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3.3.1 Natureza da pesquisa, população e amostra

Para atender o terceiro objetivo, que foi o de investigar como o ambiente institucional influencia os atores da cafeicultura em cada região, foi realizada uma pesquisa de caráter qualitativo e explicativo. Conforme Godoy (1995a) e Zanella (2009), os estudos qualitativos possuem como foco a análise do mundo empírico em seu ambiente natural. Nos trabalhos dessa natureza são valorizados o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação estudada. O pesquisador possui papel relevante nesse tipo de pesquisa, pois cabe a ele observar, selecionar e analisar os dados coletados.

Já as pesquisas explicativas, de acordo com Gil (2002), possuem como objetivo a identificação dos fatores que contribuem para a ocorrência de determinados fenômenos. Conforme Vergara (1990), esse tipo de pesquisa busca esclarecer os fatores que, de alguma

forma, contribuem para o desencadeamento de um determinado acontecimento. Ainda segundo a autora, a pesquisa descritiva pode ser utilizada como base para suas explicações.

A população definida para este estudo são os variados atores presentes na cadeia do café, como produtores, membros de cooperativas, técnicos extensionistas, membros de órgãos de extensão e pesquisa. O estudo foi realizado por meio de uma amostra não probabilística por conveniência. Neste tipo de amostragem a seleção dos entrevistados é realizada de acordo com a acessibilidade (MALHOTRA, 2006), voluntariado ou acidentalmente (MAROCO, 2007).

3.3.2 Coleta dos dados

Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas (Anexos B e C). De acordo com Gil (2008, p. 109), entrevista consiste em uma “técnica em que o investigador se apresenta ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação”. Conforme Flick (2013), para a realização de entrevistas semiestruturadas são elaboradas várias perguntas que envolvam os objetivos da pesquisa. Nesse caso, não há a necessidade do entrevistador se manter preso no roteiro pré-determinado para a formulação das perguntas. Cabe a ele sondar o entrevistado em momentos adequados e direcionar a discussão da questão em maior profundidade. Os entrevistadores devem, também, introduzir na entrevista todas as perguntas que sejam relevantes para determinada questão.

Os roteiros de entrevistas foram elaborados a partir dos fundamentos teóricos sobre o ambiente institucional e a sua influência para o desenvolvimento regional. As perguntas foram direcionadas para entender o perfil das duas regiões em relação a importância dada a educação, ao nível de confiança e cooperação existente, a adoção de inovação e tecnologia, a inserção de boas práticas de gestão, ao perfil dos cafeicultores, além dos pontos fortes e fracos de cada localidade.

Foram realizadas 14 entrevistas semiestruturadas: 13 entrevistas foram gravadas com autorização dos participantes e, posteriormente, transcritas; 1 entrevista foi realizada por meio do chat do Skype e também contou com a autorização do participante. Os entrevistados foram selecionados de acordo com a acessibilidade e em função da sua relação com a cafeicultura nas duas regiões estudadas. Desse modo, foram entrevistados 8 produtores (identificados como Prod.), 5 membros de órgãos de extensão e pesquisa (identificados como Org.) e 1 membro de cooperativa (identificado como Coop. Cerrado/Sul). As entrevistas ocorreram no período entre 27 de novembro de 2017 e 20 de dezembro de 2017 e geraram mais de 9 horas de áudio gravado e 172 páginas transcritas. No quadro 3 é apresentado o detalhamento das entrevistas realizadas.

Quadro 3 – Detalhamento das entrevistas

Entrevistado Data Forma Duração Páginas

transcritas Prod. Cerrado 1 27/11/2017 Internet (Chat do Skype) - 5 Prod. Cerrado 2 12/12/2017 Internet (WhatsApp) 01:00:10 20

Prod. Cerrado 3 13/12/2017 Telefone 00:26:16 13

Prod. Cerrado 4 20/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:31:20 13 Prod. Sul 1 11/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:28:28 9 Prod. Sul 2 11/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:38:30 12 Prod. Sul 3 13/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:38:20 10 Prod. Sul 4 13/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:36:34 13 Org. Cerrado 1 12/12/2017 Internet (WhatsApp) 00:41:24 11

Org. Cerrado 2 14/12/2017 Pessoalmente 00:25:37 9

Org. Sul 1 27/11/2017 Pessoalmente 01:14:41 25

Org. Sul 2 07/12/2017 Pessoalmente 01:03:11 15

Org. Sul 3 14/12/2017 Pessoalmente 00:35:12 6

Coop. Cerrado/Sul 04/12/2017 Internet (Skype) 00:55:36 11

Total 9:15:19 172

Fonte: elaborado pela autora

O Prod. Cerrado 1 pertence a uma família de cafeicultores que estão na atividade desde 1940, sendo que na década de 1980 seus familiares se instalaram no Cerrado Mineiro. Formado em Engenharia Agronômica, trabalha com agronegócio há 10 anos e desde 2011 está envolvido com o empreendimento familiar na cafeicultura.

