Apresentamos os conceitos da ADD, assim como aqueles que seriam mais relevantes para a compreensão da análise dos folhetos que compõem o corpus desta pesquisa. Mostramos, também, os conceitos de cultura e identidade que, dialogando com o recorte que fizemos dos fatos históricos, nos ajudaram a compreender como o cabelo crespo foi preterido ao longo da história e o porquê de ele ter sido eleito como símbolo de resistência e um símbolo ideológico para a comunidade negra.
Com a análise, constatamos que os discursos presentes nos folhetos do IBN dialogam com outros que apresentam o cabelo crespo como algo negativo. Embora esse instituto apresente um discurso de valorização do signo ideológico cabelo crespo, percebemos que essa valorização é superficial. Ao confrontar o que está materializado nos folhetos com os enunciados que circulam em diversas esferas, notamos que esses fazem parte de uma mesma cadeia discursiva que julga o cabelo crespo como algo a ser melhorado. Na articulação do verbal com o visual, vimos a representação da autoestima, da felicidade de estar bonita, “estar bem com o seu cabelo” através dos termos positivos e, também, do sorriso da modelo. Vimos, também, a insatisfação daquelas que ainda não experimentaram o super-relexante. Tal insatisfação que está representada na falta de sorriso e no cabelo despenteado indica que a felicidade e autoestima dependem de ter um cabelo “tratado”.
Não esquecemos que os enunciados analisados estão situados na esfera publicitária e essa tem como objetivo convencer as leitoras a se tornarem clientes do IBN. Porém, percebemos que o folheto é construído de modo a fazer circular o discurso de cumplicidade presente nas revistas femininas. O que também nos chamou atenção nessa esfera da comunicação foram os discursos que, em diversos momentos, se cruzam com aqueles presentes nas músicas, nas redes sociais, no ambiente escolar, com os discursos das clientes etc.
Ressaltamos que, embora o conteúdo analisado, remeta a uma insatisfação com o cabelo crespo não podemos afirmar que todas as pessoas que aderem a manipulação química são alienadas e estão negando a sua identidade negra. Como afirma Coutinho (p. 6, [20--]):
Acredita-se que a mulher negra e o homem negro podem se ver como negro e isso não impede que escolham a forma que quer ter sua imagem representada, pois nem todas as pessoas que assumem as tranças e cabelos blackpower têm consciência do porque fazem aquilo.
Consideramos, em todo momento, o cabelo crespo natural como signo ideológico e como um signo de resistência. Porém surge a questão: essa técnica alternativa de tratar o cabelo marcaria o surgimento de um novo signo ideológico? Durante o desenvolvimento deste trabalho, notamos uma grande migração de pessoas que possuíam cabelos alisados para utilizar os cabelos naturais ou naturalizados. Essa busca por um cabelo que se assemelha mais ao seu já não representaria uma negação ao padrão cabelo liso? A voz dessas clientes sem o filtro da publicidade demonstraria a mesma satisfação apresentada nos folhetos? Essas são algumas questões sobre as quais pretendemos refletir em nossa futura trajetória de pesquisa.
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