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MARIER LA MODERNITE AUX CULTURES LOCALES

Segundo Saussure (2006), o signo linguístico é uma combinação arbitrária entre um material sonoro-gráfico, chamado de significante, e um conceito, chamado de significado. Por isso, “o signo linguístico une não uma coisa e uma palavra, mas sim um conceito a uma imagem acústica. Esta não é o som material, puramente física, mas a impressão (empreinte19) psíquica desse som” (SAUSSURE, 2006, p. 80). Para o autor, a relação entre imagem acústica e conceito forma uma “entidade psíquica de duas faces” (2006, p. 80), não separáveis, que pode ser representada pela seguinte figura:

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Figura 2 – Conceito e imagem acústica

Fonte: Saussure (2006, p. 133)

Sobre essa relação entre o conceito e a imagem acústica, no caso da palavra, ou entre significado e significante, no caso de qualquer material que veicula um significado fora de si, Saussure, em seus estudos datados no século XIX, já evidenciou que a questão da relação entre linguagem e pensamento é indissociável. Afinal, para o autor, um signo só existe quando um material verbal carrega significado. Significado esse atribuído a um conceito que, por sua vez, é o próprio ato de pensar simbolicamente (SAUSSURE, 2006; VIGOTSKI, 2009). Assim, para Saussure (2006), mais do que a mera expressão do pensamento, “o papel característico da língua frente ao pensamento não é criar um meio fônico material para a expressão das idéias, mas servir de intermediário entre o pensamento e o som” (p. 131). Para ilustrar a interdependência entre o pensamento e o som na formação de um signo, o autor constrói a seguinte metáfora:

A língua é também comparável a uma folha de papel: o pensamento é o anverso e o som o verso; não se pode cortar um sem cortar outro; assim tampouco, na língua, se poderia isolar o som do pensamento, ou o pensamento do som; só se chegaria a isso por uma abstração (SAUSSURE, 2006, p. 131).

Similar à concepção de Saussure (2006) sobre a palavra, Vigotski (2009) afirma que “sem significado a palavra não é uma palavra mas som vazio. Privado do significado, ela já não pertence ao reino da linguagem” (p. 10). Para Vigotski (2009), o significado é justamente a generalização da realidade, um conceito e, assim como para Saussure (2006), a palavra somente como som não passa de um mero complexo fônico que já não pertence mais ao reino da linguagem.

Para compreender o papel da interação, já que todo signo linguístico é, em algum grau, arbitrário e, por isso, originado da interação, Bakhtin/Volochínov (2009) esclarecem que a palavra possui duas facetas. Uma de caráter mais individual, pelo fato de que é produzida por um indivíduo, e, ao mesmo tempo, uma faceta que é social, pois a palavra, no uso real e

concreto, é sempre dirigida a alguém, ou seja, um “produto da interação do locutor e do

ouvinte” (p. 117 – grifos do autor).

Diante desse papel da interação, a produção de um enunciado, diferentemente do esquema tradicional, no qual temos o ouvinte passivo que só recebe a informação do falante e a codifica, na visão de Bakhtin e/ou Volochívov (2009; 2011; 2013) o outro possui um papel ativo já na construção enunciativa do falante, pois é o auditório social com qual o locutor entra em interação que determina sua enunciação (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2009). Desse processo ativo do outro, resulta que o falante seleciona cada elemento de sua fala de acordo com seu interlocutor, isto é, de acordo com seu auditório social (BAKHTIN, 2011).

Para darmos conta das propriedades essencialmente sociais da palavra, é preciso, em nossa perspectiva, compreender o que é enunciado do ponto de vista bakhtiniano20. Assim como o termo paráfrase, o termo enunciado também é amplamente empregado, fato que esconde, frequentemente, sua complexidade.

Para Bakhtin (2011), o enunciado é a “real unidade da comunicação discursiva” (p. 269 - grifos do autor). Diferentemente de algumas correntes linguísticas que tinham ou têm a palavra, ou até mesmo a oração, como unidade, Bakhtin (2011) enxerga no enunciado a totalidade das propriedades da linguagem. Afinal, sua concepção de enunciado engloba além da dimensão verbal, a extraverbal. Por isso, ao tomarmos o enunciado como unidade da comunicação verbal, “estamos interessados primordialmente nas formas concretas dos textos e nas condições concretas da vida dos textos, na sua inter-relação e interação” (BAKHTIN, 2011, p. 319). Interações essas que formam o “chão real” que alimenta a enunciação e constrói seu sentido (VOLOCHÍNOV, 2013).

