V. Application d’audits – Système d’informations
2. SPAN
Embora o interesse central deste estudo diga respeito às percepções e vivências da 25
espiritualidade e do cuidado ambiental, de forma mais geral, e não à influência das doutrinas de tradições religiosas específicas, é relevante que sejam apresentadas as orientações às quais os participantes aderem, uma vez que suas características interagem com as percepções dos sujeitos a respeito do tema abordado aqui. Como exposto anteriormente, dentre os
entrevistados, houve adeptos do Santo Daime, do neopaganismo (especificamente, da Tradição das Fadas), ecumênicos e espiritualistas (dentre os quais, uma seguia particularmente o Sagrado Feminino). Nesta seção, descreverei brevemente algumas de suas características principais.
Mais uma vez, ressalto que a escolha não foi proposital: aos participantes foi dada 5
total liberdade para julgar o tipo de perfil apropriado para falar sobre o tema do estudo. O aparecimento de um grupo de pessoas que, em sua totalidade, se alinha em maior ou menor medida ao tipo de formulações que compõem o que tenho chamado de novas espiritualidades, relacionadas ao fenômeno conhecido como Nova Era, pode responder a inúmeros fatores. Por exemplo, é possível supor que, pelo menos na região de Natal e proximidades, dentro do 10
variado espectro de pessoas fortemente engajadas no cuidado ambiental, que ao mesmo tempo adotem algum tipo de crença religiosa ou espiritual, a ocorrência de uma relação consciente entre a espiritualidade e esse cuidado seja mais comum entre pessoas que apresentem uma postura mais flexível e autônoma frente à experimentação de diversos credos, em comparação àquelas que aderem a religiões mais tradicionais.
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Outra possibilidade é que o termo “espiritualidade”, o qual utilizei durante todo o processo da entrevista, seja mais facilmente associado pelas pessoas a posturas espiritualistas, esotéricas, alternativas, enfim, que escapam da religiosidade tradicional (termo esse que, possivelmente, evocasse religiões mais facilmente). Alternativamente, é possível que se deva ao simples fato de ter sido acessado um grupo pequeno de pessoas, que, embora nem todos se 20
conheçam entre si, podem fazer parte de uma mesma esfera social que compartilha características comuns, como o nível educacional e econômico.
De qualquer forma, mesmo que não se possa afirmar um motivo específico para tal, o fato é que, ainda que se considere aqueles que não cheguei a entrevistar, a maioria das indicações não contemplava pessoas adeptas das religiões majoritárias (denominações cristãs 25
católicas ou evangélicas) e apenas raramente adeptos de religiões orientais (especialmente o budismo). Além disso, é interessante observar que aqueles que se unem a religiões organizadas (Santo Daime) ou sistemas de crenças específicos (Paganismo, Sagrado Feminino), que minimamente delimitam certo conjunto de crenças e práticas aos quais os indivíduos aderem, estão inseridos em tradições que consideram a natureza com grande 5
centralidade, como se evidenciará nas próximas páginas.
Três tipos de práticas foram bastante mencionados. Oito dos participantes relataram o exercício de diferentes formas de meditação como prática espiritual, contemplando quase todos os espiritualistas, a pagã, os daimistas e um ecumênico. Três deles mencionaram, ainda, exercícios de mentalização, por vezes em grupo, nos quais se realizam trabalhos de 10
transmissão de energias positivas ou de cura espiritual. Outra prática, desenvolvida por metade dos participantes, é o uso de substâncias enteógenas, como a Cannabis e a ayahuasca, também chamadas de “plantas de poder”. Por fim, práticas na natureza foram enfatizadas, tendo esse sido considerado o ambiente ideal tanto para a utilização de enteógenos como para alguns tipos de meditação, além de uma variedade de rituais. A seguir, apresento brevemente 15
algumas crenças e práticas características das orientações espirituais dos entrevistados.
a) Santo Daime
O Santo Daime, como abordado anteriormente, é uma religião brasileira surgida no 20
interior da floresta amazônica, na década de 1930, que tem como principal característica a ingestão ritual do daime: uma ressignificação da ayahuasca, bebida indígena milenar, preparada, em geral, a partir da combinação do cipó Banisteriopsis caapi, com a folha Psychotria viridis e água, podendo ser acrescida de diversas outras plantas (Albuquerque, 2012). Identificado como um dos novos movimentos religiosos que adotam a possessão e 25
mediunidade como forma de comunicação com o divino (Brandão, 2004), o Santo Daime pode ser entendido como um movimento eclético e de caráter espiritualista, cuja doutrina possui uma base cristã, combinada com esoterismo europeu, religiões afro-brasileiras e xamanismo indígena amazônico (Assis & Labate, 2014; Greganich, 2011).
