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LE CADRE DU STAGE, LE MATERIEL ET LES METHODES UTILISEES LORS DU STAGE

SIKASSO KOUTIALA SEGOU

II- 2) MATERIELS ET METHODES

A casa de morada, centro da vivência e protecção familiar, quantas vezes também local de produção, conserva de alimentos, fabrico caseiro de vestuário, oficina ou venda, é igualmente o local privilegiado dos afectos e transmissão de saberes e conhecimentos. A casa traduz, também, um somatório de técnicas e conhecimentos construtivos e aproveitamento dos materiais disponíveis, sendo por isso tantas vezes indicador da perfeita sintonia entre o homem e o seu meio. Mas é também um símbolo do poder e riqueza dos seus ocupantes. Por isso, apresenta-se como um importante elemento diferenciador social e, consequentemente, denunciador da riqueza dos seus ocupantes, mas também da região e da sociedade que a edificou.

São, todavia, escassas as referências às construções, «correntes» ou de «prestígio», em meio rural ou urbano, para o espaço cronológico em que nos movemos. Porém, não queremos deixar de tecer algumas considerações, a partir das informações colhidas nas fontes. Refiram-se, em particular, as construções eminentemente militares: castelos, fortalezas e atalaias. São ainda hoje um testemunho da afirmação do território, numa região de «fronteiras». Erguidas na mais dura pedra da região, o granito, o seu recorte permanece na paisagem, quais sentinelas silenciosas e mudas das memórias do passado.

Quanto à construção corrente, ela desapareceu da paisagem. Tal se compreende, porque a casa de habitação é o elemento mais perecível da paisagem, rural ou urbana. Os materiais usados à época eram, eles próprios, factores para a própria degradação, muito permeáveis aos imponderaveis externos, como o fogo103 ou a até a guerra104

porém, que há «uma visão concreta do território» e que por exemplo o rio Erges, em 1165, demarcava já o território entre dois reinos. Com efeito na doação dos territórios da Idanha e Monsanto, à Ordem do Templo, é referido «quomodo currit aqua Elgie inter regnum meum et regnum Legionin Tagum». Havia já, ao tempo do primeiro rei de Portugal a consciência de “fronteira”. Por seu lado também o rei de Leão, Afonso IX, em 1217, demonstra essa mesma consciência dos limites do seu território na doação da vila e castelo de Alcântra à Ordem de Calatrava «sicut ergo villa ipsa dividit cum Portugal» Cf. Maria Alegria MARQUES; João SOALHEIRO, A corte dos Primeiros Reis de Portugal, 2009, pp. 81-105.

. E

103 Ao aforar uma casa do rei na Covilhã, obriga-se a foreira Beatriz Dias, a fazer e refazer as casas se

«pereçerem per augua ou per fogo ou per terremoto ou per qualquer caso fortuito», Cf. AN/TT, Beira, livro 2, fl. 245v-246.

32 depois, em meio rural e até urbano, facilmente uma casa se transformava em pardieiro. Por tudo isto e pela falta de elementos fidedignos não é possível construir, ainda que a traços largos, uma tipologia do edificado. Apenas podemos destacar algumas diferenças, sobretudo ao nível da funcionalidade das construções, em meio rural ou urbano105

Em regra, a casa medieval era baixa ou terrea, com poucas aberturas, de uma só divisão e de reduzidas dimensões, com áreas médias situadas entre os vinte e os quarenta metros quadrados

. Porém, cruzando os dados obtidos, com o resultado dos estudos doutras áreas geográficas do território, é-nos possível detectar algumas constantes, ao nível da dimensão e materiais usados.

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. Estas áreas confirmam-se, por exemplo, nas verificadas na povoação do Ourondo, termo covilhanense, nos começos do século XVI107. De maiores dimensões eram as três casas da Albergaria da vila de Proença-a-Nova. Uma delas, a mais espaçosa, destinada a acolher doentes e peregrinos, tinha uma área de sessenta e cinco metros quadrados, sendo as duas restantes de menores dimensões108. Destacavam-se, pela área e cuidado arquitectónico, as casas das gentes mais abastadas, sobretudo as casas de morada dos comendadores da Ordem de Cristo109

104

Na vila da Covilhã há referência a umas casas do rei, situadas junto á Porta de Linhares, que foram derrubadas na guerra. Cf., T.C.B; Em Alcains verificou João Afonso,visitador da Ordem, em 1408, a existência de um celeiro derrubado destelhado e sem madeira, dizendo os almoxarifes que fora derrubada «por necessidade da guerra», contudo, o escrivão pensa tratar-se de uma desculpa, pois no local havia outras casas. Cf. AN/TT, COM/OC/CT, mç. 66, n.º 1.

