SESSION II: CORROSION MITIGATION MEASURES: COATING, NEW
3. CONCLUSION
"Tratar? Talvez apenas movcr-se cotidianamente com 0 usuário ao longo de um percurso que nSo vise um valor, mas que reconstitua ou crie a complexidade e lhe restitua um sentido.
Curar? Talvez apenas reconstituir a identidade inteira, complexa e concreta do indivíduo, o seu poder de sujeito social; [...] ; evitar que o estado agudo se pacifique em cronicidade.
(Leonardis, Mauri e Rotelli, 1990)
Ao colocarmos um ponto final neste estudo, ponto este não determinado pelo término do processo ou esgotamento do tema, mas pela necessidade de sua conclusão enquanto projeto circunstanciado de pesquisa, voltamos necessariamente à indagação que o norteou: Abordarmos a tecnologia do processo de trabalho em psiquiatria nas últimas duas décadas em Cuiabá, a partir da história de Orestes, buscando refletir sobre os condicionantes dessa específica organização tecnológica.
Inicialmente temos que admitir a impossibilidade de apreensão do Modelo Tecnológico Psiquiátrico de Cuiabá na sua totalidade, como foi mencionado ao apresentarmos a metodologia utilizada nesse estudo; buscamos assim, analisar alguns elementos deste Modelo que foram evidenciados na assistência psiquiátrica vivenciada por Orestes.
Esses elementos, já demarcados no processo de análise dos dados, referiram-se principalmente à tentativa de adequação do Modelo Clínico na apreensão de um fenômeno - a loucura de Orestes - que, por sua vez, não se permitia apreender por esse instrumento.
A psiquiatria, enquanto processo de trabalho, parece se debater, desde os seus primórdios, com uma dificuldade para a explicitação de seu objeto de trabalho, e isto talvez seja a razão para a inadequação dos instrumentos/ tratamentos observados nesse estudo. A indefinição do objeto sobre o qual se quer intervir, como foi demonstrado nas referências bibliográficas sobre a constituição e sobrevivência do saber psiquiátrico ao longo da história, condicionaria uma proporcional dificuldade na escolha dos instrumentos de intervenção.
Assim, na história de Orestes pareceu-nos que a tecnologia psiquiátrica nomeou “doença mental” a um problema que era muito mais complexo que um “quadro clínico” e utilizou, para a sua abordagem, os instrumentos disponíveis na clínica - medicação, internação, choques elétricos, cuidados de enfermagem, psicoterapia de grupo e terapia ocupacional. Entretanto, por não se permitir ao enquadramento á clínica, o problema - comportamento social inadequado - continua sem resposta ou sem “cura”; conseguiu-se somente a sua “pacificação”.
Em relação à peculiaridade do Modelo Tecnológico Psiquiátrico cuiabano nas duas últimas décadas, consideramos que as divergências entre os elementos deste modelo identificados na assistência de Orestes e as tendências nacionais de organização da assistência psiquiátrica, estavam mais relacionadas à contextos históricos e políticos específicos do que exatamente à uma divergência conceituai. Ao incorporar sempre mais tardiamente as tendências que sinalizavam mudanças nos processos de organização da assistência psiquiátrica, emanadas das políticas e movimentos populares nacionais, a tecnologia psiquiátrica cuiabana, na realidade, não desenvolvia um movimento político próprio, ou utilizava diferentes referenciais teóricos de sustentação; somente desenvolvia uma cronologia coerente com o seu momento de desenvolvimento político e econômico, no contexto nacional.
Concordamos, portanto, com Bezerra (1994) que afirma a hegemonia do modelo manicomial na assistência psiquiátrica brasileira, apesar dos relativos avanços no processo de Reforma Psiquiátrica. Esta ocorre paralelamente à manutenção desse modelo e condicionada ao nível de organização das forças progressistas nas diferentes regiões.
Os elementos do Modelo Tecnológico Psiquiátrico de Cuiabá identificados e analisados nesse estudo, mantinham coerência com os princípios do saber e da prática psiquiátrica, qüe caracterizaram a psiquiatria brasileira no que se refere à tentativa de sustentação do Modelo Clínico na sua prática. Prática esta que, apesar de buscar a perspectiva racionalista de “cura” da “doença mental” de Orestes, conseguiu efetivamente a sua anulação enquanto sujeito, numa relação de poder que já foi bastante estudada e que, nos últimos anos encontra representação nos teóricos
da “desinstitucionalização”, originários, principalmente da Itália.
Ainda no sentido das possibilidades de ruptura e de manutenção do modelo clínico de atendimento psiquiátrico, lembramos, assim como Bezerra (1994), a preocupação relacionada ao movimento internacional no rumo da genética e das neurociências, que buscam atualmente a determinação das bases biológicas do comportamento e das emoções.
Ao finalizarmos esse estudo destacamos a necessidade de reflexão sobre as tecnologias psiquiátricas pelas(os) enfermeiras(os) e demais técnicos que
dela participam, para que se possa trazer à luz os elementos políticos e ideológicos presentes nas mesmas e desmistificarmos, como refere Nicácio (1989, p.46), alguns elementos que sempre admitimos como “verdade em nossa estrutura social: o mito da periculosidade do louco, o conto de fadas de que o manicômio trata e a ideologia da neutralidade da ciência psiquiátrica.”
Ressaltamos, a título de esclarecimento, que ao estudarmos o Modelo Tecnológico Psiquiátrico de Cuiabá, nomeamos as instituições que o compuseram e 0 compõem, como necessidade que precede a análise que nos dispusemos realizar. Entretanto, essa identificação e nomeação não ocorreu no sentido de analisar essas instituições ou seus quadros profissionais. Como esclarecemos na metodologia desse estudo, o que buscamos analisar foi a tecnologia do processo de trabalho eni psiquiatria, na cidade de Cuiabá e, para tanto, situamos as instituições envolvidas como elementos componentes desta tecnologia que, conforme analisamos, decorre de um processo histórico amplo e complexo. Os achados relatados neste estudo, relacionados ao funcionamento das instituições envolvidas, apenas refletem, ao nosso ver, num contexto local, a dinâmica nacional. Não apresentam, como já foi mencionado, nenhuma característica peculiar ou específica conceitualmente divergente do contexto histórico nacional.
O Modelo Tecnológico Psiquiátrico estudado atua no sentido de pré- determinar as funções e papéis do “doente mental”, de sua família, dos profissionais e das instituições que o assistem. A consciência da complexidade de suas funções, que vão muito além da mera aplicação de uma técnica, possibilita, aos profissionais envolvidos nesse processo, a movimentação no sentido de provocar rupturas e fragmentações nesse modelo. Gostaríamos de acreditar que esse estudo constituiu- se de um passo nesse sentido.