, “O Zé pode te contar”.
Zé foi convidado para trabalhar no Club Med em 1981 e, desde então, diz ser apaixonado pelo estilo de vida da rede. Contou que, certa vez, aceitou uma proposta muito boa financeiramente de um resort concorrente. Embora ganhasse mais, diz não ter se adaptado, voltando para Club Med. Com orgulho, me mostrou os bastidores da área em que são realizados os shows, o camarim e a produção dos cenários. Eu, no entanto, estava mais interessada em investigar o que seriam os “tempos áureos” do Club Med, mas Zé desconversava, dizendo que os mais jovens são muito curiosos e que romantizam demais aqueles tempos.
Perguntei, então, sobre as dificuldades de se levar uma “vida comum” dentro do village e do desejo de casar e ter filhos. Ele, que casou e se separou, disse preferir o estilo de vida do Club Med. Sobre o uso do seu tempo livre, falou como se invertesse a lógica dos GM: “Às vezes, quando estou de folga, vou para a esquina das avenidas Rio Branco e Presidente Vargas respirar monóxido de carbono. Também já fui para Bangu passear. Fiquei hospedado em um hotelzinho e fui ao shopping que foi inaugurado há pouco tempo”. Zé era enigmático: sua fala lenta dava a entender que escolhia cuidadosamente as palavras.
Diariamente, às 19h30 acontece um happy hour com música ao vivo na área do bar. Os GOs de todas as áreas devem ficar neste ambiente e socializar com os GMs. Os funcionários são orientados a não formarem um grupo muito grande. Nunca mais que três devem estar reunidos, mesmo que haja GMs na roda de conversa. Inúmeras vezes, quando fiquei cercada de GOs, sempre um comentava que deveria se retirar, pois, caso contrário, seriam advertidos. Todos reclamavam desta norma, inclusive diante do hóspede.
Na noite do primeiro domingo que passei no hotel, quando a maioria das hóspedes do fim de semana considerado “especial” por conta da comemoração de 20 anos do village tinha partido, pude observar melhor a dinâmica da socialização na hora do happy hour. O village menos cheio facilitou conhecer novas pessoas. Ao invés de eu buscar o contato, a relação se inverteu e os GOs, principalmente, passaram a puxar conversa
comigo. Se antes eu passava despercebida, com o village “vazio”, o tratamento foi mais “personalizado”.
No domingo à noite, Pablo, o GO que na parte da manhã havia me dado noções de ski náutico, estava conversando próximo a mim com Ana, uma GM adolescente de 17 anos. Convidou-me a participar também da conversa. O tema em pauta eram as dúvidas e incertezas dela sobre seu futuro. Não sabia o que fazer no vestibular e desejava ser GO do Club Med, mas achava que sua mãe não deixaria: “Minha mãe é maravilhosa, somos muitos ligadas. Ela não agüentaria ficar longe de mim. Eu queria fazer algo como o Beto que antes de entrar na faculdade passou um período aqui trabalhando”. O GO dava conselhos, contando a sua própria experiência, e eu também fui incitada a dar meu depoimento sobre minha trajetória profissional e acadêmica.
Em geral, a socialização começa no happy hour do bar e se aprofunda durante o jantar. Do bar, em geral, o GO convida o grupo a seguir para o restaurante, dando continuidade à conversa. Naquela noite, além de jantar em companhia de Pablo e Ana, também os acompanhei no show que acontece todos os dias por volta das 22h.
Na segunda-feira de manhã, a maior partes dos GM com quem travei contato tinham partido. O casal que eu havia conhecido no dia anterior durante o ski náutico me convidou para tomar café com eles, assim que me viram no restaurante, mas eles também partiriam em seguida. Enquanto conversávamos, uma mulher na faixa dos 30 anos sentou-se conosco e começou a conversar animadamente. A princípio, imaginei que ela conhecesse o casal, mas percebi que ambos pensavam o inverso diante da surpresa quando a mulher se apresentou. Era Patrícia que havia chegado naquela manhã e também estava sozinha.
