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1. Les MEMS en diamant pour la transduction olfactive biomimétique

1.4 Les MEMS en diamant

Também no período contemporâneo o vinho está presente, como neste texto de Baudelaire, tão elucidativo, que Janita Salomé nos traz no seu disco “O Vinho dos Amantes” 62:

[ NR , “ O Vinho dos Amantes”]

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais importa. Para que o horrível fardo do tempo não vos pese sobre os ombros e vos faça pender para a terra, deveis embriagar-vos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude à vossa escolha. Mas embriagai-vos! E se um dia , nos degraus de um palácio, na erva verde de uma valeta, na solidão baça do vosso quarto, acordardes, já sóbrios, perguntai ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai. «Que horas são?». E o vento, a onda, a estrela, a ave, o relógio, responder-vos-ão: «São horas de vos embriagardes!». Para que não

 

 

sejais os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha.”63

Como um Eufrates patriarcal e profundo, o vinho vai fluindo ao longo da história da humanidade, prodigalizando o seu fogo e os seus leões (Jorge Luís Borges dixit).

Esse fogo e esses leões cintilam na literatura de todos os tempos. A embriaguez inspirou alguns dos mais belos poemas jamais escritos. Só a embriaguez torna possível aquele estado de plenitude que nos permite «permanecer no meio do fogo sem nos queimarmos».

Não é de estranhar que grande parte destes poemas sejam poemas de amor, ou não fosse a origem remota da palavra «vinho» uma palavra que em sânscrito significa «amado».

A colheita poética aqui reunida é forçosamente limitada no tempo. Porque foi guardada em ânforas de barro deve ser servida com extremo cuidado para não turvar.

Se o leitor chegar ao fim desta antologia com a cabeça toldada, os olhos brilhantes, um fogo corroendo-lhe as entranhas, terei alcançado o meu secreto objectivo.”

(Idem, Idem: 6)

Fernando Pessoa, o grande poeta da língua portuguesa do século XX, considerado a mais importante personalidade das tendências modernistas portuguesas [ NR História da Literatura Portuguesa, p. 997 ] não olvida o

62

SALOMÉ, Janita - O Vinho dos amantes [ CD-ROM]. Som Livre. Lisboa., 2007. ISSN

63

BRAGA, 1995: 5 (Este texto de Charles Baudelaire surge recitado pelo poeta Carlos Mota de Oliveira, muito bem escolhido e contextualizado, diga-se, no disco de Janita Salomé O Vinho dos

 

 

sedutor universo baquiano. Para falar do Vinho na obra pessoana socorremo-nos da Professora Teresa Rita Lopes 64

Assim aconselhados pela maior autoridade nacional na Obra e Vida Pessoana, propomos uma visita breve, ao Neopaganismo de Pessoa reflectido quando Pessoa se compraz a inventar rituais solares de exaltação da alegria, “Como terapia para os males da sua alma, doente do «morbo christista», para essa tristeza de que longamente se queixa nos textos de auto-análise, esse «frio na alma» que «quem o tem não se aquece»

referimo-nos ao Auto das Baccantes que “foi «escripto para solemnizar a entrada de Sol em Aries, em Março de 1971» como neste texto escreve. Ora não esqueçamos que esta comemoração era, simultaneamente, a do signo de Alberto Caeiro – carneiro - «espírito humano da terra materna» (segundo Campos), de uma terra jovem, fecunda, alegre.” (LOPES, 1990: 78)

Ou como diz a nota introdutória, “o «Auto» deverá começar «por uma serie de canções de alegria e de saudação á entrada da primavera, ou do dia, ou de ambos, ou, em todo o caso, de Baccho».

Outra saudação a Baccho é recolhida em Anexo: «Bacchica medieval» que “É um hino à bebida como sinal de «saúde» - palavra repetida em cada estrofe – um brinde à exuberância do instinto.” (Idem , Idem: 79)

E como nos diz Teresa Rita Lopes “As falas destes rituais inventados (Ts. 77 a 83) constituem um texto dramático de grande intensidade e beleza. (Não esqueçamos que Pessoa considera que o «ritual dramático» é uma das cinco formas de ritual que tenta caracterizar*) (*In F. P. et le dr. symb., il.33) . Têm, contudo, uma função precisa na vida dessa «Ordem para que entrou, desse claustro a que se recolheu (dois dos dialogantes chamam-lhe Mestre do Claustro e Mestre do Átrio). Um dos textos vem mesmo acompanhado de um esquema de encenação do ritual (T. 79).” (Idem, Ibidem).

64

A Professora Doutora Teresa Rita Lopes, que amavelmente nos ouviu e aconselhou, mais do que uma vez, (durante a realização do Congresso Internacional Fernando Pessoa, organizado pela Casa Fernando Pessoa, de 25 a 28 de Fevereiro em Lisboa) ].

 

 

Passemos então à transcrição, que proponho do AUTO DAS BACCHANTES (inserido no ponto 2.2.3 Entre Cristo e Pan – 2.2.3.2 Os rituais solares do Neopaganismo pp. 90-92 e datado de 1917) que “Começa por uma série de canções de alegria e de saudação á entrada ou da primavera, ou do dia, ou de ambos, ou, em todo o caso, de Baccho. – Segue a lamentação de todos aquelles espíritos que se separam da vida, e quizeram melhor, mais completo, ou mais puro. – No fim do canto d’elles surge ruidosamente a passagem das bacchantes.(2)

Este é o dia, este é o dia

Em que de Baccho vae explender Toda a alegria.

Vinde colher, vinde colher As flores da vossa orgia. Vinde colher para as perder.

Vinde colher pra desfolhar (Este é o dia, este é o dia) As novas flores

Que o prado ornam á porfia, Vinde colher por vossas dores*

(1) O autor acrescentou duas indicações entre parêntesis e em inglês: «exact date» e «is this the dionysiac date?» («data excata» e «é esta a data dionisíaca?»).

(2) Entre parêntesis a indicação «ex. ex.», sendo a passagem que se segue um desses «exemplos».

*O autor escreveu ao lado da última estrofe, em inglês: «no.no.no», sinal evidente de que o escrito não satisfez.

DE NOTAR QUE este Auto pertence a um conjunto de «Cinco Autos» - indicação do autor no alto da página. (…)”

Seguidamente apresentamos, datado de 16-9-1917 o AUTO DAS BACCHANTES

 

 

“(…)

Qual é, senhor, a melhor sorte? Mais vale a vida ou mais querer? Há, além do portal da morte,

Melhor viver?

Será melhor viver amando E buscar o amor entre a vida, Ou, inda que chorando, Buscar o amor

Onde tudo é a sombra e o vago, E o guarda negro a fauce estende Por sobre o desolado lago

Haverá escondida margem, Occulta região feliz,

Onde outra mais (…) aragem Banhe um amor como se quis? (…) “

Terminamos esta breve referência à presença de Baco na obra de Pessoa com esta BACCHICA MEDIEVAL

“(…)

O nosso patrão é pae. Faz-nos o bem.

Bebamos á saúde d’elle, E á nossa também!

Não falte trigo p’ra semente, Remedio ao doente,

Nem vinho á gente!

O nosso rei é padrinho. Que Deus o ajude! Bebamos á saúde d’elle E á nossa saúde!

 

 

Não falte caridade a quem deve, Direito a quem recebe,

Nem vinho a quem bebe!

E vá á saúde da terra, Que é bem preciso!

Livre-nos Deus, a nós e a ella, De secca e granizo!

Que há trez coisas que Deus prohibiu – A fome, o frio,

E um copo vazio! “ 65