SESSION II: CORROSION MITIGATION MEASURES: COATING, NEW
2. MATERIALS AND METHODS
Orestes nasceu em um sítio no interior do Estado de Mato Grosso em 1.959. Foi o quarto filho de dona Amalia e do Sr. João, que constituíram uma família de 12 filhos. Nasceu em casa, assim como os outros irmãos. Walter, Maria e Dalva, seus irmãos, dizem que ele era uma criança que brincava e fazia as mesmas coisas que os demais.
Começou a freqüentar a escola aos 7 anos de idade e estudou até a 4®. série do primeiro grau, quando não quis mais ir à escola porque se desentendeu com a professora. “Ela ficava falando que eu tinha feito coisa errada”, diz Orestes. Os seus irmãos freqüentaram a escola por um período de tempo aproximadamente igual à esse. tendo em média esse mesmo grau de escolaridade. Disso compreende-se que, apesar de ter apresentado algum “problema desde a época da escola”, conforme o relato de Walter atualmente, àquela época, quando Orestes tinha aproximadamente 11 anos, isso não foi considerado como algo estranho na família.
Dona Amalia morreu de câncer quando Orestes tinha aproximadamente 20 anos. “Papai bebia pinga todo dia..., muito.... desde quando nós todos éramos pequenos”, dizem Walter e Dalva. E prosseguem: “depois que mamãe morreu então, aí ele bebia direto, não trabalhava mais e só pensava em beber e em andar atrás de mulherada”.
Sua família desorganizou-se após a morte da mãe e a acentuação do alcoolismo do pai. Este não assumia mais a liderança do trabalho no sítio e Ademar, Osvaldo e Walter, os três irmãos mais velhos, mudaram-se em busca de melhores condições de vida. Os demais mantiveram-se trabalhando no sítio.
“Ariete e Adelaide, minhas irmãs, também têm problema de cabeça, elas sempre foram diferentes, desde cedo se notou, elas não faziam nada, e até hoje não fazem, são bobas” (deficientes mentais), diz Walter. Elas nunca foram na escola porém, nunca foram “tratadas”, permanecendo junto do convívio doméstico.
Na adolescência, Orestes trabalhava ajudando o pai e os irmãos no sítio que a família possuía, fazendo serviços agrícolas em geral; depois trabalhou fazendo entregas com caminhão e como ajudante em uma empresa de comércio de estruturas metálicas. Esses dados constam nos relatos do Sr. João e de Walter à assistente social do Hospital Adauto Botelho em 1986. Entretanto, atualmente, Walter diz que “Orestes nunca trabalhou, nunca... sempre foi preguiçoso...”. Essa mudança no modo de ver a questão, após os anos de convívio com Orestes, será abordada mais adiante, quando apresentaremos as possibilidades de se compreender a doença mental.
Orestes, aos 25 anos de idade, havia saído deste último emprego porque estava conseguindo um outro melhor (relato dele à época) quando, no dia 11 de julho de 1984 foi internado no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho. Hoje Orestes não sabe informar sobre o que motivou este encaminhamento, nem tampouco os seus irmãos: quem o trouxe ao hospital foi um comissário de polícia da sua cidade e ele morava então com o pai, que morreu em 1990. Entretanto, Orestes informa que o motivo de todas as suas internações
é que tem uma voz... desde os três anos essa voz me
persegue... nâo me deixa nunca, mesmo dormindo...
Ao indagarmos sobre o significado dessa voz, de sua vivência e sentimentos relacionados, Orestes mostrou-se sempre reticente, evasivo e, algumas vezes, irritado. Deixou transparecer somente de modo implícito, que elas tinham um conteúdo ameaçador, que o amedrontavam e provocavam um profundo mal-estar.
Os dados relacionados ao registro dessa primeira admissão, localizados no arquivo do hospital restringem-se ao seguinte relato:
Paciente com quadro de anemia, relata informante que tem quadro de agitação e heteroagressividade.
