Presentemente, o esporte ocupa cada vez mais espaço no interior da vida cotidiana, sendo considerado uma das "atividades econômicas" que mais crescem nos mercados globalizados, o que tem estimulado a entrada de grandes corporações empresariais e tem requerido métodos modernos de administração (PRONI, 1998, p. 75).
Mas seria o UFC um esporte? Esta pergunta tem sido feita por alguns críticos da modalidade. Cerqueira (2013), por exemplo, em um artigo intitulado “UFC é rinha humana”, questiona: "O que farão as autoridades quando ocorrer um assassinato diante dos olhos da plateia e dos telespectadores? O assassino será preso em flagrante?". O autor prossegue:
[...] quem assiste quer ver sangue, mais sangue [...] Classificaram essa luta sanguinária como esporte para regulamentar a rinha humana. Rinha de galo, de cães e de outros animais são proibidas por lei e a rinha humana não? [...] Tem um culto a violência aí [...] O UFC está sendo tolerado por que é movido por milhões em negócios (CERQUEIRA, 2013).
Ainda sobre o assunto, o autor indaga: "O que têm a dizer os estudiosos da Psicologia, da Sociologia, da Filosofia, da Antropologia? Não vão se pronunciar? Só depois do primeiro cadáver nas telas de TV?". Ainda que os questionamentos advenham de um blog sem que os questionamentos sejam pautados em uma análise acadêmica, os argumentos são bastante provocativos.
Diante dos questionamentos propostos por Cerqueira (2013), objetiva-se tratar desta discussão no âmbito da sociologia do esporte, que tem se constituído como um campo de férteis discussões. Destaca-se aqui a importância histórica de autores que dedicaram parte de seus estudos a compreender este fenômeno, em um período histórico que investigações desta natureza possuíam um status quase marginal.
Dentre os precursores dos estudos, destacam-se Beckford (1796) sobre caça à raposa, Egan (1812) sobre pugilato, e após um hiato histórico, aproximadamente 70 anos mais tarde, os trabalhos de Shearman (1887 e 1889), sobre a história e o desenvolvimento do futebol, rúgbi e atletismo (DUNNING, 2004). Na transição dos séculos XIX e XX, autores clássicos das Ciências Sociais passam a reservar um espaço mais específico para discutir o fenômeno esportivo
em suas obras, como por exemplo Veblen (1965), Mauss (2003), Huizinga (1995), Adorno e Horkheimer (1985), Giddens (1961), Dunning (1999), Coakley (2007), Guttmann (1978), entre outros.
O MMA, como sugere Vasques (2013), constitui-se como uma prática esportiva, uma luta simbólica, uma representação do real, que apresenta universalização de regras, uma instituição que regulamenta e organiza tanto sua prática quanto a comparação de desempenho, características próprias do esporte. Ao apresentar o MMA como uma luta simbólica, o autor aproxima-se do conceito proposto por Elias e Dunning (1992), que o definem como uma forma de luta simbólica, na qual o aumento da civilidade fez com que manifestações explícitas de violência física em disputas não fossem mais toleradas; desta forma, jogos violentos foram transformados em esportes com regras específicas com a diminuição de atos de violência.
Por sua vez, Gutmann (1978, p. 7) assim se refere ao esporte: “define sports as playful physical contests"39. E a primeira característica do esporte moderno, para este autor, é a secularidade. Para ele, os jogos da antiguidade estariam associados a atividades rituais, tendo, portanto, um caráter cultista e religioso. É na sociedade Romana que os esportes passam da esfera religiosa e sagrada para a da guerra e combates. Os Romanos, conforme cita: “They believed in physical fitness for the ulterior end of warfare”40 (GUTMANN, 1978, p. 24).
Esta característica voltada à aptidão física e à guerra, ainda que de forma simbólica, pode ser facilmente percebida no MMA.
Ao apresentar a secularidade como uma característica do esporte moderno, Gutmann (1978) se afasta da compreensão apresentada por Elias (1992, 1993, 1994, 1997), que utiliza o processo civilizador como modelo explicativo (teoria que será discutida no segundo capítulo).
A segunda característica atribuída ao esporte moderno é a igualdade. Para Gutmann (1978), não há nos esportes antigos a necessidade de igualar condições de competição. Os resultados esportivos eram atribuídos aos desejos das divindades e não às habilidades dos competidores.
39 “Define esporte como competições físicas lúdicas” (GUTMANN, 1978, p. 7, tradução nossa). 40 “[...] acreditavam em aptidão física como fim principal para a guerra" (GUTMANN, 1978, p. 24,
No que se refere ao MMA, a habilidade dos lutadores tem sido determinante durante os combates, sobretudo por se tratar de confrontos que envolvem o conhecimento de lutas distintas. Um lutador que pretende se tornar um campeão precisa ter conhecimento técnico de modalidades distintas de luta, sob pena de ser facilmente derrotado caso as desconheça.
Já a terceira característica diz respeito à especialização de funções, regras e à rede de serviços junto ao esporte. Ainda que seja possível identificar algumas dessas características, a exemplo da profissionalização de atletas na antiguidade clássica, o nível de aprofundamento é bastante evidente.
