Está categoria foi constituída de duas subcategorias a partir de três constituintes de significado sentido da vida, vontade de sentido e formação, considerando a frequência dos temas de maior repetição para os de menor, esgotando todos os depoimentos transcritos.
3.1 O Sentido da vida para o enfermeiro ao cuidar de pessoas em finitude
O sentido da vida do enfermeiro ao cuidar de pessoas ao fim da vida mudou porque passaram a valorizar mais a vida, refletir sobre ela e transformar-se.
A gente passa a pensar um pouco mais na vida.. A gente percebe que para algumas
pessoas é diferente, mas para mim não. Acho que é um processo doloroso, mas ao
mesmo tempo enriquecedor (Acácia).
[...] passa a valorizar mais a vida, a ver que a vida da gente na realidade é um fiozinho que a qualquer momento ela pode ir [...] a gente pode morrer e não ter mais aquele contato direto [...] passa a valorizar mais. A gente passa a se
[...] quando é da família é diferente. A dor e o sofrimento são maiores [...] a gente
passa a dar mais valor à vida, quando a gente vivência várias mortes [...] (Azaléia). O sentido da vida mudou em relação a dar mais importância ao cuidado com os
outros. Mudou em ser uma pessoa melhor, dar menos importância para as coisas
materiais. Eu acho que a gente, convivendo diariamente com a morte tão próxima,
a gente passa a dar mais de si, em ser mais sensível. Passa a dar mais valor a vida e menos valor as coisas fúteis que tanta gente sabe que um dia vai morrer e a gente sabe que a gente não é essa coisa toda (Hortência).
É um trabalhar para enfermagem, [...] pelo sentido da vida [...] Eu quero dizer que esse risco faz a gente se enriquecer. A gente não existe sem Jesus na nossa vida
[...]. Vai ter um curso de capelania aqui, três dias, e eu sou uma das palestrantes. É
um crescimento na nossa vivência, no nosso dia a dia e a gente começa a ter um novo olhar sobre a vida (Orquídea).
Eu acho que é valioso o lado do profissional que a gente tem, e eu não conhecia
esse valor e foi com o tempo que eu passei a perceber e isso me ajudou muito. Assim, foi um ganho para mim, tem uma satisfação interior, que eu não sei explicar como é que vem esta satisfação interna (Girassol).
O sentido da vida para mim mudou. A gente acha que vai poder fazer tudo o que o
paciente precisa (Gardênia).
A gente passa a encarar a vida de uma outra forma. Pode ser com a gente. A gente
pode estar aqui na mesma situação e tudo é uma desculpa porque todo mundo tem
num dia que morrer (Rosa).
[...] faz é a gente rever a vida, refletir sobre a vida e ver o que realmente vale a pena viver mesmo, o sentido, o sentimento, a emoção com o ser humano. É difícil
para a família. Você vê uma pessoa que está ali agonizando! A gente vira somente técnicos, fazendo adrenalina, atropina [...] (Cravo).
Mudou bastante a forma de ver a vida depois de cuidar de pessoas neste processo. Eu fiquei mais humana. A gente tem que aproveitar o momento da assistência o
mais rápido possível, então mudou, é uma experiência muito boa na minha vida e me acrescentou bastante (Margarida).
A gente fica mais humano mesmo! As pessoas falaram que a gente perde a humanidade, mas eu acredito que não, eu acho que, na verdade, a gente fica mais
humano (Lótus).
Eu compreendo a vida como uma passagem, que a gente vai passar aqui e vai para uma vida melhor já que eu sou Cristão. Eu compreendo a vida como um
momento impar, para a gente orientar algo necessário sobre Deus na vida destas pessoas que estão envolvidas com esse processo da morte (Lírio).
Acácia, Camélia, Azaléia, Hortência, Orquídea e Girassol referem que passaram a dar mais valor a vida.
Acácia destaca que a morte é um processo doloroso, porém enriquecedor. Camélia expressa que a vida é frágil, a morte é certa e isso a levou a se questionar sobre a sua própria vida. Azaléia refere que quando é alguém da família é diferente e que a dor e o sofrimento são maiores. Hortência revela atribuir mais importância a relação de cuidado. Orquídea
expressa a importância da religião como sentido da vida. Girassol expressa sua satisfação em ter descoberto o sentido da vida na vivência profissional.
Gardênia, Rosa e Cravo concordam que o sentido da vida mudou. Gardênia percebeu a sua onipotência diante dos limites do agir profissional. Rosa revela a consciência da finitude da vida. Cravo expressa utilizar os procedimentos técnicos diante do processo de morrer.
Margarida e Lótus expressam a mudança nas relações com o outro tornando-se mais humanos nas relações. Margarida revela que cuidar diante do processo de morte a fez ver a vida de uma outra forma.
