A sociologia figuracional é, fundamentalmente, baseada no reconhecimento de que a evolução tem equipado biologicamente os humanos como seres sociais, existindo, portanto, a necessidade de se explorarem as ligações entre a biologia, a psicologia, a sociologia e a história dos seres humanos.
Elias (1987) trata as emoções humanas como elemento fundamental de análise. Desta forma, acredita que o desenvolvimento humano não se refere ao crescimento material, e sim que ele é emocional e seria dado pela possibilidade social e psicológica de diferenciar e consolidar seus controles emocionais.
Entretanto, esta questão aparentemente simples, traz consigo uma série de entraves. Entre eles, destacar destaca-se que os estudos psicológicos e biológicos das emoções humanas, na maioria dos casos, preocupam-se com seus aspectos estruturais. Desta forma, este pensamento representa uma determinada “fratura”, com uma tradição antiga que induz biólogos e psicólogos a desconsiderar, ou toldar, diferenças estruturais entre as emoções humanas e a de espécies não humanas.
As discussões sobre a união funcional de características que os humanos compartilham com outras espécies, e as exclusivamente humanas, ainda são raras. Tais discussões poderiam ser úteis para determinar um consenso sobre o conceito de emoções humanas, permitindo avanços significativos no campo das ciências humanas.
Elias (1987) atenta para a presença de duas tendências em ciências humanas. A primeira enfoca as propriedades compartilhadas entre humanos e outras espécies, legitimando-se para o estado de ciências naturais. Tal enfoque, para o autor, geralmente caminha indiferente às características de inovações evolutivas da espécie humana, em outras palavras, seríamos basicamente macacos. Trata-se de uma abordagem reducionista.
A segunda inclui quase todas as ciências sociais, e trata o “objeto” como algo fixado aparte à natureza, como algo que pode ser explorado completamente. A maioria destas ciências (história, sociologia) preocupa-se com aspectos da vida humana que são exclusivamente humanos, distinguindo a humanidade de outras espécies.
O ponto central é justamente a falta de características distintivas e a relação de evolução biológica e desenvolvimento social. No entendimento de Elias (1987), o termo evolução é restrito ao nível biológico, enquanto a expressão desenvolvimento é preferível, uma vez que traz uma característica distintiva de aprendizagem, de mudança sociocultural. A dificuldade surge para compreender processos de longo prazo, pois a reconstrução de fases antecedentes é dificultada devido ao fato de seus representantes (antecedentes biológicos), no caso humano, estarem extintos.
As emoções humanas podem servir, como sugeriu Elias (1987), como um ponto de partida útil para o trabalho de reconstrução deste processo. Sua primeira hipótese é que, como uma espécie, o ser humano representa uma inovação evolutiva. Em todos os outros casos, o “programa genético” de reações sempre é dominante, inato. Como outras espécies, o ser humano possui um repertório de
comportamento inato. Todavia, tal forma de conduta ficou subordinada a formas instruídas. Assim sendo, o ser humano não pode se orientar no mundo, nem se comunicar entre si, sem adquirir “conhecimento socialmente aprendido”.
Sobre o assunto Elias (1987) comenta:
Pela primeira vez, no processo evolucionário modos predominantemente aprendidos de direcionamento comportamental tornaram -se clara e indubitavelmente dominantes em relação aos modos predominantemente não aprendidos [...] seja qual for o modo como se olhe, este é um exemplo de processo caminhando continuamente pari passu com a especificidade de algumas características estruturais representativas do processo. As conseqüências desta ruptura chegaram muito longe (ELIAS 1987, p. 7).
As emoções humanas, portanto, seriam resultado de um processo inato e um processo instruído, podendo ser observados três aspectos nelas: um componente de comportamento, um fisiológico e um de sentimento. Cabe aqui estabelecer mediações com outro autor que se dedicou aos estudos dos componentes emocionais.
