Os enfermeiros revelam não gostarem de falar sobre suas vivencias com a morte dos pacientes que cuidam que escrever sobre o tema seria mais fácil do que falar e que quando tem experiência profissional de outras profissões é mais fácil trabalhar com o tema.
[...] Bom, tem muitos casos de pacientes que sofrem. São crônicos, mas eu não
gosto muito de falar sobre isso (Hortência).
Escrever é mais fácil, mas se expressar assim realmente é mais complicado. Então
é isso. Obrigado (Violeta).
Não só de enfermeira, mas também de evangélica e enfermeira capelã, a
enfermeira psicóloga que eu tenho um outro olhar é mais fácil esse tema
(Orquídea).
Eu tenho dificuldade e não gosto nem de ficar perto da pessoa e só peço que vá logo quando está sofrendo. É a única coisa que eu consigo pensar. Para a gente que vê todo dia, passa a ser mais um e mais um para que essa vida evolua. A
morte faz parte da vida e a minha profissão para eu me realizar como profissional
e como pessoa a minha vivência é bem diferenciada (Lírio).
Aumentaram as interrogações [risos...] eu como pessoa, como enfermeira só
aumentaram, as interrogações para mim. Eu hoje não acredito nem procuro o
porque da morte (Cravo).
Hortência e Violeta não gostam de falar sobre a morte e o morrer dos pacientes sendo que Hortência revela que os crônicos sofrem mais enquanto que Violeta prefere escrever sobre o tema. Orquídea revela a sua experiência de enfermeira, capela, psicóloga e a influência dessa formação sobre seu olhar para o processo de morte. Lírio refere não gostar de ficar perto da pessoa e pede que morra quando está sofrendo e para o profissional que vê a morte todo dia passa a ser uma sequência de mortes o que torna sua vivência diferenciada. Cravo revela que aumentaram as interrogações sobre a morte e ela não procura repostas.
Os enfermeiros revelam que para cuidar é preciso humanizar-se. O paciente e o profissional de enfermagem além de responderem e enxergarem de forma diferente, sendo necessário suporte psicoemocional. O enfermeiro sente uma satisfação ao cuidar dessas pessoas como parte de um crescimento diário. A existência, no mundo do trabalho, revela a experiência e a fé. Alguns têm menos experiência e outros sentem falta do enfermeiro que sabe muito sobre prestação de cuidados.
Eu acho que se a gente está ali é porque tem coração mesmo! Para valer é
Cada paciente é um paciente e eles respondem de forma diferente e o profissional também age de forma diferente (Azaléia).
A gente começa a enxergar um pouco diferenciado porque a gente precisa ter um
suporte psicoemocional (Lírio).
Para mim eu já voltava deste cuidado com uma satisfação bem maior [...] é como
se eu tivesse me doado um pouco mais no lado humano, isso eu pude observar e me
deixava mais satisfeita e eu percebi que foi um ganho para mim (Girassol)
É um crescimento a cada dia, certo? Eu acho esse tema belíssimo, eu amo esse
tema porque a gente cresce como pessoa [...] relatei não só eu profissional, mas,
eu como pessoa. Que eu creio que Jesus vai voltar e ele os chama a cada dia para
esse momento. Quando estivermos lá, não tem mais nada a fazer. A gente cresce
como sujeito [...] nós não somos nada aqui, neste mundo. Estou colocando a
minha experiência de fé porque eu acho que existe outra vida, uma vida lá no céu com Jesus, mas eu creio que a gente tem outra vida lá no céu, eu creio e acredito
que aquelas pessoas que um dia deram um sim para Jesus se comprometeram de
estar no caminho dele em obediência a ele. Certamente a gente tem essa esperança, quando estivermos lá é só o céu ou ao inferno e aqui é o momento ainda de dizer um sim para Jesus [...] mas a gente sabe que ele vai voltar. Jesus
vai voltar e a minha esperança também. Que me fortalece na vida porque não sabemos nem o dia nem a hora, mas diz a bíblia eu ele vem como ladrão, mas ele vem, assim como ele subiu ele disse que ia voltar. Então, eu creio (Orquídea).
Lótus refere que para cuidar de pessoas no fim da vida é preciso ter coração e atitudes humanas. Azaléia refere que cada pessoa seja paciente e/ou profissional responde de forma diferente. Lírio refere que na sua visão o suporte psicoemocional é necessário diante da morte. Orquídea revela ser a morte um tema de seu interesse religioso por acreditar que Jesus vai voltar. Girassol refere à satisfação de cuidar de pessoas ao fim da vida. Cravo se compara com profissionais que dominam o conhecimento sobre esse tema.
Os enfermeiros revelam sentimentos de culpa e frustração no cotidiano da prestação de cuidados diante da presença de morte. Acompanhar o paciente ao fim da vida e sentem-se inúteis ao constatar os limites de cuidados relacionados às medidas de conforto. Eles comparam o presenciar a morte com as ações de recuperação e cura ao trazer sentimentos de poder e de impotência por não conseguirem recuperar a pessoa e constatar a morte como inexorável.