. Entre essas construções podemos observar a casa da torre do bispo de Coimbra, em Belmonte, ou os paços do bispo da Guarda, na povoação de Caria, no termo da Covilhã. Já nas vilas de S. Vicente da Beira e da Sertã se destacavam os paços do comendador; na pequena povoação de Cernache do Bomjardim destacavam-se os paços da família de D. Nuno Alvares Pereira. E, naturalmente, na mole construtiva emergiam as igrejas, mesmo

105 Nos centros urbanos a casa pode assumir várias formas: «casa»; «casas», «sobradada»; «sótão». Sobre

o conceito polissémico que o termo “casa” assume na documentação medieval, veja-se, Maria Ângela da Rocha BEIRANTE, Évora na Idade Média, Lisboa, 1995, p. 121.

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Dimensão média verificada na região de Alcobaça. Cf., Iria GONÇALVES, O Património do Mosteiro

de Alcobaça nos Séculos XIV e XV, Lisboa, 1989, p. 112; Manuela Santos SILVA, Óbidos Medieval. Estruturas Urbanas e Administração Concelhia, Cascais, 1997, p. 105; Manuel Sílvio Alves CONDE,

«Materialidade e Funcionalidade da Casa Comum Medieval. Construções Rústicas e Urbanas no Médio Tejo Nos Finais da Idade Média», in Media Aetas Revista de Estudos Mdievais, n.º 3 e 4, 2000/2001, pp. 76-77; Maria Teresa LOPES, Alcácer do Sal na Idade Média, Lisboa, 2000, p. 121.

107 Uma delas com uma área de 29m 2 e outra com 24m 2, medidas de 1505.

108 O albergue tinha uma área de 65,15m2 e as outras duas casas 34,73m2 e 47,77m2. A albergaria tinha

também um pardieiro na vila, com 25,81 m2 de área.

109 No tombo da comenda de Castelo Branco, em 1408, são referidos dentro da vila «huuns paaços

grandes com suas camaras e huma tore». Do conjunto arquitectónico faziam parte duas cavalariças, uma cozinha, uma ucharia, uma casa onde «pousa a prata» e um celeiro novo, havendo ainda duas lojas e outro celeiro de paredes antigas, mas com duas portas novas. Cf. AN/TT, COM-OC/CT, mç. 66, n.º 1.

33 quando modestas, com o seu adro e torre sineira a que, nalguns casos, acrescia um alpendre. Já em finais deste período, é de notar a presença de uma torre com relógio, simbolo de prestígio, a ostentar o grau de riqueza da urbe110

Como materiais de construção, empregava-se a pedra de xisto ou granito, abundante em toda a região, o barro

. A par das construções religiosas surgiam, a partir de finais do século XIV, os paços do concelho.

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, a madeira112, com destaque para o castanheiro. A casa podia ser coberta de telha113, de ardósia114, de cortiça115 ou de colmo116, fácies construtivo bem notório no livro de Duarte de Armas117.

Data Tipologia /

Materiais

Localização Dimensões Área m2

1266 Casa torre118 Belmonte --- ---

1366 Paço S. Vicente da

Beira

Com suas dependências

1285 Convento de S.

Francisco

Covilhã Casas de morada, igreja, num

amplo espaço todo cercado.

1356 Paços da audiência Covilhã --- ---

[1294] Paço do bispo 119 Caria (Covilhã) 1360 Mosteiro de Santa

Maria da Estrela

Boidobra (Covilhã)

Mosteiro com claustro, igreja c/alpendre, casas dos monges, tudo cercado.