Pode ser observada, na atualidade, a contratação de coaches (técnicos) de modalidades de lutas distintas, nutricionistas, preparadores físicos, empresários, além de outros membros de equipe, que são importantes para o desenvolvimento do esporte.
A quarta característica é a racionalização, caracterizada pela perspectiva das regras e da performance humana. Como já apresentado, a inclusão de regras teve papel importante no desenvolvimento do esporte, sobretudo para que este pudesse ser permitido pelas autoridades. E ainda houve a inclusão de premiações para a melhor performance da noite, melhor nocaute etc.
A quinta característica diz respeito à burocratização, uma racionalização que se dá na esfera da organização institucional do esporte. Desde a compra do UFC pela ZUFFA, é possível identificar uma série de ações da empresa, representada por Dana White e os irmãos Fertitta, no sentido de se aproximarem de organizações atléticas, definirem um conjunto de regras e criarem estratégias para a transformação do MMA em um produto de mídia.
Já a sexta característica apresentada é a quantificação e a sétima a busca de recordes, fortemente associadas. Gutmann (1978) destaca a criação do cronômetro, em 1730, por meio do qual qualquer performance se tornou mensurável. No que se refere ao MMA, a quantificação se faz presente no número de lutas, vitórias, nocautes, assim como é possível se estabelecer recordes a partir do número de lutas invictas, o nocaute mais rápido, público presente, número de pacotes pay-
per-view vendidos, etc.
Avançando sobre as questões até aqui evidenciadas e discutidas – as características do esporte moderno, como propôs Gutmann (1978), passa-se a apresentar a contribuição de Bourdieu (1983) para a compreensão do esporte
moderno. Inicialmente, serão feitas algumas considerações sobre o autor e seu entendimento sobre o esporte moderno.
Bourdieu (1983) entende o esporte como um conjunto de práticas e de consumos esportivos oferecidos aos agentes sociais como uma oferta destinada a encontrar certa demanda social, além do que o esporte passa a ter uma lógica e uma história próprias.
Estes sistemas institucionalizadores do esporte especializaram-se cada vez mais em sua evolução, até funcionarem como um campo (o campo esportivo), composto por instituições públicas e privadas, que passaram a defender e a representar esportistas de determinada modalidade. Assim, propuseram-se a elaborar e aplicar normas que regem essas práticas, pelo interesse de produtores e vendedores de bens e de serviços necessários à prática de determinado esporte, e produtores e vendedores de espetáculos esportivos e bens associados, direta ou indiretamente ligados ao esporte.
Para Bourdieu (1983, p. 89), os campos são "espaços estruturados de posições (ou de postos) cujas propriedades dependem das posições nestes espaços, podendo ser analisadas independentemente das características de seus ocupantes (em parte determinadas por elas)”. Dessa forma, nas palavras do autor (1983, p. 89): "um campo se define entre outras coisas através da definição dos objetos de disputas e dos interesses41 específicos que são irredutíveis aos objetos de disputas e aos interesses próprios de outros campos".
Para que um campo funcione, segundo ele, é preciso que haja objeto de disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, e tais objetos dependem de certo número de interesse.
Existem também questões relacionadas ao surgimento do esporte. Neste sentido, Bourdieu (1983, p. 137) manifesta-se da seguinte forma:
[...] a história do esporte é uma história relativamente autônoma que, mesmo estando articulada com os grandes acontecimentos da história econômica e política, tem seu próprio tempo, suas próprias leis de evolução, suas próprias crises, em suma, sua cronologia específica.
41 O interesse é entendido por Bourdieu como investimento específico nos processos de lutas, que é
No interior do campo de concorrência, o esporte moderno apareceu definido como prática específica, irredutível a um simples jogo, ruptura correlativa da instituição de um campo de práticas específicas, que é dotado de suas lutas próprias, suas regras próprias, e onde se produz e se investe toda uma cultura ou uma competência específica. Cultura de certa forma esotérica, separando o profissional e o profano.
Conforme o autor, a passagem do jogo ao esporte se realizou nas grandes escolas reservadas às elites da sociedade burguesa, em que os filhos das famílias da aristocracia ou da grande burguesia retomaram alguns jogos populares, isto é, vulgares, impondo-lhes uma mudança de significado e de função.
A escola é o lugar onde as práticas, dotadas de funções sociais e interligadas no calendário coletivo, são convertidas em exercícios corporais, em atividades que possuem fim em si mesmas, submetidas às regras específicas, cada vez mais irredutíveis a qualquer necessidade funcional.
Ainda conforme Bourdieu (1983), o esporte, antes de ser visto como formador de caráter, no final do século XIX, no interior das public schools, foi visto como um meio de ocupar a menor custo os adolescentes que estavam sob responsabilidade dessas instituições em tempo integral, sendo fácil vigiá-los. Dedicavam-se a uma atividade sadia e direcionavam sua violência contra os colegas, em lugar de direcioná-la contra as próprias instalações ou de atormentar os professores.
