O ano de 2012 foi o início das mudanças na escola, como preparação para receber as diretrizes que iriam ser oficialmente estabelecidas pelo Currículo em Movimento em 2014. A escola iniciou um projeto piloto em 2013 chamado de CFC - Curso de Formação Continuada. Eram cursos com duração de um semestre, baseado em temas do interesse dos alunos, tais como: música, gastronomia, esporte, literatura, entre outros. Os professores elaboravam as propostas, que não seguiam pontos gramaticais ou as sequências de livros didáticos, mas a elaboração das aulas baseados nos temas. Cartazes foram afixados pela escola e anunciados na página de uma conhecida rede social da Internet, para que ex-alunos pudessem participar dos cursos oferecidos. Os cursos funcionavam em horários diferentes das aulas regulares, no entanto, por questões administrativas os cursos tiveram que ser descontinuados, e passaram a ser oferecidos dentro da grade horária dos alunos, essa nova modalidade perdurou até o fim de 2014. Durante esse período, a escola iniciou um processo de suplementação do livro didático por temas. Foi um período de experimentação em que professores e alunos pudessem utilizar outros meios que não só o livro didático.
Com a publicação do Currículo em Movimento em 2014, o processo iniciado no ano anterior utilizando temas e livro didático continuou. É importante relembrar que o questionamento sobre a substituição gradativa que estava ocorrendo nesse período está relacionado com uma das características presente no Currículo em Movimento (SEEDF, 2014a), no item Currículo Integrado: O Currículo de Educação Básica da SEDF propõe a superação de uma organização de conteúdos prescritiva, linear e hierarquizada[...]: b) os livros didáticos como definidores do que o professor deve priorizar em sala de aula.
O ano de 2016 marcou definitivamente a produção de materiais didáticos pelos professores, e a não utilização de quaisquer livro didático. A escolha do primeiro tema para iniciar essa nova fase nasceu da observação do cenário brasileiro, o questionamento era o que estava acontecendo de importante à época. Todos estavam preocupados com a epidemia de dengue, chinkungunya e zika, esse foi o primeiro tema trabalhado no primeiro bimestre de 2016. Em um contexto em que todos se sentem envolvidos em um problema em comum, esse tema despertou diversos sentimentos em relação ao exercício da cidadania, pois foram discutidas nas aulas a forma de transmissão da doença, e os meios de prevenir a proliferação do mosquito. Em outros momentos os alunos redigiram depoimentos de pessoas próximas que foram infectadas pela doença e a trajetória de sintomas, tratamento e profilaxia. Atividades
foram desenvolvidas entre professores e entre professores e alunos, relacionadas com a vida real utilizando uma língua estrangeira.
QR code 1 - Exercícios sobre dengue, chinkungunya e zika
Fonte: material didático eleborado pela professora Jane
O segundo tema trabalhado no segundo bimestre de 2016 com os alunos foi a segurança na internet, sendo que dessa vez os alunos escolheram o tema durante as discussões para eleger o próximo tema. Os alunos apontaram os perigos e as maneiras de se proteger em mundo cada vez mais virtual. Novamente, houve narrativas de experiências vividas pelos próprios alunos na Internet. Diversos meios foram utilizados: vídeos, filmes curtos, anúncios, textos. Integrados para construir um significado que era o objetivo de proteger a si próprio e os outros.
QR code 2 - Segurança na internet
Fonte: elaborado pela autora
A escola mantém, até o ano de 2019, a prática de produção do próprio material didático pelos próprios professores. Desde 2016 até o presente momento, foram vários temas
trabalhados com a participação dos alunos na escolha e desenvolvimento. Os temas, na maioria, têm como culminância projetos que são apresentados para o restante da escola.
