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Mesure de puissance

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Chapitre II : La gestion d’énergie

2. Les principes de gestion d’énergie 1 Les régulateurs linéaires de type LDO

2.4 Mesure de puissance

Toda criatura do universo, quase como se fosse um livro ou uma pintura

é para nós como um espelho; da nossa vida, da nossa morte, da nossa condição, da nossa sorte

fiel signo. A rosa representa o nosso estado, graciosa glosa da nossa condição, interpretação da nossa vida; que enquanto é florescente na manhã primeira,

floresce, desflorescida flor, com a velhice vespertina.

Alain de Lille (1128-1202)149

Segundo Smith (SMITH, 1968. p. 18), pode-se afirmar com segurança que o conceito de speculum é o responsável por dar unidade, propósito e coesão a todo o tratado Speculum Musicae150. Presente em seu próprio título, esse conceito configura-se, portanto, como o mais fundamental e urgente a ser esclarecido na medida em que se visa uma compreensão clara e precisa do pensamento de Jacobus. Desse modo, faz-se coerente investigarmos esse que exerce a função de princípio unificador, pois, além de constituir o próprio título do tratado, é o conceito sobre o qual todos os outros se fundamentam.

Segundo Smith:

[...] a própria definição de consonância e a compreensão correta do Livro I do Speculum, dependem em última análise da interpretação correta dos termos speculum e speculatio, não apenas a partir de um ponto de vista histórico, mas a partir dos conteúdos do próprio tratado151.

149

"Omnis mundi creatura/ quasi liber, et picture/ nobis est et speculum;/nostra vitae, nostrae mortis/ nostri status, nostrae sortis/ fidelis signaculum./ Nostrum statum pingit rosa,/ nostri status decens glosa,/ nostrae vitae lectio;/ quae dum primo mane floret/ defloratus flos effloret/ verspertino senio”. (Rhythmus alter, PL 210, col. 579 apud ECO, 2010. p. 138-139).

150

“One can therefore safely say, that in a real sense the definition of the word, speculum, consisting in the analysis of the three phrases under consideration, permeates the entire work, giving it unity and purpose. A few selected passages in the Liber I will illustrate the point and show that the concepts under consideration are not only important for the Proemium and the conclusion of Liber I, but hold the entire book together. In no case, are these three phrases merely excerpts, or random quotations, but represent, like a formula, the vast thought of the musical theorist himself.”(SMITH, 1968. p. 17-18).

151

“[...] the very definition of consonance and the correct understanding of the Liber I of the Speculum depend ultimately on the correct interpretaion of the terms speculum and speculatio, not only from an historical viewpoint but from the contents of the work itself”. (SMITH, 1968a. p. 16).

O conceito de speculatio, derivado do conceito de speculum é constitutivo do próprio conceito de ciência especulativa e, consequentemente, de música especulativa. Veremos que o conceito de speculum possui princípios subjacentes advindos da teologia (e ele é de fato incompreensível se não for levado em conta seu contexto teológico), de maneira que ele se constitui, por essa razão, como um daqueles conceitos fundamentais que a musicóloga Nancy Van Deusen (VAN DEUSEN, 1995, p. XIV) afirma estarem presentes da teoria musical medieval e que “possuem constructos teológicos subjacentes e são, em grande medida, incompreensíveis sem esses constructos” 152.

Quando se fala de espelho, trata-se, obviamente, daquele objeto que todos conhecemos, definido por ser uma “superfície extremamente polida, localizada na fronteira entre dois meios ópticos e que reflete a luz que sobre ela incide” 153. Além disso, no sentido figurado, espelho também tem a acepção de “algo que deixa transparecer (alguma coisa)” 154 e “modelo a ser seguido; exemplo” 155. A concepção de espelho pode apresentar as seguintes conotações:

 A ideia de mediação, de visão ou conhecimento indireto. Ao olharmos para um espelho, não vemos algo diretamente, mas vemos nele a imagem ou semelhança de algo, e não esse algo diretamente. Além disso, ao se olhar para um espelho, não se vê jamais o “espelho em si mesmo”, mas sim a imagem de outra coisa nele refletida (uma vez que é de sua própria natureza refletir outra coisa).  Sendo um elemento mediador do conhecimento de algo, o espelho pode ser

metáfora ou alegoria para um instrumento de conhecimento, uma ferramenta epistemológica, ou seja, um objeto que tem a função de auxiliar e mediar o conhecimento de outro.