Dois participantes deste estudo eram adeptos do Santo Daime. O Guaraci não era 5
fardado,2 por não se identificar com a estrutura hierárquica da religião, mas já bebia a ayahuasca há mais de 20 anos. Além de frequentar a igreja daimista e centros que também trabalham com a bebida, relatou praticar yoga em casa, onde tem seu próprio altar, no qual dispõe velas, incensos, esculturas de barro, penas, maracás e orações. Ele relaciona sua espiritualidade a uma consciência de sua integração com a natureza, de forma que o contato 10
com a natureza é essencial em sua vivência espiritual.
A Mazu, no momento da entrevista, era frequentadora há dois anos e relatou estar em um período de questionamento dos compromissos da religião, por se identificar com uma prática espiritual mais “intuitiva”, na qual se permite desenvolver rituais, orações, etc., à medida que sente necessidade. Além do Daime, é praticante de reiki3 e meditação. Em seu 15
relato, ela expressa uma preocupação com o cuidado ao outro, procurando sempre que possível estabelecer o foco no coletivo. Busca alimentar uma postura de cuidado em todos os âmbitos de sua vida e, para ela, “religião é cuidado puro”, uma vez que se trata de “cuidado com você, no sentido espiritual, cuidado com o mundo”.
Dentre as modalidades rituais e maneiras de comungar a bebida sacramental, das quais 20
ambos participam, há duas mais tradicionais. Mestre Irineu instituiu os rituais de concentração e bailado. O ritual de bailado pode durar de 8 a 12 horas e consiste em uma dança repetitiva, na qual todo o grupo se desloca em sincronia, de acordo com o ritmo dos hinos. Nas sessões
2 O fardamento é o momento onde o aspirante se torna adepto e membro efetivo, por meio de um ritual em que
veste a farda ritualística e firma seu compromisso com a doutrina.
3 Terapia de origem japonesa, baseada em uma teoria de canalização e equilíbrio energéticos, realizada por meio
de concentração, busca-se, por meio de silêncio, relaxamento e meditação “a conexão com o Ser interior e uma maior consciência do nosso Eu superior,4 recebendo instruções valiosas para o seguimento espiritual”, em um ritual que dura cerca de 4 horas (Greganich, 2011, p. 78).
A doutrina daimista, emergida entre os povos da floresta, prega o amor pela natureza e 5
consagra o mundo vegetal e todo o planeta como o cenário sagrado da Mãe Terra. No intuito de desenvolver o trabalho social e ambiental da igreja daimista na Amazônia, foi criado o Instituto de Desenvolvimento Ambiental Raimundo Irineu Serra (IDARIS) (Cefluris, 2000). Alguns dos principais objetivos do instituto são: atuar na preservação e educação ambiental em todos os ecossistemas, especialmente na Amazônia; propor, apoiar e desenvolver projetos 10
visando à autossuficiência das comunidades inseridas nos ecossistemas da Amazônia; incentivar e desenvolver técnicas de conservação, preservação e reflorestamento; promover, apoiar e difundir os valores culturais, o folclore e o saber das populações tradicionais da floresta; entre outros (IDARIS, 2002).
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b) Paganismo
O termo “pagão”, na Roma antiga, era utilizado para se referir a alguém que vivia em distritos distantes da cidade, camponeses. Quando, a partir do século IV, o cristianismo se estabelece como religião dominante no Império Romano e os cristãos passam a receber apoio 20
imperial para estabelecer igrejas e comunidades, o termo passa a ser utilizado para denominar o tipo de afiliação religiosa que se buscava substituir: a religião politeísta tradicional, embora em contínua evolução, dos cidadãos romanos, que incluía uma variedade de seitas que cultuavam os ancestrais, o imperador e a diversas entidades (Strmiska, 2005). Desde então,
4 O Eu superior seria um eu espiritual, divino; ao passo que o eu inferior estaria voltado para a satisfação das
com o advento do Iluminismo e do Romantismo, que emprestaram ao termo uma visão mais positiva, influenciada em parte pela literatura e pelo trabalho de antropólogos e folcloristas sobre a religião e mitologia pagã europeia, um conjunto de religiões foram criadas, os membros das quais se intitularam pagãos (Harvey, 2005).