Casada e com uma filha pequena, Patrícia disse que precisava tirar um dia de suas férias só para ela. Pagou, então, uma diária no Club Med e estava disposta a aproveitar todos os momentos, pois era raro conseguir esse tempo “único” para desfrutar da “sensação de liberdade”. Patrícia andava pelo hotel com uma bolsa que continha os principais objetos de uso diário: roupa de academia, calcinha, diversos protetores solares, carteira (ela não confiava em deixar no quarto), câmera digital, tênis, meia e camiseta. Assim, ela não perderia tempo indo ao quarto trocar de roupa. Combinamos de almoçar juntas naquela segunda-feira. “Adorei ter encontrado! Faremos companhia
uma pra outra e vamos curtir muito”, me disse animada como se fossemos nos tornar grandes amigas.
O horário das refeições torna-se dentro do Club Med um ritual de socialização. A dinâmica de se sentar à mesa, independentemente de ser convidado, tal como fez Patrícia, é uma prática comum para os GMs que costumam freqüentar o Club Med. Quando jantava com Fafá e Lipe, dois GOs, um dos jovens belga que estava no hotel sentou-se conosco, seguido por toda a sua família. A conversa sobre as diferenças culturais entre Brasil e Bélgica foi animada, apesar das dificuldades de idioma. Os belgas falavam inglês e francês. Fafá entendia e falava um pouco de francês. Lipe só falava em inglês. Eu entendia um pouco de francês, mas só falava inglês. Então, ao mesmo tempo em que nos comunicávamos em inglês com os belgas, eu tentava traduzir o que se passava para Fafá. E quando os belgas falavam com a Fafá em francês, tentávamos traduzir para Lipe a conversa.
Fomos interrompidos por um GO que trouxe até a mesa uma fruta do conde para os belgas experimentarem. Seria um tratamento privilegiado para GMs estrangeiros? Mais cedo, um GO havia me relatado que “os franceses, até pouco tempo, atrás eram mais bem tratados que os brasileiros. A diferença apesar de sutil era visível”. Segundo o informante, “o que importa é a visão da matriz em relação aos negócios no Brasil. Se vem um francês pra cá e não gosta, a reclamação chega lá na matriz que não fica nada satisfeita e cobra os executivos daqui. Eu não concordo com isso não”. Hoje, o GO considera que os tratamentos seriam mais igualitários, independentemente da nacionalidade, embora ainda exista, em suas palavras, uma “tendência para agradar mais os estrangeiros”. O GO não detalhou como seria essa diferença no tratamento, embora eu tenha insistido em exemplos. Oferecer fruta do conde seria um exemplo de tratamento mais personalizado? Talvez, mas eu procedi, quase que da mesma forma, quando insisti com os belgas para experimentarem um brigadeiro, contando-lhes uma das versões sobre a origem do famoso docinho nas festas brasileiras. Depois do jantar, Lipe pediu desculpa pela “invasão” dos belgas, acreditando que eles teriam “atrapalhado” minha conversa com Fafá, uma GO que trabalha no village Rio das Pedras desde a inauguração:
Aline, desculpa se eu atrapalhei a sua conversa com a Fafá. Eu não sabia que os belgas viriam jantar com a gente. O primeiro sentou e quando vi os outros já estavam lá. Eu
não sei o que faço... Nem falo inglês direito... Aliás, muito obrigado, você me salvou com diversas palavras, me ajudou pra caramba. Você tinha que ser GO.
Lipe não foi o único a me enquadrar dentro do perfil do que seria uma boa GO – vários disseram que eu tinha flexibilidade, e seria discreta e articulada. Respondia sempre que não conseguiria, pois quando levanto muito cedo, não consigo pronunciar uma única palavra e, portanto, seria demitida. Era a deixa para que os GOs falassem sobre a dificuldade de estar permanentemente em interação com os hóspedes. Um dos GOs confessou: “A maioria das vezes é legal e muito bacana esse contato, mas tem dia que você não está afim. São sempre as mesmas perguntas. Também temos nossos dias de acordar de mal-humor”.
O contato GO-GM, portanto, nem sempre é tão amigável. Segundo Lipe, na sua primeira noite de trabalho, quando foi jantar, perguntou a um casal se poderia fazer companhia a eles. “Eles responderam que não. Eu já estava todo tímido. Fiquei completamente sem graça. Mas eu entendo. Eles estão no direito deles. Tem gente que quer mais privacidade. Então, nós respeitamos. Pedi desculpas e sentei em outra mesa”, contou.
