Austria as source and destination country
4.2 Mobility profile of Austria
4.2.1 Medical doctors
Conforme ressaltei em capítulo anterior deste trabalho, seria impossível limitar esta pesquisa apenas aos professores que dela participaram. De fato, a sala de aula é um espaço frequentado, no mínimo, por um(a) professor(a) e seus alunos. Assim sendo, limitar o campo da pesquisa apenas às professoras seria excluir os alunos que constituem uma peça chave no processo de ensino aprendizagem. Afinal de contas, como saber se o cinema africano tem algo a contribuir para o ensino de história africana e a abordagem de culturas africanas em sala de aula sem a presença dos alunos? Foi essa pergunta que surgiu para mim ainda no primeiro momento do campo realizado com as professoras. Entendi então que precisava constituir outro espaço/campo que possibilitasse encontros entre alunos e filmes africanos.
Naquela sexta-feira, 16 de março de 2018, eu sabia que tinha um encontro marcado com os alunos da escola Estadual Tancredo Neves. Cheguei cedo, assim como a co-pesquisadora para orgarnizarmos a sala Paulo Freire assim como o material que iriamos usar. Organizamos a sala colocando algumas cadeiras suplementares. Ligamos o ar para refrescar um pouco a sala. Testamos os equipamentos, definimos lugares para colocar a câmera e o gravador de audio. Enfim, estavamos prontos e agora apenas faltavam os alunos. Fui na sala do LIC enquanto aguardavamos anciosamente pelos alunos. Algum tempo depois, da sala do LIC, comecei a ouvir um conjunto de vozes barulhentas como nunca tinha ouvido na faculdade. Dirigi-me de pressa para a sala Paulo Freire com o objetivo de verificar se eram os alunos que estava esperando. Quase caí de espanto ao ver esse grupo de pessoas, tão agitado quanto as ondas do oceano Atlântico. Vi também alguns professores juntos com os alunos e orientei-os a entrar na sala. Era uma corrida. Cada um queria escolher o melhor lugar para si mesmo. Levei mais um susto quando descobri que tinha mais gente chegando. Não demorei a entender que as mais de 80 vagas que já haviam sido disponibilizadas não bastariam. Eu e a Cris (a
co-pesquisadora) comecemos a correr para todos os lados em busca de novas cadeiras. Esvaziamos rapidamente a sala do LIC das suas cadeiras e fomos buscar outras na própria Faculdade. Progressivamente, a medida que professores e alunos acomodavam-se em seus acentos, as ondas barulhentas começavam a acalmar-se. Tinha um aluno de necessidade especial. Os professores o ajudaram a encontrar também um espaço em meio à confusão e conseguimos fechar as portas depois que este encontrou um lugar apropriado. Lá estava eu, na frente da plateia, confesso, com frio na barriga, pensando por onde começar. Ainda tinha bastante agitação e barulho, apesar de ser menos comparado ao momento de chegada e de entrada na sala. Como se ele tivesse lido nos meus pensamentos, um dos professores levantou e, fazendo valer sua figura de “autoridade”, conseguiu solicitar e obter mais silêncio e calma na sala. Foi apenas a partir desse momento que consegui tomar a palavra e desejar as boas vindas a todos.
A partir desse cenário que acabei de narrar, gostaria de colocar uma pergunta, a meu ver, bastante pertinente. Será possível a sala de cinema tornar-se uma sala de aula?
Conforme já ressaltei, a sala Paulo Freire é um auditório da FACED que tem a configuração de um anfiteatro. Além de suas cadeiras confortáveis e seus 80 lugares, sua arquitetura a habilita a ser a melhor sala da Faculdade de Educação que possa receber uma “boa” sessão de cinema. O grupo de pesquisa LIC utiliza essa sala quando necessita projetar nas sessões do CINEDUCA um filme para um determinado grupo de alunos sejam eles da FACED ou de outros cursos da UFJF, ou mesmo para alunos e professores de escolas de ensino de primeiro ou segundo grau da cidade.
Ao intitular a pesquisa: “As Áfricas em sala de aula: possibilidades de viagens a partir do cinema africano” confesso que a expressão “sala de aula” não tinha assumido tanto peso nas minhas reflexões quanto neste momento. Ao pensar em sala de aula antes do campo de pesquisa, não conseguia imaginar outra coisa a não ser uma sala de aula tradicional situada em uma determinada escola. Compreendo que a finalidade da pesquisa seja potencializar as discussões em torno do continente africano nas escolas. Mas
será a sala de aula tradicional o único lugar para fazer isso? Impossível dar uma resposta afirmativa a esta pergunta. Percebi logo que precisava re- significar na minha mente e, por consequência, neste trabalho, a minha concepção de sala de aula. A sala de aula aqui, nesta pesquisa, continuou sendo um espaço físico. Porém, se tornou em uma fusão de espaços e tempos. Ressalto nesse contexto que, o campo de pesquisa transitou por vários espaços e tempos. Começou pelo Anfiteatro João Carriço, passou pelo Centro de Formação de Professores do município, transitou pela Escola Municipal José Khalil e, por fim, consubstanciou-se no auditório Paulo Freire da FACED. As salas de aulas poderiam ter sido o jardim da FACED, a praça da Estação ou ainda o Museu de Arte Murilo Mendes. Mas, resultaram em espaços fechados pela necessidade da fruição fílmica. No seu prefácio ao livro “ A África na sala de aula” da autora Leila Leite Hernandez (2008), Mia Couto escreveu o seguinte: “a sala de aula para a qual Leila está conduzindo a África não é um lugar fechado, mas uma proposta de uma relação nova com algo que se pensava, de antemão, já conhecer (p.12)”. Nessa perspectiva, pode a sala de cinema ser uma sala de aula?
