“Capoeira antigamente era coisa de marginal Hoje em dia ela é um esporte nacional…”22
É notório que expressiva gama dos saberes e fundamentos consolidados na capoeira chegaram até os tempos atuais a partir da tradição oral, ou seja, eram transmitidos de boca-a-boca, e muitos mestres respeitados nesse universo fazem questão da manutenção desse expediente.
Notáveis capoeiras da Bahia, do Rio de Janeiro e de Pernambuco ainda “vivem” nos versos cantados ao pé do berimbau e na boa prosa dos camaradas capoeiras. A tradição oral foi, até bem pouco tempo, a principal responsável por
30 essa memória, freqüentemente carregada de ressentimentos negativos, rancores e desejos de vingança, que evoca e afirma uma positividade sedimentada em nomes que se tornaram célebres no universo capoeirano, como os de Pedro Mineiro, Pedro Porreta, Samuel Querido de Deus, Algemiro Olho de Pombo, Nascimento Grande, Manduca da Praia, Besouro Mangangá, Feliciano Bigode de Seda, Inimigo sem Tripa, Sete Mortes, Chico Três Pedaços, Canjiquinha, Aberrê, Cobrinha Verde, Traíra, Waldemar da Paixão, Totonho Maré, Tiburcinho, Bilusca, Noronha, Madame Satã, Sete Coroas, Gato Frio, Perna de Pau, Bunda de Prata, Zé Porco, Olho de Gato, Peixe Frito, Bexiga etc. Tidos como personalidades híbridas – “marginais”, para as elites, heróis, para a “ralé” - morreram no ostracismo, embora tenham sido responsáveis pela perpetuação de uma manifestação que, mais tarde, se transformaria num dos emblemas da cultura brasileira.
No entanto, a velocidade, o volume, a instantaneidade e a volatilidade da informação que imperam em todas as esferas da vida na sociedade atual, a partir do advento das transmissões “ao vivo” e via satélite, reconfiguraram o panorama e a forma de lidar com o conhecimento no mundo da capoeira, ressignificando a sua teia cultural.
Ainda que indisponível para grande parcela da humanidade, a internet tem contribuído enormemente para a consolidação da internacionalização desta manifestação cultural, à medida que milhares de praticantes de todas as partes do mundo estão conectados através da rede, formando uma espécie de “terreiro eletrônico”, por meio de várias “rodas virtuais”. Cerca quinhentas mil páginas eletrônicas na internet falam sobre a capoeira em diversas línguas, e muitas listas de discussão contribuem para inserir, na pauta dos infindáveis debates, um
31 corriqueiro acontecimento materializado numa praça de uma cidade do interior do Brasil ou de qualquer outro país do mundo.
Embora a capoeira tenha se apresentado, ao longo de sua trajetória, como uma manifestação multifacetada, em que aspectos lúdicos, festivos, de luta e de dança se fundem na mesma prática, expressiva parte dos discursos idealizados gravita em torno dos componentes “guerreiros” e “heróicos” desta manifestação, com a supervalorização da resistência radical e a tendência à construção de mitos e heróis, bem ao gosto do imaginário popular. Conforme veremos mais adiante, esse “bárbaro ballet”23 se materializou a partir de várias facetas, como o lúdico, por exemplo, que constitui-se numa das referências significativas em toda a trajetória histórica dessa manifestação.
Se, os estudos históricos apontam que, desde os seus primeiros registros, a capoeira já apresentava múltiplas faces, com o advento dos modernos meios de comunicação, esse processo se ampliou significativamente, incorporando novos elementos. Nesse movimento, os componentes guerreiros e masculinistas, mesmo que dominantes na maioria das referências, passam a dar lugar a outras formas de tratamento, com nuanças lúdicas, esportivas, terapêuticas, teatrais, acompanhadas da forte e ativa participação feminina na roda.
Embora a tradição oral evidencie a participação da mulher na capoeiragem desde o começo do século XX, expressiva parte de sua história tem sido contada a partir das referências masculinistas, mas, comprovadamente, há registros da presença de algumas mulheres guerreiras, destemidas e, não raro, ligadas ao mundo da marginalidade, que deram suas contribuições no processo de desenvolvimento desta controvertida manifestação cultural. As principais pioneiras
23 Segundo Abreu (2003), as elites soteropolitanas chamavam a capoeira de “bárbaro ballet” ou de
32 ficaram conhecidas apenas pelos apelidos: Rosa Palmeirão, Júlia Fogareira, Maria Pernambucana, Maria Cachoeira, Maria Pé no Mato e Odília (PASTINHA, 1968 e SANTANA, 2001). É importante frisar que, somente a partir da década de 1980, se formam, dentro dos padrões estipulados pelos grupos, as primeiras mulheres mestras de capoeira que temos conhecimento, como é o caso das Mestras Edna, Cigana, Jararaca, Maria Pandeiro, Silvia e Jerusa.
A intensificação da participação da mulher na capoeira, nos últimos anos, pode ser percebida através das concorridas “rodas femininas”, promovidas por diversos grupos em eventos de âmbito nacional e internacional, totalmente produzidos por elas, desde o planejamento até a execução.