A Prod. Cerrado 2 faz parte de uma família que possui uma história de mais de 100 anos com o café. É formada em Comunicação Social (Publicidade e Propaganda) e é cafeicultora há 23 anos.

O Prod. Cerrado 3 foi um dos primeiros cafeicultores a chegar na região, com o início das atividades na década de 1970.

A Prod. Cerrado 4 está envolvida com a cafeicultura desde criança, visto que é filha de produtores. Há 10 anos possui sua própria fazenda e há 4 trabalha com certificação e presta serviço para outro cafeicultor.

O Prod. Sul 1 trabalhou como metalúrgico por 30 anos e após a aposentadoria adquiriu uma propriedade e entrou na atividade, sendo os últimos 15 anos dedicados a cafeicultura.

A Prod. Sul 2 conhece a cafeicultura desde a infância, tendo trabalhado nessa época na colheita do café. Há 20 anos a cafeicultora e seu marido adquiriram uma propriedade na região e iniciaram a lavoura.

O Prod. Sul 3 é Engenheiro e entrou na atividade em 2005, após se aposentar e comprar uma fazenda na região do Sul de Minas. O produtor trabalha em conjunto com sua esposa, que é a responsável pela administração da propriedade.

O Prod. Sul 4 tem contato com a cafeicultura desde criança, sendo filho de produtor. No decorrer dos anos sempre auxiliou o pai e o irmão em suas propriedades e há 4 anos decidiu entrar na atividade e possuir sua própria lavoura.

A Org. Cerrado 1 pertence a uma família de cafeicultores. É Engenheira Agrônoma e trabalha na Emater há mais de 10 anos.

A Org. Cerrado 2 é formada em Engenharia de Alimentos e participa de estudos sobre café na Epamig desde 2010, com pesquisas voltadas para qualidade e cultivares.

O Org. Sul 1 é formado em Engenharia Agronômica e trabalha há mais de 20 anos em uma unidade da Emater do Sul de Minas.

O Org. Sul 2 é Engenheiro Agrônomo e trabalha no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) há mais de 10 anos.

O Org. Sul 3 tem contato com a cafeicultura desde a infância, sendo neto de cafeicultores. É formado em Técnico em Agropecuária e trabalha na Emater há mais de 10 anos.

O Coop. Cerrado/Sul é formado em Engenharia Agronômica e trabalha há mais de 5 anos com café, tendo desenvolvido atividades no Cerrado Mineiro e no Sul de Minas.

3.3.3 Análise dos dados

As informações coletadas nas entrevistas foram examinadas por meio da análise de conteúdo. Segundo Bardin (1977), a análise de conteúdo consiste em um conjunto de técnicas para a apreciação das comunicações, que utilizam de procedimentos sistemáticos e objetivos para descrever o conteúdo das mensagens, com o intuito de se obter indicadores que permitam inferências sobre os conhecimentos advindos das condições de produção/recepção de tais mensagens.

De acordo com Richardson et al. (2012), esse tipo de análise é empregado para melhor compreensão de um discurso, com o aprofundamento das características que ele possui e a extração de momentos de maior importância. Para Flick (2013), o objetivo dessa análise é classificar o conteúdo dos textos, por meio do agrupamento das declarações, sentenças ou palavras em categorias.

O processo para a análise de conteúdo é constituído por três fases: (a) pré-análise, (b) exploração do material e (c) tratamento dos resultados (GODOY, 1995b). A primeira etapa é identificada como a fase da organização. Nela é estabelecido um esquema de trabalho (GODOY, 1995b) com a operacionalização e a sistematização das ideias (RICHARDSON et al., 2012). Nesta fase são realizados também os primeiros contatos com os documentos, por meio da leitura flutuante. Em seguida, os documentos são selecionados, as hipóteses são formuladas e o material é preparado para a análise (GIL, 2008).

A segunda fase, que consiste na exploração do material, possui como objetivo administrar de forma sistemática as decisões que foram tomadas na etapa anterior (GIL, 2008). Nela são realizados os processos de codificação, classificação e categorização (GODOY, 1995b). E, na terceira fase, os dados brutos obtidos na etapa anterior são validados. Por meio de técnicas quantitativas e/ou qualitativas, os dados são analisados em busca de padrões,

tendências ou relações implícitas (GODOY, 1995b). A partir desses dados, o pesquisador poderá propor inferências e interpretações de acordo com os objetivos anteriormente estabelecidos ou conforme resultados inesperados (BARDIN, 1977).

Zaccarelli e Godoy (2010) ressaltam que é comum na análise de conteúdo a organização de categorias previamente definidas. Nesses casos, as informações geradas são uniformes e padronizadas conforme o esquema antecipadamente estabelecido. Nesta pesquisa, as categorias iniciais para a análise de conteúdo foram retiradas da literatura sobre ambiente institucional consultada para a elaboração dos questionários. Desse modo, há quatro categorias de análise, sendo: educação, inovações e tecnologias, confiança e cooperação e perfil dos cafeicultores. Uma outra categoria - modelo cooperativista local - foi detectada a partir da análise de conteúdo e inserida na discussão.