Freud formulou uma teoria da personalidade, de vasto alcance e de grande influência: a psicanálise, que se constitui como uma maneira de examinar os mecanismos e conteúdos psíquicos, os quais o indivíduo, geralmente, não pode explorar por meio de um exame racional de sua própria consciência. Sua teoria sustenta que a personalidade se divide em três sistemas principais: o id, o ego e o
superego, utilizando-se da interpretação dos sonhos e dos fatos infantis. Assim,
haveria uma força impulsionando o homem à ação, à busca do prazer. Essa força é chamada de libido, energia sexual que se expande em forma de instintos sexuais, instintos de vida (Eros) e instinto de morte (Tanatos).
A discussão que se segue utiliza como referência o texto O mal-estar na
civilização, escrito em 1929. Nessa discussão, busca-se apresentar a questão da
dinâmica libidinal ou dualismo instintivo de Eros e Tanatos, que tem como consequência o fortalecimento do sentimento de culpa e a relação sexualidade e civilização.
Parte de uma coletânea de textos, esta publicação marca uma nova fase no pensamento de Freud, que tem início com a publicação de Mais além do Princípio de Prazer, no ano de 1920. Esta fase caracteriza-se, sobretudo, pelo afastamento de seus estudos clínicos, que tinham como referência o indivíduo, passando a
investigar questões relativas à humanidade, apresentando o conceito de instinto de morte em oposição ao instinto de vida.
Seu caráter especulativo conferiu à teoria freudiana uma nova face chamada de filosófica ou metafísica, severamente criticada até mesmo pelos seus discípulos mais ortodoxos, como Fenichel e Jones. A seguinte passagem parece bastante ilustrativa a esse respeito:
O que se segue é especulação, amiúde especulação forçada, que o leitor tomará em consideração ou porá de lado, de acordo com sua predileção individual. É mais uma tentativa de acompanhar uma idéia sistematicamente, só por curiosidade de ver até onde ela levará (FREUD, 1974, p. 16).
Em O mal-estar na civilização, Freud apresenta a tese de que a vida social pressupõe repressão. Nesse sentido, tanto o desenvolvimento do indivíduo, quanto o desenvolvimento da civilização só são possíveis por meio do controle das pulsões46 (trieb) humanas, pois estas são incompatíveis com a vida comunitária.
Para o autor, a evolução da civilização humana pode ser descrita como a luta de Eros e Tanatos ou, em outras palavras, como a luta da espécie humana pela vida, que é ancorada em dois instintos: Eros, que tem a função de unir os indivíduos em unidades cada vez maiores, agindo em favor da civilização e da vida comunitária, mas que se opõe a ela quando se faz necessária uma grande quantidade de energia instintiva retirada da sexualidade para o trabalho. O outro instinto, Tanatos, encontra-se em segundo plano, podendo ser percebido nas manifestações de agressividade, e encontra-se ligado a Eros nas manifestações de sadismo. No entendimento do autor, Tanatos age contra a civilização, pois é regido pelo princípio de Nirvana.
Freud (1997), ao propor discutir questões voltadas à humanidade, apresenta as seguintes indagações: o que os homens pedem da vida, o que desejam nela realizar? Para ele, esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer. Dito de outra forma, o propósito da vida dentro da perspectiva apresentada é definido pelo princípio de prazer, que domina o funcionamento do aparelho psíquico desde o início. Sobre esta dinâmica, Freud (1997, p. 24) explicita:
46 Cabe aqui uma mediação quanto ao significado dos termos instinto e pulsão. Para Freud, o instinto
significa uma comportamento animal pré-formado, hereditário, característico de uma espécie, enquanto pulsão faz referência a um impulso, que tem sua fonte numa excitação corporal localizada, visando descarregar a tensão existente ao nível da fonte corporal.
Ficamos inclinados a dizer que a intenção de que o homem seja “feliz” não se acha incluída no plano da “Criação”. O que chamamos de felicidade no sentido mais restrito, provém da satisfação (de preferência, repentina) de necessidades represadas em alto grau sendo, por sua natureza, possível apenas como uma manifestação episódica. Quando qualquer situação desejada pelo princípio de prazer se prolonga, ela produz tão-somente um sentimento de contentamento muito tênue. Somos feitos de um modo a só podermos derivar prazer intenso de um contraste, e muito pouco de um determinado estado de coisas.