De acordo com Bakhtin (2011), cada esfera de atividade humana “elabora seus tipos

relativamente estáveis de enunciados” (BAKHTIN, 2011, p. 263 – grifos do autor) que

formam os gêneros do discurso. Assim, conforme são diversas e complexas as esferas de atividade humana, também serão diversos e complexos os tipos relativamente estáveis de enunciados (BAKHTIN, 2011).

Os enunciados são relativamente estáveis, ou seja, não são estanques e imutáveis, nem uma produção aleatória ou caótica. Essa relatividade resulta das facetas individual e social do enunciado. Nesse sentido, o enunciado é individual, já que “pode também refletir a

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Quando utilizamos a palavra “bakthiniano”, o fazemos porque os estudiosos brasileiros que se ocupam dos estudos do Círculo de Bakhtin o fazem, mas tanto o livro intitulado “Marxismo e filosofia da linguagem”, quanto o capítulo intitulado gêneros do discurso, publicado no Brasil na coletânea intitulada “Estética da criação verbal”, segundo alguns pesquisadores como Faraco (2013), Sobral e Giacomelli (2016), Grillo (2017) etc. possuem evidências de que são, na verdade, de autoria de Volochínov.

individualidade do falante ou de quem escreve, isto é, pode ter estilo individual” (BAKHTIN, 2011, p. 265), gerando, a partir disso, certa e necessária flexibilidade em seu emprego (LIMA, 2010b; ARIATI E LIMA, 2018). Porém, ao mesmo tempo, o enunciado é essencialmente social, pois quando falamos “não vamos de uma palavra a outra” (BAKHTIN, 2011, p. 292), selecionando-as do sistema abstrato da língua, o que selecionamos são enunciados previamente dados pela esfera de atividade humana na qual estamos inseridos quando produzimos determinada fala. Fazemos isso, pois já existem “formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo” (BAKHTIN, 2011, p. 282 – grifos do autor) disponíveis para atender determinadas demandas comunicativas e interacionais. Isso significa que em um simples “bom dia” não escolhemos no sistema lexical o “bom” e depois o combinamos com uma nova escolha “dia”, mas selecionamos o todo; “bom dia” de nosso “estoque” de enunciados adquiridos na interação em uma dada esfera da atividade humana.

Já na faceta individual do enunciado está a flexibilidade, que, mesmo em um simples “bom dia” se faz presente desde a escolha deste em detrimento de outros da mesma esfera, como, por exemplo, “olá”. A individualidade também se faz presente na entonação empregada no enunciado escolhido e em outras propriedades que constroem o sentido. Afinal, o sentido nunca é repetido, está sempre na esfera da criação (BAKHITN/VOLOCHÍNOV, 2009), ou melhor, da recriação.

Se o enunciado é a unidade da comunicação verbal, o que define os limites dessa unidade, segundo Bakhtin (2011), é a conclusibilidade, ou seja, “a possibilidade de responder

a ele” (p. 280 – grifos do autor). Nessa perspectiva, a resposta ao enunciado não

necessariamente ocorre em voz alta, mas significa compreender e tomar posição valorativa em relação a esse enunciado, silenciosamente ou produzindo materialmente outro enunciado. Aqui o termo resposta é entendido como réplica que não necessariamente ocorre sob forma de resposta imediata verbalizada, mas como ato responsivo que cedo ou tarde aparece como resposta nos discursos ou no comportamento subsequente do ouvinte. Afinal, “toda compreensão é prenhe de respostas” (BAKHTIN, 2016, p. 25).

