Na verdade, o Pós-mangue é uma falácia, assim como todas as tentativas de rótulo sobre movimentações culturais, que são sempre frágeis e não dão conta da complexidade de uma contingência e de uma situação- momento qualquer. E se este está atrelado diretamente a um conceito pretérito, essa incapacidade se torna mais aguda. Apesar dessa constatação, a crítica e muitos artistas não deixam de tentar emplacar um direcionamento que busca definir o modo operante de um grupo ou mesmo o espírito de uma época, por várias motivações, como podemos constatar anteriormente. Quando a pluralidade é a tônica do instante, o melhor caminho é o pós ou o neo? Ou é a preguiça ou é a falta de criatividade que não deixam uma outra ideia triunfar em relação a outra? Ou porque as continuidades são da mesma relevância que as rupturas? Ou porque estamos falando de uma estética fragmentada em ondas musicais efêmeras? Ou não sabemos mesmo é lidar com o caos e precisamos nos escorar sempre em pilares conceituais? Todas essas questões já são praticamente as próprias respostas.
Mas, é fato que o peso representativo do Manguebit caiu mais do que bem nos artistas que estavam envolvidos nessa tendência pós de seguimento. E é também muito claro que o Pós-mangue não despontou por não ter essa representatividade inovadora – somente a de renovação – nem o poder de aglotinação. Por isso, ele precisa ser tratado apenas como uma denominação de um momento depois do Mangue e através da compreensão da brevidade e da interligação de suas ondas. Neste contexto hiper- fragmentado e supersaturado pelo centro e pelas beiradas em que cada um agente tem a potência de ser capaz de tornar-se instituição, os artistas não se sentem atraídos pelos agrupamentos musicais com formatações de cena e de movimento nem querem ser referenciados por tais.
Pode haver, realmente, esse impulsionamento para a autossuficiência completa (principalmente, através da digitalização da informação, do barateamento dos equipamentos de áudio e da divulgação e distribuição via
web), porém ainda há muitos entraves externos e internos para essa
realidade ser concretizada; se de fato ela for viável – o que duvido muito –, pois a prática musical supõe uma comunidade de afeto, até então.
Faço a análise sobre a temática proposta na tentativa de refletir sobre o contexto em que me insiro diretamente, mesmo sabendo que o conceito Pós-mangue não daria conta desse panorama nem representaria, de fato, o ambiente musical contemporâneo da música alternativa do Recife. Os meus argumentos têm a pretensão de compreender e de, principalmente, problematizar e, não de delimitar ou de definir uma leitura final sobre o tema. Primeiramente, o que me moveu a escrever foi a falta de críticas que procurassem, mesmo generalizando, entender este momento Pós-mangue, que se arrasta desde o começo dos anos 2000. O segundo motivo foi por estar envolvido e atuando neste contexto. E o terceiro, por toda essa fragmentação que me instigou a pensar a respeito e tentar achar algumas linhas conceituais através deste recorte analítico.
Seria a marca da atualidade da música alternativa pernambucana: não estar a procura de uma linha norteadora? Bem, até hoje, não existe um conceito-chave e sim ideias oscilando entre várias combinações possíveis. Os artistas do Pós-mangue não despontam aos holofotes da indústria cultural como acontecia em outrora, isto é, um músico, um grupo ou uma
movimentação que represente, mesmo que genericamente, todo um contexto. Talvez, futuramente, esse caos seja catalisado e convertido em um emblema representativo, que tenha a força de abarcar também a contemporaneidade do porvir.
Será que esta geração beira ao caos e está, simplesmente, preparando o terreno para uma cena futura mais esclarecida? Fracasso da indústria? Mas e o sucesso dos nichos? É aquela história: o que é dar certo na “sociedade pós-massiva” (André Lemos) que a gente está vivendo? Não dá pra trabalhar com previsões nem é possível resumir a importância de uma época ao ostracismo ou ao suposto sucesso comercial nível mainstream, pelo simples fato de ela não emplacar um hit ou uma movimentação conceitual. O que podemos constatar é que o ambiente musical contemporâneo não está morto, ao contrário, ele está renascendo constantemente em busca de outras possibilidades. Assim, a perspectiva é de que o viés da qualidade por nichos e da quantidade excessiva de produção seja tão importante quanto o sucesso de público atrelado à representatividade da mídia massiva nacional e internacional.
Essa noção do pós é sempre um incômodo e dá uma certa sensação de instabilidade, pois, mesmos os movimentos que encontraram uma base conceitual consistente, como o Tropicalismo e o Manguebit, e que tiveram na polivalência uma das mais fortes diretrizes de suas intenções de manifesto, não encontraram um cenário tão fragmentado e individualista – em quantidade de projetos e diversidade estética – como esse do Pós-mangue. Apesar dessas marcas terem permanecido, o que elas conseguiram foi forjar uma cena em torno de uma conceituação que, primeiramente, favorecem seus criadores e outros que são abarcados ao redor deles. E, por último, de tão repetidas essas marcas são tomadas como a identidade plausível de um momento cultural e acabam sendo, muitas vezes a única interpretação de um contexto e, consequentemente, uma tendência da situação-momento e de uma época. Assim, as manifestações culturais podem tornar-se institucionalizadas. Mas, talvez, o caminho para a representatividade necessária da atualidade não seja só esse de emplacar midiaticamente, institucionalmente e historicamente uma cena ou movimento musical. Na realidade, a ideia de sucesso tomou outros contornos na contemporaneidade,
ou seja, as pequenas realizações tornam-se, muitas vezes, mais valiosas do que as grandes fortunas no ambiente cultural a partir dos nichos e das ocupações culturais.
A farsa Pós-mangue não alcançou um status representativo e algotinador e, talvez, a principal razão de seu descaso seja a postura descompromissada assumida pelos artistas e pelos críticos; será que procuraram trilhar pelo individualismo em vez de somar e de dar força ao poder cultural de pressão coletiva? A potência proclamada de que cada “indivíduo pode ser uma instituição” (como bem observou Rodrigo Édipo na coluna da Mi+ #1) – por conta da liberdade criativa propiciada pelo caos encontrado após a falência do controle da indústria fonográfica e potencializado pelo barateamento da tecnologia de gravação e pela possibilidade de distribuição através da internet – é de extrema valia para entedermos o comportamento das ondas musicais através do padrão de intenções de seus agentes. E também trouxe um novo estágio em que o artista precisa ainda aprender como lidar com todas as suas fases de produção para poder gerir, de fato, sua carreira e, por fim, conseguir aliar de forma crítico-criativa as novas tecnologias com outras formas de política e de estética. Ou faz isso ou como disse H.D. Mabuse, em entrevista para a Mi #2: “pega um empréstimo de 200 mil e paga jabá! Ou faz crowdfunding para isso!”.
Essas questões parecem que vão ficando mais complexas. E em meio ao contexto Pós-mangue, esses problemas estão longe de serem solucionados. Acho que eles nunca chegarão a um fim, de fato. Mas, agindo de forma mais consciente é viável que carreiras sejam sustentáveis, mesmo sem engatar uma cena ou um movimento duradouros. Será que essa razão midática por uma marca ainda é necessária ou o ambiente musical por si só já é representativo no cenário de atuação através de seus múltiplos agentes? Pelo menos, até esse momento, o que prevalecem são os microorganismos informacionais de ação musical espalhados pelo território do Recife, em que o elo desses agentes aciona uma mistura de épocas, de gêneros e de pensamentos heterogêneos, chegando até às zonas de conforto, se for o