Essa pergunta leva-me a fazer uma breve reflexão comparativa entre a sala de aula escolar tradicional e a sala de cinema. Ambos os espaços possuem sua arquitetura. O que mais interessa aqui é o dispositivo presente em cada uma delas e a finalidade desse dispositivo.
Vemos na primeira (a sala de aula tradicional), o quadro ou a lousa (qualquer que seja sua cor) e de uma certa dimensão geralmente indo do tamanho médio para um tamanho grande. Vemos janelas de dimensão considerável para iluminar a sala com a claridade natural do dia (isso durante o dia) e deixar o ar circular. Á noite, as luzes artificiais substituem a luz natural. Quando essa sala de aula está em funcionamento, portanto, ministrando uma aula, vemos alunos ocupando cadeiras e mesas. Os mesmos têm cadernos e livros e na frente deles, um(a) professor(a). Os olhos viajam, em uma ordem imprevisível, entre caderno, livro, quadro e professor. Este(a) tem o papel de mediar as interações entre o objeto de conhecimento e seus alunos. Ele está aí para expor, explicar, guiar, ajudar, disciplinar, orientar, avaliar, etc. Portanto, os
alunos devem ouvi-lo e também ouvir os colegas. Mas, existe uma coisa que o professor não consegue fazer: ter controle absoluto sobre o nível de compreensão e de conhecimento atingido por cada um de seus alunos.
No segundo espaço (a sala de cinema), há também vários elementos que compõem seu dispositivo. Uma grande tela branca, alto falantes, cadeiras organizadas de um modo diferenciado. Quando este espaço está sendo usado para o fim pelo qual foi planejado, dia ou noite, as luzes são apagadas. Os sujeitos/espectadores permanecem em uma escuridão que, de vez em quando, é perturbada pelas luzes que provém da própria tela. Logo vemos que trata-se de um espaço criado para solicitar os olhos, ouvidos e corpo do espectador. Aqui não tem nenhum professor durante o momento da fruição. Não tem ninguém para disciplinar, explicar, avaliar, expor, etc. durante a fruição do filme. Aqui também há algo sobre o qual ninguém tem controle, nem o cineasta: como o filme toca cada um, como o compreende e o que aprende a partir dele. Nessa comparação que fiz, é possível perceber semelhanças nos dois espaços comparados. Ambos os lugares são planejados para que seres humanos possam ter uma experiência. Mas, será o mesmo tipo de experiência? Vejamos então. Na sala de aula tradicional, há uma experiência de aprendizagem provocada a partir de conteúdos e diálogos. A vista, os ouvidos, as vozes e os diálogos conduzem ao exercício da reflexão e do pensamento. Os sentimentos e as emoções ficam praticamente no segundo plano. Na sala de cinema, há uma experiência provocada a partir do filme. As imagens e os sons cativam os ouvidos e olhares, além de penetrar nos corpos, e quem sabe, nas almas. Há lugar para exercitar o pensamento, refletir, comover-se, alegrar-se, surpreender-se, amedrontar-se, etc. Resumindo, é um lugar para aprender e emocionar-se. Porém, aprendizagem e emoções caminham juntas de tal forma que ninguém fique no segundo plano, apesar de, comumente, atribuir ao cinema o papel de lugar de divertimento. Diz Fernandes (2005, p. 71-72) em Cinema e Psicanálise que
A busca prazerosa de ir ao cinema pode ter suas raízes no ambiente de isolamento, silêncio e penumbra aconchegante e sedutora, onde insistimos em permanecer em desejável passividade, simulando perfeitamente o ventre materno para onde desejamos retornar. Pode- se também justificar o desejo de ir ao cinema pela "impressão da
realidade" associada à forma de se relacionar com essa realidade alucinatória, que pode ser definida como "voyeurista-narcisista", porque nela o sujeito "espia" a intimidade do outro pelo viés da tela, enquanto seu corpo inerte, imaginariamente, é projetado no enredo, vivenciando o filme como algo que de fato lhe acontece como se fosse o seu sujeito (efeito sujeito). Ele participa e se identifica com a situação. (...).
O que é interessante enfatizar é o seguinte: nessa sala de aula que é a sala de cinema, a aprendizagem acontece. O isolamento e a passividade dos corpos são apenas aparentes. A ‘impressão da realidade’ pode ir além da impressão em si, pois a realidade pode ser bem real no encontro entre o mundo do filme e o do sujeito espectador.
Assim, no âmbito desta pesquisa assumo então a premissa de que a sala de aula pode ser qualquer espaço físico/simbólico para se pensar/discutir/conversar a respeito do continente africano. Claro, a configuração do espaço (aberto ou fechado) depende dos objetivos definidos e do elemento provocador das aprendizagens. Sendo o cinema tal elemento, optei por usar espaços fechados e apropriados (potenciais salas de cinema) à fruição fílmica. Mas, o que é bastante claro é que apesar das salas de aulas desta pesquisa serem múltiplas, o objetivo permaneceu o mesmo: fomentar discussões e conversas acerca da história e culturas africanas a partir de filmes africanos. Como atingir então esse objetivo? Devo eu, proceder da mesma forma que nas salas de aula tradicionais? Devo agir como professor passando a lição para o quadro? Como fazer quando os alunos são numerosos e formados por várias séries? Devo agir da mesma forma quando professores e alunos são misturados e ocupam o mesmo lugar? Devo ter um planejamento com conteúdos predefinidos para serem trabalhados?
Todas essas perguntas emergiram em mim no decorrer desta pesquisa. Infelizmente ou felizmente, não tenho uma resposta pronta a elas. Vou tecendo os textos, costurando os discursos e, talvez as respostas se evidenciam ou quem sabe, novas inquietações surjam.