São várias as contribuições psicanalíticas que fornecem material teórico-clínico, ampliando a compreensão acerca dessa “síndrome”. Serão destacadas, a saber, algumas dessas contribuições provenientes das correntes norte-americana, inglesa e francesa.
Antes de percorrê-las, vale ressaltar que, neste vasto contexto psicanalítico, privilegia-se a dimensão do psiquismo e não mais a ordem do orgânico, abordando um “sujeito psíquico”, no qual “nascimento” e “destino” serão decididos, sobretudo, numa relação com outro ser humano, que procurará atender (ou não) as suas carências biológicas e simbólicas. Entretanto, como poderá ser visto a seguir, essas diversas contribuições psicanalíticas, apesar de pertencerem a um mesmo campo de saber, baseiam-se em conotações distintas quanto ao estatuto deste “sujeito psíquico”, às vicissitudes pelas quais este sujeito passa no percurso de sua constituição e às tramas características de um enlace com outro ser humano.
2.2.3.1 - CONTRIBUIÇÕES DA ESCOLA NORTE-AMERICANA
Os primeiros enfoques psicanalíticos sobre o autismo situam-se no início da década de 50, representados por Bruno Bettelheim e Margareth Mahler, influenciados pelas primeiras contribuições de Kanner.
a) Bruno Bettelheim – Metáfora da “fortaleza vazia”
Bettelheim, psicanalista de criança, baseando-se numa perspectiva evolucionista, postulou que o desenvolvimento infantil ocorre numa sucessão de etapas. Dessa forma, o sujeito partiria
de um estágio primitivo, através de uma seqüência lógica de fases, até atingir um estágio de maior complexidade, atualizando as suas capacidades que, inicialmente, se encontram apenas em estado potencial.
Descrevendo melhor a sua concepção de desenvolvimento, tem-se a fase primitiva que é de natureza pré-verbal e pré-lógica, na qual estão presentes as sensações, as percepções e a experimentação, fase esta característica de uma relação imediata com o mundo. Assim, neste momento de vida, a criança ainda não está apta a se servir da linguagem, enquanto instrumento, o qual só, aos poucos, conseguirá dominar. Além disso, mãe e criança encontram-se numa relação de plenitude, anterior a qualquer frustração, reflexo da harmonia do período intra-uterino.
Vale salientar que, nesse “encontro primitivo”, a criança é um ser ativo na busca de satisfação das suas necessidades e na observação do mundo, encontrando-se, assim, no auge do contato com a vida; e, por outro lado, a mãe é extremamente atenta e receptiva às expressões dos sentimentos e às iniciativas de seu filho, estimulando para que ele continue a se interessar pelo mundo que o cerca. Desta forma, experimentar o mundo como sendo bom e, conseqüentemente, achar que vale à pena se relacionar com ele, principalmente nos seis primeiros meses de vida, permite que a criança constitua um “self” forte capaz de suportar as frustrações posteriores que, inevitavelmente, virão em sua vida. Esta fase seria anterior a qualquer diferenciação eu/não eu.
Por conseguinte, as bases de um desenvolvimento normal estariam num “encontro primitivo” entre mãe-criança, permeado de correspondência e de reciprocidade (em “mutualidade”); ao contrário, se essa relação envolve apatia, indiferença ou agressividade, a criança poderia renunciar a toda e qualquer atividade (dirigida ao mundo), advindo o autismo.
Aos poucos, a criança vai tomando consciência de si e dos outros, do eu e do não-eu, a partir dessas experiências de frustração constantes que a vida lhe proporciona, efetivando o seu potencial. Nesse sentido, seria aproximadamente em torno do segundo ano de vida, momento do
desenvolvimento normal em que a criança empreende atividade espontânea para um objetivo, que novamente a indiferença e/ou uma resposta destrutiva do meio poderiam gerar na criança a renúncia a toda a iniciativa.
Em suma, o autismo implicaria num bloqueio do desenvolvimento, decorrente de uma retirada ou de uma ausência deste encontro primitivo com o outro, constituindo-se em “um potencial não realizado” (BETTELHEIM, 1987, p. 05).
Este autor denominou a relação peculiar vivida pela “criança autista” e seus pais de “situação extrema”, a qual levaria a primeira a submergir num estado de “desumanização auto- escolhido” – autismo. O que as crianças sentem, quando submetidas a tais situações, é “um contínuo receio por suas vidas” (ibid., p. 69).