Se as possibilidades de felicidade sempre são restringidas pela própria constituição do homem, em contrapartida, a infelicidade é menos difícil de experimentar. O sofrimento, portanto, o ameaçaria a partir de três direções: do próprio corpo – condenado à decadência e à dissolução; do mundo externo – que pode se voltar contra ele com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e do relacionamento com os outros.
Sob a pressão das possibilidades de sofrimento, os homens acostumaram- se a modelar suas reivindicações de felicidade, assim como o próprio princípio de prazer, sob a influência do mundo externo, se transformou em princípio de realidade – relegando a obtenção de prazer a segundo plano.
Contra o sofrimento advindo dos relacionamentos humanos, a defesa mais imediata é o isolamento voluntário. Entretanto, há um caminho melhor, o de “tornar- se membro da comunidade humana e, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência, passar para o ataque à natureza e sujeitá-la à vontade humana. Trabalha- se então com todos para o bem de todos” (FREUD, 1997, p. 26).
Se todo o sofrimento é uma sensação, ele só existe na medida em que é sentido como consequência do modo pelo qual o organismo está regulado. Assim sendo, os métodos mais interessantes para evitá-lo são os que procuram influenciá- lo. O mais eficaz deles é o químico, capaz de produzir prazer imediato e um alto grau de independência do mundo externo. Todavia, o mecanismo desse processo ainda não é conhecido cientificamente em profundidade.
Outra técnica possível é a que consiste no deslocamento da libido, consistindo em reorientar os objetivos instintivos através da sublimação. Contudo, sua intensidade se revela extremamente tênue em relação à que se origina da satisfação dos impulsos instintivos primários, além, é claro, de só se aplicar a poucas pessoas.
São ainda merecedores de atenção, como técnicas possíveis de afastamento do sofrimento, as religiões (chamadas por Freud de delírios de massa)
e o relacionamento emocional com objetos, resultado do deslocamento da libido, voltada para o mundo externo. Talvez, o amor, da forma como é apresentado pelo autor, se aproxime mais desta meta para a consecução completa da felicidade, na qual se busca toda satisfação em amar e ser amado. Uma de suas manifestações – o amor sensual (sexual) –proporcionou ao homem a mais intensa experiência de sensação de prazer, segundo Freud (1997). Neste ponto, nesta pesquisa a preocupação está voltada mais especificamente com a fonte social de sofrimento, apresentando os argumentos de Freud, como se seguem:
O primeiro se refere à civilização, nas palavras do autor:
[...] o que chamamos de civilização é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seríamos muito mais felizes se a abandonássemos e retomássemos às condições primitivas; todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento fazem parte desta mesma civilização (FREUD, 1997, p. 38).
Freud (1997) aponta para o que considera ser a última e a penúltima das ocasiões que originaram uma longa e duradoura insatisfação com o estado de civilização. A penúltima instaurou-se quando o processo de viagens de descobrimento conduziu ao contato com povos primitivos. A última surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, ou seja, uma pessoa se torna neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe a serviço de seus ideais culturais, inferindo-se disso que a abolição ou redução dessas exigências resultaria num retorno à possibilidade de felicidade.
Um fator adicional de desapontamento reside no fato de que, mesmo o extraordinário progresso conseguido nas ciências naturais, estabelecendo seu controle sobre a natureza, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa e não tornou os homens mais felizes.
Os avanços tecnológicos constituem apenas o que Freud chamou de “prazer barato”. A palavra civilização
[...] descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais, e que servem a dois intuitos a saber: o de proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos (FREUD, 1997, p.41-42).