 O espelho pode aumentar ou diminuir a imagem do objeto refletido e não apenas reproduzi-la em seu tamanho real. Existem diversos tipos de espelho, não somente aqueles de nosso uso atual cotidiano. Um espelho, ao refletir um objeto ampliando sua imagem, pode permitir ver em detalhe aquilo que com os olhos nus não se pode ver. O espelho também pode compactar a imagem, deixando-a

152 “[...] generally speaking, all of the basic, most important concepts to be found in music writing have

underlying theological constructs and are, to a great extent, incomprehensible without these constructs. (VAN DEUSEN, 1995, p. XIV).

153

Conforme a definição do dicionário Houaiss, disponível em https://houaiss.uol.com.br Acesso 13 junho 2017.

154

Ibid.

155

mais distante, permitindo uma visão de conjunto daquilo que não temos como ver de uma só vez não fosse através dessa mediação156.

A concepção medieval de speculum, como veremos, carrega também essas conotações. Trata-se de uma concepção alegórica157 (ao mesmo tempo em que ela mesma expressa uma concepção de alegoria), fundamentada, como veremos mais adiante, numa concepção alegórica da própria realidade. Como vimos, ao tratarmos a respeito da concepção de exemplarismo divino, todos os seres criados são, em sua própria estrutura ontológica, por participação, uma alegoria, que é em última análise alegoria de Deus (concepção conhecida como “alegorismo universal”158). Além disso, também diz respeito à concepção de um conhecimento indireto (e imperfeito), servindo de analogia para expressar o modo como o homem pode conhecer nessa vida a Deus e as realidades espirituais, transcendentes e separadas da matéria159. Também diz respeito à concepção de arte e música (e, de um modo geral, tudo aquilo que chamamos de cultura), na medida em que essas (por também serem criaturas) eram também concebidas como specula, espelhos de Deus e da ordem da realidade estabelecida por Ele, e consequentemente, exercendo uma função de instrumento mediador de conhecimento e de ascensão espiritual em direção a Deus. Mas, em primeiro lugar, devemos chamar atenção para o conceito mais, por assim dizer, “superficial” de

speculum enquanto gênero literário característico da Idade Média, uma vez que o

156

Como vimos na passagem de São Gregório de Nissa citada no segundo capítulo, o homem era concebido como um microcosmo que refletia a ordem total do universo (constituído pelo macrocosmo) como num espelho, fazendo uso da analogia com um pedaço de vidro que, ainda que seja pequeno, pode refletir o disco do sol inteiro “como se a pequenez daquilo que reluz o contivesse” (São Gregório de Nissa, Comentário aos títulos dos salmos, I, III. 32-34).

157

João Adolfo Hansen em seu livro “Alegoria – construção e interpretação da metáfora” define alegoria como “[...] Retoricamente, metáfora continuada que diz b para significar a, baseando-se numa relação de semelhança entre b e a: “O navio do Estado atravessa mares perigosos” (o governo da república atravessa fase crítica)”. (HANSEN, 2006. p. 225). Assim também, um espelho é algo a que reflete e dá a conhecer

b pela semelhança de sua imagem refletida. Como veremos, conforme a concepção medieval, a musica instrumentalis é um espelho, uma alegoria das músicas mundana, humana e coelestis vel divina, ou seja,

da ordem do universo, da ordem da natureza humana e da ordem das coisas imateriais, espirituais, transcendentes e sobrenaturais. A definição do verbo “espelhar” também tem a acepção de “tornar(-se) evidente; patentear(-se), expressar(-se), manifestar(-se)”. E, como anteriormente afirmamos, segundo Van Deusen, a música medieval apresentava exatamente a função de esclarecer, manifestar, expressar, tornar evidentes, tangíveis à inteligência, princípios filosóficos e teológicos ao espelhar tais princípios, lhes dando um formato perceptual sonoro, sensível através da musica instrumentalis. (VAN DEUSEN, 1995, p. XIV).

158

Cf. ECO, 2010, p. 134-138.

159

Como vimos anteriormente, conforme a concepção medieval de música, uma obra musical é concebida como um espelho da ordem ontológica estabelecida por Deus, sendo assim construída conforme princípios transcendentes que ela deve manifestar e espelhar sonoramente.

próprio tratado se insere nesse gênero e assim mostrarmos como nele estão implicadas as outras diversas conotações.

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