Psicopax 2mg 1 VO 8 - 20 h Haldol 1 mg 1 VO 8 - 20 h Solicitado hemograma. Assinatura
Não obtivemos informações sobre as alterações de comportamento ou dificuldades relacionadas à um quadro de doença mental evidenciadas naquela época, que determinaram o encaminhamento de Orestes para um hospital
psiquiátrico. Entretanto, sabemos que desde 1980, portanto quatro anos antes dessa primeira internação, eie vinha sofrendo perdas significativas; a morte da mãe; o afastamento dos irmãos mais veliios; a “perda social/afetiva” do pai que vinha apresentando problemas sociais decorrentes do abuso de bebida alcoólica e incapacidade de cuidar de si e da família; e, perdas financeiras que provocaram carências materiais não vivenciadas anteriormente pela família. Além disso, naquela época, Orestes era o filho mais velho que permanecia junto com o pai e os irmãos, fato que pode ter significado um aumento da solicitação por responsabilidade e liderança na família, dadas as condições já assinaladas do pai.
Depreende-se da informação contida no registro da admissão, a possibilidade de Orestes ter se envolvido com atividades que colocaram em risco a ordem pública, daí o encaminhamento por um comissário de polícia, além da informação de heteroagressividade. Isso parece ter sido a causa/motivo da internação e reflete, pela primeira vez na história de vida de Orestes a percepção de um problema mental/loucura. Ademais, as outras informações (palidez/anemia) não justificariam o encaminhamento para um hospital psiquiátrico.
Portanto, após um processo gradativo de perdas relacionais/afetivas familiares, aliado á perdas financeiras/materiais, vivenciado por Orestes, houve um momento de ruptura, de inadequação ou de rompimento com uma ordem social estabelecida, que motivou o encaminhamento para tratamento psiquiátrico.
Em vista dessas informações, algumas indagações se apresentam ao observador:
Esse primeiro atendimento especializado em psiquiatria originou-se de um encaminhamento policial e a ênfase nesse dado, ao registrar a internação, em detrimento de uma avaliação clínica/psiquiátrica, parece querer situar nessa informação a justificativa maior do atendimento especializado. Houve então uma submissão da clínica (observação/história/avaliação-diagnóstico) à uma condição externa ao atendimento - a intervenção policial ?
A heteroagressividade enquanto dado clínico psiquiátrico não deveria ser explorada, contextualizada, até para que se pudesse diferenciá-la do delito comum de uma pessoa “normal”?
A doença mental vista neste ato/momento do encaminhamento existe de modo tão independente do contexto de vida de Orestes ? Ou foi sendo construída em uma história de vida completamente desconsiderada neste atendimento que se pretendia clínico/psiquiátrico?
Esses questionamentos parecem pertinentes, uma vez que esse primeiro atendimento caracterizou-se por uma internação de 14 dias, durante o qual esse procedimento da admissão não foi revisto ou ampliado, apesar do registro de uma visita de familiares no quinto dia e de Orestes ter saído de alta “acompanhado pelo pai” sem nenhuma informação adicional.
Ao analisarmos essa história de vida até o momento em que houve a constatação de que “Orestes era louco”, quando ele foi levado à uma instância de atendimento psiquiátrico, obsen/amos que houve uma “construção” desse “personagem louco”. Orestes tinha uma história pessoal, familiar e social que possibilitou essa construção, história esta negada neste atendimento.
Para compreendermos porque essa história foi negada pelo Modelo Tecnológico Psiquiátrico que o atendeu, discutiremos a seguir a “construção” do saber sobre o louco, ou a constituição do Alienismo, primeiro modelo tecnológico mental, na Europa do século XVlll e no Brasil dos séculos XIX e XX. Abordaremos principalmente a dificuldade em se definir qual é o objeto de trabalho neste modelo e quais são as possibilidades de compreendermos as bases teóricas sob as quais a prática do alienismo e da psiquiatria se estruturaram.
Apresentaremos ainda uma síntese histórica do surgimento da