Caracterizando melhor essa situação extrema que possui um estatuto de realidade, tem-se uma atitude de indiferença, apatia ou extrema frieza por parte dos pais. Este autor apontou, inclusive, para o ódio inconsciente da mãe em relação à criança ou, pelo menos, ao desejo de um dos pais de que seu filho não existisse.
Portanto, este autor assinalou, assim, que a gênese do autismo estaria na reação das crianças frente a situações terríveis que se caracterizam pelo risco constante de vida, pela inevitabilidade da experiência, por sua duração incerta e por ser imprevisível. Assim, afirmou a existência de uma frustração de caráter real na gênese do autismo, que pode ser percebida nas seguintes palavras: “creio que a causa inicial da alienação é muito mais a correta interpretação que a criança faz das emoções negativas com as quais as figuras mais significativas de seu meio ambiente se aproximam dela” (BETTELHEIM, 1987, p. 72).
Dessa forma, a criança autista percebe, prematuramente (quando o seu “self” ainda não está suficientemente forte), o mundo como frustrante e seu retraimento representa uma defesa invulnerável frente a tal situação, não conseguindo constituir adequadamente a sua personalidade.
Este autor se referiu, portanto, ao autismo como uma “fortaleza vazia”, construção imaginária que acentuou o retraimento, a ausência de um mundo psíquico e a desumanização no autismo.
Partindo da concepção de que o ambiente familiar não só origina, mas também piora o estado da criança, mantendo-a num estado autístico original, propôs métodos terapêuticos não psiquiátricos, apoiando a sua intervenção na separação radical das crianças em relação aos seus pais, internando-as numa escola, considerada como um ambiente satisfatório. Para isto, ele fundou a sua escola, “Orthogenic School”, para autista como um “meio terapêutico total”, ambiente estimulante e facilitador, favorecendo a reconstrução da personalidade (ibid., p. 09). Por conseguinte, atuando desta forma, Bettelheim parece se deslocar de uma posição primordial de psicanalista para a de pedagogo (VOLNOVICH, 1993).
O terapeuta-pedagogo deveria se ofertar como objeto estável e onipresente para o paciente, construindo um mundo totalmente distinto do qual a criança se retirou, com objetivo de possibilitar a sua reintegração e a vivência da sucessão lógica de fases do desenvolvimento que foram interrompidas, independentemente da sua idade cronológica. Assim, “nosso estímulo serve, sobretudo, para convencer estas crianças de que não estão sozinhas nem em perigo na luta para encontrarem-se a si mesmas” (BETTELHEIM, 1967, p.126). Desta forma, o tratamento teria um caráter de retificação de uma experiência primitiva mal-sucedida com o mundo.
Diante de tal intervenção, admite que a cura ocorra, mas apenas em pouquíssimos casos e que, inclusive, ao se anunciar, poderá não ser duradoura.
b) Margareth Mahler – Metáfora do “ovo de pássaro”
Mahler, psiquiatra e psicanalista de criança, visou compreender o desenvolvimento normal do ser humano e os seus desvios patológicos, a partir de uma vertente genético-
evolutiva, sendo pioneira na tentativa de conceituar as psicoses infantis, bem como as suas manifestações clínicas, tendo como referência a teoria psicanalítica.
Esta autora partiu do pressuposto de que o desenvolvimento normal do ego, o qual é responsável pela função de adaptação à realidade interna pulsional e à realidade externa social, possuía, como causas etiológicas, fatores constitucionais e/ou adquiridos a partir das vicissitudes da interação mãe-bebê.
O percurso do desenvolvimento normal do ego, do nascimento aos três anos de idade, foi descrito em três fases distintas. O “autismo primário normal”, a primeira delas, que vai do nascimento aos três meses de vida, corresponde a um sistema de defesa do bebê contra o excesso de estimulação externa; condição esta que não implica, necessariamente, num completo fechamento a qualquer estimulação desta ordem. Isto é possível em decorrência de uma tendência inata, por parte do bebê, a não responder aos estímulos externos excessivos e, por outro lado, da intervenção materna, atuando como anteparo de proteção dos estímulos externos e das pulsões internas. Nesse sentido, o funcionamento psíquico prioriza a diminuição dos níveis de excitação.
Produz-se, então, uma “esfera autística”, onde a própria mãe é parte integrante, já que ainda não é vista como agente externo. Portanto, nesse momento, o ego rudimentar ainda não diferencia realidade externa e interna; e nem discrimina entre si mesmo e os objetos animados e inanimados ao seu redor.