Os primeiros atos de civilização – a utilização de instrumentos, a obtenção do controle do fogo e a construção de habitações – foram, aos poucos, sendo
substituídos por outros elementos que hoje são exigências da civilização: a beleza, a limpeza e a ordem. Evidentemente, a civilização não se faz acompanhar apenas do que é útil. Neste contexto, a força motivadora de todas as atividades humanas é “um esforço desenvolvido no sentido de duas metas confluentes, a utilidade e a obtenção de prazer” (FREUD, 1997, p. 48).
Em face disso, torna-se fundamental compreender como os relacionamentos mútuos dos homens são regulados. A vida humana comum só se torna possível, no entendimento freudiano, quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida. O poder dessa comunidade passa a ser reconhecido como direito. Portanto, a primeira exigência da civilização é a garantia de que uma lei não será violada em favor de um indivíduo.
No curso da evolução cultural, a sublimação do instinto torna possível as atividades psíquicas superiores, artísticas, científicas ou ideológicas, e “é impossível desprezar até que ponto a civilização é construída sobre a renúncia ao instinto, o quanto ela pressupõe exatamente a satisfação” (FREUD, 1997, p. 52).
O elemento fundamental presente na teoria freudiana é a concepção de homem.
Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para eles, não apenas um ajudante em potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo (FREUD, 1997, p. 67).
Como consequência dessa hostilidade, a sociedade se vê permanentemente ameaçada de desintegração. Assim, o interesse pelo trabalho comum não seria suficiente para mantê-la unida, pois as paixões instintivas são mais fortes que os interesses da razão. Disto resulta o emprego de métodos destinados a inclinar as pessoas à identificação, a relacionamentos amorosos inibidos, à restrição sexual e aos mandamentos. O homem, portanto, trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança, restringindo os instintos. Mas quais meios a civilização utiliza para inibir a agressividade?
A agressividade é introjetada, enviada de volta ao ego e assumida como parte dele, colocando-se contra o resto do ego, como superego. Como resultado
entre a tensão de severo ego e superego, há o sentimento de culpa, expresso como uma necessidade de punição. Desta forma, a civilização consegue dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo47. A questão fatídica, por fim, parece ser: até que ponto a espécie humana, em seu desenvolvimento cultural, conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal, causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição?
A interrogação de Freud (1997) sobre se os benefícios da cultura teriam compensado o sofrimento infligido aos indivíduos não mereceu a devida atenção, especialmente após tê-la considerado inevitável e irreversível. No entanto, a sua própria teoria nos fornece razões para rejeitarmos a sua identificação como repressão, fato que, sem dúvida, já é suficiente para exigir a reabertura do problema.
Nesta direção, estudar as emoções sob outra perspectiva pode contribuir no sentido de elucidar questões relacionadas à agressividade e à violência, sobretudo quando essa relação está sendo pensada a partir do MMA.
O estudo de emoções encontra seus entraves no uso inadvertido do termo. Num sentido mais geral, o termo emoção é aplicado a um padrão de reação, o qual envolve o organismo inteiro (somático, sentimento, comportamento). Em seu sentido mais restrito, este termo só se refere ao componente de sentimento.
O dicionário de psicologia assim define o termo: “Estado particular de um organismo, que ocorre em condições bem definidas (uma situação chamada emocional), acompanhado de experiência subjetiva e de manifestações somáticas e viscerais”. Ainda de acordo com o dicionário, as emoções básicas compreendem “a alegria, a tristeza, a cólera, o medo, a surpresa e a repugnância” (DARON; PARO, 2002, p. 275).
Assim, no que se refere à expressão de sentimentos, o termo emoção48 é representação de uma ego-imagem humana, de acordo com a qual o verdadeiro ego de uma pessoa está escondido49.
47 A discussão sobre a origem do sentimento de culpa perpassa quase toda a obra de Freud, já que
sua teoria se baseia na concepção do psiquismo humano em que conflito, recalque, inconsciente são peças fundamentais.
48 Estado particular de um organismo, que ocorre em condições bem definidas (uma situação chamada
emocional), acompanhado de experiência subjetiva e de manifestações somáticas e vicerais. As emoções básicas compreendem a alegria, a tristeza, a cólera, o medo, a surpresa e a repugnância. (DARON; PARO, 2002, p. 275).