Lírio entende a vida como uma passagem, e a morte como uma oportunidade de orientar o outro sobre a existência de Deus.
Os enfermeiros revelam o despreparo técnico de alguns profissionais para atendimento no processo de reanimação, eles descrevem que além deste há necessidade de um processo eficaz de comunicação que define a qualidade do trabalho. Para eles a falta de materiais e a sobrecarga de trabalho fazem com que os profissionais percam o olhar humanizado do cuidado, assim como a falta de preparo para o enfrentamento da morte de uma pessoa próxima.
[...] o paciente esta sem acesso e a enfermeira não sabe nem que o paciente não
tinha acesso, tem quatro pessoas ali e não sabem que o paciente está sem acesso.
Após um minuto a gente pede a identidade a demanda de serviço você tem que dar
conta de tudo, tem que estar preparado para este momento, e tem muitos profissionais que] não estão preparados durante uma parada não sabem que se tem equipe cada um tem que fazer um faz a medicação o outro manobras cada um tem as suas funções, porque o medico pede adrenalina e ai todos correm para o
carro para fazer a mesma coisa porque não estão preparados não sabem quanto
tempo tem que ficar reanimando, intervalos, esperam o medico pedir tem quanto tempo não sinalizam para o medico se vai precisar fazer mais uma dose disso ou
daquilo a falta de materiais essas situações me chamam muito a atenção o despreparo dos profissionais educação continuada deveria ter preocupação com os profissionais erros humanos e os erros da equipe, escalas, atestados pelo menos nestes três anos aqui eu não me lembro de ter sido convocada para treinamento. Resumindo são os profissionais que não tem preparo outros estão preparados, mas tem sobrecarga de trabalho e acabam perdendo a parte emocional do cuidado como a religião que é um ser humano como você e agente se torna muito mecânico. A questão do preparo e da senhora que morreu por falta do sucsometro [...] (Cravo).
Eu posso estar pensando que eu posso estar ajudando, porque é a vida, não é? [...] a gente sabe que todo mundo vai morrer eu particularmente não estou preparado
para enfrentar a morte e principalmente a morte de uma pessoa muito próxima ligada a mim (Jasmim).
Cravo refere que muitas vezes o enfermeiro desconhece a condição do paciente que está sob sua responsabilidade e revela o exercício apenas a situação pós-morte, quando se
preocupa com o preenchimento do atestado de óbito. Expressa a necessidade de preparo para a realização de procedimentos como reanimação cardiorrespiratória e clareamento das funções de cada profissional neste atendimento. Para ele tanto a falta de materiais quanto a sobrecarga de trabalho levam ao profissionais a cometerem erros e a distanciar do aspecto religioso, na pratica dos enfermeiros diante da morte. Jasmim refere ter consciência de que a morte é um fato que deve ser esperado por todos, mas se considera despreparada para vivenciá-la particularmente para enfrentar a morte de uma pessoa próxima.
3.2 A Formação do enfermeiro sobre o processo de cuidar na finitude da vida
A formação do enfermeiro sobre a morte não está dirigida para atuação no cuidado com a pessoa que está morrendo no hospital. Nesta são percebidas falhas, falta de amor à profissão e mudanças curriculares.
Nós não temos um direcionamento, uma capacitação neste sentido o que a gente vê é na parte da graduação e nas disciplinas que eu pude ver porque a grade era
diferenciada e discutimos algumas questões da morte e morrer. Desde o processo
de formação, eu também fui bolsista e a gente tem uma visão um pouco
diferenciada porque tem um amadurecimento como profissional. Eu penso que o
trabalho vai dar uma importância muito grande para o setor nosso de saúde, vai
contribuir para ter capacitação, treinamento, orientação em serviço e melhorar a nossa prestação de cuidados (Lírio).
Este preparo para lidar com os pacientes no processo de morte e morrer não tem na graduação. A gente adquire na experiência de trabalho, no dia a dia e no nosso
cuidado com o paciente (Violeta).
Na graduação a gente vê falar muito sobre o cuidar, o cura mas sobre a morte é muito pouco, não temos preparo para a morte [...] (Camélia).
Na minha formação eu lembro pouco sobre esse assunto, eu acho que falaram
sobre paciente terminal (Rosa).
Na área de formação está tendo muita falha, dos profissionais, formadores não sei
se é por mudança da grade curricular ou da própria tecnologia (Gardênia). Um doutor com alguns residentes eles já sabiam que a paciente estava em óbito aproveitaram aquele momento para fazer a intubação, mas eu percebi na hora que foi só para estudos, porque tinham alguns internos que queriam treinar [...]