Ao se referir a esta fase autística normal, Mahler a comparou à metáfora do “ovo de pássaro”, metáfora esta referida por Freud (1911), em “Dois princípios de funcionamento mental”, para retratar um tipo de mecanismo psíquico primitivo, em que o bebê, semelhantemente ao embrião das aves, satisfaz suas carências de maneira autística - sem levar em consideração os cuidados maternos e as exigências da realidade exterior, vivendo de forma auto- suficiente. Seguindo a visão psicanalítica clássica, esta fase autística normal é equiparada a uma
fase do desenvolvimento anterior ao auto-erotismo (fase desprovida de objetos, isto é, anobjetal). Portanto, nesta fase, a libido está centrada no próprio corpo e as instâncias psíquicas permanecem indiferenciadas (CAVALCANTI; ROCHA, 1991).
A “simbiose”, a segunda fase, que vai dos três meses ao primeiro ano de vida, se refere a um estado de fusão com a mãe, no qual “eu” e “não-eu” ainda não estão diferenciados, embora o interior comece a se diferenciar gradativamente do exterior. O fundamental, nesta etapa, é a criança conseguir neutralizar as pulsões internas e tolerar os estímulos externos, através de uma barreira de proteção que é o seu corpo, simbiotizado com o corpo materno, sendo este visto como uma extensão daquele.
O termo simbiose se refere à capacidade filogenética do ser humano em investir a mãe, formando uma vaga unidade dual com ela, constituindo a primeira base sobre a qual se construirão todas as relações humanas posteriores (MAHLER, 1983). Desta forma, a mãe ainda compõe o “self” da criança. Nesta etapa, o ego deixa de ser rudimentar e passa ao estatuto de corporal. Enfim, essa esfera simbiótica onipotente, quando bem sucedida, prepara o terreno para a estruturação do ego e para o sucesso dos processos de separação-individuação que virão a seguir.
A “separação-individuação”, a terceira fase, que vai até os três anos de vida, privilegia os processos de individuação expressos na evolução e na sofisticação das funções do ego (percepção, memória, cognição, prova da realidade e autonomia) e da representação do “self”, e os processos de separação vistos como diferenciação e afastamento da mãe, surgindo na criança uma crescente consciência de ser alguém separado dela.
Portanto, neste momento, a criança conseguiria reconhecer a mãe como uma pessoa separada e autônoma, podendo beneficiar-se mais plenamente das relações objetais. Entretanto, essa fase não é apenas permeada de tranqüilidade, mas também de ambivalência, por parte da criança, em relação aos simultâneos movimentos de separação e de união com a sua mãe. Por
volta dos três anos de idade, espera-se que a criança tenha adquirido um sentimento de identidade que lhe permitiria uma individualidade definida. Neste momento, ocorre o verdadeiro nascimento psicológico da criança, introduzindo-o no mundo das relações objetais, construindo as bases para os processos de linguagem.
Diante do exposto, Mahler (1983) entendeu a psicose infantil como graves distorções do processo evolutivo normal da formação do ego e de suas funções no interior das relações precoces estabelecidas entre mãe-bebê, classificando-a em três grupos distintos, tais como, síndrome autística, psicose simbiótica e psicoses esquizofrênicas. Contudo, com o crescimento, esses quadros clínicos tendem a se justapor.
Cada um destes tipos de psicose infantil descrito acima, é decorrente da fase específica do desenvolvimento em que ocorreu o déficit. Seguindo esta linha de raciocínio, a síndrome autística seria resultante de uma fixação (parada) ou de uma regressão do desenvolvimento psicológico à fase do “autismo primário normal”, caracterizando-se, à luz da metáfora do “ovo de pássaro”, como um estado de isolamento radical do mundo externo, implicando em indiferenciação, auto- suficiência, sem estabelecer relações objetais, sem linguagem e impermeável ao contato com o meio externo (CAVALCANTI; ROCHA, 2001).
Esta síndrome autística, segundo essa autora teria, como causa etiológica, uma danificação básica do ego, ocorrendo em crianças que possuem uma Anlage hereditária ou constitucional para tal ou naquelas que predomina um fator intrínseco. Afirma que estas crianças “possuem um aparelho regulador de tensão inerentemente defeituoso, que provavelmente não pode ser adequadamente complementado nem pelos mais eficientes cuidados maternos, tanto em quantidade como em qualidade” (MAHLER, 1987, p. 09-26). Entretanto, salientou também a ocorrência de distorções no relacionamento mãe-bebê envolvida na gênese da síndrome autística.