O paganismo moderno, ou neopaganismo, estaria revivendo, reconstruindo e re- 5
imaginando tradições religiosas do passado, que foram suprimidas ou mesmo eliminadas. Há tanto adeptos que buscam reconstruir tradições de religiões antigas de um grupo étnico ou área linguística ou geográfica em particular, da forma mais fiel possível; como aqueles que unem livremente tradições de diferentes áreas, povos e épocas (Strmiska, 2005). Quanto mais se aproxima do ecletismo, mais o neopaganismo se aproxima do escopo do que se considera 10
como parte do movimento Nova Era, relação estabelecida por alguns autores (Carozzi, 1999; Strmiska, 2005), especialmente no que diz respeito ao mercado em torno dos elementos que constituem essas práticas, que muitas vezes fazem parte de uma mesma rede (Barner-Barry, 2005; Magnani, 1999).
O paganismo não constitui uma religião organizada, com um líder e teologia oficiais, 15
em vez disso, há uma variedade de grupos e vertentes, além de pessoas que optam pelo culto solitário e assumem completo controle de suas crenças e práticas (Barner-Barry, 2005). Uma das participantes deste estudo, a Ísis, é adepta do paganismo, especificamente da Tradição das Fadas, uma tradição oral, de corpo sigiloso – isto é, somente seus adeptos conhecem os preceitos da tradição. Segundo ela, essa vertente se diferencia das demais por ter um caráter 20
mais livre, particularmente se comparada à Wicca (a vertente mais conhecida do neopaganismo), que possui uma liturgia definida.
Além disso, é uma vertente que agrega a crença em vidas passadas, algo que ela valoriza. A Ísis relata ter forte ligação com o Egito e as divindades egípcias, sendo o seu culto centrado na deusa Aset, a qual identifica com “os mistérios da natureza”. No centro da 25
maioria dos sistemas pagãos de crenças há um conceito de Deusa, associada à terra ou à totalidade da natureza. O conceito de Deusa como divindade posiciona no centro da consciência religiosa a vida terrena, a procriação, as fases da vida e a mudança das estações. O valor central, portanto, seria a celebração da vida em toda sua diversidade, humana e não humana – de fato, a divinização da Terra significa que tudo aquilo que dela faz parte, vivo ou 5
não vivo, é sagrado. Diferente do Deus da tradição cristã, a Deusa não é transcendente, em vez disso ela é igualmente imanente em pessoas, pássaros, árvores, rios e pedras (Barner- Barry, 2005).
No entanto, a centralidade da Deusa não necessariamente significa monoteísmo: a maioria dos pagãos contemporâneos também trabalha com uma variedade de seres espirituais 10
e sagrados de diferentes tradições, bem como “espíritos da terra”, fadas, entre outros (Barner- Barry, 2005). Além da Aset, Ísis cultua os espíritos feéricos,5 ligados à sua tradição. Ela faz parte de um coven,6 com o qual busca, sempre que possível, realizar os rituais religiosos em ambientes naturais, como seria o ideal. Relatou praticar também a meditação (de acordo com preceitos de sua vertente) e o tarô. Em casa, tem quatro altares próprios, em seu quarto, com 15
diferentes finalidades.
c) Espiritualismo e Ecumenismo
O espiritualismo diz respeito à crença de que os espíritos dos mortos podem se 20
comunicar com os vivos por meio da mediunidade. O movimento teve início em 1848, quando as jovens irmãs Fox, de Nova Iorque, relataram terem ouvido sons misteriosos em sua
5 Os feéricos são o povo das fadas. O termo por vezes é preferido, em lugar do mais tradicional “fada”, como
forma de desvincular do entendimento comumente difundido de fadas como pequenas criaturinhas, invariavelmente femininas.
6 Nome dado a um grupo de bruxos que se unem num laço mágico, físico e emocional, para compartilhar sua
casa, leves batidas, algo que atribuíram à comunicação de espíritos. A história foi amplamente circulada e discutida na mídia impressa e outros relatos similares começaram a surgir, o tipo de comunicação rapidamente passando das leves batidas para a mediunidade, enquanto sociedades dedicadas a sua prática eram formadas (Ellwood, 2011).