Essa resposta acima pontuada sempre se origina de um posicionamento do sujeito em relação ao objeto de seu discurso. Com isso, sempre há um horizonte “emocionalmente valorativo” (BAKHTIN, 2011, p. 290) seja concordando, discordando e validando positivamente ou negativamente. A resposta então envolve tanto a compreensão como a valoração. Esses dois elementos, compreensão e valoração, apresentam-se como partes de um único movimento, denominado “responsividade” (BAKHTIN, 2011, p. 328 – grifo do autor). Segundo Sobral (2009), para o Círculo de Bakhtin, a responsividade “não é mera recepção

passiva, mas justamente uma forma avaliativa ativa de recepção pelo interlocutor, uma avaliação que é presumida pelo locutor antes de este falar” (p. 87)

Essa valoração do enunciado é o terceiro elemento da formação de seu sentido (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2009). Além desse, há o significado e o tema que já foram expostos nesta fundamentação. Nas palavras do autor: “toda palavra usada na fala real possui não apenas tema e significação no sentido objetivo, de conteúdo, desses termos, mas também um acento de valor ou apreciativo” (p. 137 - grifos do autor).

Para compreendermos como o posicionamento valorativo está intrinsecamente ligado ao dialogismo(propriedade fundamental da linguagem segundo a teoria bakhtiniana) nos atemos agora ao que Bakhtin (2011) denomina de tríade viva da enunciação.

Segundo essa tríade, quando o sujeito enuncia, ele possui o objeto de seu enunciado, do qual ele falará sobre, e, ao mesmo tempo, o “outro”. Assim, quando enunciamos, há um tríade na qual “o enunciado está voltado não só para o objeto mas também para os discursos do outro sobre ele” (BAKHTIN, 2011, p. 300) acerca desse objeto. O que o autor denomina de tríade viva, ilustra-se abaixo21:

Figura 2 - Tríade viva do enunciado

A figura acima representa a realização de qualquer enunciado, pois quando um “eu” produz um enunciado sobre algo, esse “eu” se posiciona em relação ao objeto e também em relação às posições de outros sobre o mesmo objeto. Afinal, é “impossível alguém definir sua posição sem correlacioná-la a outras posições” (BAKHTIN, 2011, p. 297).

Esse triângulo, ou tríade, não expõe fases estanques, mas um todo complexo que é separado em fases para fins didáticos. Para Bakhtin (2011), “a relação com os enunciados dos outros não pode ser separada da relação com o objeto [...]. Trata-se de uma tríade viva” (p. 329). Essas relações entre enunciados são inevitáveis, pois seja qual for objeto do qual trata o

21 Tal ilustração é apenas uma reprodução, pois, originalmente, ela foi construída pelo Professor Dr. Anselmo Lima em uma disciplina, intitulada Atividade e Desenvolvimento Humano, a qual cursei como aluna externa,

lecionada no PPGDR - Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional, na UTFPR, Câmpus Pato Branco.

enunciado, ele já foi objeto de outros enunciados e sobre ele já há posições e valorações de outros, ou seja, o “falante não é um Adão bíblico, só relacionado com objetos virgens ainda não nomeados” (BAKHTIN, 2011, p. 300).

É nessa relação com o outro que surge o que os autores do Círculo de Bakhtin denominam de dialogismo, que, segundo eles, é a propriedade central da linguagem. O dialogismo “diz respeito às relações que se estabelecem entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos” (BRAIT, 2005, p. 95). Essas relações entre o eu e o outro, que ocorrem por meio de enunciados concretos, surgem no momento em que um sujeito se posiciona responsivamente e interfere “no fluxo da cadeia comunicativa discursiva não apenas respondendo, mas também convocando respostas de outrem” (BRAIT; MAGALHÃES, 2014, p. 14).

O duplo direcionamento do enunciado, tanto em resposta aos enunciados precedentes quanto na antecipação de enunciados futuros, é chamado de dialogismo. Esse termo trata-se de uma ampliação do termo diálogo, já que no dialogismo há um diálogo que extrapola o cronotopo do falante e do destinatário, assim esse “eu” e esse “outro” não precisam, necessariamente, estar no mesmo tempo e espaço (BRAIT e MAGALHÃES, 2014). Por isso, as relações dialógicas são tão amplas que “dois enunciados alheios confrontados, que não se conhecem e toquem levemente o mesmo tema (ideia), entram inevitavelmente em relações dialógicas entre si” (BAKHTIN, 2011, p. 320).