A teoria do amadorismo faz do esporte uma prática tão desinteressante quanto a atividade artística, porém mais conveniente do que a arte para a afirmação das virtudes viris dos futuros líderes: o esporte é concebido como uma escola de coragem e de virilidade, capaz de formar o caráter e inculcar a vontade de vencer, que é a marca dos verdadeiros chefes.
Ao pensar um conjunto de práticas e de consumos esportivos dirigidos aos agentes sociais, Bourdieu (1983, p.136-137) se coloca da seguinte forma:
Acho que deveríamos nos perguntar primeiro sobre as condições históricas e sociais deste fenômeno social que aceitamos muito facilmente como algo óbvio, o "esporte moderno". Isto é sobre as condições sociais que tornaram possível a constituição do sistema de instituições e de agentes direta ou indiretamente ligados à existência de práticas e de consumos esportivos, desde os agrupamentos "esportivos", públicos ou privados, que têm como função assegurar a representação e a defesa dos interesses dos praticantes de um esporte determinado e, ao mesmo tempo, elaborar e aplicar as
normas que regem estas práticas, até os produtores e vendedores de bens (equipamentos, instrumentos, vestimentas especiais, etc.) e de serviços necessários à prática do esporte (professores, instrutores, treinadores, médicos especialistas, jornalistas esportivos, etc.) e produtores e vendedores de espetáculos esportivos e de bens associados (malhas, fotos dos campeões ou loterias esportivas, por exemplo.
Estes sistemas institucionalizadores do esporte especializaram-se, cada vez mais, em sua evolução, até funcionarem como um campo (o campo esportivo), composto por instituições públicas e privadas, que passaram a defender e a representar esportistas de determinada modalidade e a elaborarem e aplicarem normas que regem estas práticas por produtores e vendedores de bens e de serviços necessários à prática de determinado esporte e produtores e vendedores de espetáculos esportivos e bens associados, direta ou indiretamente ligados ao esporte.
Para que um campo funcione, segundo ele, é preciso que haja objeto de disputas e pessoas prontas para disputar o jogo, sendo que estes objetos dependem de certo número de interesse.
Há ainda que se considerar outros conceitos fundantes no que toca o objeto, o Habitus, a Doxa (consensos); Nomos (leis gerais que regem o espaço).
Nesta direção, o Habitus é entendido por Bourdieu (1983, p. 65) como:
Um sistema de disposições duráveis e transponíveis que, integrando todas as experiências passadas, funciona a cada momento como uma matriz de percepções, de apreciações e de ações – e torna possível a realização de tarefas infinitamente diferenciadas, graças às transferências analógicas de esquemas.
Para Wacquant (2002), só é possível produzir conhecimento a partir do reconhecimento de que o sujeito é parte do todo, ou melhor, o sujeito é um fragmento da sociedade; ele, o sujeito, não é apenas o reflexo dela. Quando se propõe a investigar o universo do boxe, o autor não faz apenas uma leitura deste esporte, mas de um conjunto de comportamentos, condutas que caracterizam determinado grupo social e que, em última análise, contribui para o entendimento de significados das ações humanas.
Gradativamente, o esporte que nasceu dos jogos realmente populares, isto é, produzido pelo povo, retorna ao povo, como folkmusic, sob a forma de espetáculos esportivos produzidos para o povo (BOURDIEU, 1983, p. 144).
O MMA se constitui um exemplo a esse respeito, especialmente por se tratar de um esporte gerenciado por uma empresa, sediada nos Estados Unidos, e também por, recentemente, ter sido criada uma política de expansão por novos mercados, que envolve a realização de eventos em outros países e a realização de combates em estádios de futebol.
Com a difusão dos esportes bem além do círculo de praticantes, quer dizer, para um público que não possui competência específica necessária para decifrá-lo adequadamente, mais se expõe a busca pelo sensacional, ligando-se a uma outra dimensão do espetáculo esportivo, o suspense e a ansiedade pelo resultado, encorajando-se, dessa maneira, a busca da vitória a qualquer preço. Portanto, a competência puramente passiva é um fator que permite a evolução da produção. Alguns efeitos desta evolução são o doping e o aumento da violência (estádios, público) como resultado do esporte como uma mercadoria de massa.
O esporte torna-se um objeto de lutas entre instituições, total ou parcialmente organizadas para a mobilização e a conquista política das massas e que, ao mesmo tempo, competiam pela conquista simbólica da juventude – partidos, sindicatos, igrejas, empresas. A concorrência entre estas organizações é um dos fatores mais importantes para o desenvolvimento de uma necessidade socialmente construída das práticas esportivas, dos equipamentos, instrumentos, pessoal e serviços correlativos.
Fica evidente que a divulgação do esporte, nas escolas de elite tanto quanto nas associações esportivas de massa, é necessariamente acompanhada de uma modificação de funções que os próprios esportistas, e os que se enquadram neste campo, dão à prática. Uma transformação que vai no mesmo sentido de uma transformação das expectativas e exigências do público.
Portanto, para o interesse deste trabalho, a relação que se estabelece entre o MMA, a violência e a emoção se constituíram como elementos a serem investigados sobretudo após a compra do UFC pela ZUFFA, cujo presidente é Dana White. Esta investigação é apresentada nos próximos capítulos.