Essa participação tem se dado também a partir de diferentes formas de tratamento. Se, no subúrbio de Salvador, a Mestra Jararaca (Valdelice Santos de Jesus), formada pelo Mestre Curió, da Escola de Capoeira Angola Irmãos Gêmeos, dá a receita do seu trabalho social a partir dos “ensinamentos do Mestre Pastinha na capoeira e na vida" (SANTANA, 2001), a Mestra Edna Lima, radicada nos EUA, desde 1988, ensina capoeira na Chelsea Pier, em Nova York, a maior academia do mundo, onde é possível escalar uma montanha fielmente reconstituída. Responsável pelas aulas de capoeira desse espaço, Edna ensina uma espécie de capoeira-ginástica (capoeira work-out)24 para frações economicamente abastadas daquela metrópole. Essa modalidade recebeu, no ano de 2000, o título de melhor “fitness” de Nova York, e a Mestra Edna já foi motivo de reportagem por duas vezes no New York Times e freqüentemente é vista em jornais e revistas de alcance internacional como a revista francesa Vogue (NUNES, 2001).
24 Essa “modalidade” segue os princípios básicos de uma sessão de ginástica. “Para se ter uma idéia
do sucesso das aulas de Edna, basta dar uma olhada na grade de horários da New York Sports Club, uma das maiores redes de academias americanas (...). A procura é tão grande que o número de sessões oferecidas a cada semana saltou de duas para vinte” (BERGAMO, 2004, p. 58).
33 Esse exemplo evidencia aspectos da ressignificação cultural da capoeira e, embora sejam casos isolados, terminam contribuindo para mobilizar a imaginação dos capoeiras pelo encanto ou desencanto que algumas experiências bem ou mal sucedidas podem exercer. Um outro exemplo que podemos citar se deu com o processo de inserção de um grupo de capoeira na Polônia. Durante algum tempo, um grupo de amigos interessados em conhecer melhor essa manifestação começou a praticá-la a partir de algumas referências conseguidas em fitas de vídeo e na internet. Em 1998, um dos integrantes desse grupo encaminhou mensagem, pela rede, para vários professores de capoeira na Europa, solicitando material e sondando possibilidades de realização de “workshops” na cidade de Varsóvia. Um professor, que estava realizando curso de doutoramento na Universidade de Bristol, Inglaterra, respondeu a algumas mensagens e se colocou à disposição para colaborar com o grupo de interessados, a partir de oficinas que ocorriam mensalmente. Durante alguns meses, os contatos foram se intensificando e decidiram então constituir um grupo de capoeira em Varsóvia. Em síntese, o resultado é que três anos depois, tivemos a oportunidade de participar de um evento desse grupo (08 a 12 de maio de 2003) e pudemos constatar o envolvimento de mais de quatrocentos poloneses de diferentes faixas etárias completamente fascinados pela capoeira. Desde o início dos trabalhos desse grupo, as relações interculturais foram se intensificando, criando novas necessidades e despertando novos interesses por parte dos envolvidos. Tanto é que, nesse intervalo de tempo, cerca de vinte integrantes já aprenderam a língua portuguesa, muitos já realizaram viagens ao Brasil, e o evento do qual participamos, pode ser comparado com os melhores festivais de capoeira realizados no Brasil. Atividades como palestras na Universidade de Varsóvia, batismos, graduações,
34 formaturas, rodas, oficinas e a presença de renomados mestres brasileiros fizeram do mesmo um expressivo festival acadêmico-cultural.
Convém destacar que a materialização desse movimento de inserção da capoeira na Polônia, não se deu a toque de caixa, nem sob a batuta de adequado suporte financeiro. Isto somente se tornou possível em decorrência das inúmeras articulações e deslocamentos de pessoas que efetivamente “se jogam” em aventuras, motivadas por sonhos e esperanças de construção de uma vida melhor e terminam redefinindo e influenciando projetos pessoais e de outrem, contribuindo, com isso, para a construção de outras possibilidades de existência. Nesse caso, em específico, um mestre brasileiro, juntamente com sua esposa, também professora de capoeira, decidiram assumir, há dois anos, a coordenação do referido grupo. Um detalhe é que seus dois filhos, pelo fato de terem aprendido a língua polonesa em curto espaço de tempo, atuam como intérpretes em ocasiões em que é impossível a comunicação através de uma língua comum aos interlocutores.
Essas experiências demonstram que, se num passado remoto, os códigos culturais da capoeira se perpetuavam, singularmente, a partir da tradição oral, que de boca-a-boca consolidava um aprendizado de “oitiva”, em rampas de cais e em praças públicas de algumas cidades portuárias brasileiras, atualmente seus códigos também se perpetuam, massificadamente, através dos chips cibernéticos cada vez mais potentes. Isto vem consolidando um aprendizado “tecnológico” e atingindo instituições e povos de diversas origens, ressignificando, assim, essa teia cultural.
Numa conhecida cantiga, o já falecido Mestre Ezequiel (ex-discípulo de Mestre Bimba) versejava que havia aprendido “capoeira lá na rampa do cais da Bahia”, mas declamava também que: “o gringo filmava, fotografava”, ele pouco ligava, pois não sabia que sua “foto ia sair no jornal, na França, na Rússia e também
35 na Hungria”. Se, antes, eram os filmes e fotos de capoeiras brasileiros que atravessavam o Atlântico e se espalhavam pelo mundo, hoje, são os próprios capoeiras brasileiros de “carne e osso” que se apresentam nos mais diversos países, em espaços que vão desde a rua e estações de metrô, até nobilíssimos salões de espetáculos e universidades.
Esses exemplos servem para ilustrar como os deslocamentos da capoeira, expressa pelos contatos via internet, pelos intercâmbios internacionais e pela ampliação da participação feminina, contribuem para a ressignificação de seus traços culturais. Mas cabe, aqui, uma questão de fundo: como esse processo particular e singular da capoeira, que se verifica na sua internacionalização e no seu trato em espaços formais e não-formais, insere-se e inter-relaciona-se com o movimento mais geral do capital, estabelecendo nexos e contribuindo para a manutenção de sua hegemonia? Trataremos desta questão posteriormente.