Juntamente ao fenômeno espiritualista e sua prática, surgiram elaboradas teorias para 5
explicá-los: os espíritos, constatava-se, eram parte da natureza. Representavam uma versão mais refinada da matéria e, em certas situações, com o auxílio de especialistas (médiuns), seu refinamento material era visível aos sentidos e juízos humanos. O espiritualismo teve papel significativo em influenciar diversos outros movimentos posteriores. À medida que crescia o receio de que a religião convencional fosse insustentável, o espiritualismo se tornou um canal, 10
que favoreceu a passagem de diversos movimentos, como o mesmerismo, a teosofia e a parapsicologia – além de, um século mais tarde, o movimento Nova Era (Albanese, 2005).
Atualmente, espiritualismo é uma denominação comum a várias doutrinas filosóficas e religiosas, que adotam a existência do espírito como fundamento básico. O termo também tem sido empregado em referência à postura de pessoas que, embora não possuam religião 15
específica, aderem a noções de espiritualidade – e é nesse sentido que ele surge aqui, como utilizado pelos próprios participantes. Dentre o grupo de entrevistados, foram cinco os que se identificaram espiritualistas: Selene, Pachamama, Ossain, Aruanã e Telumo. Todos eles têm em comum, em maior ou menor medida, uma postura afeita ao que me referi anteriormente como “bricolagem”, segundo a denominação de Magnani (1999), que se refere a uma abertura 20
para a experimentação de diferentes tradições religiosas, das quais o indivíduo acaba por extrair diversos elementos, que são organizados em torno de uma compreensão particular de espiritualidade. Ossain e Aruanã, especialmente, relataram já terem frequentado os encontros de diversas religiões e continuarem abertos a comungar com qualquer uma delas.
Compartilham, ainda, a prática de meditação e o contato com a natureza como prática espiritual – particularmente Telumo e Ossain, que se referiram ao plantio e a jardinagem, quando indagados sobre o tipo de prática espiritual que costumavam desenvolver. Cada participante relatou uma trajetória particular, de experiências variadas, tendo cada um deles recebido influências mais significativas desta ou daquela tradição – Ossain, desde a infância, 5
teve contato com religiões afro-brasileiras; Aruanã teve uma experiência importante com o Santo Daime; Telumo, durante algum tempo, estudou o raja yoga e o Taoísmo, etc. –, porém, a maioria deles não se alinha a qualquer tradição ou vertente específica. A exceção foi Selene, que segue o caminho do Sagrado Feminino, o qual abordarei no próximo tópico.
Houve ainda dois participantes que se identificaram como pertencentes à outra 10
categoria: ecumênicos. A partir do século XX, há a ascensão de um movimento ecumênico (do grego oikumene, “todas as pessoas do mundo”) entre as igrejas cristãs, que busca a reconciliação, reunião e restauração da unidade entre as igrejas. O ecumenismo visa mudar as metas e métodos de relacionamento entre as igrejas, de forma a encontrar uma unidade que permita tanto uma obra cristã comum e imediata, como a restauração da esperança 15
escatológica de unidade dos crentes cristãos. À medida que foi se diversificando, o movimento ecumênico passou a englobar as três religiões abraâmicas: cristianismo, judaísmo e islamismo (Souza, 2011).
Embora se relacione mais diretamente ao universo cristão, optei por abordar o ecumenismo juntamente ao espiritualismo devido às características particulares dos 20
entrevistados, Edwiges e Sebastião. A Edwiges tem uma longa história com a religião católica e gosta de frequentar a missa franciscana. Além disso, tem um grande interesse pelo ocultismo, participa de um grupo de estudos sobre a tradição budista tibetana e de outro sobre espiritismo, que estuda a obra psicológica de Joanna de Ângelis (psicografada pelo médium Divaldo Franco) e faz trabalhos de mentalização energética de cura espiritual.
Já o Sebastião, apesar de uma trajetória com a Igreja Batista, desde então teve experiências com o budismo, o candomblé e a pajelança indígena, tendo conhecido o culto da Jurema e o Toré. Segundo relata, aprendeu muito com cada uma dessas experiências e permanece aberto para participar novamente sempre que puder. Além disso, pratica constantemente a capoeira, expressão cultural desenvolvida principalmente por escravos 5
africanos, a qual relaciona diretamente com sua espiritualidade. Nesse sentido, embora se considerem ecumênicos, a postura religiosa de ambos se aproxima bastante daqueles identificados com o espiritualismo. Particularmente, o Sebastião se assemelha também pela valorização de ambientes de natureza como cenário ideal para suas práticas espirituais.