O encantamento pela “vida GO” é grande, especialmente entre os hóspedes mais jovens. Vale destacar o caso de Joana, uma GM de 24 anos, formada em Direito, que tem vontade de integrar a equipe de Gentis Organizadores. A jovem conta que viaja em média três vezes por ano seja para resorts ou outros destinos turísticos, inclusive no exterior. Mas, dentre as opções de hotéis de lazer, tem preferência pelo Club Med em virtude da diversidade de atividades e pelo ambiente “aconchegante, mais acolhedor, mais interessante, mais apaixonante”, em suas palavras. Fui apresentada à Joana por um GO. Ela estava com o uniforme do dia, mas carregava a pulseirinha de GM. Ao revelar seu desejo de ser uma Gentil Organizadora, Joana foi prontamente atendida pelo chef de village, conforme relatou:
Sempre que vou ao Med, tenho vontade de ser GO... Fico com essa idéia... Daí dessa vez um dos GOs comentou com o Chef de Village e, numa brincadeira, eu pedi pra usar o uniforme e ser GO por um dia. ... Ganhei até crachá... Foi ótimo... Me senti realizando um sonho. O mais legal foi ter a oportunidade de ver de mais perto a vida de GO. O ruim? Bom, posso contar uma história interessante... No fim da noite os GOs foram se reunir com os chefes e eu não fui, lógico. Resolvi pedir uma coxinha no bar, até dar a hora deles saírem... Mas, o moço do bar não queria me entregar de jeito nenhum... Achou que eu era GO e GO não pode comer no bar! Quero ser GO temporária e não fazer carreira lá dentro. Eu quero ter uma experiência nova de vida...
Todas as experiências foram muito boas... Os esportes, a convivência, as risadas... E, tudo, num ambiente muito lindo.
Joana costuma freqüentar o resort em companhia da família e para realizar o seu desejo de voltar depende da tia pagar a estadia. “Tenho uma tia que financia a viagem de todo mundo... Já chegou a levar umas 40 pessoas ao Med numa única vez”, afirmou. Das experiências no Club Med, Joana conta que, em geral, fica amiga dos GOs com quem mantém contato permanentemente.
Vale comparar essa informação com a fala de uma jovem francesa que costuma freqüentar os hotéis do Club Med com a família no exterior. Ao pedir para explicar os vínculos estabelecidos dentro dos hotéis, ela respondeu: “a relação do hóspede com o GO não é uma relação profunda. Nós ficamos mais amigos de outros hóspedes. Porque os GOs não estão lá para se divertir. Estão lá para se ocupar das crianças e de outras atividades. Parece que eles estão se divertindo, mas é trabalho”. Estabelecer contato com outros hóspedes, de início pode não ser fácil, mas é quase inevitável:
É difícil encontrar pessoas. Para as crianças tem o mini-Club que fica mais fácil. Todos os dias têm um encontro às 10h da manhã para fazer amigos. Mesmo depois de anos indo ao Club Med era muito difícil pra mim e pra outras pessoas também. Mas, depois de dois dias, tudo fica muito bom. (...) Fazer amigos é parte da magia do Club Med. Você faz amigos muito rápido. (...) O Club Med é como a Disney. Tudo passa muito rápido. Tem muitas coisas para fazer. É tudo muito bom e não dá vontade de partir. Mas, ao mesmo tempo, tudo parece passar devagar porque você faz as coisas que você quer. Não reflete. Só está lá naquele lugar revigorante em que você pode fazer muitas coisas ou não fazer nada. O mais interessante é que você perde a inibição e faz coisas que nunca fez.
A jovem conhece unidades da rede na Espanha, Turquia, Itália, França e Tunísia. Segundo ela, é bom viajar para o Club Med porque “a vida parece mais fácil. A comida é à vontade. Não precisa cozinhar. Não tem rotina”. A entrevistada informou ainda que a família prefere o Club Med em relação aos outros resort principalmente por conta do idioma (francês), embora também possam se comunicar em inglês. Disse que, certa vez, viajou com os pais e os irmãos para Cancun. A jovem disse ter adorado, pois gosta de falar espanhol e tem muito interesse na América Latina, mas a sua família não gostou: “por não conversar muito com as outras pessoas, meus irmãos brigaram demais por ficar muito tempo uns com os outros. Minha irmã gosta muito de ficar na praia, sem fazer nada, e minha mãe queria que ela fizesse tudo porque minha mãe gastou muito dinheiro na viagem”. A experiência em outro resort, segundo a entrevistada foi realizada porque a família queria conhecer outros empreendimentos.