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CHAPITRE DUEXIEME : LA REECRITURE D’UN SCENARIO MYTHIQUE

1. Les personnages :

1.5 Messagers et serviteurs :

Um antigo ditado popular dizia: “quem não apanha dos pais quando é pequeno, quando crescer vai apanhar da polícia” ou ainda “mãe que não faz o filho chorar, chora por ele”. Boa parte dos 18 pais declarou bater em seus filhos porque tem medo que estes enveredem pelo mundo do crime. Alguns dos depoimentos colhidos, os pais explicam que se não tivessem batido nos filhos, estes poderiam ter se tornado marginais, o que foi explicitado no relato de Sílvia “[...] falar o certo para eles como era para eles seguirem o que é certo”.

Maria se justifica com o filho mais velho, por não bater tanto nos filhos mais novos (um deles entrou em conflito com a lei e cumpre MSE), quanto batia nele e faz referência ao problema da criminalidade:

73Teleguiar segundo os depoimentos quer dizer “ir pela cabeça dos outros”. Para os pais um dos sinais de

fraqueza do adolescente seria deixar-se ser teleguiado por outro jovem ou adulto. Sempre que o termo teleguiado foi utilizado referia-a a adolescentes que são motivados por algo ou alguém externo à família para as drogas, para a galera, para o crime.

74Para Castro e Abramovay (2002) os jovens na sociedade contemporânea se defrontam “[...] com o

desencanto, as incertezas em relação ao futuro, o distanciamento das instituições, descrendo na legitimidade dessas, como a política formal, além de resistência a autoritarismos e ‘adultocracia’”. As autoras enfatizam que tanto a família quanto a escola não teriam mais a importância que exerceram para as gerações passadas.

[...] o mais velho [filho] me diz: “mamãe eu não sei, a senhora quando nós era pequeno [...] era mais braba com a gente! Agora nesses meninos [os mais novos] a senhora não bate”. [...] [Ela falou] eu não refrescava eles. Mas tu já pensou? Nesse tempo eu era mais nova, [...] eu tinha mais energia [...] “se eu não reajo com você desse jeito? Até vocês podiam ser agora bandidos também. Eu tinha força de reagir, eu tinha o pai de vocês também do meu lado” [...].

É um dilema porque Laura, que declarou não gostar de bater, parece fazer o percurso inverso. Seu filho mais velho entrou em conflito com a lei e está cumprindo MSE. Ela sente necessidade de impor sua autoridade ao primogênito e também de fazer uso de maior firmeza no trato com os filhos mais novos, para evitar que o mesmo aconteça com eles:

[...] essa minha irmã falava para mim quando meu filho saia pra festa e dizia: “olha não deixa”. Eu dizia: “não vai acontecer nada”. Eu não sabia quem eram as amizades dele lá fora. [...] Hoje em dia ela diz que é pra mim tomar conta desses menores e é isso que eu faço: boto quente em cima do menorzinho.

Algumas mães revelaram que consideram ter errado porque não bateram nos filhos ou porque foram menos severas do que o pai ou o companheiro. Acreditam que é por este motivo que alguns filhos não obedecem ou cometeram infração. O depoimento dado por Florzinha foi muito emocionado, ela estava chorando.

[...] Na época do meu marido eles [filhos] não tinham liberdade pra nada, [...]. Era pai de dizer assim: “se passar de sete horas não entra mais dentro de casa”. Já quando ele morreu eu fiz assim: “o pai de vocês morreu, eu não vou prender a liberdade de vocês[...] vou dá um espaço para vocês, [...] mas que[...] não venham prejudicar vocês e nem venha me prejudicar. O que é alheio é alheio”, Dizia assim mesmo e como mãe não sei se errei neste ponto [...].

Numa conversa posterior com o grupo de pais entrevistados perguntou-se: “Quais os problemas que as crianças e os adolescentes vivem hoje?” As respostas obtidas fizeram menção à falta de condições da família e o desemprego; e também os constantes apelos da mídia que estimulam o consumo e induzem o jovem a pensar que seu valor individual e social está vinculado a “roupas e tênis de marca”. Os adolescentes se vêem submetidos a duas dinâmicas de violência distintas: a violência estrutural relacionada à renda e a violência simbólica relacionada à imposição do consumo.

No contexto de vulnerabilidade vivenciando o dilema entre “o que se quer ser e não se pode ter”, tentando se afirmar e construir o que chamaria de “identidade jovem” o

adolescente recebe informações pela TV que ensinam com detalhes como fazer um assalto e obter dinheiro “fácil”. Alguns participantes ainda falaram que alguns pais e mães não fazem valer critérios éticos sobre valores como: honestidade.

Na atualidade a juventude se defronta com regras sociais difusas e distintas da época em que seus pais foram jovens. Porque em seu tempo, os pais tinham a expectativa de tornarem-se homens e mulheres honestos e trabalhadores, de se casar e de constituir família. O medo desses pais é semelhante ao identificado por Gonçalves (2003) entre pais da cidade do Rio de Janeiro. Estes têm receio que seus filhos ao se tornarem independentes e ao enfrentarem o mundo sozinhos, sucumbam aos perigos da rua.

Fotografia 6 – Trabalho de grupo realizado com os pais e mães entrevistados(as).

Fonte: Milene Veloso (abril, 2005).

6.3.3 “É de pequenino que se torce o pepino”

Procurando identificar as motivações subjetivas dos pais para o uso da violência contra os filhos, foram obtidas algumas respostas que apontam para situações em que não só os filhos têm medo dos pais, mas estes também têm medo dos filhos75.Esta situação parece afligir, sobretudo, as mulheres que são chefes de família. Laura é uma das mães que

75Segundo Welsh (1978) nos Estados Unidos o senso comum relacionava de forma sempre mais intensa, a

criminalidade juvenil a uma exagerada permissividade parental. O autor considerava, contudo, que esta associação não era procedente. Analisando os dados disponíveis na época, Welsh concluiu que, pelo contrário, todo o tipo de crime, inclusive os praticados na escola, tinha sua origem em famílias e sistemas escolares que enfatizam técnicas disciplinares aversivas e autoritárias.

estariam usando de violência contra seus filhos por receio de que estes, no futuro, possam usar de violência contra ela:

[...] uma vez minha irmã discutiu com a promotora e falou: “Se eu não bater no meu filho, quando ele crescer vai bater em mim”. Até hoje ela bate no filho dela. [...] ele tem 16 anos, mas tem muito medo dela. Quando ele tá querendo gritar com ela, ela mete a mão na cara dele e me diz: “se tu fizesse assim com os teus [filhos] eles não estavam assim rebarbados” 76.

Em alguns casos, o receio destas mães parece ser justificado. Há relatos que dão conta de filhos que se tornam agressivos contra seus pais. O que parece se configurar nestes casos é um ciclo vicioso de violência: 1) os pais batem nos filhos para educá-los; 2) os filhos se revoltam contra os pais e fazem ameaças também violentas; 3) para evitar ser, no futuro, alvo da violência dos filhos, os pais usam de violência ainda maior contra eles, como se pode observar no relato de Laura. “[...] a violência de um não saber dialogar com o filho. Às vezes os pais chamam a atenção dos filhos e eles querem bater nos pais. Acredito que isto torna violência na família. A pessoa não quer ter paciência com os filhos”.

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