(Orquídea).
A gente tem que formar prestadores de serviço dentro da nossa realidade
brasileira então a gente tá querendo muito seguir o modelo de lá de fora. Tem que repensar nesta formação. Eu acho que as pessoas se formam despreparadas para
assistir e ver o paciente como um todo sabe? (Gardênia).
O que você aprende, traz da academia ou aprende com os outros no dia a dia ou você faz uma especialização (Cravo).
Eu não sei se a palavra é ética, humanizar, mas, ele vê o paciente por partes. O profissional se forma para ver o paciente ao todo. As escolas, as faculdades estão
formando pessoas que não tem jeito, estão fazendo por fazer elas não tem amor a profissão. Nos estágios a pessoa passa três dias, tem pessoas que nunca
acompanharam não conhecem. E ai vem a política e sai de uma universidade ou faculdades, ou seja, curso superior e no concurso que não tem mas Na nossa
realidade ele pode sair mais burro do que entrou mas ele consegue um emprego por causa do político e isso revolta a gente. Poxa! Eu tenho mais medo de adoecer do que de morrer. Então, eu sou contra a questão da formação. A gente tem que
estar preocupado em colocar o profissional pelo menos com boa qualidade. O
enfermeiro é formado para trabalhar no PSF e o hospital como fica? Então eu sou contra a questão da formação. Muitos erros são dos educadores, Essa realidade tem que mudar urgente, tem muitos técnicos que com a maior facilidade
passam [...] para completar as entidades educadoras não querem cumprir as
cargas horárias e inventam que a carga horária tem que ser complementada com
seminários congressos (Gardênia).
Lírio reclama da falta de capacitação expressando que durante a graduação ela pode discutir sobre o tema da morte e morrer e isso a fez amadurecer profissionalmente pois considera que o trabalho contribui para capacitação, treinamento, orientação em serviço e melhoria da prestação para cuidar. Violeta revela que não teve o preparo para lidar com os pacientes no processo de morte e morrer na graduação e que adquiriu no trabalho. Camélia refere que durante a graduação apreendeu sobre o cuidar e o curar e muito pouco sobre e a morte. Rosa conseguiu lembrar que aprendeu sobre o paciente terminal durante a formação. Orquídea refere que alguns preceptores aproveitam o momento pós-morte para treinar com os residentes e internos no cotidiano do trabalho. Cravo expressa três condições de aprendizado: o que aprendeu na academia, com os colegas e no dia a dia. Gardênia refere a necessidade de formação profissional para atuação considerando o contexto brasileiro e percebe falhas curriculares e reflexos no despreparo e amor a profissão.
4.3 ANÁLISE NOMOTÉTICA PARA COMPREENSÃO DO FENÔMENO SENTIDO DA VIDA NAS VIVÊNCIAS DE ENFERMEIROS QUE CUIDAM DA PESSOA O PROCESSO DE MORTE E MORRER
Após a análise ideográfica dos quatorze depoimentos, iniciei a análise nomotética considerando as diversas ideias dos colaboradores em um movimento, do individual para o geral, dentro do mesmo grupo, que envolvia uma compreensão e articulação entre as categorias, conforme recomenda Martins e Bicudo (2005). As convergências e as divergências foram interpretadas com base nos temas das categorias.
A análise existencial é uma explicação da existência não somente ôntica, mas também uma explicação ontológica da existência e qualifica a essência no sentido de que essa existência é uma forma de ser do humano (FRANKL, 2009).
O homem é o único ser que tem consciência da finitude, do sofrimento e da morte. O enfrentamento do humano com as preocupações do ser-no-mundo e a consciência da transitoriedade da vida na busca de um para que viver e ter uma missão. Porém, se o homem não tivesse consciência da transitoriedade da vida, ele ficaria adiando suas missões (FRANKL, 2009).
Entre os motivos que parecem tirar o sentido da vida, estão o sofrimento e a morte. Diante da finitude da vida, ao ter consciência da vida, da morte e da necessidade de lidarmos com a fragilidade humana, aprendemos a cultivar o hábito de cuidar e descobrimos que precisamos ser fraternos e solidários uns com os outros (FRANKL, 2010).
Na presença dessa fragilidade e solidariedade conscientes, descobrimos que a vida, não é eterna, cobra atitudes responsáveis diante de situações que se apresentam. Nessa perspectiva, buscamos os significados das vivências dos cuidados às pessoas no processo de morte e morrer a partir das falas originárias dos enfermeiros deste estudo, numa generalização para este mesmo grupo, descritas em três categorias apoiadas no referencial Frankliano.
CATEGORIA 1 SOFRENDO COM O OUTRO AO PRESTAR CUIDADOS À PESSOA