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d) Ecofeminismo e Sagrado Feminino
O ecofeminismo pode ser definido como uma escola de pensamento que busca estabelecer uma interconexão entre a dominação da natureza e a dominação das mulheres. Desde a década de 1970, tem orientado movimentos ambientalistas e feministas, em várias 15
partes do mundo. Segundo Siliprandi (2000), é possível identificar, de forma bastante simplificada, os princípios do pensamento ecofeminista em três questões: do ponto de vista econômico, a dominação das mulheres e a exploração da natureza convergem sob a mesma lógica da utilização de “recursos naturais” a serviço da acumulação de capital; do ponto de vista político, o pensamento ocidental identifica a mulher com a natureza e o homem com a 20
cultura, sendo que (1) no pensamento ocidental, a cultura é superior à natureza e (2) a cultura é uma forma de dominar a natureza; e, do ponto de vista científico e tecnológico, as políticas que têm orientado o desenvolvimento econômico moderno reforçam essa visão e a própria forma de pesquisar história segue esses princípios, portanto, não tem evidenciado como se deu
a exclusão das mulheres do mundo do conhecimento científico e como a sua visão de mundo (de integração com a natureza) foi sendo subjugada.
No entanto, dentro do ecofeminismo existem muitas vertentes, que vão desde aquelas com tradição anarquista, socialista, até as mais liberais, que privilegiam as ações institucionais, no parlamento, etc. E há, ainda, vertentes espiritualistas e esotéricas, que 5
entendem como necessário o resgate às práticas “mágicas” de conhecimento da realidade que as mulheres exerciam desde a antiguidade, para reconstruir uma identidade feminina que foi perdida ao longo do tempo (Siliprandi, 2000). Uma das participantes do estudo, Selene, é seguidora dessa vertente, a qual denomina Sagrado Feminino ou espiritualidade feminina.
Durante a década de 1970, alguns setores do movimento de mulheres, buscando uma 10
espiritualidade feminista, começaram a recuperar ideias de antropólogos do século XIX, como Bachofen e Briffault, sobre um matriarcado original e a primazia de uma divindade feminina. Seus trabalhos foram recebidos com surpresa e considerados como “provas” da verdadeira história da humanidade, desde então encoberta pelo patriarcado. Essas ideias acabaram inspirando, nesses setores, a fundação de um novo movimento espiritual. Círculos de 15
mulheres, e alguns homens, começaram a se reunir em adoração à Deusa, presumidamente a divindade original da história humana. O culto da Deusa foi relacionado a “valores femininos”, promotores de paz, harmonia com a natureza, equidade e amorosidade – em oposição aos “valores masculinos”, consagrados na divindade masculina suprema das religiões abraâmicas, que promoveria a dominação masculina, a agressividade, a subjugação 20
das mulheres e a exploração da Terra. A recuperação do culto à Deusa adotou uma visão de redenção, da humanidade e da Terra, da violência e destruição desencadeadas pela religião e o domínio patriarcal (Ruether, 2005).
De acordo com Ress (2010), a metáfora da espiritualidade ecofeminista é o corpo: formamos parte de um só Corpo Sagrado. Estaríamos frente a uma nova revelação, na qual a 25
consciência humana desperta para a experiência sagrada que são os ciclos e os processos do planeta. Uma ética ecofeminista está comprometida com uma visão integral da vida, qualquer decisão a ser tomada deve ter em conta a promoção de relações mais igualitárias não somente para a comunidade humana, mas para toda a comunidade da vida. E, enquanto prática espiritual, os rituais de mulheres são marcados fortemente pelo compromisso de celebrar com 5
todo o corpo, por meio da dança e de movimentos corporais que expressem o que sentem, a própria vida das mulheres e suas ancestrais. Também são celebradas as conexões entre as próprias mulheres, com sua biorregião, com os ciclos e estações do ano, com os elementos, com a Terra e o universo; bem como seus sonhos, individuais, coletivos e do planeta.
A Selene participa e conduz círculos de mulheres e desenvolve práticas rituais e de 10
meditação, que cria por si mesma e, em geral, buscam a conexão com o útero e acompanham a energia de vida, morte e renascimento do ciclo lunar. Muitas de suas práticas são desenvolvidas no jardim, para manter contato com a natureza. Durante as práticas, a