49 A esse respeito, sugere-se a leitura de Freud, especialmente o Ego e o Id, Obras Completas (1974,
O processo de controle das emoções é um aspecto básico dentro da Teoria do Processo Civilizador (ELIAS, 1993, 1994). Seus dois volumes tratam das mudanças ocorridas nas condutas sociais, na sociedade e personalidade da Europa ocidental durante o período de 850 a 1850, sendo a maior parte das evidências documentais utilizadas são da segunda metade deste período: 1350 a 1850.
Todavia, esse longo período, quando comparado com a história da civilização humana, não passaria de um breve episódio. Buscando alargar essa perspectiva, Goudsblom (1992) faz uma classificação sistemática primária, distinguindo três níveis, nos quais pode-se falar de um processo civilizador. O primeiro é o nível individual – referindo-se à capacidade e necessidade de os seres humanos aprenderem. O segundo é o processo sociocultural, no qual padronizações de condutas são transmitidas de uma geração para outra. O terceiro nível é chamado pelo autor de uma história humana mais ampla50 e que envolveria os outros dois, o social e o individual.
O estudo de Elias (1993, 1994) sobre o processo civilizador na Europa ocidental, no início da era moderna, está focado sobre o nível sociocultural. Entretanto, como constatou o próprio autor, o processo civilizador não começou de uma linha de partida. A esse respeito:
Não há, em outras palavras, nenhum ‘ponto zero’ no processo de civilização europeu. Ele constituiu a continuação, a sua própria maneira, de processos civilizadores mais antigos – entre os quais os Gregos, os Romanos, os Celtas, os povos Germânicos, e assim por diante. Nem estas sociedades mais antigas começaram do zero. Também carregaram (novamente cada uma a seu modo) tradições mais antigas, constituídas em estágios ainda mais antigos. A história humana não nos oferece nenhum exemplo de uma sociedade completamente ‘incivilizada’ (GOUDSBLOM, 1992, p. 2).
Ao chegar à conclusão de que não haveria um ponto zero no processo de civilização e que cada estágio do processo de civilização indicaria estágios ainda mais antigos, Goudsblom (1992) discute o nível de uma história humana mais ampla, no qual a domesticação do fogo tem um espaço importante.
50 A esse respeito, sugere-se a leitura de Goudsblom (1992), na qual o autor sugere que a
domestificação do fogo teve consequências amplas, e tem o mérito de ser colocada como a primeira grande transformação ecológica advinda dos humanos, opinião não compartilhada entre os acadêmicos contemporâneos, por acreditarem que sua domesticação não conta muito da história da sociedade; localizam o “alvorecer da civilização” somente há uns 10.000 anos, com a emergência da agricultura, seguida da origem das cidades e a invenção da escrita.
Incorporando-se às sociedades humanas, seu controle também trouxe dependências como, por exemplo, a necessidade de combustível, o que teria ocasionado sua administração pelo grupo. A utilização do fogo implicou em um grande processo de controle das emoções, uma vez que suas principais características geravam medo, terror, proporcionando novas formas de organização grupais.
Não obstante Elias (1993, 1994) ser amplamente conhecido pela sua teoria do Processo Civilizador, o conceito de processos descivilizadores – mesmo surgindo em uma fase tardia em sua obra – também ocupa um lugar importante para a compreensão de sua teoria, sobretudo quando se coloca em questão a violência. De forma equivocada, sua teoria é tomada como a crença de que a humanidade caminha da barbárie para uma forma de organização social mais racional.
Um dos principais críticos da teoria eliasiana foi Bauman (1998), quando afirma que a posição de Elias representa uma crença ingênua na sociedade moderna. Nas palavras do autor, “faz da história recente [...] aquela que elimina a violência da vida diária” (BAUMAN, 1998, p. 31). Este autor, ao fazer seus apontamentos, coloca em questão a possibilidade de se continuar usando o termo