A tristeza de ver uma pessoa cada dia definhando [...] e da impotência de não poder fazer nada a não ser algumas medidas de conforto que as vezes não adianta
muita coisa (Acácia).
A gente faz as coisas para que a pessoa se recupere, que saia de alta e saia bem
quando a pessoa morre a gente se sente inútil. [...] quando [...] o paciente morreu
a dor e o sentimento é deles mas quando é na sua presença fica o sentimento de incapacidade, [...] é diferente a gente sente mais. [...] sentimento de incapacidade e a gente pensa tanto estudo e tanta incapacidade, [...] o que melhora para gente é [...] não só de conhecimento cientifico, mas a parte humana (Gardênia).
[...] aquela situação de que a pessoa não vai viver mais, da uma coisa vaga e a gente tipo tenta fazer de tudo, sempre o melhor. Às vezes a gente se sente culpada
de não ter prestado um cuidado melhor [...] impotente diante de muitas situações.
A sensação que tive muitas vezes foi de frustração por mais alguma coisa, me senti impotente diante das situações (Jasmim).
A gente se sente culpada quando o paciente morre (Azaléia).
[...] observava que existia um conflito, assim eu achava que em alguns momentos, em que eu fazia um procedimento, eu ficava assim, será que eu fiz tudo e por um lado [...] (Girassol).
[...] se sente culpada, achando que poderia ter feito mais [...] a gente fica como se
tivesse faltando um pedaço [...] porque geralmente você convive com esses
pacientes por muito tempo, por vários meses [...] a gente, se sente culpada e fica se
questionando [...] sem lembrar que a morte faz parte do nosso roteiro. Oh! Deus
porque aconteceu? Porque foi a óbito? Porque não tive como salvar [...] (Camélia).
Acácia refere tristeza ao presenciar o processo de morrer do paciente e Expressa a avaliação que faz sobre as medidas de conforto como algo paliativo diante da morte. Gardênia expressa fazer tudo a seu alcance para que o paciente se recupere. Quando este morre o sentimento que surge é de inutilidade e incapacidade mesmo tendo conhecimento cientifico. Para ela a parte humana possui duas faces a de presenciar a morte trazendo mais sofrimento ao profissional e a de ter a notícia que diminui o referido sofrimento. Jasmim refere que o enfermeiro tenta fazer o melhor e que quando a pessoa morre sente um vazio.
Azaléia refere que se sente culpada quando o paciente morre. Camélia se sente culpada por achar que poderia ter feito mais alguma coisa pelo paciente em sua religiosidade e revela a impotência em salvar a vida do paciente. Jasmim refere à impotência e frustração diante das situações de morte, por não ter prestado um cuidado melhor. Azaléia, Camélia e Jasmim relatam sobre a culpa quando não conseguem prestar um cuidado de qualidade. Girassol expressa a vivência de dúvidas sobre arealização segura de procedimentos diante da presença da morte, causando-lhe sentimentos de culpa.
Girassol, Jasmim e Camélia referem dúvidas, frustração, impotência como expressões fundamentos da culpa no cuidado.
Os enfermeiros revelam sentimento de medo ao cuidar de pessoas ao fim da vida, por considerarem a possibilidade de morte durante a prestação de cuidados.
Inicialmente, quando eu me deparei com esses pacientes em situação terminal, eu
senti medo, muitas vezes eu assim, ficava meio que paralisada. Eu queria fazer logo o procedimento e sair, queria me livrar daquele paciente. Eu ficava me
perguntando porque eu temia? Porque que eu queria me afastar logo? Então é o
medo que me afastava! Passei a conversar com o paciente, falar sobre a sua
família. Percebi também que esse medo foi diminuindo aos pouquinhos, eu já não
tinha tanta pressa, eu demorava, independente de se ela vai morrer amanhã,
independente do curativo que você vai fazer. Mais assim ou sei lá fazer uma
massagem de conforto ou só ouvir mesmo? Então, tem alguns que tem necessidade de falar coisas, de pedir perdão de algumas coisas que se sentem culpados, mas não
tem ninguém para ouvir (Girassol).
Ele estava com a consciência tranquila, pois ele fez tudo o que pode pela mãe e o
que não pode. Ele voltava sempre na unidade para agradecer, por exemplo, na páscoa (Jasmim).
Girassol refere que ao cuidar dos pacientes em situação terminal, sentia medo, por temer a morte dos pacientes durante a realização dos cuidados. Isso melhorou ao longo do tempo, ao perceber as necessidades de conforto, de ser ouvido, pedir perdão ou se redimir de algo que os fazia culpado quando se encontrava próximo à morte. Jasmim percebe a tranquilidade do familiar que vivencia com o paciente a proximidade da morte e agradece a experiência ao pessoal de enfermagem.
CATEGORIA 3 VIVENCIANDO O SENTIDO DA VIDA AO CUIDAR DA PESSOA