A influência do outro, via dialogismo, pode ser observada nos elementos composicionais do enunciado, já que “a escolha de todos os recursos linguísticos é feita pelo falante sob maior ou menor influência do destinatário e de sua resposta antecipada” (BAKHTIN, 2011, p. 306). Dessa forma, tendo como exemplo a situação estudada na presente pesquisa, se tomarmos a autoparáfrase como fenômeno de reformulação, ela é, em grande parte, esse processo de escolha de recursos linguísticos sob influência tanto de seus destinatários presentes, no caso pesquisadores e do outro colega de profissão (em situação de autoconfrontação), quanto daqueles em diferentes cronotopos, como seus colegas de departamento ou o coletivo profissional de professores, ou, ainda, de qualquer indivíduo que enuncia sobre o mesmo objeto, a docência.

Segundo Bakhtin (2011), há três elementos que dão inteireza ao enunciado, e, por isso, garantem sua conclusibilidade já citada nesta pesquisa. São eles: “1) exauribilidade do objeto e do sentido; 2) projeto de discurso ou vontade de discurso do falante; 3) formas típicas composicionais e de gênero do acabamento” (p. 281).

A exauribilidade está ligada ao esgotamento de sentido. “Na realidade, o objeto é inesgotável, porém, quando se converte em tema do enunciado – de um artigo, de uma tese, por exemplo –, adquire caráter de concluído, de acabamento relativo” (RODRIGUES, 2001, p. 37). Esse relativo acabamento pode ter diferentes graus. Maior, quando, por exemplo, um indivíduo responde a um superior no campo militar. Menor, quando trata-se do campo científico, no qual não é possível esgotar as possibilidades de produção de enunciados sobre um objeto, dada a contínua evolução da ciência (BAKHTIN, 2011). Nesse último caso, Bakhtin (2011) chama de “um mínimo de acabamento, que permite ocupar uma posição responsiva” (p. 281).

Já o projeto de discurso, ou vontade discursiva, é o que determina “o todo do enunciado, o seu volume e as suas fronteiras. Imaginamos o que o falante quer dizer, e com essa ideia verbalizada, essa vontade verbalizada (como a entendemos), é que medimos a conclusibilidade do enunciado” (BAKHTIN, 2011, p. 281). Esse todo é o espaço no qual o falante intenciona e materializa o que quer dizer. Por exemplo, uma placa de trânsito em que está escrito “pare” em um cruzamento de via, possui a intenção de ordenar ao motorista que pare seu veículo, indicando que ele não possui a preferência naquele seguimento de estrada. Essa placa poderia conter mais elementos linguísticos para expressão da mesma intenção de comunicação. No entanto, devido ao propósito de tal alerta, que deve ser claro, breve e conciso, seu projeto discurso deve ser breve.

Utilizando o mesmo exemplo acima, também é possível compreender o terceiro e último item que compõe os elementos do enunciado: a forma típica composicional. A placa “pare” não é única. Em termos gerais, há um gênero de placas. Isso significa que as placas são compostas por enunciados relativamente estáveis nos quais os elementos são concisos justamente para que o destinatário tenha uma informação breve e precisa sobre algo em um curto espaço e tempo. Dessa forma, a intenção discursiva determina a forma típica composicional, e, por consequência, a conclusibilidade do enunciado (BAKTHIN, 2011).

Compreender os elementos que compõem o relativo limite do enunciado, além de nos proporcionar informações sobre a questão responsiva, também nos auxilia a realizarmos os recortes utilizados para as análises. Afinal, seria impossível tratar da autoconfrontação como um só enunciado, dada sua extensão e complexidade.

Como exposto, a inteireza do enunciado se dá, em parte, pela vontade discursiva ou projeto de discurso (BAKHTIN, 2011). Esse elemento, segundo Lima (2010), converge com o conceito de pensamento em Vigotski (2009), pois está ligado à questão afetiva-volitiva que, por sua vez, está ligada à realização do pensamento. Para visualizar tal convergência de

conceitos, vontade discursiva, de um lado, e o fundo afetivo-volitivo do pensamento, de outro, trataremos, no próximo subitem, da instância do pensamento e, juntamente a ele, sua dimensão afetiva-volitiva.