A escola está localizada na cidade de Sobradinho, é uma unidade do CIL (Centro Interescolar de Línguas). Os alunos são da escola pública e frequentam o curso no CIL no turno contrário às aulas regulares, atualmente há mais de quatro mil alunos cursando os idiomas de inglês, espanhol, francês e japonês. Os alunos moram em Sobradinho e nas cidades próximas, tais como: Planaltina, Fercal, Paranoá. São alunos oriundos de classe média baixa, apesar de não termos dados oficiais que comprovem essa afirmação, mas geralmente os professores fazem uma rápida sondagem das condições sócio-econômica no início do semestre. O estabelecimento possui 13 salas de aulas, todas com projetor e computadores com internet e ar-condicionado em algumas salas. Há um laboratório de informática com aproximadamente 20 computadores desktop, também conectados à Internet.
Os CILs ( Centros Interescolares de Línguas) no Distrito Federal oferecem aos alunos de escola pública no contraturno da escola regular, cursos de Inglês, Espanhol, Francês e Japonês. O ingresso nos CILs é feito por meio da Internet no site da Secretaria de Educação. Primeiramente o aluno se inscreve e é feito um sorteio, pois não há vagas para todos os alunos da rede pública. Quando o aluno é contemplado no sorteio, o responsável pelo aluno menor de idade efetiva a matrícula na secretaria do CIL.
Conforme apresentado anteriormente nesse trabalho, o objetivo dessa pesquisa é analisar os materiais didáticos produzidos pelos professores do CIL de Sobradinho. A partir de 2012 a escola passou por uma série de mudanças movidas pelo aumento da reprovação e evasão escolar, e uma dessas mudanças foi a retirada do livro didático de forma paulatina pela substituição de materiais didáticos construídos de forma coletiva pelos professores. Ao longo desses cinco anos de mudança e adaptação, podemos observar as vantagens de professores e alunos serem os protagonistas da própria aula. Segundo Almeida Filho (2012), a aula é uma partitura que executamos com consciência, não estamos seguindo algo ditado e estabelecido por outrem. Projetos são desenvolvidos junto aos alunos, envolvendo toda a escola em uma rede de cooperação e autonomia. Apesar de oferecer um material didático voltado para questões relevantes do cotidiano, trago um olhar para o volume de trabalho realizado pelos professores. Para que tenhamos êxito, é necessário que o trabalho seja de fato colaborativo.
Os professores das escolas públicas do Distrito Federal têm durante um turno do dia um espaço reservado para à coordenação pedagógica, onde desenvolvem discussões ricas para a percepção do papel de educadores, preparamos nossas aulas com nossos pares, corrigimos trabalhos dos alunos, compartilhamos as experiências coletivamente das tarefas realizadas em
sala de aula com nossos alunos. Para alcançarmos esse nível de trabalho é requerido muito esforço e dedicação. O trabalho pedagógico requer uma carga de trabalho maior para o professor com essas produções didáticas e é nesse sentido que o presente trabalho além de analisar os materiais didáticos produzidos, oferece uma opção ou solução para que o desenvolvimento desse trabalho não seja exaustivo. A escola deve ser um espaço onde alunos e professores possam usufruir e criar conhecimentos de uma forma colaborativa e não ser uma escola como Silva (2014, p. 91) descreveu escola “fábrica com professores que cumprem determinações que afastam o professorado das discussões”.
O resultado dessas reflexões tem como consequência o produto de um trabalho articulado, libertador, pois demonstra que é possível o professor ser o próprio produtor do material que utiliza. Afinal, desde o início de 2016 os professores do CIL de Sobradinho estão produzindo o material didático. A partir de leituras sobre aquisição de línguas realizadas e discutidas durante as Coordenações Pedagógicas os professores entraram em contato com uma realidade que muitos desconheciam. As leituras sobre o ensino e aprendizagem foram os primeiros passos para que os professores refletissem sobre a própria prática docente. Conquanto a teoria não expressasse uma mudança, foi possível constatar a razão das mudanças propostas pela equipe gestora. Não relacionarei todas as mudanças por questões de tempo e foco, pois é necessário um recorte da realidade da escola. A minha inquietação como professora é compreender o universo da produção de MD, e é esse o objetivo desta pesquisa: analisar os MDs produzidos por um determinado Centro Interescolar de Línguas do DF.