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Castelo Branco tinha uma porta designada da «porta do relógio», torre bem visível no chamado Livro

das Fortalezas, e que ainda existe na cidade.

111 No Castelejo possuía a Ordem de Cristo currais com paredes de pedra e barro, cobertas de palha. Cf.,

Tombos da Ordem de Cristo. Comendas da Beira Interior Sul, Lisboa, 2009, p. 30.

112

No ano de 1408, as «casarias de paredes» da Ordem de Cristo, em Alcains, estavam sem madeiramenos e destelhadas. Cf., AN/TT, COM-OC/CT, mç. 66, n.º 1.

113 Encontramos fornos telheiros espalhados por toda a região. Num pombal a ser construído nas suas

terras, o abade de Santa Maria da Estrela, manda fazer «alpendradas de telha»; Cf. AN/TT, M.S.C.C., pasta 41, doc. n.º 362; com uma telha selou o abade desse mosteiro um escambo de terras. Cf. IDEM,

Ibidem, pasta 42, doc.n.º 299. Na Enxabarda, povoação junto ao Fundão, tinha, em 1505, a Ordem de

Cristo um casal com três casas, «telhadas de telha». Cf., Tombos da Ordem de Cristo. Comendas da Beira

Interior Sul, Lisboa, 2009, p. 5.

114

Nas terras das faldas da Estrela, como Sobral de S. Miguel, (Casegas) era ainda usual em meados do século passado as casas serem lageadas, cobertas de ardósia, abundante na região. Cobertura de novo em uso, em especial nas chamadas «aldeias de xisto», onde se tem vindo a proceder à sua conservação, mantendo as características paisagísticas de toda a região, como se guardaram na isolada aldeia do Piodão, só para citar o exemplo mais conhecido.

115 Casas cortiçadas no termo de Sarzedas e também em S. Miguel de Acha, termo de Proença-a-Velha.

Cf., Livro dos Bens de Luís Mendes de Refoios e Tombos da Ordem de Cristo. Comendas da Beira

Interior Sul, Lisboa, 2009, p. 112.

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Referida uma casa coberta de palha, no termo de Sarzedas e também no Castelejo. Em toda a região o colmo era usado para a cobertura de casas e currais, o que de resto é bem visível no chamado Livro das Fortalezas e que a existência de um vedor do colmamento do castelo de Castelo Mendo (1371) certifica. Cf. Livro dos Bens de Luís Mendes de Refoios; Tombos da Ordem de Cristo. Comendas da Beira Interior

Sul, Lisboa, 2009, p. 30; A.M.M., Pergaminhos, n.º 11.

117 Livro das Fortalezas, Duarte de ARMAS, introdução de Manuel da Silva CASTELO BRANCO, [2.ª

ed.,] Lisboa, 1997.

118 Do bispo de Coimbra. 119

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1395 ½ casa sobradada Covilhã --- ---

1395 ½ casa Covilhã --- ---

1395 1 casa Covilhã --- ---

1395 ½ casa Covilhã --- ---

1395 1 casa Covilhã --- ---

1395 Casas Covilhã --- ---

1383 Paços da audiência Castelo Branco --- ---

1408 Paço Castelo Branco Com 3 camaras, e fora do paço,

torre, cavalariça, cozinha, hucharia, lojas, e outras casas e celeiro. --- 1410 Casa «cortiçada», coberta de cortiça Sarzedas --- --- 1410 Casa coberta de palha Sarzedas --- ---

1429 Casa, albergue Proença-a-Nova C: 14; L: 9,5 covados 65,17

1429 Casa Proença-a-Nova C: 14; L: 5,5 covados 37,73

1429 Casa Proença-a-Nova C: 13; L: 7,5 Covados 47,77

1429 Pardieiro Proença-a-Nova C: 11,5; L: 6 Covados 25,81

1505 Casa Coberta de cortiça S. Miguel de Acha 1505 3 Casas, paredes de barro, cobertas de palha. Castelejo

1505 Casa (s) Ourondo a-C.: 5 varas; L.: 4 varas

b-C.: 6 varas; L.: 4 varas a-24,20 b-29,04 1505 Casas, cobertas de telha Emxabarda

Quadro 2 – A casa rural e urbana120