Algumas mães deprimidas não conseguem maternar seus bebês, por estarem envolvidas plenamente em sua própria dor.
No que diz respeito, particularmente, ao tratamento da síndrome autística, este possui metas, tais como: 1) restauração da imagem corporal e da identidade; 2) desenvolvimento das relações de objeto; e 3) restauração das funções carentes ou distorcidas de maturação do ego. Deste modo, o analista tem que se colocar como objeto de amor real para a criança, possibilitando o seu desenvolvimento de um período mais arcaico em direção a períodos mais avançados. Esta passagem de um período para outro implicaria em “(...) cautela, compreensão e fé do analista” (PAIVA, 1995, p. 35).
Especificando melhor o tratamento, este envolve a participação da mãe, criança e terapeuta, implicando num modelo tripartite, subdividindo-se em duas distintas fases:
1) Introdutória – na qual se busca um contato com a criança, que não seja sentido por ela como intrusivo. Inicialmente, o analista deve funcionar como amortecedor entre a criança e o meio; posteriormente, a mãe, identificada com este modelo de relação adequada, poderá exercer esta mesma função. Portanto, essa primeira fase tem como objetivo o estabelecimento ou restabelecimento de uma relação simbiótica com o objeto original (mãe);
2) Tratamento propriamente dito – na qual a criança deverá reviver e entender as experiências traumáticas que impediram o desenvolvimento normal do ego. Além disso, Mahler (1983) afirmou que um pré-requisito básico para atrair a criança para o objeto de amor é lançar mão do ritmo e música. O contato corporal direto deve ser evitado, podendo ser utilizado, indiretamente, para isto, objetos inanimados. Se os contatos sociais são introduzidos precocemente, a emergência dos processos psicóticos é inevitável. Desse modo, a
intervenção terapêutica envolve, de certa forma, a dimensão simbólica da palavra, embora, seja colocado, em seu lugar, o ritmo ou a música.
Nesta concepção, a terapia psicanalítica teria um valor re-educativo, à medida que visa um
adequado desenvolvimento do ego, através da transferência com o analista. Quanto à perspectiva de cura, postulou que esta é desoladora, visto que o ego permanece
sensível, desestruturado e irremediavelmente deformado.
Para finalizar este tópico, é interessante colocar que estas contribuições psicanalíticas da escola norte-americana, que se nutrem da “Psicologia do Ego”, possuem, de forma subjacente, os seguintes postulados teóricos: 1) noção de sujeito psíquico (self - ego) que tem como função a adaptação à realidade (interna-pulsional e externa-social); 2) perspectiva desenvolvimentista que implica na noção de evolução do ego enquanto sucessão de fases - de um estágio mais primitivo em direção a um estágio mais complexo; 3) conceito de “relação objetal” entre mãe-bebê que, quando estabelecida de forma adequada, promove o desenvolvimento normal do ego.
Neste contexto psicanalítico, o autismo é decorrente de um bloqueio ou de graves distorções do processo evolutivo normal, implicando em um sujeito psíquico inconstituído (self – ego), não podendo se beneficiar da plenitude das funções autônomas do ego (percepção, memória, cognição, prova da realidade, linguagem e outras), causado por fatores orgânicos constitucionais (dimensão do real) e/ou fatores adquiridos relativos a um fracasso na interação precoce mãe-bebê (dimensão imaginária).
Esta noção de um sujeito psíquico que não se constitui adequadamente na criança autista é muito fecunda num estudo que tem como objetivo compreender os seus severos distúrbios da linguagem. Entretanto, mesmo reconhecendo a importância de seguir tal caminho de reflexão, investigando o fracasso da constituição subjetiva, é possível perceber que essas contribuições teóricas acerca do autismo, provenientes da corrente norte-americana da psicanálise, adotam a
perspectiva desenvolvimentista para explicar a formação deste sujeito psíquico, perspectiva esta que não coaduna com a vertente estruturalista escolhida neste específico estudo.
Estas abordagens teóricas sobre o autismo não poderiam ficar excluídas de uma discussão desta natureza, mesmo sendo incompatíveis com a perspectiva adotada neste estudo, visto que trazem contribuições importantes para a clínica do autismo, sendo responsáveis, inclusive, pela construção do imaginário cultural, fora e dentro do campo psicanalítico, sobre essa maneira diferente de estar no mundo do autista.